As pessoas, todas as de razoável discernimento e de mínimo bom-senso, encontraram-se estupefatas com decisão de Nunes Marques, ministro do STF e presidente do TSE, que na condição de juiz eleitoral proibiu a divulgação de uma pesquisa que mostrava a queda dos números de Flávio Bolsonaro, indicado pelo pai a candidato a presidente do Brasil pela extrema-direita. Marques, aliás, foi também indicação de Jair Bolsonaro, ex-presidente da República, só que ao Supremo Tribunal Federal, e seu veredicto é apenas uma ponta do iceberg no que se refere à crise, que, se ja´ se agravou, tem ainda muito a se agravar.
O momento, no entanto, é de uma confluência de incidentes que deixa o Brasil numa situação de incertezas, medos, receios, inquietação, pois, fracassado o golpe que levou Jair Bolsonaro e outros a perderem a liberdade, a extrema-direita não parou mais de conspirar.
Eduardo Bolsonaro, foragido do Brasil, aliou-se a Paulo Figueiredo e obteve acesso a Marco Rúbio, secretário de Estado americano, que conseguiu de seu chefe, Donald Trump, a aplicação da Lei Magnitsky (que permite ao governo americano impor sanções econômicas e civis a autoridades estrangeiras por atentado aos direitos humanos e ao Estado Democrático de Direito) contra o ministro Alexandre de Moraes, da Suprema Corte, que fora relator das ações contra a tentativa de ruptura institucional, justamente pelo voto do magistrado ter prevalecido e resultado na condenação do pai de Eduardo e Flávio. Nem a esposa de Alexandre de Moraes foi poupada da represália. O Brasil teve uma infinidade de produtos tarifados em cinquenta por cento, ainda dentro do mesmo cenário de retaliações.
Meses após o mandatário americano recebeu Lula no Salão Oval, travou com esse um bom diálogo e posteriormente retirou várias sobretaxas e os atos contra Moraes e sua cônjuge.
Tudo teria ficado quase razoável se Flávio Bolsonaro, após queda nas pesquisas, que se deram por conta de a imprensa noticiar que o "Intercept" vazara mensagens comprometedoras do candidato a Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, extinto pelo Banco Central, por, segundo a mídia, uma série de irregularidades. O político foi aos Estados Unidos, com o fito de, entre outras coisas, destruir Lula politicamente para ganhar a corrida eleitoral; foi recebido por Trump e com ele tirou fotos em que também posaram Eduardo Bolsonaro e Paulo Figueiredo, conseguindo do ocupante da Casa Branca nova série de sanções, dentre as quais podemos destacar a classificação dos narcotraficantes como grupos terroristas (o que dá aos EUA a prerrogativa de entrar como queira no território nacional brasileiro e ainda prender quem bem entenda dentro do país, desobrigado de sequer justificar os motivos, já que as investigações das autoridades estadunidenses são sempre sigilosas nesse contexto -- coisa que tem alguma semelhança com o regime de exceção que vivemos de 1964 a 1985, em que os opositores da ditadura eram presos como subversivos, torturados como terroristas, e dentre estes muitos, como o deputado Rubens Beirodt Paiva, simplesmente desapareciam). Flávio deu a Tump tudo o que ele mais queria: pretexto para imiscuir-se no território do Brasil, influenciar no processo eleitoral para obter regalias dos Bolsonaro e, com a vitória ou derrota do candidato de oposição, devastar nossas riquezas e apossar-se de nossos recursos minerais ou, como atualmente se diz, minerais críticos ou terras raras.
Se os Estados Unidos já têm sido um problema imensurável, o Congresso Nacional, de maioria direitista, oportunista e reacionária, não permite nenhum avanço na área social (como na sabotagem do fim da escala de trabalho seis por um -- projeto do governo Lula) e no atravancamento de todos os passos pretendidos pelo presidente. Se o fascismo brasileiro, através de políticos impudentes, de membros das elites, principalmente as financeiras e agrárias, já é difícil de combater, imagine agora com o apoio de Trump. Elas, as elites, esfregam as mãos e arregalam os olhos, os braços abertos para um regime fascistoide que garanta a intocabilidade de seus privilégios e regalias e, mais que isso, aumente-lhes o poder econômico em detrimento das classes não-abastadas, com o empobrecimento das classes medianas e o agravamento da pobreza das camadas mais imprósperas, enquanto os extremistas de direita da política arreganham-lhes seu sorriso sórdido, cruel, cínico e pavoroso.
Lula e seus aliados políticos não são santos nem heróis, mas, enquanto os bolsonaristas e outros direitistas lutam por um sistema antidemocrático e um grave aprofundamento das desigualdades sociais, o atual presidente e apoiadores representam a democracia, um avanço sócio-econômico que ainda carece grande ampliação e que no entanto já se apresenta em seus primeiros estágios, além de lutarem por algo de elevada e indiscutível preciosidade que é a soberania nacional.
Eu próprio não sou lulista nem petista, mas não poderia jamais me furtar a reconhecer que, nesta conjuntura, somente o atual presidente e seus apoiadores estão empenhados em manter a autodeterminação e o perfil democrático do Brasil.
18 de junho de 2026
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