quarta-feira, 30 de agosto de 2017

A APOLOGIA DO NÃO

Olhar para trás é a mais imbecil ou sórdida profissão de conformismo que já ouvi. Não devemos fazê-lo e ver que há gente em piores condições do que nós para nos conformarmos com a própria situação. O que nos cabe é voltar sempre o olhar para adiante, buscando sem descanso uma situação melhor do que aquela em que nos encontramos. As pregações de aceitação das mazelas vividas e experimentadas a partir da consciência de que há pessoas vivendo dentro de uma realidade pior do que a nossa é sofisma cínico dos donos do poder e senhores da maior parte das riquezas de um país. Ao invés de olhar para trás, devemos reivindicar, exigir o que é nosso de direito, através de uma melhor distribuição de riquezas e de oportunidades, ainda que tenhamos de lançar mão de greves, boicotes, da não-colaboração e do NÃO. O NÃO deve estar sempre postado na ponta da língua, pronto para entrar em ação a qualquer momento.
Não deixem que os religiosos mintam: a pobreza não é um desígnio de Deus, mas fruto de uma distribuição perversa e injusta de renda. Não haverá compensação no juízo final ou em outra vida: tudo tem de ser conquistado agora, neste mundo, nesta vida, sobretudo porque não há quem possa afirmar a existência de outra vida além desta. A luta, por isto, é hoje, enquanto se vive e  se tem como lutar. Não estou professando a violência, a luta armada nem a guerra, mas defendo, sim, o NÃO! O não-colaborar, o não-concordar, o não-aceitar e os gritos de insatisfação para a manifestação de nossa vontade , de nossos anseios e nossas exigências.
Quem olha para trás se resigna diante da própria desgraça e infortúnio, e isto leva ao imobilismo. Saber que o outro sente mais dor não aplaca a dor que sentimos, porque o alento não pode nos vir da desgraça alheia. Um homem sem as duas pernas não atenua em nada as dificuldades daquele que conta  com apenas uma.  Quem tem brios e dignidade olha para a frente, reivindica o direito de não se inserir num regime rígido de castas, se pergunta e aos seus exploradores por que está numa condição deplorável se comparado aos que injustamente se tornaram donos da parcela fartamente maior dos recursos de uma nação.
Não se contente com o lugar-comum de que “feliz é aquele que tem um emprego”, porque é uma pérfida mentira! Trabalho sem remuneração digna é infelicidade quase do tamanho do desemprego. Quem ganha pouco também perde seus filhos por falta de remédios, nas filas dos hospitais, nas epidemias decorrentes da falta de saneamento e de infraestrutura. Todo salário deve atender às necessidades do trabalhador e sua família, pois o que está fora deste padrão é custeio para manutenção unicamente da vida de um escravo.
O conformismo ante a pobreza é o pior dos pecados, e o castigo vem no momento em que o primeiro(o conformismo) se dá, através das carências e das privações, da falta de perspectivas, da ausência de horizontes. E não vai ser um cara de terno e gravata, de uma condição social de abastança que vai lutar por aquilo de que você carece: é você mesmo que tem de exigir e ir à luta.


Nenhum comentário:

Postar um comentário