Quando Edvaldo, o chefão do tráfico, recebeu o telefonema do ex-deputado Adriano Ferraz, que avisou que iria vê-lo, ficou um tanto surpreso, já que havia quase quatro anos que os dois não se viam; desde o fim de mandato de deputado de Adriano. Tinha um vago palpite do motivo da marcação daquele encontro em plena favela. Ferraz não se reelegera em 2022 por sabotagens do próprio partido, em virtude de alguns caciques quererem abocanhar a obediência dos liderados que o ex-parlamentar tivera no período de seu exercício de mandato. Entrara em baixa, perdera os influenciados, transformara-se num zero à esquerda dentro da Câmara dos Deputados, e muito possivelmente agora viria pedir apoio financeiro para concorrer novamente. Quando tentou a reeleição, até a verba a ele designada fora escassa. Adriano lamuriava-se muito por não exercer mais nenhuma liderança sobre ninguém quando Arthur Lira assumiu a presidência da Câmara e Bolsonaro, para não ter nenhum pedido de impeachment votado, fechou os olhos e deixou rolar livremente o orçamento secreto no Congresso, onde deputados e senadores passaram a manejar as verbas públicas a seu bel prazer e sem necessidade de prestar contas a nenhum órgão ou criatura. Fosse outro a presidir a Câmara naquela época e Adriano ter-se-ia fartado bem mais do dinheiro dos impostos da sociedade, mas acabou ficando com migalhas por conta da parte que lhe coube da festança feita com o dinheiro dos impostos pagos pelos cidadãos.
Edvaldo conjeturava: não poderia ter Adriano outro assunto a tratar senão o regresso à vida política com a sua ajuda financeira. O político sem mandato cumprira rigorosamente todos os ritos: ligara e avisara até o horário em que chegaria e com que carro e placa.
Adriano já até tivera antes uma conversa com Carol, a jornalista, que ascendera na empresa de mídia e de repórter de rua passara a apresentar um programa jornalístico de notícias e debates. Nada mais justo do que recorrer a ela, que no início da carreira dera-se a ele para conseguir uma entrevista exclusiva, e isso proporcionou um impulso altamente significativo à carreira da mulher. Carol fora quase evasiva, dissera que levaria a sugestão de entrevista a ele, Adriano, ao editor do programa, e o ex-parlamentar argumentou que com tantos fatos acontecendo, como a oferta do Brasil, por Flávio Bolsonaro, a Trump, os desmandos de Hugo Motta e Davi Acolumbre nas duas casas do Parlamento, a briga entre Michelle e Flávio Bolsonaro, um turbilhão e uma profusão de acontecimentos conturbados, de atos de corrupção, por que ele, Adriano Ferraz, deputado de grande projeção e grande servidor da direita, tendo até por ocasião do fim do último mandato aderido ao bolsonarismo, não mereceria ser instado a opinar sobre algum ou vários assuntos? Só não se reelegera por boicote dos colegas e por Bolsonaro não lhe depositar confiança, já que várias vezes opusera-se, ele, Adriano, a algumas medidas do ex-presidente. Contudo estava no aguardo de uma definição de Carol e do seu editor-chefe, mas não podia enquanto esperava ficar de braços cruzados, e aí é que Edvaldo acertava com a precisão de um fuzil com mira laser a finalidade de sua visita:
--E onde anda o Rogério? -- indagou Adriano em certo ponto da conversa.
--Rogério largou o negócio -- respondeu Edvaldo entre os penduricalhos de ouro do pescoço e dos pulsos -- Abriu uma birosca lá em Guarapari, tá vendendo bebida, comida, peixe... Só não sei se lá tá vendendo "bagulho".
--É possível que sim. -- supôs Adriano.
Edvaldo concordou num sorriso vago e partiu para o pragmatismo:
--E o que eu ganho se te financiar?
Adriano ajeitou-se na cadeira de plástico sem braço, iniciou:
--Você viu quanto casuísmo o Derrite, os outros extremistas de direita e o "Centrão" criaram pro Lula conseguir aprovar a lei antifacção? Viu como a lei não ficou na íntegra como ele queria?
--Mas agora nós fomos classificados como terroristas. Como fica?
--Temos de unir forças contra o Flávio Bolsonaro. A merda foi ele que fez, mas mesmo assim acho que o Trump não vai fazer o sucessor. Assim que terminar o mandato dele, a coisa deve voltar ao normal.
--Mas isso é suposição, Adriano.
--Mas, Edvaldo, se tudo se der como o Flávio quer, o Trump vai ser dono do país, a família Bolsonaro, síndica do patrimônio, e nem vai haver necessidade de Congresso Nacional.
O traficante cofiou o rosto de barba mal feita, em dúvida, Adriano disparou:
--Vou propor uma lei de dosimetria pro caso de vocês. Se a pena vai até quarenta anos, posso alegar a possibilidade de recuperação social de cada indivíduo dos grupos organizados e as más condições dos presídios do Brasil, que não reabilitam, mas habilitam cada vez mais o preso pro crime.
Edvaldo ficou a encará-lo:
--E tu vai ter cara-de-pau pra isso?
--Eu, não, mas vou arranjar alguém bem-afinado com a causa de vocês pra apresentar o projeto de seu interesse, além de tentar fazer lobby pro presidente da Câmara votar logo; isso se o presidente da Câmara não for eu.
--Você???
--Claro! Fique certo de que vou concorrer.
--Mas e quanto ao confisco dos nossos bens, se a gente for preso?
--Meu parceiro, fiz boas relações no Judiciário durante o meu mandato. Posso criar grandes dificuldades pra isso: só preciso ter o status de deputado.
--Acha que consegue?
--Não digo que a maioria aceita conversa, mas muitos dos juízes e desembargadores que conheço são bem flexíveis.
--Como assim?
--Conheço uns caras que fazem qualquer negócio em troca de grana.
--Ah...!
--Tem mais: vou apresentar projeto de lei, a pretexto de proteger as comunidades das favelas, no sentido de a polícia não poder subir os morros senão com aprovação de várias entidades de Polícia, Justiça e do Ministério Público.
--Mas todos vão dar o sim.
--Mas esse trâmite vai ser tão demorado, que vai dar tempo de vazar a operação pra vocês. Tem mais: vou procurar aprovar leis que gerem uma demora enorme pra que haja o confisco dos bens de vocês, sobretudo se estiverem em nome de terceiros.
Edvaldo olhou firme nos olhos de Adriano, apertou-lhe a mão com força, e o acordo estava selado.
Todos nós sabemos que "é dando que se recebe" é um trecho da miraculosamente linda "Oração de São Francisco de Assis", mas que foi repetida em 1988 por Roberto Cardoso Alves, um dos criadores e líder do "Centrão", como lema desavergonhadamente fisiológico no período fa elaboração da Constituição atual.
11 de julho de 2026