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quarta-feira, 8 de julho de 2026

NAS ANDANÇAS DO PODER - DÉCIMA PRIMEIRA PARTE; "O DESEMBARGADOR"

                 O desembargador Lauro Andreotti passou pela secretaria do  gabinete com sua toga preta dependurada num braço, cumprimentou os funcionários e andou até o gabinete, onde refestelou-se em sua cadeira acolchoada e confortável.  A seguir um funcionário adentrou o recinto e anunciou:

--Excelência, o doutor Jorge Siqueira quer falar com o senhor.

--Manda ele entrar. -- o magistrado anuiu de pronto.

Siqueira, advogado de um importante banco, logo estava à sua frente e foi convidado gentilmente  a sentar-se na cadeira em frente à do magistrado.

--O que me conta de novo, meu amigo? -- indagou Lauro.

--Nada de excepcional, meu amigo.  Apenas a mesma luta de sempre.

--A luta aqui é a mesma, mas a gente aqui vai levando.

--E a política? Como é que tá? -- ajeitou-se na cadeira o desembargador.  Esse ano a gente tira ou não tira o barbudo velho do governo?

--Você sabe que eu sou representante da OAB, não é?  No que depender de nós, advogados, esse sujeito leva um pé no traseiro e vai pra um asilo de velhos.

Lauro sorriu, acarrapachou-se na cadeira, e sua barriga um tanto proeminente se destacou:

--Rapaz, eu odeio a esquerda... 

--E quem de bom-senso não odeia? -- o advogado respondeu com uma pergunta retórica.

--Há quem diga que é uma temeridade votar no Flávio Bolsonaro, mas eu vou arriscar.

--Ora, e eu também.

--Mesmo? apesar de ele poder vir a afetar com alguma medida maluca o sistema financeiro...?

--Ele é nosso amigo: não faria isso.

--Não, não propositadamente.  -- balançou a mão o juiz -- Eu digo uma medida numa outra área qualquer que acabe afetando involuntariamente os bancos.

--Acho que até nisso ele teria cuidado.

--Mas ele não pensou em nada quando foi até o Trump pra pedir tarifas contra o Brasil.

--Mas exigir dele inteligência seria de mais, não é? -- riu Siqueira, e  Lauro deu uma pequena gargalhada junto com ele.

Depois o advogado apontou na direção do julgador  e disse em tom de pilhéria:

--Acho que você tá querendo me convencer a votar no PT.

--Longe de mim! -- riu e levantou os braços o desembargador.

Jorge iniciou um pequeno discurso:

--As esquerdas são medonhas, tentam desestabilizar a solidez dos pilares das instituições financeiras.  Eu, como advogado de banco, percebo bem isso.  Acham que a riqueza é um pecado mortal que demanda combate e destruição, mas na verdade são uns recalcados, uma praga pior que de gafanhotos.

--Eu também acho: eles nos aporrinham muito com suas demandas.

--Por falar em demanda, meu amigo, eu gostaria de voltar a falar naquela ação coletiva em face do banco, que, se ganha, vai onerar muito a instituição...

--Quanto a isso você pode manter alguma tranquilidade, porque sou o relator, vou votar contra os requerentes, mas, antes de elaborar meu voto, vou consultar e tentar convencer meus pares a acompanhar meu voto.

--Ficamos muito gratos a você, meu amigo!  Sabe que nunca esquecemos um afago como esse.  Tem plena consciência de que sabemos demonstrar gratidão.

--Não tenha dúvida disso, meu ilustre amigo.

E a conversa continuou alegre e animada, entre conjeturas e manifestação de desejos acerca do Brasil.


08 de julho de 2026


 

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