O desembargador Lauro Andreotti passou pela secretaria do gabinete com sua toga preta dependurada num braço, cumprimentou os funcionários e andou até o gabinete, onde refestelou-se em sua cadeira acolchoada e confortável. A seguir um funcionário adentrou o recinto e anunciou:
--Excelência, o doutor Jorge Siqueira quer falar com o senhor.
--Manda ele entrar. -- o magistrado anuiu de pronto.
Siqueira, advogado de um importante banco, logo estava à sua frente e foi convidado gentilmente a sentar-se na cadeira em frente à do magistrado.
--O que me conta de novo, meu amigo? -- indagou Lauro.
--Nada de excepcional, meu amigo. Apenas a mesma luta de sempre.
--A luta aqui é a mesma, mas a gente aqui vai levando.
--E a política? Como é que tá? -- ajeitou-se na cadeira o desembargador. Esse ano a gente tira ou não tira o barbudo velho do governo?
--Você sabe que eu sou representante da OAB, não é? No que depender de nós, advogados, esse sujeito leva um pé no traseiro e vai pra um asilo de velhos.
Lauro sorriu, acarrapachou-se na cadeira, e sua barriga um tanto proeminente se destacou:
--Rapaz, eu odeio a esquerda...
--E quem de bom-senso não odeia? -- o advogado respondeu com uma pergunta retórica.
--Há quem diga que é uma temeridade votar no Flávio Bolsonaro, mas eu vou arriscar.
--Ora, e eu também.
--Mesmo? apesar de ele poder vir a afetar com alguma medida maluca o sistema financeiro...?
--Ele é nosso amigo: não faria isso.
--Não, não propositadamente. -- balançou a mão o juiz -- Eu digo uma medida numa outra área qualquer que acabe afetando involuntariamente os bancos.
--Acho que até nisso ele teria cuidado.
--Mas ele não pensou em nada quando foi até o Trump pra pedir tarifas contra o Brasil.
--Mas exigir dele inteligência seria de mais, não é? -- riu Siqueira, e Lauro deu uma pequena gargalhada junto com ele.
Depois o advogado apontou na direção do julgador e disse em tom de pilhéria:
--Acho que você tá querendo me convencer a votar no PT.
--Longe de mim! -- riu e levantou os braços o desembargador.
Jorge iniciou um pequeno discurso:
--As esquerdas são medonhas, tentam desestabilizar a solidez dos pilares das instituições financeiras. Eu, como advogado de banco, percebo bem isso. Acham que a riqueza é um pecado mortal que demanda combate e destruição, mas na verdade são uns recalcados, uma praga pior que de gafanhotos.
--Eu também acho: eles nos aporrinham muito com suas demandas.
--Por falar em demanda, meu amigo, eu gostaria de voltar a falar naquela ação coletiva em face do banco, que, se ganha, vai onerar muito a instituição...
--Quanto a isso você pode manter alguma tranquilidade, porque sou o relator, vou votar contra os requerentes, mas, antes de elaborar meu voto, vou consultar e tentar convencer meus pares a acompanhar meu voto.
--Ficamos muito gratos a você, meu amigo! Sabe que nunca esquecemos um afago como esse. Tem plena consciência de que sabemos demonstrar gratidão.
--Não tenha dúvida disso, meu ilustre amigo.
E a conversa continuou alegre e animada, entre conjeturas e manifestação de desejos acerca do Brasil.
08 de julho de 2026
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