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Demóstenes Barão da Mata - Crônicas, Humor, Contos, Poemas, Tudo
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quinta-feira, 18 de junho de 2026
NAS ANDANÇAS DO PODER -- DÉCIMA PARTE: "O AGRAVAMENTO DA CRISE"
As pessoas, todas as de razoável discernimento e de mínimo bom-senso, encontraram-se estupefatas com decisão de Nunes Marques, ministro do STF e presidente do TSE, que na condição de juiz eleitoral proibiu a divulgação de uma pesquisa que mostrava a queda dos números de Flávio Bolsonaro, indicado pelo pai a candidato a presidente do Brasil pela extrema-direita. Marques, aliás, foi também indicação de Jair Bolsonaro, ex-presidente da República, só que ao Supremo Tribunal Federal, e seu veredicto é apenas uma ponta do iceberg no que se refere à crise, que, se ja´ se agravou, tem ainda muito a se agravar.
O momento, no entanto, é de uma confluência de incidentes que deixa o Brasil numa situação de incertezas, medos, receios, inquietação, pois, fracassado o golpe que levou Jair Bolsonaro e outros a perderem a liberdade, a extrema-direita não parou mais de conspirar.
Eduardo Bolsonaro, foragido do Brasil, aliou-se a Paulo Figueiredo e obteve acesso a Marco Rúbio, secretário de Estado americano, que conseguiu de seu chefe, Donald Trump, a aplicação da Lei Magnitsky (que permite ao governo americano impor sanções econômicas e civis a autoridades estrangeiras por atentado aos direitos humanos e ao Estado Democrático de Direito) contra o ministro Alexandre de Moraes, da Suprema Corte, que fora relator das ações contra a tentativa de ruptura institucional, justamente pelo voto do magistrado ter prevalecido e resultado na condenação do pai de Eduardo e Flávio. Nem a esposa de Alexandre de Moraes foi poupada da represália. O Brasil teve uma infinidade de produtos tarifados em cinquenta por cento, ainda dentro do mesmo cenário de retaliações.
Meses após o mandatário americano recebeu Lula no Salão Oval, travou com esse um bom diálogo e posteriormente retirou várias sobretaxas e os atos contra Moraes e sua cônjuge.
Tudo teria ficado quase razoável se Flávio Bolsonaro, após queda nas pesquisas, que se deram por conta de a imprensa noticiar que o "Intercept" vazara mensagens comprometedoras do candidato a Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, extinto pelo Banco Central, por, segundo a mídia, uma série de irregularidades. O político foi aos Estados Unidos, com o fito de, entre outras coisas, destruir Lula politicamente para ganhar a corrida eleitoral; foi recebido por Trump e com ele tirou fotos em que também posaram Eduardo Bolsonaro e Paulo Figueiredo, conseguindo do ocupante da Casa Branca nova série de sanções, dentre as quais podemos destacar a classificação dos narcotraficantes como grupos terroristas (o que dá aos EUA a prerrogativa de entrar como queira no território nacional brasileiro e ainda prender quem bem entenda dentro do país, desobrigado de sequer justificar os motivos, já que as investigações das autoridades estadunidenses são sempre sigilosas nesse contexto -- coisa que tem alguma semelhança com o regime de exceção que vivemos de 1964 a 1985, em que os opositores da ditadura eram presos como subversivos, torturados como terroristas, e dentre estes muitos, como o deputado Rubens Beirodt Paiva, simplesmente desapareciam). Flávio deu a Tump tudo o que ele mais queria: pretexto para imiscuir-se no território do Brasil, influenciar no processo eleitoral para obter regalias dos Bolsonaro e, com a vitória ou derrota do candidato de oposição, devastar nossas riquezas e apossar-se de nossos recursos minerais ou, como atualmente se diz, minerais críticos ou terras raras.
Se os Estados Unidos já têm sido um problema imensurável, o Congresso Nacional, de maioria direitista, oportunista e reacionária, não permite nenhum avanço na área social (como na sabotagem do fim da escala de trabalho seis por um -- projeto do governo Lula) e no atravancamento de todos os passos pretendidos pelo presidente. Se o fascismo brasileiro, através de políticos impudentes, de membros das elites, principalmente as financeiras e agrárias, já é difícil de combater, imagine agora com o apoio de Trump. Elas, as elites, esfregam as mãos e arregalam os olhos, os braços abertos para um regime fascistoide que garanta a intocabilidade de seus privilégios e regalias e, mais que isso, aumente-lhes o poder econômico em detrimento das classes não-abastadas, com o empobrecimento das classes medianas e o agravamento da pobreza das camadas mais imprósperas, enquanto os extremistas de direita da política arreganham-lhes seu sorriso sórdido, cruel, cínico e pavoroso.
Lula e seus aliados políticos não são santos nem heróis, mas, enquanto os bolsonaristas e outros direitistas lutam por um sistema antidemocrático e um grave aprofundamento das desigualdades sociais, o atual presidente e apoiadores representam a democracia, um avanço sócio-econômico que ainda carece grande ampliação e que no entanto já se apresenta em seus primeiros estágios, além de lutarem por algo de elevada e indiscutível preciosidade que é a soberania nacional.
Eu próprio não sou lulista nem petista, mas não poderia jamais me furtar a reconhecer que, nesta conjuntura, somente o atual presidente e seus apoiadores estão empenhados em manter a autodeterminação e o perfil democrático do Brasil.
18 de junho de 2026
segunda-feira, 8 de junho de 2026
NUNES MARQUES NÃO QUER DIVULGAÇÃO DE PESQUISA ELEITORAL EM QUE FLÁVIO BOLSONARO APAREÇA COMO PERDEDOR
O ministro Kássio Nunes Marques, que era gordo e hoje é magro, era moreno e hoje tá quase louro, indicado ao STF pelo "grandioso" Jair Bolsonaro" (assim como André Mendonça, o "terrivelmente evangélico", cuja aprovação pelo Senado fez baixar em Michele o Divino Espírito Santo numa profusão de pulinhos e de palavras ininteligíveis que nem ele mesmo [Deus] entenderia) e agora presidente do TSE, proibiu hoje, a pedido do PL, a divulgação da pesquisa do Instituto Atlas Intel que aponta o derretimento, desintegração, liquefação da candidatura de Flávio Bolsonaro. É um fato inédito desde a primeira pesquisa eleitoral realizada no Brasil. Os números mais absurdos, as apurações mais estapafúrdias já foram realizadas pelos institutos de pesquisa, e nunca houve um único veto sequer de nenhuma delas pela Justiça. Como o fato em si não requer, obviamente, grandes análises justamente porque definitivamente não tem explicação, ficamos entretanto., a partir do fato, mergulhados em profundas indagações: como serão as eleições? Se Flávio perder nas urnas, a eleição presidencial será anulada? Por que motivo? Como ficará a candidatura Lula? Todo o tempo de campanha do atual presidente será cedido para direito de resposta do Bolsonarinho, e, ao final, Luís Inácio se dará conta de que terá tido, em toda a campanha eleitoral, apenas três minutos de fala e aparição, ficando a parte de elefante do seu tempo para Flávio?
O TSE tem ainda Raul Araújo, que não viu nenhum motivo pra Jair Bozo ficar inelegível, André Mendonça, que se recusa a deferir o requerimento de quebra de sigilo bancário do Flávio Bozinho, pedido pela Polícia Federal. O que esperar do TSE?
Que eleição presidencial nós teremos, com a metida de bedelho do Trump, a pedido dos irmãos Bozo e do Paulo Figueiredo, e a classificação das facções do tráfico como terroristas, o que permite que qualquer criatura brasileira seja presa e tirada de circulação pelos imperialistas americanos, independentemente de haver a menor motivação para isso? E por que os milicianos não receberam de Trump a mesma qualificação dos traficantes? Lula também será sequestrado e levado para um presídio americano de cuja localização não teremos a menor ideia? Acabou a democracia no Brasil? O pix, os minerais raros e o Brasil, prometidos aos EUA por Flávio, farão que o presidente americano se converta na maior autoridade eleitoral do País? Ou será ele eleitor único?
Por ora, ficará proibida qualquer menção não-elogiosa aos Bolsonaro? Em pouco tempo o Bozo patriarca ocupará 68 ministérios na Esplanada, sem incumbir-se por um minuto sequer de qualquer tarefa, mas com um poder de mando e uma autoridade sólida como montanha de ferro, só inferior, é claro, à dos nossos colonizadores americanos? Ocuparão mesmo os Bozo a condição de síndicos de um Brasil recebido de presente pela nação americana do Hemisféreio Norte?
Enfim, faço uma pergunta que sintetiza tudo, a que se resumem todas as outras: estamos em rumo a um processo eleitoral ou a um golpe de Estado?
segunda-feira, 25 de maio de 2026
RECANTO
E então, você não canta
Nem me chama pra sonhar
Debruçado na varanda,
Ante a luz do seu luar?
E então, não me convida
A dançar a dança ardente
Dos casais enamorados
E pulsantes de emoções?
Não irá me dar refúgio
No recanto aconchegante
Que é o calor dos seus abraços,
Seus afagos de mulher?
QUE INCRÉDULO?
Que descrente enfim eu sou,
Se o feitiço da morena
Me arrebata ao firmamento,
E eu deliro entre as estrelas
Num me-dar descomunal?
Mas que incrédulo sou eu,
Se sei santo o amor maior
Da Melzinha e Raposinha,
Amadinhas de focinho,
A fazer da casa o Céu
Ansiado pelos místicos
Co'a presença simplesmente?
Como nego essa magia
Que detêm os animais
De despir-me das maldades
E me encher do amor imenso
Que dilata o coração?
Como não me devotar
À sublime natureza
Com seus rios, suas matas,
Os seus bichos, suas cores
E seus sons mais divinais?
Os bichinhos, as florestas
E pessoas, poucas delas,
São amores que alimento,
Têm poder como de deuses
De me dar razões à vida,
São motor do meu desejo
De seguir tocando os dias:
São meus deuses essas vidas:
Que descrente então sou eu?
domingo, 12 de abril de 2026
PEQUENAS EMPRESAS, GRANDES NEGÓCIOS (ou JOGA A GLOBO NO LIXO)
"Seu Devair Boca Mole, de Brioco Oferecido do Sul, cidadezinha a 3 cm de Não Sei Onde Fica, começou trazendo sua vaquinha para a praça da cidade, para vender copos de leite tirados direto do animal. Míope, às vezes até se enganava e trazia seu boi, pois macho e fêmea eram malhados, mas as pessoas nem percebiam e compravam e bebiam do leite, nem notavam a diferença. Hoje seu Devair Boca Mole é o maior produtor de queijo da América Latina. Como o senhor conseguiu fazer crescer tanto o seu negócio, seu Devair?"
"Buena, eu tomava viagra, depois passei pra tadalafila, que descobri que tem um efeito muito mais prolongado..."
"Não, seu Devair, eu tô falando do negócio do queijo..."
"Ah, tá! Bah, foi simples! Eu rezava muito pra santo Antão dos Bestas, depois fui trabaiando, trabaiando e deu nisso tudo que deu."
"Seu Mané da Caipora, de Saci de Três Pernas, que fica a a 8 mm de Furico do Mundo, tinha um pé de manga no fundo do quintal e levava todos os dias cinco ou seis manguinhas maduras pra feira de Farofafá, vendia tudo e é hoje o maior produtor de mangas do Ocidente. Seu Mané, como o senhor obteve tão grande sucesso?"
"Uai, fui rezando muito e pagando muita promessa em Nossa Senhora Aparecida, dipois metia a mão na enxada, prantava, prantava, e agora é isso que cê vê."
"Seu Jabá das Candongas, De Buraco do Metrô, que sempre reutilizava as camisinhas que usava, pois achava um desperdício descartá-las, é hoje o maior produtor de camisinhas-de-vênus recondicionadas do Brasil, um negócio pioneiríssimo no país! O que o senhor pode falar sobre seu empreendimento?"
"Meu, o troço dá grana mesmo! Ante eu próprio catava as camisinha no chãos, mas a empresa cresceu tanto que tenho mais de mil catador de camisinha usada em toda a grande São Paulo."
A Globo, quer em suas novelas ou no seu programa insípido e monótono chamado "Pequenas Empresas, Grandes Negócios", quer passar a seus espectadores a ideia de que basta um sujeito começar um negocinho com uma jaca e um pedaço de pau pra ficar rico, que não se devem reivindicar melhorias nos níveis salariais nem tentar fazer valer os direitos de cidadão, como saúde, educação, emprego com salário digno do nome, segurança, habitação e outros direitos fundamentais de todo e qualquer ser humano. Não duvido de que alguns com pendores para empreendimentos consigam crescer financeira e socialmente, mas fazem parte das exceções, não da regra, pois a maioria não consegue meios e/ou não tem vocação para negociante. Há excelentes profissionais em todas as áreas, mas raríssimos dos que se desempregam ou se cansam de receber os salários miseráveis que o empresariado brasileiro paga alcançam erguer um estabelecimento industrial ou comercial de estruturas sólidas: a maior parte não vai além das carroças de camelô, vendendo churrasco ou cachorro-quente, ou acabam como motoboys ou motoristas de aplicativo.
A Globo, porém, é asquerosa, é o maior celeiro da mentira e da omissão da verdade do país, e quer empurrar pela cabeça das pessoas adentro que o primeiro passo é ser cordato, o segundo, empreender, ora! Produzir fortuna do nada. Tenho a impresssão que esse pessoal que produz o "Pequenas Empresas..." cai sempre em gargalhadas incontroláveis, dado a grande audiência de otários que ficam diante da televisão, olhando aquele monte de baboseiras que a emissora veicula como possibilidades reais na vida de todo mundo.
E essa mensagem safada as Organizações Globo não emitem somente através desses contos da Carochinha, mas também através de suas novelas, minisséries, especiais, em que qualquer zé-ruela consegue vir de uma miséria de impressionar indigente e de repente erguer um tremendo império empresarial. Já passou e muito da hora de a sociedade parar de engolir essa mentirada e fantasia barata, e largar toda a programação da Globo na lixeira, com toda a sua inutilidade e todos os seus fedores.
A globo apoiou Bolsonaro em 2018, na falta de Tarcísio, fecha agora com Flávio Bolsonaro, tá emprenhada, como toda a grande mídia, inclusive a Uol, que não é lá essas coisas em matéria de poder econômico, em esmigalhar os políticos e as políticas progressistas a partir da sabotagem corrosiva da imagem dos poucos homens públicos honestos e voltados às causas populares que há no Brasil, e o motivo é simples: A Globo é capitalista retrógrada e furiosa, antipovo, antipobre, anti-classe-média (que é tão imbecil que se vê como quase rica e entre as camadas ungidas pelos globais) e não tem pudor quando precisa se deslocar da direita pra cair extrema-direita, onde se sente confortavelmente em casa.
Como eu disse, já passou da hora de jogar a Globo no lixo.
sexta-feira, 3 de abril de 2026
NAS ANDANÇAS DO PODER -- NONA PARTE: "O GENERAL"
Numa tarde bonita de Copacabana, o general Maurício Sampaio degustava um belo chope com o seu irmão mais velho, o engenheiro Frederico Sampaio, enquanto ambos contemplavam a movimentação das pessoas que circulavam no calçadão e na ciclovia do outro lado da rua, e discutiam acerca da tentativa de golpe que teve seu ponto culminante no 8 de janeiro de 2023.
--Eu não participei daquela furada porque sabia que não daria certo.
Frederico olhou-o com um olhar inquisidor e disparou
--Você não devia participar daquela sujeira ainda que tivesse a certeza do sucesso.
Maurício olhou-o com certo desdém. Não entendia como aquele homem nascido do mesmo pai e da mesma mãe era tão diferente dele, "com manias de democracia e discursos progressistas". Não compreendia porque ainda se reunia com ele para tomar umas bebidas e falar de coisas da política e do mundo. Talvez porque o achasse inteligente e culto, porém avaliava que aquela companhia acabava saindo cara por conta das verdades que o interlocutor sempre lhe dizia.
--Mas acho que agora vamos ter a revanche -- tornou Maurício.
--É claro! O processo de golpe nunca parou! -- indignou-se Maurício.
--Que golpe o quê! O governo não pode ficar na mão de comunistas...
--Você sabe perfeitamente que Lula e o PT não são comunistas. Nem social-democratas eles conseguem ser porque o Congresso e as forças reacionárias que você defende não permitem.
--Pra mim tudo é comunismo!
--Você sabe perfeitamente que tá mentindo. Não sou ignorante nem despolitizado, e sei que você também não é. Não tenta sofismar pra mim.
--Com essa gente no poder os valores de família foram todos corrompidos...
--Não vem com essa história, Maurício! Deixa de ser hipócrita! Não vem falar em valores de família se você próprio tem amante. Casado e com amante, e até de suruba já participou após casado e pai de filhos.
--Você também não é nenhum poço de virtudes...
--Mas eu sou solteiro, não quero casar e não sou falso moralista. Além disso, o que é que Bolsonaro e a família dele têm de exemplares e inseridos nesse teu conceito moralistoide e falso de família? Vai falar em Deus e pátria também?
--Eu defendo Deus e pátria também...
---Defende nada, Maurício! No teu patriotismo, a pátria são teus interesses pessoais e teus anseios de poder, e Deus é você mesmo. Bolsonaro e família são patriotas? Você viu a proposta do Flávio no CPAC, de entregar nossas terras raras a Trump em troca de apoio à candidatura dele, Flávio? Isso é patriotismo, Maurício!? Isso é vergonhoso e muito mais. Nem tenho palavras pra classificar. Essa família não quer nem que o Brasil seja dela um feudo, mas apenas ter a situação de uma espécie de síndico de um Brasil ocupado, assim como Caifás e Pétain respectivamente na Judeia e na França ocupada. Você é uma xerocópia dos Bolsonaro, não por burrice, mas por buscar vantagens pessoais no contexto sócio-político.
--Mas esse momento tá perto de chegar -- apontou Maurício com um ar vitorioso: o Trump ainda esses dias vai qualificar os traficantes daqui como narcoterroristas, e logo, logo os militares americanos vão estar aqui dentro. E eu, é claro, vou ficar à disposição deles pra combater o crime.
--Você sabe que eles são traficantes, mas não podem ssr definidos como terroristas. Terroristas foram os militares do período da ditadura, que quiseram explodir o gasômetro e o Riocentro. Isso é nojento demais, Maurício! Você exaltar uma figura repugnante e nociva como o Trump e ainda abrir mão da soberania do país...? Que militar é você!?
--Se fosse a Rússia ou a China entrando aqui, você aceitaria de bom grado, porque o que quer é um regime comunista...
--Você de novo querendo me passar atestado de burrice. Pensa que sou imbecil? Primeiro China e Rússia nada têm mais de comunista, e além disso eu jamais festejaria a perda da soberania do meu país. Você é um militar fascista e entreguista, Maurício!
O general virou outro gole do chope:
--Você não pode falar de mim: sempre foi ovelha negra da família, sempre envolvido com mulheres, com putas, com pó... Você se lembra quando fui à polícia pra te soltar, porque tava doidão, com o nariz branco de cocaína?
Frederico começava a exasperar-se:
--Não muda de assunto, Maurício! Você quer que eu agradeça de novo? Ou quer cobrar pelos seus serviços?
--Não é isso, é que você não pode me criticar...
--Posso, sim, porque eu fazia mal a mim. Aliás, nem uso mais drogas, porém repito que eu fazia mal unicamente a mim mesmo, enquanto você quer a desgraça de todas as pessoas que não são ricas deste Brasil.
--Lá vem você com essa conversa de esquerdalha...
--Esquerdalha é neologismo desse ignorante mal-intencionado com que você colaborou porque baixou um decreto que elevou teus ganhos acima do teto do serviço público, e te deixou ganhando mais de cem mil por mês. O que te revolta é ter voltado ao salário de origem, dentro dos limites da lei.
--Viu? Papo de equerdalha...
--Não sou esquerdalha, sou de esquerda, socialista, enquanto você é oportunista.
--Não se envergonha de ser petista?
--Não sou petista, mas filiado e militante do PSOL. Mas teria orgulho de simpatizar com qualquer partido que como o PT, unido às esquerdas, tirou aquele purulento Bolsonaro do poder.
--Cara -- Maurício virou o resto da tulipa enquanto olhou para o irmão com cara de poucos amigos -- você por hoje me encheu o saco com essa tua conversa de herói nacional pela metade.
Frederico levantou-se de pronto:
--Não seja por isso! Só vou pagar minha despesa e ir embora daqui.
--Não precisa, deixa que eu pago...
--De forma nenhuma!
Chamou o garçom, pagou sua conta e, ao sair, disse ao irmão:
--Espero que, se acontecer o pior, tua consciência doa bastante.
Maurício nada respondeu, apenas ficou balançando a cabeça pra um e outro lado, com um sorriso debochado no rosto: quanta ingenuidade a de Frederico!
Abril de 2026
quarta-feira, 1 de abril de 2026
A REVOLUÇÃO DOS ARTISTAS
Se não existe em definitivo a justiça dos homens
Nem Deus no Universo a nos defender, resgatar,
Pois que venham então de todos os lados
Multidões de artistas sem nome e sem palco
E que invadam as sedes mesquinhas dos bancos,
E vejam seus lucros com profundo desdém.
Que vão pelas ruas numa utópica gana
De acabar co'a maldade, egoísmo e ganância.
Ocuparão os artistas auditórios e ruas,
Tocarão instrumentos de forma sagrada,
Cantarão nem fervor, num se-dar sem medidas.
Baterão seus tambores, seu bumbos, metais,
Mostrarão as pinturas de amadas despidas,
Paisagens bonitas parecendo infinitas.
Viverão Cristo e César, Mr. Hyde e Otelo,
E as pessoas, então, num espanto assombroso,
Conseguirão ver que a Arte é coisa maior.
TEU POR DEMAIS
Perdoa-me, amor, desmaiar de tão bêbado,
Sem perceber as batidas do teu coração.
Perdoa não dar o teu nome ao meu samba,
Pois podia quebrar a prosódia dos versos.
Mas, saiba, ao compô-lo, foi em ti que pensei.
Deixa agora de cisma, de mágoa e de medo:
Sente o afã, sente a entrega no meu beijo tão quente,
Sente o quanto incandesce o meu corpo no teu,
Nas palavras percebe um amor sem tamanho
E a franqueza dos mais fascinados poetas.
Sorri, meu amor, e me dá tuas mãos,
Vem comigo cantar poesia ao luar,
Olha fundo em meus olhos tão cheios de súplica
E entende, querida, que sou teu por demais.
[Fiz esse poema para o Marcelo Bizar musicar]
domingo, 22 de março de 2026
A MÚSICA
De longe, uma canção tão tristonha
Atravessa as cidades, as ruas e praças
E fica em minha alma, infinda, a tocar.
Não tem som, instrumentos a música,
Nem melodia, nem nota, é silente,
À alma torna tão cheia de sombras
A música vinda de um canto longínquo,
Do fundo do fundo, de dentro de mim.
DIA INFINITO
Hoje me fiz tão menino,
Hoje me fiz pueril,
Alumbrado tal como um bebê
Que brinca nas águas do mar.
Hoje me fiz sem pecado,
Hoje me fiz delicado
Como alma encantada de moça
Tomada de amor e paixão.
Beijei os teus lábios vermelhos
Deitei no teu corpo rosado,
E tudo ficou na memória
E me agitou de emoções.
Segui por ruas pequenas,
Andei por becos escuros,
Mas tudo eu via tão claro,
E vasto e tão musical.
A minha alma ribomba,
Parece dançar em festança
E se emprenhou da alegria
Que trouxe a fascinação.
Quando de novo eu te vir,
Não sei se terão teus olhos
O mesmo enlevo infinito
Ou serão frios, sem luz.
Só sei que o dia de hoje
Tem pura, doce magia,
Tem tanta lira, alegria,
Que, acho, não vai terminar.
