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domingo, 18 de janeiro de 2026

O PERFIL ACEITÁVEL (E ELOGIÁVEL) DO HUMOR

     


    Quando, entre 1976 e 1977,  o comediante Silvino Neto ( 1913 - 1991), ator, cantor, compositor e radialista brasileiro, pai do comediante Paulo Silvino (1939-2017), entrevistado pelo comunicador Jota Silvestre (1922-2000), foi indagado  sobre qual seria o caminho do humor no Brasil, respondeu "a sátira", fundamentando a resposta e concluindo que, "fora dela, não se estaria fazendo graça pra ninguém".






Imbuído de um senso crítico quase perverso desde a minha adolescência e tendo passado pela assistência de "Os Trapalhões" e outras comédias-pastelão das décadas de 1960 e 1970, mas tendo também visto "Faça Humor, Não Faça a Guerra" e "Satiricom" (homônimo-título da obra de Petrônio, da Antiga Roma) que era escrito por Max Nunes e Haroldo Barbosa, e reunia no elenco Jô Soares, Agildo Ribeiro, Renato Corte Real, José Vasconcellos, Paulo Silvino e outros grandes nomes da comédia nacional -- concordei plenamente com Silvino.  Depois viria a assistir a "O Planeta dos Homens",  uma crítica ácida ao sistema, a partir de uma paródia extremamente feliz de "O Planeta dos Macacos", e isso consolidou meu pensamento de que o humor não-crítico não diz mesmo nada a ninguém.  A comédia de tombos de bunda  e tortas de glacê na cara, das situações desconfortáveis e dos corre-corres vem do início do cinema, ao final do século XIX, passou por Charles Chaplin e seguiu pelas décadas, perdendo a graça, a meu ver, ainda nos anos 70, por puro desgaste do tempo e cansaço dos olhos do público um pouco menos condescendente.



    O humor precisa ser engajado, analítico, crítico e, quando da sua elaboração, voltado às situações e circunstâncias atuais e vigentes.  Tem de passar longe do bom-mocismo e ser irreverente, acintoso, capaz de desancar e atirar no ridículo personagens, fatos, clichês e estados de coisas de sua época.  Tem de denunciar, criticar, insinuar, desacreditar, abrir os olhos de quem o lê ou vê, ou então no mínimo mostrar sua comunhão de ideias com este.

   Algumas vezes escrevi humor sem nenhuma segunda-intenção, mas foram apenas  algumas experiências para ver como seria meu texto fora do sarcasmo e da ironia, mas insisto, como Silvino Neto, em que não é esse o caminho do humorismo, pois, do contrário, como o próprio disse, "não se faz graça pra ninguém". 



    Não  é obrigatório que a sátira seja necessariamente política ou social, porque, no tempo de "Satiricom" e "Planeta dos Homens", estávamos em plena ditadura militar, o que não proporcionava aos autores e atores uma grande liberdade para cutucar assuntos mais polêmicos e de relação direta ou indireta com os desmandos do regime.  Assim, a temática objeto de sátira do programa foi na primeira versão a comunicação de massas, depois o comportamento humano e outros componentes que não levariam os militares a sentirem-se afrontados e a tirar a comédia do ar.  Muito embora houvesse vez por outra anedotas sutis que tocavam no que esses não queriam, tendo algumas sido vetadas, outras, simplesmente veiculadas por não abalarem as fundações do sistema.
"Feijão Maravilha", novela de Bráulio Pedroso, ainda do tempo da ditadura, satirizou os filmes de gangsters, "Que Rei sou EU(?)" parodiou os bastidores e a gestão do governo Sarney (já na democracia), travestindo-o de uma monarquia absolutista com muita corrupção e sem nenhum rumo ou habilidade ou competência para governar.





    Algumas vezes escrevi humor sem nenhuma segunda-intenção, mas foram apenas  algumas experiências para ver como seria meu texto fora do sarcasmo e da ironia, mas insisto, como Silvino Neto, em que não é esse o caminho do humorismo, pois, do contrário, como o próprio disse, "não se faz graça pra ninguém". 


Fotos: Google

quarta-feira, 7 de janeiro de 2026

MARA, A RAINHA DA PRAIA

 Dança Mara

A mais viva dentre as danças,

Sua, brilha

Sua pele apessegada,

Seu rostinho,

Suas pernas torneadas.

Já mostrou que a vida é dança

E reluz como os luares,

Tanto quanto espelhos d'água

Da cidade onde ela mora.


Entra n'água,

Baila assim como sereia,

Vem à tona

E sorri seu riso franco,

Ergue o corpo

E caminha entre as areias,

Eu lhe vejo os olhos claros

Tão pejados de poema,

Seus cabelos encharcados

Sobre os ombros cor de bronze.

Pula, roda, volta à dança,

Porque pulsa como a vida,

Pois clareia a praia inteira

E é assim como o verão.


domingo, 4 de janeiro de 2026

OS HUMANOS E O FILHO DEUS

 Ó, humanos vis, mantende o deus

Que vós criastes, que essa torpeza, que essa maldade

Que carregais

Em vossas almas

Tanto demanda

Pra vos sentirdes

Menos mesquinhos,

Pra que as barbáries

Que praticais, humanos, tenham

Sempre perdão 

--Se a hipocrisia

De vossa índole,

Ao vos fingir-vos arrependidos,

Será clemente,

Pois vós ao fim

Que na verdade

Vos julgareis.

Mantende vivo, mas muito vivo

O deus parido

Da natureza tão mentirosa

Que cultivais.

Um deus vos dá essa certeza

Tão descabida

De serdes entre

As criaturas

As mais perfeitas,

As prediletas, 

Mais importantes

E, assim, sagradas.



Não 

Abandoneis

Jamais a fé,

Se o deus que criastes à vossa semelhança

É pra punir cruelmente vossos desafetos

E perdoar vossos pecados hediondos.

Deus ainda vos dá o grande privilégio

De poderdes exercer vossa preguiça

E entregar em suas mãos a concretização dos   mil desejos que alimentais.

Ah, humanos vis, como eu odeio

Ser, salvo quanto às crenças que nutris

--que necessito e não alcanço --

vil, pequeno como vós!


SE EU PUDESSE CRER

 Se eu cresse numa existência após a morte,

Veria essa tal vida como tão somente o [sobreviver da consciência à sucumbência                         [da matéria,

Sem que nenhum outro corpo essa citada  consciência viesse um dia a habitar 

Ou, resignado, contaria com longos anos em zonas umbralinas

Para, após purgados os pecados, ascender a um plano espiritual mais elevado?

E nesse patamar iria preferir permanecer eternamente ou quereria retornar à [terra para me redimir dos malfeitos cometidos?

Mas e as pessoas que odeio mortalmente e [com repulsa, e aquelas que desprezo com [ausência total do mais pífio interesse ou emoção?

Como conseguiria eu aceitar o compulsório contato ou o convívio com essas      [novamente?

Se o Universo, dadivoso, reservasse a todos nós a vida eterna, 

Os nossos mortos, humanos e animais, não teríamos talvez motivo algum para [chorar,

Justamente por serem eles infindos como nós.

Se o reencontro seria magnífico tal como o paraíso que a alma sempre almeja e [sempre anseia.

Seria infinitamente bom se nisso eu cresse,

Mas o espiritualista que tentei com grande esforço em mim criar

Sucumbiu infelizmente à falta de respostas e às lacunas que as religiões e filosofias não conseguiram preencher,

E, então, fiquei tão cru, descrente, triste e [inconformado com meu fim, que é [uma certeza,

E com a ausência definitiva das pessoas e bichinhos que eu amei.

sexta-feira, 2 de janeiro de 2026

PARTIR II

  Só quero ir embora

Daqui da cidade:

Do lugar eu não tenho

O menor fragmento

E nela não vejo

Nadinha de mim.


Saí pelas ruas,

Bebi pelos bares,

Andei pelas vias:

Não vi poesia,

Não vi os campos belos

De Minas Gerais.


Até a mineirinha, 

Que agora mal vejo,

Não mais brilha ou dança

Nem tenho na cama,

Assim como eu,

Bem vi, envelheceu.


Só quero partir

Sem por um segundo

Olhar para trás

E de outra cidade

Sentir-me um pedaço,

Sentindo-a  em mim.


VELHICE

 O que me espera à frente,

Uns anos adiante,

Senão tentar debalde

Fugir das minhas trevas

Por labirintos negros,

Entre as assombrações?



Não nascerão auroras

Nem mesmo as esperanças,

Não ouvirei orquestras,

Será tudo sombrio,

Não haverá mais sambas,

Tampouco carnavais.



Temer o inevitável,

Ter salvação na morte,

Que é qual morar no nada,

Qual existir no nunca,

Que é tão absoluta,

Que é o fim de tudo, o fim(!).

sexta-feira, 26 de dezembro de 2025

OS POBRES DE DIREITA E OS POLÍTICOS DE CENTRO


A mídia divulgou ontem, 25.12.2025, a pesquisa da "Tarcísio-Quaest",  ops(!), desculpe(!), "Quaest", que aponta que, apesar de 40% dos entrevistados se declararem petistas, 35% bateram continência, perfilaram-se, bateram no peito e se disseram da direitaça, enquanto 11% aprumaram-se, olharam para o horizonte e responderam, orgulhosos, ser de centro-direita.  Somando-se as duas parcelas conservadoras, são 46% de direitistas; teria a pesquisa sido toda feita na Faria Lima? Oh, povo nobre, valoroso, heroico, que, embora pobre, tem orgulho de ser o que é e, mais que isso, abnegado e elevado,  defende com o próprio sacrifício as elites e os patrões!  Vamos chorar, gente!

Como não bastasse o levantamento apresentar tantos direitistas, 17% fizeram um ar altaneiro e definiram-se como de centro(!), de centro(!), nem de direita, nem de esquerda!  Altos, grandiosos, acima das divergências ideológicas entre os homens.  Nem de direita, nem de esquerda, mas de centro.  Mas... o que é centro? Fico aqui matutando, matutando... Bem, conheço centros de umbanda, candomblé, quimbanda.  Imaginei uma fila de congressistas se organizando pra serem benzidos por um exu, um preto-velho, um caboclo, o Davi Alcolumbre no meio da fila com aquele corpanzil,  tornando difícil a quem estivesse atrás  dele enxergar o tamanho da fila,  O Hugo Motta tomando banho de erva-doce com açúcar pra tentar fazer as pessoas gostarem mais dele. E se baixa subitamente uma pomba-gira no Alcolumbre, e alguém é obrigado a lhe enfiar um vestido longo vermelho, e o senador põe os punhos na cintura e fica a rebolar uma só das ancas, dando gargalhadas e esticando a cabeça pra trás?

   Sei também  que existem centros comerciais, centro da questão, centros de tratamento de saúde, mas que diabo seria um político de centro?  Ah, já sei! Devem ser parlamentares que trabalham ou frequentam esses centros de matriz africana.  Mas, peraí, como é que tanta gente do "Centrão" vai ser de centro, se uma grande parte deles se autodenomina evangélica?!  Fiquei confuso, porque o que poderia ser um deputado ou senador de centro?  Contrário ou favorável ao fim da escala 6 x 1 ?  Sugeriria ele uma escala 5 e meio por 1 e meio?  E quanto ao direito de greve  e de manifestações reivindicatórias dos trabalhadores?  Votaria pelo direito de meia greve em meio expediente de trabalho, mas fazendo manifestações mudas e silenciosas?  E quanto à necessidade de melhor distribuição de renda, menor desigualdade?  Acharia que 1 real de aumento salarial pra todos os que trabalham e são aposentados resolveria essa questão e tornaria a sociedade mais justa?  O centrista tornaria até complicado responder se ele é conservador ou progressista:  uma coisa nem outra, imagina só!  Vota no Lula ou no Tarcísio?  Nos dois não pode, e agora?  Em dia de eleição, então, é provável (e desejável) que nem compareça à seção eleitoral.  Melhor do que isso, porém, é que ele nunca, jamais se candidate.




sábado, 20 de dezembro de 2025

NAS ANDANÇAS DO PODER -- OITAVA PARTE: "O ACORDÃO"

    É do conhecimento de todos a conspiração de golpe de Estado que culminou com a quebradeira de 8 de janeiro de 2023, daí não necessitar eu fazer um trabalho jornalístico com a narração pormenorizada dos fatos que deram origem à invasão dos prédios dos Três Poderes e posteriormente à autuação, indiciamento e condenação dos envolvidos, sobretudo os líderes,  nos episódios.

A fatia democrática da população  brasileira acompanhou com grande alento e júbilo o julgamento dos réus, a firmeza de Alexandre de Moraes, Carmen Lúcia, Flávio Dino e Cristiano Zanin, ministros do Supremo Tribunal Federal, em condenar todos os responsáveis pelos atos praticados.

O processo golpista, entretanto, não teve fim com as prisões, e Bolsonaro clamou por anistia, causa abraçada e acolhida com todo o zelo (e toda a tara) pela extrema-direita e por parte (depois totalidade)   dos direitistas fisiológicos do famigerado (e mal nomeado) "Centrão".  A tese todavia foi vista pelos juristas como inconstitucional, e isso fez que os golpistas passassem a defender outro instrumento: a dosimetria ou, melhor, a redução de penas.  Hugo Motta, presidente da Câmara dos Deputados, nomeou Paulinho da Força Sindical, ex-sindicalista pelego, relator do projeto de lei, que contou com o apoio de figuras absolutamente rejeitáveis como Aécio Neves e o ex-presidente Michel Temer, que, com minha repetição à expressão do analista da "Revista Forum", Plínio Teodoro, saiu de "lá das catacumbas" para se imiscuir na política nacional como se fosse um líder respeitado e de grande expressão.

Após inúmeros debates e comentários na mídia, Hugo Motta assegurou que não pautaria o infame projeto e, subitamente, colocou-o em votação, sem dar tempo aos parlamentares progressistas para articularem-se contra aquela infâmia.  O maior problema foi que o presidente do Senado, Davi Alcolumbre, havia-se de maneira inexplicável e repentina insurgido contra o governo e o STF, e tentou aprovar o texto no mesmo dia, não o fazendo porque o senador Otto Alencar, do PSD, exigiu que a Comissão de Constituição e Justiça analisasse a matéria e se propôs a rejeitá-la com o apoio de Alessandro Vieira, do Partido Novo, que prometeu fazer um voto em separado para dinamitar a proposta.  

Nesse ínterim, o PT e sua militância mobilizaram-se nas redes sociais, pediram o apoio de artistas legalistas e democráticos, que assim como o partido chamou o povo a comparecer a atos de protesto contra a maldita dosimetria, o que gerou um domingo de dezembro (14/12/2025) de comovente festa cívica, em que mais de dezoito mil pessoas reuniram-se no Rio de Janeiro, em frente à orla de Copacabana, mais de treze mil concentraram-se em São Paulo, em frente ao MASP, além de outros atos públicos terem-se dado nas capitais e grandes cidades do Brasil.  As manifestações tiveram a participação de Chico Buarque, Caetano Veloso, Fafá de Belém, Gilberto Gil, Djavan, Daniela Mercury e vários outros artistas compromissados com a democracia.  Todos tínhamos a expectativa de que o Senado acovardar-se-ia e não teria coragem de votar a favor do projeto.

Mas estávamos, nós, os democratas e antifascistas, rotundamente enganados, porque Alessandro Vieira não fez voto em separado coisa nenhuma, disse como forma de denúncia que o texto que seria  votado era "o texto de Alexandre de Moraes", porque, segundo ele, havia acontecido inúmeras conversas de senadores com Alexandre e outros ministros da Corte, e o próprio Alessandro, que mostrara-se tão indignado, votou a favor do tal texto a que tanto se opusera.  O mais surpreendente, entretanto, o que mais estarreceu os cidadãos de boa-fé do Brasil foi que o próprio partido do governo, o PT -- suspeita-se que por orientação do líder Jacques Wagner e plena anuência do Lula --, ausentou-se em sua maioria da sessão da CCJ, permitindo que a proposta fosse a plenário e aprovada por maioria esmagadora.

O governo e o PT fizeram os manifestantes,  os artistas e os cidadãos  de palhaços, e acabaram na prática por auxiliar a ultradireita a aprovar aquela aberração, que reduziu a pena em regime fechado de Bolsonaro para menos da metade, de seis para dois anos, e dias depois Plínio Teodoro viria a confirmar a versão de Alessandro Vieira de que se tratava de um acordão com a participação de Michel Temer e Alexandre de Moraes.  Luiz Costa Pinto, do "ICL" (Instituto Conhecimento Liberta), também declarou que, assim como Alexandre de Moraes, Dias Toffoli e Gilmar Mendes teriam participado do conchavo.

Assim o governo Lula e o PT, o próprio STF e os políticos fascistas e oportunistas tornaram pó aquele julgamento que seria um marco na história do Brasil -- por emitir uma mensagem explícita de que doravante nenhuma tentativa de golpe de Estado ficaria impune -- e permitiram que o país voltasse a ser atrativo e convidativo para usurpações de poder e estupros à democracia.

sábado, 13 de dezembro de 2025

NAS ANDANÇAS DO PODER - SÉTIMA PARTE: "O BANQUEIRO"


Os três senadores ficaram horas mortas na sala de espera, entretendo-se em olhar a figura bonita  da secretária a trabalhar na mesa defronte a eles.  Eram três parlamentares renomados e de expressiva liderança sobre os seus pares do Senado: Edvaldo Gotardo, Abdias Teixeira e Samuel Azevedo.   Sempre dando entrevistas e tendo ampla cobertura da mídia mesmo nos seus pleitos mais sórdidos, o que é, logicamente, fruto de uma moral nacional de valores absolutamente invertidos.  Poder-se-ia chamá-los líderes do país, com um poder de fogo maior do que os dois outros poderes, executivo e judiciário, juntos.  Nada era aprovado sem a prevalência da vontade dos três e dos presidentes da Câmara dos Deputados e da Casa Alta.  Poder de mando à parte, estavam ali numa sala de espera há mais de uma hora, aguardando Sílvio Müller, o financista, recebê-los.  Mais pareciam crianças na secretaria de uma escola a esperar a diretora passar-lhes um pito por conta de algum malfeito.  E na verdade havia mesmo um pecado do qual se deveriam redimir:  a aprovação do  imposto em desfavor dos super-ricos para custear a isenção do imposto de renda em prol dos que ganhavam até cinco mil reais.  Era a certeza de um grande pito, e os três se entreolhavam entre entediados e constrangidos.

Quando enfim o magnata permitiu-lhes a entrada, encontraram três cadeiras colocadas diante da imensa mesa de estadista do banqueiro, que apenas fez um gesto de cabeça frio em resposta aos  cumprimentos dos três, apertando a seguir a mão de cada um com frouxidão e secura.  Estava extremamente agastado.

Dispensou protocolos e atitudes bem-educadas e começou a atacá-los com com a voz em tom baixo e ríspido, e as duas mãos espalmadas na mesa:

--Que cagada foi aquela de vocês deixarem passar aquela porra no Senado?

--Sílvio -- justificou-os Samuel -- não pudemos fazer nada. Você soube que houve manifestações de rua, ficaram expondo cartazes com "Congresso inimigo do pobre" e outras apoteoses.

--Foda-se manifestação popular!  Povo é só massa de manobra, e vocês deviam ter sabido manobrá-lo com competência.

--Mas tentamos -- replicou Abdias -- O problema é que tinha artista no meio...

--Mas todo o movimento era contra vocês quererem aprovar a PEC da blindagem numa hora inoportuna.  Aquilo foi uma idiotice! --insistiu Müller em sua expressão raivosa desenhada no rosto de um homem que iria por seus sessenta de idade.

--Mas os trabalhadores aproveitaram o ensejo pra nos atacar por conta de a gente ter tentado barrar justamente o imposto contra os de melhor situação financeira...

--Dava um jeito!  soltava os cachorros contra aquela escória! Botava políca na rua pra enfiar a porrada...!

--Como, Dr. Sílvio? -- encolheu os ombros Edvaldo, acovardado -- Como depois do 8 de janeiro?   A sociedade não vai se esquecer disso tão cedo.

--Mas podiam -- esmurrou a mesa o banqueiro -- porque há pelo menos trinta por cento de apoiadores da direita mais severa no meio  da população, enquanto outros mais de trinta e cinco por cento não tão nem aí pra nada, só querem ver seu time  jogar, tomar sua cachaça e ver sua novela.  Os evangélicos, por exemplo, não apoiariam nenhuma pauta reivindicatória.  A felicidade pra eles tá "garantida" pro pós-morte, portanto não prestariam nenhum apoio.

--Mas não dava pra segurar a determinação daquela multidão -- choramingou Samuel, gordo e pálido, o suor escorrendo pelo rosto.

O banqueiro levantou-se, andou pela sala e sacudiu indignado a cabeça:

--E olhe que cada um de vocês pede mais favores e mais dinheiro do que dez putas ricas juntas.  Que desperdício investir na sua liderança!

--Não havia como, Sílvio -- levou Samuel a mão ao peito, eximindo-se de culpa -- Os holofotoes ficaram todos em cima do Congresso, tentar barrar aquilo seria suicídio político.

Sílvio voltou a sentar-se, fechou o punho e levou as costas do mão ao queixo, ficou segundos a olhar para o nada e a seguir jogou o olhar em cima dos três:

--Há duas matérias que são de crucial importância pra mim:  o marco temporal das reservas indígenas e  o projeto do licenciamento ambiental.  Vocês sabem que tenho muitas terras no Mato Grosso,  no Sul e no Amazonas, e preciso avançar minha soja e meu gado pra dentro das matas.  Vai ser um aumento significativo das minhas áreas de produção.

--Nós sabemos disso -- antecipou-se Abdias -- Os índios e as florestas são verdadeiros entraves à expansão dos negócios.  Nesse caso nós estaremos representando o agronegócio, que é um apoio muito importante pra gente.  A bancada ruralista é muito ampla...

--Poderosa e numerosa! -- interrompeu-o Samuel.

--Vamos falar com os nossos companheiros -- tornou Abdias -- que são maioria absoluta, podendo, como você sabe, até aprovar emendas à Constituição.

Edvaldo ainda  abriu um sorriso safado:

--O senhor sabe que somos "centrão", mas o grupo ficou dividido na questão do imposto...

--Você foram defecções -- olhou-os com um olhar de dura repreensão Sílvio Müller.

--Mas desta vez vamos estar unidos -- insistiu o gordo Samuel -- A aprovação dessas duas matérias é certa.

--Até porque o povo -- corroborou Edvaldo -- não tá nem aí pra indígena ou meio-ambiente.

O banqueiro, então, olhou com firmeza e perguntou:

--Vocês prometem aprovar as duas matérias pra mim?

Os três responderam quase em coro:

--Prometemos.


 

POR QUE O AGRO NÃO É POP COISA NENHUMA


Quando o governo subsidia a agricultura familiar, grupo de pequenos agricultores, está fazendo um trabalho social de suma importância que gera efeitos em duas esferas: a do pequeno agricultor, que depende da União para permanecer num trabalho de remuneração digna e salvar-se da pobreza e da miséria, e a do consumidor final, que obtém alimentos mais baratos e vê, nessa área específica, seu poder de compra aumentado.

Já o grande agro, que é formado por herdeiros de incalculáveis extensões de terras, propriedades rurais  assustadoramente gigantescas, gente que tem dificuldade de mensurar  o tamanho da própria fortuna (e também, lógico, do próprio patrimônio), pessoas dentre as quais há descendentes dos coronéis da Guarda Nacional, do tempo do Império, que recebiam do Imperador Dom Pedro II as chamadas sesmarias, extensões territoriais da imensidão de verdadeiras cidades, pelos relevantes serviços prestados ao fornecerem homens e armas ao governo para apoiá-lo em suas guerras internas e ajudá-lo a sufocar rebeliões no âmbito nacional. 

Esses abastados do agronegócio não têm necessidade de ajuda da União Federal nem importância no que tange à área social, porque voltam suas produções quase que exclusivamente para a exportação, recebendo fortunas em dólar, deixando pouca coisa para o mercado interno e elevando, consequentemente, os preços de seus produtos para o consumo nacional.

O Bolsonaro, "office boy" do agro e do mercado financeiro (assim como Tarcísio de Freitas) batia no peito ao dizer que o agro brasileiro alimentava mais de três bilhões de pessoas no mundo, mas furtava-se a reconhecer que o setor o fazia em troca de ganhos bem polpudos, além de  dar a impressão de que nossos "abnegados e caridosos" fazendeiros distribuíam gratuitamente ou por preços módicos alimentos a uma parcela significativa da população do planeta, num trabalho comovente de caridade em que enviava comida às vítimas de fome da África.

O agro ganha tanto dinheiro que não precisa da menor ajuda do governo, tendo plenas condições de se bancar e, ao mesmo tempo em que defende o neoliberalismo, onde você ou prospera  pelos próprios meios, ou simplesmente fale  (e dane-se sua dignidade e direito à subsistência), é,  quando se trata de receber dinheiro do orçamento federal,  paradoxal e extremamente socialista, sugando legalmente uma parte gigante dos recursos públicos em detrimento de toda uma sociedade trabalhadora.  Quantos empregos, obras sociais e outros benefícios o Brasil não poderia patrocinar com essa verba gasta com gente que não precisa?  Se você acha que bastaria o governante de plantão opor-se a isso e atuar para acabar com essa caridade financeira para bilionários, não imagina que ai daquele presidente que se indisponha com esses barões e essa farra: é "impeachment" sumário, pois, assim como o mercado financeiro, os latifundiários têm tantos representantes no Congresso, que fico achando que bastaria que as matérias de interesse dos dois setores deveriam ser decididas pelos presidentes das duas casas(Câmara e Senado), porque é uma perda de tempo colocar em votação matérias cujos resultados a gente sempre conhece meses antes da votação.

Enquanto  mergulha em fartos e obesos recursos públicos, como o Tio Patinhas (pra quem é velho como eu e se lembra) em sua piscina de dinheiro, os magnatas da atividade rural, justamente para manter  sua piscina monetária transbordando em grana, fazem rotineira e obstinadamente oposição a qualquer projeto possa atender às classes pobres e trabalhadoras. Outro efeito deletério de suas benesses é a automática dificultação de qualquer iniciativa que possa propiciar o desenvolvimento da indústria no Brasil.  Não há dinheiro para investimentos nesse setor: o Congresso e os "coronéis" abocanham a parte de leão do Orçamento.  E aí vem a Globo e diz à exaustão que "agro é pop". Não se poderia esperar comportamento diverso da emissora, que, como toda a grande mídia, foi parida para ser porta-voz dos financistas, dos bancos, dos especuladores dos famigerados mercados e outros sanguessugas do suor da absoluta maioria da sociedade brasileira.



segunda-feira, 8 de dezembro de 2025

TURBILHÃO

 Soam raios, trovões  casa adentro.

Tão sonoros, passeiam nos cômados

E repercutem nas paredes e tetos.

Soam raios, trovões   casa adentro,

Que não vêm  da atmosfera ou do céu,

Mas do fundo do meu peito repleto de chagas

E retumbante de milhões de emoções.


Há vendavais, soam trovões, soam raios

E são gritos do desejo de vida,

São brados do desejo de morte,

Um acúmulo imenso de amores,

Profusão de intensas paixões,

Um querer  chorar convulsivo

E partir para muito distante,

Depois, para ainda mais longe

E pisar regiões inúmeras,

E dançar pelas ruas lotadas

E pelos bordéis das cidades.


Soam raios, trovões  casa adentro:

É o peito implodindo de anseios,

Profusão de sentimentos imensos,

Turbilhão de minh'alma a berrar.


domingo, 2 de novembro de 2025

VIAGEM ENCANTADA


Hoje mesmo, há poucos momentos,

estive nos anos setenta,

vi cantar Vinícius e Tom

e ouvi belos sambas-canção.

Ai, era tanta alegria

naquela tarde dourada,

e as águas azuis e assanhadas

batiam na praia, espumavam

aqui, tão distante do mar.


Em poucos segundos, a noite

chegou, maviosa e poética,

e andei entre os corpos celestes,

enquanto cantou Lady Gaga

com suas emoções palpitantes.


Elis brilhava e cantava

com sua voz milagrosa,

que esfuziava, sofria,

depois serenava, tão doce

como nunca, jamais ouvi.

Elis, a rainha maior.


Viajei em toda a magia

da voz, dos arranjos do Mílton,

passeei em fazendas, paisagens,

em cidades majestosas e antigas,

me sentindo tomado de amor.


Vi Deus e as orquestras dos anjos,

viajei em terras  de encantos

e me enchi de alegria e fascínio:

ah, como nos enfeitiça

ouvir tão bonitas canções!

O SENTIMENTO SUBLIME

O sentimento sublime

que trago em meu peito candente

é como se tudo florasse,

se a aurora fosse constante

e a noite, tão linda de estrelas,

enchesse de luz os becos

e neles derramasse canções.


É como se a primavera

ornasse as ruas e praças,

viesse desses teus olhos

tão cheios de vida e querença,

tão plenos de anseio e de sol.


domingo, 5 de outubro de 2025

RAFAELA E O TRIÂNGULO AMOROSO

        Santiago era um advogado bem-sucedido. Homem alto, forte, metódico, sisudo, vaidoso, bem-aprumado na postura e elegante no vestir-se,  altivo e de poucas falas.  Ia lá pelos seus quase cinquenta anos.  Na questão específica de pouco falar, isso se revertia completamente quando, da tribuna, defendia seus representados nos tribunais.  Aí tornava-se eloquente, verborrágico, veemente, tinha o próprio dom da oratória.  

Certa vez conseguira absolver um sujeito que era mula do tráfico e fora flagrado pela polícia com grande quantidade de cocaína, convencendo, ele, o advogado, o juízo de que o homem fizera o transporte da droga sob coação dos traficantes, que ter-lhe-iam sequestrado a família para forçá-lo a expor-se com a mercadoria ilícita por ter o réu, na favela,  manifestado inúmeras vezes antipatia ao chefe do morro e ao crime organizado.  A empreitada envolveu falsos testemunhos e uma série de artimanhas jurídicas de Santiago, mas o criminoso foi solto, podendo aguardar em casa o trânsito em julgado ou o recurso do Ministério Público, e só não pôde comemorar a libertação  porque o chefão do gueto mandou executá-lo no dia em que voltou para casa, por não tolerar alguém se deixar pegar pelas forças policiais.

Noutra feita,  já na área cível -- pois era criminalista e civilista -- conseguira um dano moral astronômico para um cliente que fora humilhado,  ofendido e agredido pelo gerente de um hotel cinco estrelas onde prestava serviços de pintura.  Naquele episódio, ele próprio encarregou-se de obter as filmagens das câmeras, comprando-as de um segurança da hospedaria,  e entregá-las às emissoras de tevê, para que a ampla exposição aumentasse o constrangimento e o valor da causa.

Tinha hábitos extremante arraigados e deles só se desviava em situações  excepcionalíssimas, quase nunca faltando  à  academia de musculação, não saindo do comedimento na bebida,  da ida aos bares uma única vez na semana e da rigidez de horário do próprio escritório e dos seus encontros amorosos e lazeres.  Mais parecia uma máquina, um robô programado por si próprio.   

Conhecera Rafaela  numa dessas idas a uma uisqueria.  Naquele dia ficara um longuíssimo tempo a fitar a moça, que acompanhava-se de uma amiga, até que, após alguns encontros de olhares e sorrisos, pedira licença à outra mulher e chamara a pretendida a uma breve conversa à mesa que ele ocupava, onde trocaram algumas palavras bastante objetivas e os números de celulares. Rafaela depois pediu licença e voltou ao seu lugar, e três dias depois os dois se encontraram.

Fazia agora quatro anos que os dois estavam juntos.

Rafaela era divorciada e morava com a mãe e uma filha de quinze anos, já completara trinta e oito anos e era uma mulher morena de tez clara, cabelos aos ombros e de coxas e seios pronunciados, gostando de usar sempre vestidos  de tecidos leves pouco acima dos joelhos e com abertura ora lateral, ora frontal, e assim deixava à mostra  um pouco do corpo sensual e bem- desenhado que sempre arrastava os olhares dos homens para si.

Era bonita, elegante e falava de forma polida e em baixo tom de voz.  Às vezes sua fala era quase didática, e isso se dava porque a mulher dava aulas de geografia em dois colégios de ensino médio da Zona Sul do Rio.

Os dois formavam um belo casal, mas aquele costume de não falar de Santiago a incomodava e agoniava profundamente, mais ainda a quase absoluta falta de manifestações de afeto e gestos de carinho.  Diversas vezes Rafaela pensara em romper o relacionamento, mas alguma coisa que ela sentia a prendia irremediavelmente a ele, como se o homem fosse o ar que ela respirasse.  Recusava-se a admitir para si mesma que aquilo pudesse ser um amor inexplicável e quase infundado.  

Santiago a tinha na cama,  ardia, levava-a a prazeres impressionantes, mas, após os corpos saciarem-se, tinha pressa de ir embora, recusava-se a ficar trocando carícias e palavras, apressava-se em sair do motel e ir para casa.  Parecia coisa de homem casado, mas não era, porque com certa frequência Rafaela ia à casa do namorado, que era viúvo e morava com um casal de filhos,  a menina com dezoito anos e o rapaz com dezessete.  Que diabo era aquele homem?  Teria algum sentimento ou seria totalmente vazio?  Parecia um androide.  E como seria possível amar um androide? Teria essa aberração acontecido a ela?

Às vezes convidava-o a ir a um bar de Copacabana onde se tocavam músicas  ao vivo, mas Santiago nunca aceitava os convites, o que a frustrava e entristecia, e numa dessas idas ao lugar Rafaela conheceu Misael, uma rapaz de trinta anos que cantava de um modo infinitamente expressivo, os sentimentos à flor da pele, e era um exímio violonista.

Naquele dia ela convidou-o para sentar-se à sua mesa ao final da apresentação, e os dois conversaram longamente, surpreenderam-se por terem tantas afinidades, tantos sentimentos e ideias iguais, e lá pelas duas da madrugada  se beijaram incessantemente e se amaram no quarto de Misael.


2


Um ano depois,  a relação entre Misael e Rafaela perdurava.  Ele era o avesso de Santiago: atencioso, falante, romântico, despojado de espírito prático, gostando de cantar, compor letras e músicas, tocá-las e cantá-las.  Vivia agarrado ao violão.

Não era, entretanto, um músico conhecido, não tinha (nem jamais quisera ter) outro trabalho além de tocar e cantar em bares, festas e eventos. Estava longe de ser um  profissional bem-sucedido.  Não moraria em Copacabana se não tivesse herdado da mãe, que herdara do marido, pai do rapaz, dois apartamentos e uma quitinete no mesmo bairro.   Minimalista, pouco apegado a coisas materiais,  optou por morar na quitinete e  alugar os dois apartamentos. Era um quarto grande e uma pequena cozinha com uma prateleira,  uma geladeira e um fogão que só utilizava pra fazer café ou chá. Um banheiro pequeno para banhos e necessidades.  No quarto um armário embutido e uma mesa minúscula de quatro bancos, uma cama e uma poltrona, um computador, um aparelho de som, uma televisão e o violão.  Pronto! Era o bastante pra Misael.  Ali foi o lugar mais simples e precário onde Rafaela se deitou com um homem.

Se Misael não ligava para luxos e posses, por outro lado  apaixonara-se intensamente por Rafaela... e a ela dedicava-se, fazia-lhe poemas e canções, quando a recebia em casa enchia de atenções e agrados, encomendava lanches e refeições, doces, guloseimas, bebidas, e os dois se amavam com gana e delirante volúpia, e depois ficavam a conversar e a se embriagar, a contar histórias e casos, a falar de música, de cinema, de política, de artes.  O músico a tratava como a uma rainha, dizia-lhe coisas doces, sonhava uma vida feita só de amor e poesia para os dois, sem ruas, pessoas e mundo à volta, onde só eles existissem numa atmosfera de pleno amor.  Tudo aquilo como que alimentava Rafaela, supria-lhe as carências afetivas, fazia-a feliz consigo mesma, e ela às vezes ficava  a refletir: era ele o homem que deveria amar, jamais aquele sujeito pedante e  de mármore com quem já estava há cinco anos envolvida.   Às vezes (ou quase sempre) queixava-se do advogado para ele próprio:

--Você parece que não tem sentimentos.  Não deve sentir nada por mim.  Só vejo entusiasmo nos seus olhos quando saímos juntos pra alguma festa e eu vou toda arrumada: acho que você não gosta de me ter, mas só de me exibir.

Santiago olhava-a sem interesse no assunto e dizia-lhe vagamente:

--Isso é tolice sua.  Você é muito cheia de carências.

--E não é um direito meu?! -- ela às vezes se exasperava --  Não posso ter a atenção e o afeto do meu homem? -- e aí seus olhos se marejavam e sua expressão se tornava súplice e desolada.

--Não sou romântico nem de me derramar em declarações de amor e elogios.  Você me conhece e sabe que sempre fui assim.

--Você não tem capacidade de demonstrar sentimentos por mim?  Não consegue praticar um gesto de ternura?

--Você tá sendo insistente.  Melhor mudarmos de assunto e falarmos algo mais interessante.

--O que é mais interessante?  Seus processos? O TJ, a Justiça Federal?

--Meus processos são o meu trabalho, Rafaela.

--Você nem se preocupa em saber onde estou, o que é dos meus dias, o que faço quanto não te ligo ou não te encontro.  Nem ciúmes você sente... -- e a última frase, dita por ela mesma, era-lhe como uma punhalada, pois diante dele se sentia a mais insignificante entre as mulheres.

--Meus sentimentos não se alimentam de insegurança.

--Você é gelado, Santiago!

Nessas ocasiões as lágrimas brotavam-lhe incessantemente dos olhos, e o homem ficava mudo e a fitá-la.  Após ela acalmar-se, ele apenas decidia:

--É melhor eu te levar agora pra casa.

E saíam ambos calados, no carro, da Barra a Botafogo.

Quando estava nos braços de Misael, o clima era leve e lírico, e Rafaela sentia-se amada e preciosa, importante e quase endeusada.

--Você pra mim é tudo.  Nós dois aqui juntos -- costumava dizer o cantor -- é a mais plena felicidade, como se eu não tivesse nada a mais a querer ou conquistar na vida. O mundo não interessa, só você importa.  Nossos momentos são a a maior conquista da minha vida, porque todo o mais parece irrelevante.  Estar aqui com você... ou à beira-mar, com nossos pés mergulhados nas águas, é tudo pra mim.

Havia porém momentos em que ele manifestava alguma agonia:

--Um dia você vai deixar aquele homem e ser minha, só minha, num mundo só de nós dois.

Ela sempre o olhava de um modo reticente, evitando dizer algo que o pudesse machucar, e limitava-se a responder acenando com uma esperança:

--Tem paciência, meu amor, me dá algum tempo, sem me pressionar, pra resolver isso.

O rapaz não insistia, mas Rafaela voltava a pensar consigo que Misael era o homem que deveria amar.  


3


Todos os projetos de vida de Misael incluíam Rafaela, muito embora esses projetos não fossem  além de continuar a tocar nos bares e eventos. Porém ainda assim imaginava a mulher presente em todas as suas apresentações  e depois voltando para a quitinete com ele e comentando sobre a reação do público, os elogios,  os aplausos, os pedidos de bis, findando a conversa  em muitos beijos e frenesis e convulsões de amor. 

  E viver sob o mesmo teto com alguém nunca esteve nos planos do músico, que gostava de ter seus relacionamentos sem grandes compromissos e sem o convívio do dia-a-dia.  O apego à professora era demasiado, tanto que sentiu-se sem escrúpulos e um tanto repulsivo no dia em que a traiu com uma linda morena que se lhe  insinuou insistentemente na praia do Arpoador.   Fizeram loucuras na cama (a mulher era uma fogueira) e ainda cheiraram juntos a cocaína que ela carregava consigo.  Não lhe deixou no entanto número de telefone ou a levou ao seu quarto: foram a um motel, e ele não quis um segundo encontro.  Nunca sentira nenhuma culpa após trair ninguém, muito embora não se lembrasse de haver um dia envolvido em nenhuma relação séria.  Com duas semanas já tinha esquecido tudo e deu-se a degustar aqueles momentos tão emocionantes e palpitantes em que tinha a presença da sua amada.

Todavia era comum ficar a matutar: será que um dia Rafaela o chamaria para uma conversa séria e comunicar-lhe-ia a decisão de não mais levar aquela vida dupla para dedicar-se a Santiago?  Enquanto aquilo não acontecia (se é que aconteceria), Misael ia-se encontrando com ela, ambos tomando chope, vodca ou uísque nos bares e tirando algum tempo para pisar nas águas do mar.



4


Por volta de uma semana depois do último encontro, Rafaela andava ressabiada, preocupada: uma semana sem Misael dar um telefonema ou enviar mensagem pelo "whatsapp".  Estranho... Começou a moça a enviar dizeres e não obter resposta alguma.  Ligava e não era atendida.  

Numa tarde de meio de semana, então, resolveu procurá-lo em casa.  Apertou inúmeras vezes o interfone e ninguém perguntou quem seria.   Resolveu então acionar o interfone do porteiro, esse atendeu, e ela perguntou pelo namorado:

--É dona Rafaela? -- indagou o porteiro, que já a conhecia.

--Sim, sou eu! -- respondeu ela, aflita.

--Dá um momento, que eu vou até aí.

O funcionário do condomínio aproximou-se da portaria, abriu-a e se pôs diante da professora:

--Dona Rafaela, eu achei estranho: o Misael não disse nada à senhora?

--Não!!! -- ela arregalou os olhos, ainda mais aflita -- Mas o que foi que aconteceu, afinal?  Diz logo, por favor!

--Calma, não fique assim...

--Mas o que houve?!!! -- ela exaltou-se.

--Dona Rafaela  -- o homem manteve a fala calma e amiga -- o Misael se mudou...

--O quê????!! -- ela se viu quedada e perplexa, petrificada por longos segundos.

--Ele não disse nada à senhora?

--Não... -- ela tinha a voz trêmula, fraca e embargada. 

--Mudou-se no sábado passado.  Até me surpreendeu: o caminhão de mudança parou, os ajudantes saíram, apertaram o interfone, ele abriu e as coisas dele começaram a descer.  Depois me deu um abraço, disse que ia alugar o apartamento, acabou de se despedir e foi embora no carro dele.

--E ele nem deixou endereço?! -- ela gritou.

--Não.

Rafaela estava decididamente paralisada, e o porteiro perguntou:

--A senhora tá se sentindo bem? Quer entrar um pouco, tomar um copo d'água e se sentar pra relaxar?

Ela estava muda, sem ação.  Apenas balançou negativamente a cabeça e saiu andando.  A seguir foi para o estacionamento e entrou no carro.  Ficou ali parada por quase uma hora, a fronte apoiada no volante enquanto as lágrimas lhe desciam e os soluços pareciam não querer cessar.  

--A senhora tá passando mal? -- indagou um funcionário do estacionamento.

--Não... -- ela respondeu enquanto soluçava -- Só me deixa por favor ficar mais um pouco aqui.

Quando pôde dirigir, fê-lo com muita cautela, e, ao chegar a casa, correu direto para o banheiro, para tomar num banho demorado e tentar parar de prantear.



5


Se Misael tinha medo de  Rafaela chamá-lo a uma conversa formal e terminar tudo, esse medo só fez aumentar a cada dia.  Achava que não suportaria aquele momento tão dramático.  Seu coração se esfacelava dentro do peito, seu desejo de que ela fosse somente dele só crescia, mas as esperanças de  isso acontecer só murchavam a cada momento.  Aquela agonia não podia continuar.  Melhor que se desse a separação de uma vez por todas.

Mas ele não tinha forças para postar-se diante da moça e romper, pedir-lhe que não mais o procurasse.  Aos diabos isso de ter a hombridade de dizer o que achava que devia falar a ela!  Misael não tinha estrutura, não tinha coragem, se acovardava, sim, e daí!?

Nas últimas semanas morria todos os dias, chorava sobre o travesseiro, não somente pelo medo do enfrentamento à situação, mas sobretudo pela certeza de que Rafaela jamais o amaria, ao menos tanto quanto ele queria e precisava.  Alimentava-se dos momentos em que a tinha em sua companhia... e doía-lhe profundamente saber que aquela mulher não correspondia à altura os sentimentos tão intensos que nutria no peito.   Eis o motivo de resolver fugir.  

Após receber a notícia de sua mudança, Rafaela ainda tentou contatos outras vezes, e ele trocou o chip e o número do celular,  para não mais sentir a agonia de ver que ela continuava a buscar contato.

Alugou um minúsculo apartamento em Petrópolis e ali instalou-se.  Pretendia voltar para Copacabana uns dois anos depois, mas por ora o   mais recomendável era não frequentar os lugares a que costumava ir, ficar bem longe de todos aqueles cantos que só lhe trariam a lembrança da ex-namorada.

Mesmo na Região Serrana, Misael viu atada à sua memória a constante lembrança de Rafaela... e morria todos os dias, renascia n'alguns momentos, mas via a alma desvanecer e murchar mortalmente a seguir.  Encontrou-se melhor muitos meses depois.  O tempo muda paisagens e cenários, traz morte e traz vida nova: por que então não traria ao rapaz novamente dias iluminados de alegria, em que não quereria ele mais do que saborear com volúpia toda a delícia de uma vida feliz?  Assim, seguiu ele, agora a tocar e cantar nos bares da Região Serrana, amparado naquela esperança  de que os dias vindouros lhe trariam de volta toda aquela plenitude de vida e de festa que sempre tivera dentro do peito.  Ele bem sentia: sua alma pouco a pouco se acendia de novo, e era como  Misael se estivesse a refazer de uma doença e a voltar à saúde mais completa.  Eram as feridas se cicatrizando, e o coração começando a voltar a retumbar de felicidade e desejo de viver.


6


Por alguns meses Rafaela também ficou abatida, macambúzia, ainda lerda nos gestos e pensamentos, como se aquele momento de surpresa e perplexidade se houvesse prolongado e se ameaçasse perenizar em sua alma.  Dessa vez ela tornou-se tanto ou mais calada do que Santiago, que, embora parecesse de pedra, um dia angustiou-se e indagou-lhe:

--Mas que diabos você tem?  Reclamava que eu sou calado e agora parece uma múmia na expressão do rosto e nesse silêncio de sepultura!

--Apenas não ando bem -- evadiu-se a moça de responder -- mas logo isso vai passar.

Depois de se ver  refeita, e Misael tornar-se uma lembrança boa, não mais, foi surpreendida por Santiago, que convidou-a a jantar e, à mesa do restaurante, fixou os olhos nos dela e falou de um modo quase solene:

--Eu te trouxe aqui porque queria que conversássemos algo sério.

Rafaela também olhou-o dentro dos olhos, sisuda:

--Pode falar.

Santiago continuou:

--Estamos juntos há quase seis anos... Acho que, por mais que eu seja fechado, nos conhecemos bem...

--E então? -- a moça mostrou-se um pouco ansiosa, ainda olhando-o firmemente.

--Sempre fomos bastante ligados e conseguimos estabelecer uma relação de confiança, criamos vínculos de sentimentos e temos boa compatibilidade.  Por isso quero saber se você aceitaria se casar comigo.

Rafaela arregalou os olhos, surpresa. Por alguns segundos ficou a refletir, mas os pensamentos foram inúmeros naquele exíguo tempo. Santiago era calado e parecia de mármore, não era dado a palavras  e gestos fagueiros, que eram o que ela tanto carecia. Porém agora passava-lhe uma grande impressão de ter-lhe amor ou algo que a alguma distância, grande ou pequena, se parecesse com amor.  Aquele pedido talvez fora o maior inesperado de toda a sua vida.

Se sempre parecia distante, se sempre parecia de mármore,  Santiago, a quem estava ligada de forma irremediável, a quem tanto se apegara, a quem podia dizer que amava, agora seria seu.  Ninguém é propriedade de ninguém, mas Rafaela  sentia que Santiago seria como seu, pela vida metódica, pelos laços de casamento e pelo afeto que ela agora achava que ele revelava.

Sua demora fê-lo perder a calma:

--E então? Você não quer?

Ela apenas sorriu e balançou afirmativamente a cabeça, respondeu num quase sussurro:

--Sim.


2025










  


domingo, 14 de setembro de 2025

POESIA DO MOMENTO DE VOLÚPIA

 Não senti, não, no meu peito

O tocar angelical

Que enfeitiça o enamorado,

Mas te irei sorver a língua

Na agonia dos sedentos,

Provarei da tua pele

Como quem lambe ambrosia,

Sentirei, extasiado,

O calor dessas entranhas,

Fruirei teu corpo quente

Como quem degusta manga,

Sorve a polpa, a água da pera

E assim fica a se aprazer.


Sentirei dentro de ti

O aconchego delirante,

A agonia extasiante,

O regalo que enlouquece

E se expande corpo inteiro

E que irá lotar a casa,

Vazará pelas janelas,

Pelo espaço sideral.


Serei teu inteiramente,

Serei teu sofregamente,

Serei teu como criança

Aninhada no teu ventre.

Mas me deixa a porta aberta

Pr'eu depois ir pelas ruas

E seguir o meu caminho

Sem nos darmos nossas mãos.




domingo, 24 de agosto de 2025

AS CADELINHAS E EU

 É manhã e dois anjos em forma de cadela sobem em minha cama e se deitam. Sinto uma paz e uma felicidade infinita e quase indescritível, e ficamos os três, irmãos por filhos da Terra, amor e sintonia de almas, refestelados em nosso céu.

NÃO CAIA NA ESPARRELA DE VOTAR NO CIRO

 

Já vejo "O Globo" reproduzir em letras garrafais falas de apoiadores ocasionais de Ciro Gomes.  É a reverberação dos anseios do agro e das elites, que querem recolocar o Bolsonaro no lugar onde estava: a Presidência da República.  Porque o Ciro é o próprio Bolsonaro, só que com cultura e uma fala mais rebuscada, porém agora com a mesma agressividade e mesmo radicalismo verbal de ódio.  Encarna o furioso antipetismo e antilulismo  por questões de frustração, de recalque e de vingança, por Lula não tê-lo apoiado contra o Bozo, sua alma gêmea política, em 2018.  É o mesmo Ciro que, durante a disputa ao Planalto de 2002, disse que a única importância da Patrícia Pillar, sua esposa à época,  na  campanha eleitoral era dormir com ele.  É o que defendeu a política econômica do Collor poucos dias após o confisco de ativos financeiros da população por parte do então presidente.  O exato "esquentadinho"(talvez por ter sido um menino e um adulto mimado demais) de perfil autoritário que nasceu politicamente no berço de ouro do PDS, partido da ditadura sangrenta e hedionda, e que entre suas demonstrações de gana totalitária soltou a frase "eu sei mandar".  É o Ciro que se traveste de progressista, mas que na verdade é direitaça,  que agora volta ao seu lar político, que é o PSDB, agremiação que não é nada senão a fusão, nos anos 1980,  dos  direitistas menos fundamentalistas do PDS com os setores mais conservadores do PMDB. 

Faço votos de que o eleitorado entenda que não se deve buscar terceira via quando a primeira está dando certo, que Ciro não é nada de novo, mas a própria  segunda via odienta e destrutiva, representada por direitistas extremos pró-Trump e pró-Bolsonaro como Caiado, Tarcísio, Ratinho e Zema.  Terceira via seria, sim, o PSOL, bastante à esquerda do PT e que tem a minha mais profunda simpatia e admiração, mas a que eu negaria meu voto caso fosse necessário votar útil no PT ou outro candidato de perfil progressista ou menos conservador em relação aos direitistas.

Se a grande imprensa abraça o Ciro, é mister que os setores não-abastados da sociedade o reneguem de imediato, porque ambos, Ciro e a grande imprensa, são representantes das mesmas elites que massacram a população brasileira desde o dia em que os tripulantes da esquadra de Cabral botaram os pés cá "nesta terra onde,  em se plantando, tudo dá".

quinta-feira, 17 de julho de 2025

EU TENHO A SOLUÇÃO PARA O PROBLEMA DA "POLARIZAÇÃO"

 

Primeiro, como dizem os analistas honestos, para haver polarização seria necessário que houvesse na política brasileira uma extrema-esquerda atuante, o que não acontece.  Ou você tem visto a esquerda plantando bombas, depredando os prédios dos Três Poderes, travando o trânsito com caminhões e pedindo golpe de Estado com implantação do comunismo? Acho que não, correto? Assim, constatamos que não há extrema-esquerda para fazer contraponto aos fascistas do Brasil, o que deixa clara a vista de extremistas de direita promovendo sozinhos arruaças, ataques verbais ou físicos às instituições, a negros, a homossexuais, a mulheres, a progressistas, a pobres, ao meio-ambiente e vai por aí adiante.  E o mais curioso é que fazem o que fazem e ficam incólumes.

Na inexistência, reitero, de qualquer atuação extremista no campo da esquerda, não vislumbro, para acabar com os ataques dos nazifascistas em seus gestos, discursos e articulações e, desse modo, deixar os analistas desonestos e a grande mídia satisfeitos, outra solução senão nós, democratas, usarmos o boné do "Maga", defendermos Trump, lutarmos pela anistia aos golpistas do 8 de janeiro  e pela recondução do Bolsonaro à Presidência da República, pedirmos a prisão do Alexandre de Moraes, atacarmos as mulheres, os "gays", os negros... E aí como fico eu, negroide, mulato, moreno, mestiço ou como você queira chamar? Esborracho-me contra a parede? Mas sigamos: teremos de glorificar o Silas Malafaia, promover

 devastação ambiental, puxar o saco da "coronelada" do agro, lutar em prol dos bilionários, louvar o Trump e seu tarifaço, renegar a democracia e, em suma, todo progressista virar a casaca e escancarar as ancas para os nazifascitrumpbolsonaristas do País.  Pronto, irmãos não-reacionários!  Aí o Brasil, como repetida e cansativamente a Globo cobra  através da voz gravada do Roberto D'Ávila, o Brasil será de uma vez por todas pacificado.

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 Se Jesus tivesse nascido nas últimas 4 décadas, já teria sido crucificado como comunista pelos bolsonaristas, com o apoio do "Centrão", mas não sem antes ser preso por atentado à ordem moral, em virtude de impedir o apedrejamento de Maria Madalena.


Barão da Mata

terça-feira, 15 de julho de 2025

O VERDADEIRO DESPERTAR DO GIGANTE


Quando as elites, principalmente a Fiesp do ultrarreacionário Paulo Skaf, embaladas pelo movimento e depredações dos "black blocs", lançaram os slogans "não vamos pagar o pato" e "o gigante acordou", era a classe média pateticamente conservadora que se unia aos ricos e a outras camadas sociais abastadas para colocar a extrema-direita no poder.  O gigante não acordara, servira de massa de manobra, pois fora enganado e ludibriado pelos reacionários, obstinados em trazer a direita de volta ao poder.  Era insuportável pr'aquela gente que reeditava a "marcha da família com Deus, pela liberdade" ficar tanto tempo distante de uma ditadura militar de direita -- se a direita dá aos opulentos tudo do que eles já nem mais precisam, tirando dos pobres as coisas de que eles mais carecem.  Eu próprio tornara-me crítico extremamente cáustico do governo e do PT, tragado pela imensurável onda midiática  que se travestia de combate à corrupção quando tinha por fito trazer os conservadores mais cruéis de volta ao poder.  No entanto nunca, em tempo algum, jamais apoiei ou apoiaria Bolsonaro, por uma questão de mínimo bom-senso. Até Reinaldo Azevedo, muito mais gabaritado do que eu, também foi envolvido por aquela gigantesca conspiração e hoje é, embora não petista nem lulista como minha pessoa, um importante defensor do atual governo.

Porém o fato é que as elites e a classe média eram viúvas inconsoláveis da ditadura de direita, tinham o fascismo como filosofia de vida e acabaram, inicialmente, colocando Temer no poder e exultando diante do mandatário perversamente neoliberal e que, durante seu mandato-tampão, foi duas vezes denunciado pelo MPF por corrupção.  A sociedade, entretanto, estava feliz da vida: tinha um direitaça no poder. 

Mas esse direitaça não era bastante para uma gente ávida de fascismo como uma viúva há muitos anos acometida de um verdadeiro furor uterino insaciado.  O fascismo é completo, pois se sustenta em crudelíssima desigualdade social e hedionda repressão.  Então, a Globo e toda a grande mídia, Paulo Skaf, a beócia classe média, os pobres de cérebro lavado e os ricaços sórdidos elegeram Bolsonaro.

O governo do capitão inepto, mau e louco dispensa comentários, mas a volta de Lula ao governo veio acompanhada de um Congresso avassaladoramente destrutivo, arruaceiro, ignorante, mal-intencionado, usurpador dos recursos públicos e pavoroso, simplesmente monstruoso,  até que o vazamento da fala de Ciro Nogueira na Faria Lima e a derrubada do decreto constitucional do presidente por Hugo Motta, Davi Alcolumbre e asseclas, que não querem que ricos paguem qualquer imposto, acendeu uma campanha nas redes sociais que exige menos descalabros e que os opulentos, que correspondem a 1% da população, paguem tributos, tirando uma migalha do excesso do excesso do excesso do excesso do dinheiro dos seus bolsos.  Ao mesmo tempo o "ICL (Instituto Conhecimento Liberta)" lança a campanha "Somos 99%", na qual já me engajei e sugiro que vocês se inscrevam: 99porcento.com.br .

AGORA, SIM, O GIGANTE ACORDOU.