Tive a oportunidade de assistir ao vídeo em que a Michelle Bolsonaro posou de virgem vestal atacada pelo enteado, Flávio Bolsonaro, por quem, aliás, simpatizo tanto quanto com a madrasta e um valão de esgoto a céu aberto. Com o perdão de vocês, assisti àquele ato teatral pela "Globo News", mas o que me assombrou foi o simulado envolvimento entusiástico da reacionária Andreia Sadi, que tentou envolver o público no sentido de indicar sutilmente que ali, em Michelle, era onde estava a opção, a solução, a salvação do Brasil. Posso entender perfeitamente a monótona e antipática apresentadora do telejornal "Estúdio I". Afinal ela tem patrões, e os seus patrões querem colocar no Planalto alguém aficionado pelo mercado financeiro, pelo agro, pela FIESP, pelas elites de um modo geral, a despeito das operações de gente do crime organizado na Faria Lima. A "Globo" quer o ultrarreacionarismo sócio-econômico imperando no Brasil com maior intensidade do que a atual, sem o mais leve risco de taxação, pagamento de imposto ou coisa do gênero. A insípida Andreia estava no seu papel: ou atende aos desígnios de seus empregadores com o empenho e a devoção de um fanático religioso que obedece cegamente ao que imagina ser uma ordem ou missão dada por Deus, ou então pega os retratinhos, maquiagens e escovas de cabelo na gaveta e vai embora para exercer seus dons ultraconservadores em outro lugar. Pouco importa a essa gente o fato de a Bolsonara rezar pela mesmíssima cartilha do marido, que queria para o Brasil um regime ditatorial, com prisão, espancamento, tortura, desaparecimento e morte de opositores: o que para eles tem relevância é aquele monte de cifrões dançando em sequência diante dos olhos. O que quero dizer, e vocês devem ter percebido, é que a emissora opera no agro, sistema financeira, etc, e daí sua desmedida preocupação com o bem-estar dessas elites.
Apesar de toda a apoteose e diligência extremosa da jornalista global, à noite houve um "podcast" na mesma emissora (que me recusei a assistir) que deu origem a um pequeno vídeo do Octávio Guedes, em que este alerta que Michelle é um perigo maior do que o que pretendia seu marido, pois tem ela o projeto de transformar o Brasil num Estado teocrático, rompendo assim com a Constituição, o Estado laico e a democracia. O mesmo alerta está contido num vídeo realizado pelo respeitável pastor e deputado Henrique Vieira, do PSOL, e a minha dúvida é se a "virgem vestal", evidentemente lobo em pele de cordeiro (não me agrada fazer a comparação, pois amo e respeito profundamente lobos e cordeiros), estava em campanha para a Presidência em 2030 ou já para 2026. O inquestionável, todavia, é que ela me apavora, indigna, dá náuseas, tanto quando o seu marido Jair e filhos homens.
Você sabe o que é um Estado teocrático? É você não ter o direito de exercer suas crenças ou descrenças, é ver o centros de umbanda e candomblé proibidos e desmoronados, com seus adeptos investigados e presos, com as igrejas católicas fechadas, utilizadas talvez como centros de culto aos Bolsonaro, com poster de todos eles por todos os lados e um dentre esses milhões de bajuladores ensaiando e tocando músicas em louvor ao ex-presidente e família, além de enaltecer os atos "heroicos" e "exemplares" praticados pelo ex-mandatário. Seriam recintos de exaltação e veneração a um militar que tentou explodir uma adutora do rio Guandu para obter melhor salário, que confessou ter estuprado uma galinha, que tentou não vacinar a sociedade brasileira contra a Covid-19 e por isso, segundo autoridades no assunto, provocou trezentas mil mortes a mais do que deveriam ter ocorrido. Um sujeito que xingava jornalistas quando as perguntas o embaraçavam, que utilizava um cercadinho onde se reunia a um grupo de desprezíveis puxas-sacos para se escarnecer dos momentos críticos vividos pelo Brasil durante a pandemia.
Como a ex-primeira-dama é cristã e evangélica, ou melhor, vê-se ou tenta se ver ou parecer cristã e evangélica, pois evangélico é aquele que acredita e tem uma conduta compatível com o que preconizam os ensinamentos de Jesus e defendem e relatam os Evangelhos de Lucas, Mateus, Marcos e João (seguidor que, porém, na prática não existe, pois não há crentalhão de comportamento consonante com as pregações de Jesus e dos evangelistas). Devo dizer, inclusive, que ser evangélico ou cristão não é uma exclusividade dos protestantes (pois na verdade protestantes é o que são os que louvam ou fingem louvar Cristo fora dos preceitos católicos, já que a fé e as práticas religiosas dessas pessoas são oriundas da dissidência de Calvino e Lutero, líderes da Reforma Religiosa, que no século XVI se opunham aos abusos da Igreja Católica --como venda de bulas de indulgência -- e à proibição da mesma Instituição à prática de usura -- já que florescia à época uma burguesia sem título de nobreza que queria emprestar dinheiro a juros, mas esbarrava na oposição do clero). Evangélico seria todo aquele que tenta ou finge se nortear pelos Evangelhos e pela orientação de Jesus, e dentre eles temos os católicos e os espíritas da escola de Allan Kardec, que têm seu "Evangelho Segundo o Espiritismo".
Independentemente das definições sobre o que é cristão e evangélico, temos de nos opor de forma incansável e obstinada a Michelle Bolsonaro, pois o Estado teocrático é perverso, tirânico, assassino, sórdido, desigual, demoníaco. No Afeganistão, os talibãs lideram a teocracia e são corruptos, cruéis, autoritários e estupradores. No Irã matam-se ou prendem-se mulheres simplesmente pelo não-uso de burka. O poder absoluto de qualquer religião dá origem a imensuráveis legiões de assassinos brutais. Mata-se e tortura-se em nome de Deus, como faziam os cruzados, o clero no tempo da Inquisição, martirizando judeus e queimando mulheres vivas como bruxas. Não me imagino, eu, ateu convicto, exaltando a epopeia de Moisés, que (segundo Will Durant, mas não com as mesmas palavras) invadiu brutalmente o território que hoje chamamos Canaã, mas que era um bom samaritano se comparado a Josué, que o sucedu após a sua morte.
É sobretudo pelo direito de escolha, zelo pelo democracia e pelas liberedades, além de pavor ao terror, que conclamo todas as pessoas de bom-senso para que exerçamos uma oposição intransigente e inflexível a Michelle Bolsonaro, pois a sua absurda e inconcebível ideia da implantação de um regime teocrático pode transformar o Brasil num país dantesco, num inferno que nenhuma concepção de inferno poderia descrever.
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