Numa tarde bonita de Copacabana, o general Maurício Sampaio degustava um belo chope com o seu irmão mais velho, o engenheiro Frederico Sampaio, enquanto ambos contemplavam a movimentação das pessoas que circulavam no calçadão e na ciclovia do outro lado da rua, e discutiam acerca da tentativa de golpe que teve seu ponto culminante no 8 de janeiro de 2023.
--Eu não participei daquela furada porque sabia que não daria certo.
Frederico olhou-o com um olhar inquisidor e disparou
--Você não devia participar daquela sujeira ainda que tivesse a certeza do sucesso.
Maurício olhou-o com certo desdém. Não entendia como aquele homem nascido do mesmo pai e da mesma mãe era tão diferente dele, "com manias de democracia e discursos progressistas". Não compreendia porque ainda se reunia com ele para tomar umas bebidas e falar de coisas da política e do mundo. Talvez porque o achasse inteligente e culto, porém avaliava que aquela companhia acabava saindo cara por conta das verdades que o interlocutor sempre lhe dizia.
--Mas acho que agora vamos ter a revanche -- tornou Maurício.
--É claro! O processo de golpe nunca parou! -- indignou-se Maurício.
--Que golpe o quê! O governo não pode ficar na mão de comunistas...
--Você sabe perfeitamente que Lula e o PT não são comunistas. Nem social-democratas eles conseguem ser porque o Congresso e as forças reacionárias que você defende não permitem.
--Pra mim tudo é comunismo!
--Você sabe perfeitamente que tá mentindo. Não sou ignorante nem despolitizado, e sei que você também não é. Não tenta sofismar pra mim.
--Com essa gente no poder os valores de família foram todos corrompidos...
--Não vem com essa história, Maurício! Deixa de ser hipócrita! Não vem falar em valores de família se você próprio tem amante. Casado e com amante, e até de suruba já participou após casado e pai de filhos.
--Você também não é nenhum poço de virtudes...
--Mas eu sou solteiro, não quero casar e não sou falso moralista. Além disso, o que é que Bolsonaro e a família dele têm de exemplares e inseridos nesse teu conceito moralistoide e falso de família? Vai falar em Deus e pátria também?
--Eu defendo Deus e pátria também...
---Defende nada, Maurício! No teu patriotismo, a pátria são teus interesses pessoais e teus anseios de poder, e Deus é você mesmo. Bolsonaro e família são patriotas? Você viu a proposta do Flávio no CPAC, de entregar nossas terras raras a Trump em troca de apoio à candidatura dele, Flávio? Isso é patriotismo, Maurício!? Isso é vergonhoso e muito mais. Nem tenho palavras pra classificar. Essa família não quer nem que o Brasil seja dela um feudo, mas apenas ter a situação de uma espécie de síndico de um Brasil ocupado, assim como Caifás e Pétain respectivamente na Judeia e na França ocupada. Você é uma xerocópia dos Bolsonaro, não por burrice, mas por buscar vantagens pessoais no contexto sócio-político.
--Mas esse momento tá perto de chegar -- apontou Maurício com um ar vitorioso: o Trump ainda esses dias vai qualificar os traficantes daqui como narcoterroristas, e logo, logo os militares americanos vão estar aqui dentro. E eu, é claro, vou ficar à disposição deles pra combater o crime.
--Você sabe que eles são traficantes, mas não podem ssr definidos como terroristas. Terroristas foram os militares do período da ditadura, que quiseram explodir o gasômetro e o Riocentro. Isso é nojento demais, Maurício! Você exaltar uma figura repugnante e nociva como o Trump e ainda abrir mão da soberania do país...? Que militar é você!?
--Se fosse a Rússia ou a China entrando aqui, você aceitaria de bom grado, porque o que quer é um regime comunista...
--Você de novo querendo me passar atestado de burrice. Pensa que sou imbecil? Primeiro China e Rússia nada têm mais de comunista, e além disso eu jamais festejaria a perda da soberania do meu país. Você é um militar fascista e entreguista, Maurício!
O general virou outro gole do chope:
--Você não pode falar de mim: sempre foi ovelha negra da família, sempre envolvido com mulheres, com putas, com pó... Você se lembra quando fui à polícia pra te soltar, porque tava doidão, com o nariz branco de cocaína?
Frederico começava a exasperar-se:
--Não muda de assunto, Maurício! Você quer que eu agradeça de novo? Ou quer cobrar pelos seus serviços?
--Não é isso, é que você não pode me criticar...
--Posso, sim, porque eu fazia mal a mim. Aliás, nem uso mais drogas, porém repito que eu fazia mal unicamente a mim mesmo, enquanto você quer a desgraça de todas as pessoas que não são ricas deste Brasil.
--Lá vem você com essa conversa de esquerdalha...
--Esquerdalha é neologismo desse ignorante mal-intencionado com que você colaborou porque baixou um decreto que elevou teus ganhos acima do teto do serviço público, e te deixou ganhando mais de cem mil por mês. O que te revolta é ter voltado ao salário de origem, dentro dos limites da lei.
--Viu? Papo de equerdalha...
--Não sou esquerdalha, sou de esquerda, socialista, enquanto você é oportunista.
--Não se envergonha de ser petista?
--Não sou petista, mas filiado e militante do PSOL. Mas teria orgulho de simpatizar com qualquer partido que como o PT, unido às esquerdas, tirou aquele purulento Bolsonaro do poder.
--Cara -- Maurício virou o resto da tulipa enquanto olhou para o irmão com cara de poucos amigos -- você por hoje me encheu o saco com essa tua conversa de herói nacional pela metade.
Frederico levantou-se de pronto:
--Não seja por isso! Só vou pagar minha despesa e ir embora daqui.
--Não precisa, deixa que eu pago...
--De forma nenhuma!
Chamou o garçom, pagou sua conta e, ao sair, disse ao irmão:
--Espero que, se acontecer o pior, tua consciência doa bastante.
Maurício nada respondeu, apenas ficou balançando a cabeça pra um e outro lado, com um sorriso debochado no rosto: quanta ingenuidade a de Frederico!
Abril de 2026