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quarta-feira, 8 de julho de 2026

NAS ANDANÇAS DO PODER - DÉCIMA SEGUNDA PARTE; "O MILICIANO"

                 Etevaldo andava calmamente pelas ruas largas do bairro quente de sol escaldante, tendo a seu lado Rômulo, seu homem de confiança.  As pessoas cumprimentavam-no quando por ele passavam, algumas com o medo estampado na expressão do rosto, mas para Valdo (como o chamavam) aquele temor era motivo de orgulho.  Era um policial linha-dura e corrrupto, cruel, violento.

--Rômulo -- perguntou ao seu acompanhante -- o pó chegou ontem com total tranquilidade?

--Ninguém nem ousou xeretar.  -- respondeu envaidecido o outro, e seguiu: -- O cigarro vai chegar à tarde.  Acho que ninguém vai se meter a besta.

Etevaldo olhou ao redor.  Aquele bairro fazia parte do seu império, ele próprio se sentia um imperador.  Imaginou-se por segundos um  dono e senhor de países e continentes, um conquistador como Napoleão, Alexandre, Hitler, Mussolini, com povos e povos ajoelhados a seus pés, a prestar-lhe reverências.

Para chegar aonde estava, precisara emboscar e eliminar Marcondes,  o antigo chefe miliciano daquela região, com a ajuda de seus comparsas, mas a empresa valera a pena. Envolvera compra e cumplicidade de aliados do antigo chefe, da forma como agora, pensava, poderiam a qualquer momento cooptar Rômulo, seu principal parceiro, e outros entre seus comandados para matá-lo, mas para ele qualquer risco valia a pena.

Foi desviado de seus pensamentos pelo interlocutor:

--Valdo, só uma coisa me preocupa.

--E o que é? -- quis saber o chefão.

--Essa cagada que o Flávio Bolsonaro fez, de conseguir dos Estados Unidos a classificação do crime organizado como terrorista.  Tenho medo de eles darem umas duras e acabarem mexendo com a gente.

Valdo olhou para o longe com um ar vitorioso e respondeu:

--Não foi cagada, não.

--Ué!? Por quê?

--Quando o Flávio pediu, referiu-se aos traficantes...

--Mas nós fechamos um acordo com eles...

--Fechamos, mas nós, do nosso grupo, logo a seguir rompemos -- e riu: -- e olha que o Edvaldo é quase meu xará.

Rômulo também riu, Etevaldo continuou:

--Agora ele fica lá, eu fico aqui, e, se ele der mole, a gente vai lá e toma o território dele e transforma a área  em área de milícia.

--Você não tem mesmo receio? -- insistiu Rômulo.

--Não, nenhum! -- respondeu Valdo enquanto seguia andando -- Ele foi específico: narcoterroristas.  Nós vendemos "bagulho", mas ninguém oficialmente sabe disso.  Não somos conhecidos como traficantes.   Trabalhamos em conjunto com armas pesadas, submetemos populações,  mas não fomos nem de longe citados como pessoas do que chamam crime.  Além disso, sou policial, um homem com emprego regular de combate ao crime.  Mais que isso: sou um homem da lei! -- e soltou uma sonora gargalhada.

Rômulo sorriu amarelo, Etevaldo prosseguiu, falando agora de modo sério:

--Tem outra coisa: vamos colocar muita gente no Congresso e na política como um todo nesse final de ano, além de comprar muitas autoridades, como já vimos fazendo há muito tempo.   Se já somos de algum modo intocáveis, agora vamos ser mais intocáveis do que nunca.  E vou te contar outra coisa: somos e vamos continuar sendo alegria da Farias Lima:  já investi hoje mais de três milhões no mercado financeiro.


08 de julho de 2026


NAS ANDANÇAS DO PODER - DÉCIMA PRIMEIRA PARTE; "O DESEMBARGADOR"

                 O desembargador Lauro Andreotti passou pela secretaria do  gabinete com sua toga preta dependurada num braço, cumprimentou os funcionários e andou até o gabinete, onde refestelou-se em sua cadeira acolchoada e confortável.  A seguir um funcionário adentrou o recinto e anunciou:

--Excelência, o doutor Jorge Siqueira quer falar com o senhor.

--Manda ele entrar. -- o magistrado anuiu de pronto.

Siqueira, advogado de um importante banco, logo estava à sua frente e foi convidado gentilmente  a sentar-se na cadeira em frente à do magistrado.

--O que me conta de novo, meu amigo? -- indagou Lauro.

--Nada de excepcional, meu amigo.  Apenas a mesma luta de sempre.

--A luta aqui é a mesma, mas a gente aqui vai levando.

--E a política? Como é que tá? -- ajeitou-se na cadeira o desembargador.  Esse ano a gente tira ou não tira o barbudo velho do governo?

--Você sabe que eu sou representante da OAB, não é?  No que depender de nós, advogados, esse sujeito leva um pé no traseiro e vai pra um asilo de velhos.

Lauro sorriu, acarrapachou-se na cadeira, e sua barriga um tanto proeminente se destacou:

--Rapaz, eu odeio a esquerda... 

--E quem de bom-senso não odeia? -- o advogado respondeu com uma pergunta retórica.

--Há quem diga que é uma temeridade votar no Flávio Bolsonaro, mas eu vou arriscar.

--Ora, e eu também.

--Mesmo? apesar de ele poder vir a afetar com alguma medida maluca o sistema financeiro...?

--Ele é nosso amigo: não faria isso.

--Não, não propositadamente.  -- balançou a mão o juiz -- Eu digo uma medida numa outra área qualquer que acabe afetando involuntariamente os bancos.

--Acho que até nisso ele teria cuidado.

--Mas ele não pensou em nada quando foi até o Trump pra pedir tarifas contra o Brasil.

--Mas exigir dele inteligência seria de mais, não é? -- riu Siqueira, e  Lauro deu uma pequena gargalhada junto com ele.

Depois o advogado apontou na direção do julgador  e disse em tom de pilhéria:

--Acho que você tá querendo me convencer a votar no PT.

--Longe de mim! -- riu e levantou os braços o desembargador.

Jorge iniciou um pequeno discurso:

--As esquerdas são medonhas, tentam desestabilizar a solidez dos pilares das instituições financeiras.  Eu, como advogado de banco, percebo bem isso.  Acham que a riqueza é um pecado mortal que demanda combate e destruição, mas na verdade são uns recalcados, uma praga pior que de gafanhotos.

--Eu também acho: eles nos aporrinham muito com suas demandas.

--Por falar em demanda, meu amigo, eu gostaria de voltar a falar naquela ação coletiva em face do banco, que, se ganha, vai onerar muito a instituição...

--Quanto a isso você pode manter alguma tranquilidade, porque sou o relator, vou votar contra os requerentes, mas, antes de elaborar meu voto, vou consultar e tentar convencer meus pares a acompanhar meu voto.

--Ficamos muito gratos a você, meu amigo!  Sabe que nunca esquecemos um afago como esse.  Tem plena consciência de que sabemos demonstrar gratidão.

--Não tenha dúvida disso, meu ilustre amigo.

E a conversa continuou alegre e animada, entre conjeturas e manifestação de desejos acerca do Brasil.


08 de julho de 2026