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domingo, 15 de fevereiro de 2026

COISAS DO FASCISMO

 Se levarmos em conta que Bolsonaro é misógino, sexista, ignaro, homofóbico, sem-empatia, negacionista, contrário a vacinas e à saúde pública, mentiroso, autoritário, golpista, incompetente,  odeia pobres e aposentados, acha que só as classes abastadas têm direito à vida e ao bem-estar social, e que as declarações de seus filhos fazem-nos no mínimo muito parecidos com ele, há de se depreender, então, que, caso eleito, Flávio Bolsonaro retornará à nefasta obra do pai.  Dá arrepios de imaginar.

Se avaliarmos a situação a partir do eleitorado do capetão, ops(!) desculpe, capitão, que é o mesmo de qualquer candidato de direita ( a direita não tem muito pudor e se converte facilmente em extrema-direita, desde que seus privilégios -- ou, no caso do direitista pobre, os privilégios dos que ela idolatra -- sejam mantidos), veremos que o Brasil não será, como não vem sendo (graças à atuação maligna das forças reacionárias), um país onde irá haver ordem, e isso a gente percebeu desde o momento em que, em 2018, foi anunciada a vitória do Bozo na disputa eleitoral.  Exemplo disso é que, naquele dia, eu morava em Araruama, no Rio, e fora a Arraial do Cabo. Quando voltei do passeio, fiquei boquiaberto:  era tanta garrafa de  cerveja long neck   largada, inteira ou quebrada,  nas  calçadas e na pista, que parecia ter havido uma revolução em que  as armas  eram aquela frascos de vidro.  Alguns dizem que o vidro é quebrado com cerveja e tudo em oferendas ao chamado "povo de rua", mas duvido muito que algum exu ou pomba-gira em sã consciência queira tanta destruição.  Há os que alegam que é para extravasar as emoções, como  fazem no Natal e na virada do ano, mas a verdade é que explodem fogos e quebram coisas pelo simples prazer do exercício da destruição e da arruaça.  


Fico imaginando as comemorações em caso de triunfo do "pimpolho" Bozinho.  As ruas cheias de milicianos, traficantes, uma legião de feminicidas, homófobos, desordeiros,  violentos, ignorantes, etc, todos promovendo um imenso carnaval fora de época e quebrando garrafas  e espalhando tiros de armas de fogo a três por dois.


Imagine agora a política salarial:  aposentados, servidores públicos de carreira, trabalhadores ativos não terão vez apesar de alguns participarem dessas verdadeiras folias satânicas -- não por eventualmente bozistas envolverem entidades africanas nos festejos (até porque a moda é ser evangélico, e as religiões da África estão em baixa e sofrendo perseguições), mas pela índole dos que estiverem engajados nas comemorações.  


O SUS vai direto à privatização ou extinção,  as mortes vão  se multiplicar de forma assustadora, as vacinas serão negligenciadas.  Por que essa palhaçada de comprar vacinas, se não servem pra nada?  É gastar dinheiro à toa, quando tem tanto bilionário e tanto banqueiro de boca escancarada, esperando as verbas do governo como passarinho de bico aberto à espera de receber comida do bico da mãe.   Aí vai surgir uma epidemia de Covid no Brasil, mas não haverá necessidade de ninguém se vacinar, segundo o ministro da Saúde, Jair Bolsonaro, retirado da cadeia por ato autoritário do presidente Bozinho, que terá aproveitado o ensejo para cerrar as portas do STF, deixando lá de plantão apenas André Mendonça e Nunes Marques, para depois nomear uns sessenta ministros, todos amigos da família, e assim recompor a  Corte.  Bolsonaro não será ministro apenas da Saúde, mas da Casa Civil, Casa Militar, Exército, Marinha, Aeronáutica, Defesa e presidentte vitalício do Supremo, acumulando todos os cargos, recebendo por cada um deles, mas passando os dias a pescar em Angra e aproveitando os domingos de descanso para promover e participar de motociatas.  Sobre a desnecessidade de imunização, alíás,  é preciso compreender que a necropolítica é muito importante para a robustez financeira dos governos autocráticos, que precisam dar muitos mimos às elites para estas manterem, mais que apoio, a sustentação a eles.  Velhos mortos e ausência de saúde pública geram uma puta economia aos cofres públicos, que aí passam a ter muito mais folga e conforto pra distribuir benesses entre seus representantes talibãs.                                      

Matar mulheres,  homossexuais, animais, pobres e idosos estará liberado, mensagem subliminar perfeitamente entendida já nos dias de hoje, em que o governo é progressista, mas a gritante maior parcela dos políticos e autoridades é de exrema-direita.  Só que os eleitores idiotas não entendem é que despossuídos, independentemente de serem idólatras da família Bozo, estarão todos sujeitos a desmandos como os que houve no tempo da ditadura militar.  As polícias saíam às ruas pra prender, matar e baixar a porrada, e não perdoavam desempregados e desordeiros de boteco, e não perguntavam a ideologia de suas vítimas: não será criada uma carteira de fascista.

Não tenho dúvida de que São Donald Trump, deus dos fascistas e estúpidos do Brasil, terá uma participação importante na volta dos extremistas de direita ao poder, só não posso mensurar ainda o tamanho e as características dessa interferência

O lado bom do fascismo é que um dia ele acaba, embora em geral se haja de esperar por uns vinte e poucos anos.  Pelo menos é o que podemos imaginar quando verificamos o tempo que Hitler e Mussolini permaneceram  no poder.  A própria ditadura brasileira durou vinte e um anos. No entanto, se considerarmos os casos de Stroessner  e Franco, que governaram respectivamente o Paraguai e a França França por 36 anos,  e a ditadura salazarista, que durou de 1933 a 1974, veremos então que a galerinha sadia irá precisar de um pouquinho mais de paciência. Coisas do fascismo.

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2026

BRITA

 Sou apenas um canteiro que é baldio,

Não a vasta natureza majestosa

Que teus olhos inventam, delirantes.

Não sou, não, a estrela-guia que cintila

Ou flor que brota, inesperada, em rachadura,

Nem acordes de piano em bela tarde,

Muito menos o cenário que se espera

Que floresça além de todos horizontes.

Eu sou duro como as britas das pedreiras

Eu sou seco como a areia dos desertos.

Se me olhar detidamente, notará

Que não sou a brisa fresca que acarinha,

Mas punhal, espinho e posso machucar.

Vendaval e tempestade de enxurradas,

Um mendigo que caminha pelas ruas

Sem jamais tentar chegar a canto algum.

Não manhã nem alvorada, mas crepúsculo,

Não orquestra nem sonata, mas mudez.

Deixe apenas que eu me vá pra todo o [sempre,

Se deseja de verdade ser feliz.

quinta-feira, 22 de janeiro de 2026

NAS ANDANÇAS DO PODER -- BREVE ANÁLISE

 

Do mesmo modo como os religiosos buscam, acima de tudo, o próprio bem-estar  e veem como meio de obter ou manter a felicidade as oferendas aos seus orixás ou as orações e louvações a Deus e outras entidades, os políticos e os membros dos três poderes da República, os profissionais e donos de órgãos de imprensa, os comunicadores de massa e a mídia no geral buscam a mobilidade social ou no mínimo a manutenção da própria condição nas bênçãos  de um ente bem mais concreto e palpável: o poder econômico.  Nessa troca de benesses, o poder público evita abalar o potencial econômico das elites, e elas em contrapartida apoiam políticos afinados com os objetivos de cada um dos seus setores.   Em outras palavras, as elites proporcionam aos que rezam ao pé dos seus altares altos cargos no executivo, legislativo e judiciário, quer no âmbito municipal, estadual ou federal (não havendo, é lógico, judiciário nos municípios do Brasil).

Vários setores que deveriam representar os interesses da sociedade convergem, muito pelo contrário, para um supremo e quase onipotente senhor, composto das mais altas castas do país: o topo da pirâmide social.

A partir dessa observação, "Nas Andanças do Poder" procura focalizar a maneira como as peças desse tabuleiro se movimentam.  Daí podermos notar que a confluência de interesses políticos e econômicos podem, não de maneira generalizada, mas incidente,  colocar representantes do poder público, do crime organizado, da religião e das camadas mais abastadas da população, ou apenas dois ou três desses segmentos, do mesmo lado do ringue, onde o grande adversário é a inumerável massa de assalariados, que abrange grupos que vão dos mais carentes à classe média intermediária (que não é alta nem baixa), que se considera privilegiada quando é justamente o contrário: é tão sacrificada quanto os outros mais baixos estratos sociais.

Assim se dá o jogo do poder no Brasil e no mundo inteiro ou quase inteiro, o que faz os ricos a cada dia mais ricos e deixa para os desprivilegiados conscientes uma indignação impotente, já que não há meios de romper esse estado de coisas, que se arrima nos meios de comunicação, nos braços armados do Estado e do crime organizado (que é clandestino, mas nada tem de marginal, pois, pelos lucros estratosféricos que aufere, pela quantidade astronômica de dinheiro que lava em negócios lícitos e no mercado financeiro, está perfeitamente enquadrado nos moldes do mais selvagem sistema capitalista -- ou  você acha que traficantes e milicianos são socialistas?) e na ignorância de uma absoluta maioria da sociedade, que vota contra si própria nos pleitos eleitorais, resiste ao conhecimento e parece se orgulhar de ser ignara.

domingo, 18 de janeiro de 2026

O PERFIL ACEITÁVEL (E ELOGIÁVEL) DO HUMOR

     


    Quando, entre 1976 e 1977,  o comediante Silvino Neto ( 1913 - 1991), ator, cantor, compositor e radialista brasileiro, pai do comediante Paulo Silvino (1939-2017), entrevistado pelo comunicador Jota Silvestre (1922-2000), foi indagado  sobre qual seria o caminho do humor no Brasil, respondeu "a sátira", fundamentando a resposta e concluindo que, "fora dela, não se estaria fazendo graça pra ninguém".






Imbuído de um senso crítico quase perverso desde a minha adolescência e tendo passado pela assistência de "Os Trapalhões" e outras comédias-pastelão das décadas de 1960 e 1970, mas tendo também visto "Faça Humor, Não Faça a Guerra" e "Satiricom" (homônimo-título da obra de Petrônio, da Antiga Roma) que era escrito por Max Nunes e Haroldo Barbosa, e reunia no elenco Jô Soares, Agildo Ribeiro, Renato Corte Real, José Vasconcellos, Paulo Silvino e outros grandes nomes da comédia nacional -- concordei plenamente com Silvino.  Depois viria a assistir a "O Planeta dos Homens",  uma crítica ácida ao sistema, a partir de uma paródia extremamente feliz de "O Planeta dos Macacos", e isso consolidou meu pensamento de que o humor não-crítico não diz mesmo nada a ninguém.  A comédia de tombos de bunda  e tortas de glacê na cara, das situações desconfortáveis e dos corre-corres vem do início do cinema, ao final do século XIX, passou por Charles Chaplin e seguiu pelas décadas, perdendo a graça, a meu ver, ainda nos anos 70, por puro desgaste do tempo e cansaço dos olhos do público um pouco menos condescendente.



    O humor precisa ser engajado, analítico, crítico e, quando da sua elaboração, voltado às situações e circunstâncias atuais e vigentes.  Tem de passar longe do bom-mocismo e ser irreverente, acintoso, capaz de desancar e atirar no ridículo personagens, fatos, clichês e estados de coisas de sua época.  Tem de denunciar, criticar, insinuar, desacreditar, abrir os olhos de quem o lê ou vê, ou então no mínimo mostrar sua comunhão de ideias com este.

   Algumas vezes escrevi humor sem nenhuma segunda-intenção, mas foram apenas  algumas experiências para ver como seria meu texto fora do sarcasmo e da ironia, mas insisto, como Silvino Neto, em que não é esse o caminho do humorismo, pois, do contrário, como o próprio disse, "não se faz graça pra ninguém". 



    Não  é obrigatório que a sátira seja necessariamente política ou social, porque, no tempo de "Satiricom" e "Planeta dos Homens", estávamos em plena ditadura militar, o que não proporcionava aos autores e atores uma grande liberdade para cutucar assuntos mais polêmicos e de relação direta ou indireta com os desmandos do regime.  Assim, a temática objeto de sátira do programa foi na primeira versão a comunicação de massas, depois o comportamento humano e outros componentes que não levariam os militares a sentirem-se afrontados e a tirar a comédia do ar.  Muito embora houvesse vez por outra anedotas sutis que tocavam no que esses não queriam, tendo algumas sido vetadas, outras, simplesmente veiculadas por não abalarem as fundações do sistema.
"Feijão Maravilha", novela de Bráulio Pedroso, ainda do tempo da ditadura, satirizou os filmes de gangsters, "Que Rei sou EU(?)" parodiou os bastidores e a gestão do governo Sarney (já na democracia), travestindo-o de uma monarquia absolutista com muita corrupção e sem nenhum rumo ou habilidade ou competência para governar.





    Algumas vezes escrevi humor sem nenhuma segunda-intenção, mas foram apenas  algumas experiências para ver como seria meu texto fora do sarcasmo e da ironia, mas insisto, como Silvino Neto, em que não é esse o caminho do humorismo, pois, do contrário, como o próprio disse, "não se faz graça pra ninguém". 


Fotos: Google

quarta-feira, 7 de janeiro de 2026

MARA, A RAINHA DA PRAIA

 Dança Mara

A mais viva dentre as danças,

Sua, brilha

Sua pele apessegada,

Seu rostinho,

Suas pernas torneadas.

Já mostrou que a vida é dança

E reluz como os luares,

Tanto quanto espelhos d'água

Da cidade onde ela mora.


Entra n'água,

Baila assim como sereia,

Vem à tona

E sorri seu riso franco,

Ergue o corpo

E caminha entre as areias,

Eu lhe vejo os olhos claros

Tão pejados de poema,

Seus cabelos encharcados

Sobre os ombros cor de bronze.

Pula, roda, volta à dança,

Porque pulsa como a vida,

Pois clareia a praia inteira

E é assim como o verão.


domingo, 4 de janeiro de 2026

OS HUMANOS E O FILHO DEUS

 Ó, humanos vis, mantende o deus

Que vós criastes, que essa torpeza, que essa maldade

Que carregais

Em vossas almas

Tanto demanda

Pra vos sentirdes

Menos mesquinhos,

Pra que as barbáries

Que praticais, humanos, tenham

Sempre perdão 

--Se a hipocrisia

De vossa índole,

Ao vos fingir-vos arrependidos,

Será clemente,

Pois vós ao fim

Que na verdade

Vos julgareis.

Mantende vivo, mas muito vivo

O deus parido

Da natureza tão mentirosa

Que cultivais.

Um deus vos dá essa certeza

Tão descabida

De serdes entre

As criaturas

As mais perfeitas,

As prediletas, 

Mais importantes

E, assim, sagradas.



Não 

Abandoneis

Jamais a fé,

Se o deus que criastes à vossa semelhança

É pra punir cruelmente vossos desafetos

E perdoar vossos pecados hediondos.

Deus ainda vos dá o grande privilégio

De poderdes exercer vossa preguiça

E entregar em suas mãos a concretização dos   mil desejos que alimentais.

Ah, humanos vis, como eu odeio

Ser, salvo quanto às crenças que nutris

--que necessito e não alcanço --

vil, pequeno como vós!


SE EU PUDESSE CRER

 Se eu cresse numa existência após a morte,

Veria essa tal vida como tão somente o [sobreviver da consciência à sucumbência                         [da matéria,

Sem que nenhum outro corpo essa citada  consciência viesse um dia a habitar 

Ou, resignado, contaria com longos anos em zonas umbralinas

Para, após purgados os pecados, ascender a um plano espiritual mais elevado?

E nesse patamar iria preferir permanecer eternamente ou quereria retornar à [terra para me redimir dos malfeitos cometidos?

Mas e as pessoas que odeio mortalmente e [com repulsa, e aquelas que desprezo com [ausência total do mais pífio interesse ou emoção?

Como conseguiria eu aceitar o compulsório contato ou o convívio com essas      [novamente?

Se o Universo, dadivoso, reservasse a todos nós a vida eterna, 

Os nossos mortos, humanos e animais, não teríamos talvez motivo algum para [chorar,

Justamente por serem eles infindos como nós.

Se o reencontro seria magnífico tal como o paraíso que a alma sempre almeja e [sempre anseia.

Seria infinitamente bom se nisso eu cresse,

Mas o espiritualista que tentei com grande esforço em mim criar

Sucumbiu infelizmente à falta de respostas e às lacunas que as religiões e filosofias não conseguiram preencher,

E, então, fiquei tão cru, descrente, triste e [inconformado com meu fim, que é [uma certeza,

E com a ausência definitiva das pessoas e bichinhos que eu amei.

sexta-feira, 2 de janeiro de 2026

PARTIR II

  Só quero ir embora

Daqui da cidade:

Do lugar eu não tenho

O menor fragmento

E nela não vejo

Nadinha de mim.


Saí pelas ruas,

Bebi pelos bares,

Andei pelas vias:

Não vi poesia,

Não vi os campos belos

De Minas Gerais.


Até a mineirinha, 

Que agora mal vejo,

Não mais brilha ou dança

Nem tenho na cama,

Assim como eu,

Bem vi, envelheceu.


Só quero partir

Sem por um segundo

Olhar para trás

E de outra cidade

Sentir-me um pedaço,

Sentindo-a  em mim.


VELHICE

 O que me espera à frente,

Uns anos adiante,

Senão tentar debalde

Fugir das minhas trevas

Por labirintos negros,

Entre as assombrações?



Não nascerão auroras

Nem mesmo as esperanças,

Não ouvirei orquestras,

Será tudo sombrio,

Não haverá mais sambas,

Tampouco carnavais.



Temer o inevitável,

Ter salvação na morte,

Que é qual morar no nada,

Qual existir no nunca,

Que é tão absoluta,

Que é o fim de tudo, o fim(!).