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sábado, 11 de julho de 2026

NAS ANDANÇAS DO PODER -- OUTRO BREVE COMENTÁRIO


NAS ANDANÇAS DO PODER não é um trabalho jornalístico que me obrigue a acompanhar os acontecimentos políticos e geopolíticos passo a passo para manter o leitor atualizado.  A atualização se dá pelos noticiários oficiais e seus jornalistas profissionais.  E não sou jornalista nem me dou à pretensão de sê-lo: aqui me coube tão somente escrever um conto e uma série de crônicas, com personagens em sua maioria fictícios, que, com base na realidade relatada pelos órgãos de imprensa, sobretudo a investigativa, imaginam e dão uma ideia dos bastidores do poder no Brasil, o que de certo modo expõe as razões de o país ser tão farto em desigualdade sociais e injustiças de todos os gêneros. 


11 de julho de 2026


Demóstenes Barão da Mata

NAS ANDANÇAS DO PODER: DÉCIMA TERCEIRA PARTE: "É DANDO QUE SE RECEBE!"

             Quando Edvaldo, o chefão do tráfico, recebeu o telefonema do ex-deputado Adriano Ferraz, que avisou que iria vê-lo, ficou um tanto surpreso, já que havia quase quatro anos que os dois não se viam; desde o fim de mandato de deputado de Adriano.  Tinha um vago palpite do motivo da marcação daquele encontro em plena favela.  Ferraz não se reelegera em 2022 por sabotagens do próprio partido, em virtude de alguns caciques quererem abocanhar a obediência dos liderados que o ex-parlamentar tivera no período de seu exercício de mandato.  Entrara em baixa, perdera os influenciados, transformara-se num zero à esquerda dentro da Câmara dos Deputados, e muito possivelmente agora viria pedir apoio financeiro para concorrer novamente.  Quando tentou a reeleição, até a verba a ele designada fora escassa.  Adriano lamuriava-se muito por não exercer mais nenhuma liderança sobre ninguém quando Arthur Lira assumiu a presidência da Câmara e Bolsonaro, para não ter nenhum pedido de impeachment votado, fechou os olhos e deixou rolar livremente o orçamento secreto no Congresso, onde deputados e senadores passaram a manejar as verbas públicas a seu bel prazer e sem necessidade de prestar contas a nenhum órgão ou criatura.  Fosse outro a presidir a Câmara naquela época e Adriano ter-se-ia fartado bem mais do dinheiro dos impostos da sociedade, mas acabou ficando com migalhas por conta da parte que lhe coube da festança feita com o dinheiro dos impostos pagos pelos cidadãos.

Edvaldo conjeturava: não poderia ter Adriano outro assunto a tratar senão o regresso à vida política com a sua ajuda financeira.  O político sem mandato cumprira rigorosamente todos os ritos: ligara e avisara até o horário em que chegaria e com que carro e placa.  

Adriano já até tivera antes uma conversa com Carol, a jornalista, que ascendera na empresa de mídia e de repórter de rua passara a apresentar um programa jornalístico de notícias e debates.  Nada mais justo do que recorrer a ela, que no início da carreira dera-se a ele para conseguir uma entrevista exclusiva, e isso proporcionou um impulso altamente significativo à carreira da mulher.   Carol fora quase evasiva, dissera que levaria a sugestão de entrevista a ele, Adriano, ao editor do programa, e o ex-parlamentar argumentou que com tantos fatos acontecendo, como a oferta do Brasil, por Flávio Bolsonaro, a Trump, os desmandos de Hugo Motta e Davi Acolumbre nas duas casas do Parlamento, a briga entre Michelle e Flávio Bolsonaro, um turbilhão e uma profusão de acontecimentos conturbados, de atos de corrupção,  por que  ele, Adriano Ferraz, deputado de grande projeção e grande servidor da direita, tendo até por ocasião do fim do último mandato aderido ao bolsonarismo, não mereceria ser instado a opinar sobre algum ou vários assuntos?   Só não se reelegera por boicote dos colegas e por Bolsonaro não lhe depositar confiança, já que várias vezes opusera-se, ele, Adriano,  a algumas medidas do ex-presidente.  Contudo estava no aguardo de uma definição de Carol e do seu editor-chefe, mas não podia enquanto esperava ficar de braços cruzados, e aí é que Edvaldo acertava com a precisão de um fuzil com mira laser a finalidade de sua visita:

--E onde anda o Rogério? -- indagou Adriano em certo ponto da conversa.

--Rogério largou o negócio -- respondeu Edvaldo entre os penduricalhos de ouro do pescoço e dos pulsos -- Abriu uma birosca lá em Guarapari, tá vendendo bebida,  comida, peixe... Só não sei se lá tá vendendo "bagulho".

--É possível que sim. -- supôs Adriano.

Edvaldo concordou num sorriso vago e partiu para o pragmatismo:

--E o que eu ganho se te financiar?

Adriano ajeitou-se na cadeira de plástico sem braço, iniciou:

--Você viu quanto casuísmo o Derrite, os outros extremistas de direita e o "Centrão"  criaram pro Lula conseguir aprovar a lei antifacção?  Viu como a lei não ficou na íntegra como ele queria?

--Mas agora nós fomos classificados como terroristas.  Como fica?

--Temos de unir forças contra o Flávio Bolsonaro.  A merda foi ele que fez, mas mesmo assim acho que o Trump não vai fazer o sucessor.  Assim que terminar o mandato dele, a coisa deve voltar ao normal.

--Mas isso é suposição, Adriano.

--Mas, Edvaldo, se tudo se der como o Flávio quer, o Trump vai ser dono do país, a família Bolsonaro, síndica do patrimônio, e nem vai haver necessidade de Congresso Nacional. 

O traficante cofiou o rosto de barba mal feita, em dúvida,  Adriano disparou:

--Vou propor uma lei de dosimetria pro caso de vocês.  Se a pena vai até quarenta anos, posso alegar a possibilidade de recuperação social de cada indivíduo dos grupos organizados e as más condições dos presídios do Brasil, que não reabilitam, mas habilitam cada vez mais o preso pro crime.

Edvaldo ficou a encará-lo:

--E tu vai ter cara-de-pau pra isso?

--Eu, não, mas vou arranjar alguém bem-afinado com a causa de vocês pra apresentar o projeto de seu interesse, além de tentar fazer lobby pro presidente da Câmara votar logo; isso se o presidente da Câmara não for eu.

--Você???

--Claro! Fique certo de que vou concorrer.

--Mas e quanto ao confisco dos nossos bens, se a gente for preso?  

--Meu parceiro, fiz boas relações no Judiciário durante o meu mandato.  Posso criar grandes dificuldades pra isso: só preciso ter o status de deputado.

--Acha que consegue?

--Não digo que a maioria aceita conversa, mas muitos dos juízes e desembargadores que conheço são bem flexíveis.

--Como assim?

--Conheço uns caras que fazem qualquer negócio em troca de grana.

--Ah...!

--Tem mais: vou apresentar projeto de lei,  a pretexto de proteger as comunidades das favelas, no sentido de a polícia não poder subir os morros senão com aprovação de várias entidades de Polícia, Justiça e do Ministério Público.

--Mas todos vão dar o sim.

--Mas esse trâmite vai ser tão demorado, que vai dar tempo de vazar a operação pra vocês.  Tem mais: vou procurar aprovar leis que gerem uma demora enorme pra que haja o confisco dos bens de vocês, sobretudo se estiverem em nome de terceiros.

Edvaldo olhou firme nos olhos de Adriano, apertou-lhe a mão com força, e o acordo estava selado.

                   Todos nós sabemos que "é dando que se recebe" é um trecho da miraculosamente linda "Oração de São Francisco de Assis", mas que foi repetida em 1988 por Roberto Cardoso Alves, um dos criadores e líder do "Centrão", como  lema desavergonhadamente fisiológico no período fa elaboração da Constituição atual.


11 de julho de 2026    

quarta-feira, 8 de julho de 2026

NAS ANDANÇAS DO PODER - DÉCIMA SEGUNDA PARTE; "O MILICIANO"

                 Etevaldo andava calmamente pelas ruas largas do bairro quente de sol escaldante, tendo a seu lado Rômulo, seu homem de confiança.  As pessoas cumprimentavam-no quando por ele passavam, algumas com o medo estampado na expressão do rosto, mas para Valdo (como o chamavam) aquele temor era motivo de orgulho.  Era um policial linha-dura e corrrupto, cruel, violento.

--Rômulo -- perguntou ao seu acompanhante -- o pó chegou ontem com total tranquilidade?

--Ninguém nem ousou xeretar.  -- respondeu envaidecido o outro, e seguiu: -- O cigarro vai chegar à tarde.  Acho que ninguém vai se meter a besta.

Etevaldo olhou ao redor.  Aquele bairro fazia parte do seu império, ele próprio se sentia um imperador.  Imaginou-se por segundos um  dono e senhor de países e continentes, um conquistador como Napoleão, Alexandre, Hitler, Mussolini, com povos e povos ajoelhados a seus pés, a prestar-lhe reverências.

Para chegar aonde estava, precisara emboscar e eliminar Marcondes,  o antigo chefe miliciano daquela região, com a ajuda de seus comparsas, mas a empresa valera a pena. Envolvera compra e cumplicidade de aliados do antigo chefe, da forma como agora, pensava, poderiam a qualquer momento cooptar Rômulo, seu principal parceiro, e outros entre seus comandados para matá-lo, mas para ele qualquer risco valia a pena.

Foi desviado de seus pensamentos pelo interlocutor:

--Valdo, só uma coisa me preocupa.

--E o que é? -- quis saber o chefão.

--Essa cagada que o Flávio Bolsonaro fez, de conseguir dos Estados Unidos a classificação do crime organizado como terrorista.  Tenho medo de eles darem umas duras e acabarem mexendo com a gente.

Valdo olhou para o longe com um ar vitorioso e respondeu:

--Não foi cagada, não.

--Ué!? Por quê?

--Quando o Flávio pediu, referiu-se aos traficantes...

--Mas nós fechamos um acordo com eles...

--Fechamos, mas nós, do nosso grupo, logo a seguir rompemos -- e riu: -- e olha que o Edvaldo é quase meu xará.

Rômulo também riu, Etevaldo continuou:

--Agora ele fica lá, eu fico aqui, e, se ele der mole, a gente vai lá e toma o território dele e transforma a área  em área de milícia.

--Você não tem mesmo receio? -- insistiu Rômulo.

--Não, nenhum! -- respondeu Valdo enquanto seguia andando -- Ele foi específico: narcoterroristas.  Nós vendemos "bagulho", mas ninguém oficialmente sabe disso.  Não somos conhecidos como traficantes.   Trabalhamos em conjunto com armas pesadas, submetemos populações,  mas não fomos nem de longe citados como pessoas do que chamam crime.  Além disso, sou policial, um homem com emprego regular de combate ao crime.  Mais que isso: sou um homem da lei! -- e soltou uma sonora gargalhada.

Rômulo sorriu amarelo, Etevaldo prosseguiu, falando agora de modo sério:

--Tem outra coisa: vamos colocar muita gente no Congresso e na política como um todo nesse final de ano, além de comprar muitas autoridades, como já vimos fazendo há muito tempo.   Se já somos de algum modo intocáveis, agora vamos ser mais intocáveis do que nunca.  E vou te contar outra coisa: somos e vamos continuar sendo alegria da Farias Lima:  já investi hoje mais de três milhões no mercado financeiro.


08 de julho de 2026


NAS ANDANÇAS DO PODER - DÉCIMA PRIMEIRA PARTE; "O DESEMBARGADOR"

                 O desembargador Lauro Andreotti passou pela secretaria do  gabinete com sua toga preta dependurada num braço, cumprimentou os funcionários e andou até o gabinete, onde refestelou-se em sua cadeira acolchoada e confortável.  A seguir um funcionário adentrou o recinto e anunciou:

--Excelência, o doutor Jorge Siqueira quer falar com o senhor.

--Manda ele entrar. -- o magistrado anuiu de pronto.

Siqueira, advogado de um importante banco, logo estava à sua frente e foi convidado gentilmente  a sentar-se na cadeira em frente à do magistrado.

--O que me conta de novo, meu amigo? -- indagou Lauro.

--Nada de excepcional, meu amigo.  Apenas a mesma luta de sempre.

--A luta aqui é a mesma, mas a gente aqui vai levando.

--E a política? Como é que tá? -- ajeitou-se na cadeira o desembargador.  Esse ano a gente tira ou não tira o barbudo velho do governo?

--Você sabe que eu sou representante da OAB, não é?  No que depender de nós, advogados, esse sujeito leva um pé no traseiro e vai pra um asilo de velhos.

Lauro sorriu, acarrapachou-se na cadeira, e sua barriga um tanto proeminente se destacou:

--Rapaz, eu odeio a esquerda... 

--E quem de bom-senso não odeia? -- o advogado respondeu com uma pergunta retórica.

--Há quem diga que é uma temeridade votar no Flávio Bolsonaro, mas eu vou arriscar.

--Ora, e eu também.

--Mesmo? apesar de ele poder vir a afetar com alguma medida maluca o sistema financeiro...?

--Ele é nosso amigo: não faria isso.

--Não, não propositadamente.  -- balançou a mão o juiz -- Eu digo uma medida numa outra área qualquer que acabe afetando involuntariamente os bancos.

--Acho que até nisso ele teria cuidado.

--Mas ele não pensou em nada quando foi até o Trump pra pedir tarifas contra o Brasil.

--Mas exigir dele inteligência seria de mais, não é? -- riu Siqueira, e  Lauro deu uma pequena gargalhada junto com ele.

Depois o advogado apontou na direção do julgador  e disse em tom de pilhéria:

--Acho que você tá querendo me convencer a votar no PT.

--Longe de mim! -- riu e levantou os braços o desembargador.

Jorge iniciou um pequeno discurso:

--As esquerdas são medonhas, tentam desestabilizar a solidez dos pilares das instituições financeiras.  Eu, como advogado de banco, percebo bem isso.  Acham que a riqueza é um pecado mortal que demanda combate e destruição, mas na verdade são uns recalcados, uma praga pior que de gafanhotos.

--Eu também acho: eles nos aporrinham muito com suas demandas.

--Por falar em demanda, meu amigo, eu gostaria de voltar a falar naquela ação coletiva em face do banco, que, se ganha, vai onerar muito a instituição...

--Quanto a isso você pode manter alguma tranquilidade, porque sou o relator, vou votar contra os requerentes, mas, antes de elaborar meu voto, vou consultar e tentar convencer meus pares a acompanhar meu voto.

--Ficamos muito gratos a você, meu amigo!  Sabe que nunca esquecemos um afago como esse.  Tem plena consciência de que sabemos demonstrar gratidão.

--Não tenha dúvida disso, meu ilustre amigo.

E a conversa continuou alegre e animada, entre conjeturas e manifestação de desejos acerca do Brasil.


08 de julho de 2026