Num distante califado da Idade Média, um ferreiro começava a arrumar apressadamente os objetos no seu estabelecimento para fechá-lo: tinha um compromisso sério a cumprir com alguma urgência. Acontece que nesse exato momento chegam dois homens, um com uma faca doméstica e outro com uma uma espada, ambos querendo amolar seus instrumentos. O ferreiro cruza os braços, olha para os dois por alguns momento e avisa-lhes:
--Infelizmente tenho de fazer algo que envolve certa urgência e, embora meu tempo seja escasso, ainda poderei amolar a bainha de apenas uma de vossas ferramentas, o que, em outras palavras, quer dizer que só um de vós será atendido. Transformastes-vos em dois candidatos dos quais só a um poderei atender.
Os dois clientes permaneceram calados, e o ferreiro resolveu escolher o que atenderia a partir do seu próprio senso de justiça e necessidade. E assim resolveu fazer perguntas, e começou pelo homem que tinha a faca doméstica:
--Que uso fazes do que tens em punho?
O indagado sorriu com simpatia e respondeu:
--Faço um trabalho importante: há vários famintos num pequeno oásis, a duas léguas daqui, e o meu instrumento servirá para cortar legumes e outros alimentos que lhes dei.
O ferreiro o fitou com olhar rude:
--Quer dizer, então, que alimentas desocupados que não lutam pelo próprio sustento?
--Não, homem de Alá. Eu já lhes cedi terras em troca de alguns trabalhos, mas aquela gente ainda não teve tempo de ver o que semeou crescer. Por isso, enquanto não colhem os frutos do seu trabalho, eu lhes forneço a comida em troca de outros pequenos serviços, até que eles tenham condições de colher o que plantaram e desse modo ficarmos, eu e eles, totalmente independentes entre nós.
--Gente pobre logicamente. -- disse o ferreiro com desprezo.
Agora o homem do olhar rude volta-se para o da espada:
--E que uso tu, homem espadaúdo, farás dessa tua espada?
Ao que o outro respondeu com fala firme:
--Sou carrasco do califa e tenho a missão de hoje matar um pobre. Porém a minha espada encontra-se cega, e isso dificulta-me em cumprir com perfeição a ordem do califa. Não sei se sabes, mas o califa odeia pobres e me incumbe de matar um deles por dia.
O ferreiro, após ouvi-lo com atenção e com um balançar de cabeça de aprovação, sentenciou:
--Eu também odeio pobres, e o teu trabalho é inegavelmente muito mais nobre. Imagina a importância de um cortador de legumes comparada à de um intrépido carrasco do califa. Dou-te então, homem atribulado, a minha mais justa preferência -- e volta-se para o indivíduo do objeto doméstico: -- Agora, quanto a ti, ó homem desprezível, que saias e vás à procura de outro ferreiro. Se queres seguir a sustentar miseráveis, que amoles essa faca com outro que encontres a mais de seis léguas daqui.
E assim se deu. O homem da faca iniciou um longo percurso, à procura de outro ferreiro, enquanto o profissional deu-se a afiar a arma do sujeito que tinha por por profissão matar.
Concluído o trabalho, o ferreiro abriu um sorriso largo e comentou, feliz consigo mesmo:
--Ficou um primor, homem robusto do califa. Hoje exercerás o teu ofício sem a menor sombra de dificuldade.
O carrasco passou de leve um dedo na lâmina, concordou num gesto de aprovação que o trabalho fora primoroso, deu um passo para trás e depois girou a espada na horizontal e decepou a cabeça do ferreiro com um só golpe. A seguir monta em seu camelo e fala para o corpo dividido em duas partes:
--Esqueceste, homem tolo e arrogante, que, ferreiro, também eras pobre.
Moral da fabulazinha: pobre que escolhe candidato de ricos afia a espada do próprio carrasco.
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