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segunda-feira, 7 de setembro de 2020

NAS ANDANÇAS DO PODER -- PRIMEIRA PARTE: "O DEPUTADO"

 O DEPUTADO

cap 1

(O BÊBADO)

Desceu do táxi às oito da manhã. Vinha bêbado da noitada, a gravata e o paletó dependurado num dos braços. Entrou no prédio com os passos trôpegos, pegou o elevador e chegou ao apartamento. Dentro da sala, jogou-se ao sofá, e o revólver que portava caiu da cintura. Tirou-o do sofá e colocou-o sobre a mesa de canto.

A cabeça rodava, os pensamentos mais velozmente ainda.

Lá fora crianças brincavam. Era uma manhã serena e morna de primavera. Babás e mães empurravam seus carrinhos com bebês, colhendo para eles o sol da manhã dourada. Os carros passavam sem estardalhaços pela rua de pouco movimento e pouca atratividade pelos seus quebra-molas. Algumas raras buzinas se ouviam, o trânsito na rua transversal era intenso.

Ficou a matutar sobre a vida e o porre que tomara. De que valia a esbórnia e um porre? Besteira! De que valia a vida? De que valia tudo?

Mulheres decotadas passavam pela rua, os olhos ávidos do porteiro do prédio as acompanhavam. Moças de saia curta cutucavam-lhe os desejos.

O bêbado tentou levantar-se em vão, caiu sentado no sofá. Já nem se lembrava do momento em que pagara o táxi. Mas quase com certeza o pagara, pois do contrário teria havido uma confusão dos diabos na entrada do prédio. Levou uma das mãos ao rosto e teve vontade de chorar: uma lágrima desceu-lhe do rosto suado.

Um carro deslizou suavemente pela rua de pouco movimento. Uma babá tirou a criança do carrinho e a pôs no colo. Um menino andava vagarosamente em sua bicicleta, sobre a calçada de colorido piso. Um passarinho pousou num ninho defronte a uma janela, sobre o galho de uma árvore frondosa. Um casal de idosos passeava de mãos dadas, uma mulher bonita e de vestido com transparências arrastava atrás de si os olhos do porteiro. Outro menino passou calmamente em sua bicicleta. Um outro passarinho procurou o ninho. O estampido do tiro mortal encheu a manhã serena, subitamente convertida em manhã de pânico e estupefação.


2008

cap. 2

O deputado Adriano Ferraz teve uma ascensão política rápida, fácil, que poder-se-ia classificar, tal qual dizem as pessoas, como meteórica.  Filho de político reacionário que chegara a Brasília de modo mais demorado e fora galgando os cargos numa gradação corriqueira aos da classe, começando como vereador, depois chegando à Assembleia Legislativa para depois fincar pé em Brasília como deputado federal, abrindo anos depois   espaço para o filho ocupar uma cadeira na Câmara, a seu lado, ao final dos anos 1990,  rezando pela mesmíssima cartilha, entretanto de modo muito mais feroz.

Ferrazinho era arrogante, antipático, cara de quem sente nojo o tempo inteiro, não sei se por sentir o cheiro do próprio mau-caráter e imoralidade.  Mas firmou-se como deputado, exercia influência sobre alguns colegas, era respeitado, reverenciado e jamais abandonou os amigos dos tempos em que ainda vivia da mesada do papai "coruja".   Eram todos de classes abastadas, excelentes companheiros nas "baladas" das ruas da Zona Sul do Rio.  Nada como viver uma vida de facilidades e futilidades, mas isso para Adriano tinha seus momentos tediosos, que precisavam ser preenchidos com algo mais emocionante e apimentado, como vez por outra uma  briga de rua ou de bar.  Levando desse modo a vida, o "garoto do papai" formou-se em direito e a partir da formatura nada fez além de transar, beber, arranjar uma ou outra encrenca, aspirar pó branco e viver assiduamente as noitadas cariocas.

Um dia o pai o chamou para uma conversa, foi objetivo, minucioso e fê-lo ver que era preciso parar de levar aquela vida irresponsável e inconsequente, para não ficar conhecido como um jovem  vagabundo e mimado, pois pensava em lançá-lo na carreira política.   Reticente por alguns dias, resolveu Adriano abraçar a ideia com zelo e carinho quando consultou a namorada, que dissera que orgulhar-se-ia muito em vê-lo como uma celebridade da política. 

Há de reiterar-se que os amigos jamais foram esquecidos;  não somente os amigos ricos, mas também alguns poucos de origem pobre que fizera em suas idas a algumas favelas, onde vez por outra participava de bailes "funk" e aproveitava para visitar alguma boca-de-fumo e consumir uma ou outra coisinha ou conversar com os conhecidos bons de armas que faziam-lhe segurança quando ele e sua turma se metiam em alguma confusão que pudesse acarretar-lhes o menor risco quanto à integridade física.  Não vai daqui nenhuma condenação moral a usuários de drogas, mas há de se mencionar que a estrutura criminosa existente por trás dos narcóticos é motivo suficiente pra ficarmos bem longe dos profissionais dessa área.

Dentre esses amigos bons de armas teve  especial deferência com Rogério, importante gerente do tráfico, colecionador de óbitos,  a quem Adriano, logo que eleito, deu ternos e um banho de loja, além de nomeá-lo funcionário público, na função de motorista acumulada com a de segurança particular. Assim passou Rogério Ananias à condição de "homem de bem",  funcionário público respeitado e de grande prestígio entre lobistas e jornalistas que quisessem uma facilidade maior de acesso ao ilustre Adriano Ferraz.  Nem precisou concurso público, que seria o correto, mas o poder cria leis e meios de tornar as coisas fáceis pra si e pra  quem dele consegue se aproximar.  Tampouco foi necessário tentar dar um "jeito" nos relatórios de antecedentes do motorista, porque este, apesar de matador com  uma legião de defuntos no currículo,  não possuía ficha criminal: nunca fora acusado e tinha a ficha limpa e impoluta como a honra de um anjo.



CAP. 3


Assim que Adriano tomou posse, tratou logo de lotar o gabinete de funcionários.  Foi um trem da alegria como tantos extremamente comuns no âmbito da política, em que coloca-se pra dentro do serviço público uma enfiada de assessores inúteis  e sem concurso,  remunerados com salários nababescos,  e um dos meios de fazer que sobre verba pra outros trens da alegria é colocar a culpa nos ombros dos servidores concursados e estuprar-lhes os direitos e os ganhos.  A população adora linchamentos, e os políticos dão a ela o sangue que tanto a compraz.

Logo que Rogério foi nomeado, Adriano  impôs que este morasse fora da favela.  É favela mesmo: não é comunidade coisa nenhuma! O cunho comunidade foi um meio que se arranjou de fazer o problema das favelas ser entendido como resolvido e levar as pessoas a imaginar serem as favelas coisa do passado e hoje só haver comunidades.   A classe política, quando não quer dar solução a um problema, adota um caminho fácil: muda o nome da mazela e tudo parece resolvido e superado. 

Voltemos porém ao motorista: este foi morar num apartamento do Catete.  Rogério gostou do apartamento e da rua, e  vinha sempre de Brasília com Adriano quando o deputado resolvia passar o fim de semana no Rio.  Aliás, esses finais de semana eram todos e tinham início na quarta ou quinta pela manhã, prolongando-se às vezes até à segunda-feira.  Nada como ser político ou protegido de um deles: é de muito longe bem melhor do que trabalhar -- mas há políticos sérios e bons, apesar disto estar bem distante de corresponder à maioria.

O ex-traficante, nas ocasiões em que descia pro Rio, visitava a mãe no morro, conversava alguns momentos e com os antigos companheiros, e depois partia pras termas de Copacabana.   Não que no morro em algum momento houvesse-lhe faltado uma moça bonita com quem deitar-se para regalar-se dos seios túmidos, coxas roliças, nádegas protuberantes, mas é que achava os "inferninhos" lugares especiais.  Aquele cheiro de perfume das mulheres misturado ao de cigarro e carpete sem ventilação adentrava-lhe as narinas  atiçando-lhe de certo modo  os instintos, pois sempre vinha acompanhado da figura das moças seminuas ou totalmente desnudas, rebolando no palco de modo sensual e provocante.  Algumas olhavam-no e tratavam-no com extraordinário apreço.  Não seria pra menos: afinal era um traficante de prestígio e, embora agora afastado da boca-de-fumo, nunca deixara de passar sorrateiramente alguma droga pr'aquelas que eram usuárias.  Isso lhe valia sempre um ganho extra, ainda que o ganho fosse o corpo de uma daquelas moças bonitas e viçosas.

Adriano aliás compartilhava dos mesmos gostos do motorista e amigo, havendo-se conhecido os dois numa daquelas boates.   Nunca tivera também o político dificuldades para ter mulheres,  mas era atraído para aqueles ambientes pelos mesmos aromas e imagens de pecado que enlevavam Rogério.   E o pecado é simplesmente sublime, só os hipócritas e os falsos moralistas não têm a honestidade de admiti-lo.  

Rogério percorria o corpo das mulheres com seus olhos de luxúria: bundas magnificamente belas, despidas ou vestidas apenas de tiras fluorescentes para sobressaírem no ambiente escuro. Ficava a admirar e a analisar uma a uma das belas, todos os atributos físicos, o jeito de falar e dançar,  a sensualidade que destilava cada profissional do sexo daquelas.  E as profissionais do sexo são respeitáveis como quaisquer outras trabalhadoras, porque abraçam uma profissão que sequer lhes dá dá o direito à repulsa, obrigando-as a deitarem-se com aqueles que  se disponham a pagar pelo amor, sem que haja dissimulações de sentimentos ou juras vãs e ignóbeis.  Prostitutas nada respeitáveis são aquelas pessoas que vendem sua opinião,  sua postura  e suas atitudes, que mentem e sofismam em troca de benefícios financeiros ou de quaisquer outras naturezas; os que prostituem sua amizade por verem em alguém uma possibilidade de obter alguma vantagem pessoal, os que declaram uma falsa lealdade e outras hipocrisias semelhantes.    Há muitos políticos, formadores de opinião, gente da imprensa, negociantes, empresários, etc, que podemos chamar de prostitutas da pior espécie.

Uma vez Rogério, antes de Adriano tornar-se deputado, viu este ser empurrado por um outro sujeito e cair sentado sobre uma poltrona.  De pronto partiu na direção do agressor e apontou-lhe a arma bem nas fuças:

--O que é que tá havendo!!?

--Baixa essa porra, que eu sou policial! -- ordenou o outro.

--Foda-se! --retrucou Rogério -- Mas quem tá com a arma nos teus cornos sou eu!

O policial explicou agora num tom brando:

--Mas ele passou a mão na minha mulher.

--Tua mulher?? -- o traficante olhou firme pro policial -- Tua mulher tá aqui? Tua mulher é puta?

Um conhecido de Rogério imiscuiu-se:

--Tua mulher é puta, tá aqui trabalhando, é?  A minha, não. A minha tá lá em casa...

Um garçom e o segurança da casa intervieram, conciliadores:

--Vamos esfriar os ânimos, gente...

--Vamos parar: isso não leva a nada: todo mundo só quer se divertir.

O policial foi pra bem distante dos outros, Adriano ficou olhando pra Rogério, entre desconcertado e agradecido. 

--Vamos tomar mais uma! -- propôs o traficante, quebrando aquele clima desconfortável.

E os dois ficaram ali até terminarem as atividades da casa, indo-se após a partida do agressor, que foi embora com o rabo entre as pernas e quieto como uma criança bem comportada.


 

cap. 4


Adriano, em sua carreira política, soube de  muito esquema de corrupção ao seu redor.  Foi vendo, foi vendo e, como não viu  ninguém ser preso ou pelo menos permanecer na cadeia, resolveu participar de alguns.  Os gastos já iam lá pela estratosfera: afinal mulheres, bebidas, bacanais, drogas, festas, tudo isso e mais deveria ser financiado por rendas extraordinárias, não pelo seus ganhos elevadíssimos  e mordomias suadas de deputado.  

Rogério era seu homem de confiança, encarregado de receber as propinas e subornos.

--Meu motorista vai aí apresentar a documentação ao senhor. --dizia sempre do celular quando queria informar que o homem de confiança iria pegar o dinheiro com quem o subornava.

Todavia numa daquelas vezes um empresário que subornara-o para apresentar e defender projeto de lei de interesse dele, empresário, avisou-o depois de que o contador da empresa, que tomara ciência da destinação da verba, insatisfeito com as condições salariais, ameaçara pedir demissão e botar a boca no mundo. Adriano então convocou  o capanga, e Rogério veio ao Rio num domingo, obteve dos amigos do tráfico um carro de placa "fria", passou uma tarde inteirinha aguardando o contador sair do bar,  e ao vê-lo se levantar e partir para casa, esperou uns  minutos e depois ligou e emparelhou o automóvel  com o homem, que seguia a pé, e disparou nele seis tiros certeiros e mortais.  Logo depois acelerou, atravessou o túnel e do outro lado subiu a favela numa moto que o já esperava no local em que saltou.  Aquilo rendeu ao assassino um bom dinheiro, que recebeu do dono da empresa, pois seu chefe mandou avisar pessoalmente a  a este do "trabalho" que mandara fazer e seria, segundo o deputado,  de competência do outro, que pagou sem nenhuma objeção.

Rogério  era braço-direito de  Adriano.  De absoluta confiança, leal, dedicado e devotado ao chefe.  Noutra vez  um eleitor viu o parlamentar chegar defronte à residência oficial, em carro também oficial, dirigido pelo subordinado, e gritou-lhe umas verdades:

--Seu desgraçado! Você é o carrasco das classes trabalhadores! Baba-saco de rico! Demônio!

Rogério abriu rapidamente  a porta do carro, saltou enquanto avisava:

--Vou dar umas porradas nesse cara!

--Fica aí! -- Adriano precisou gritar. 

Rogério parou, ficou a fitá-lo com as mãos cerradas e os músculos retesados.

--Fica aí! -- repetiu Adriano. Depois explicou a um Rogério confuso: -- Se ele leva um tapa, eu fico "queimado". Imagina a imprensa sabendo disso. Imagina que prato pras esquerdas! Entra e senta de volta. -- apontando para o banco do volante. 

O motorista sentou-se , calado, Adriano suspirou, o manifestante ficou quedado e lívido.  Segundos depois foi embora.

O deputado, após ver o subalterno mais sereno, autorizou-o a sair do carro e perguntou:

--Tá mais calmo agora?

--Não tava nervoso, só ia fazer o que...

--Não faz nada nunca sem eu mandar.  -- instruiu Adriano num tom macio --  Você acha que eu vou ficar dando mole, agora, no terceiro mandado e sem passar por nenhum percalço?  Vou virar notícia por um merdinha que resolve me ofender?

Quando os dois já iam andando lado a lado, avisou:

--A gente vai pro Rio amanhã.   Vou dar uma "perna-de-três" na Sabrina e você vai pegar umas cinco meninas no puteiro pra gente fazer uma brincandeira lá em casa.

--Opa! Valeu! -- brandiu o braço o outro, numa euforia.

--Sabrina que me perdoe, -- comentou o chefe -- mas amanhã eu quero é muita putaria. Não vou ver ela, não.

--Mas ela vai acabar sabendo que tu vai estar no Rio.

--Pensando bem, não vou fazer lá em casa.  Nós vamos lá pra minha casa, no sítio.  Seu eu ficar no Rio, ela é capaz de aparecer por lá.

Rogério observava que a cada dia Adriano mais caía na orgia e mais se afastava de Sabrina.

--Ela vai "rodar".  Eu vou lá ficar preso a ela, com tanta mulher pelo mundo?

Rogério sorriu, os dois seguiram andando.



CAP. 5


Acontece que Sabrina estava grávida.   Um descuido de ambos, uma "tabela" mal feita, um acidente, sabe-se lá, mas o fato é que estava grávida.  Faltou -lhe a menstruação, a moça fez os exames, apareceu a verdade! Positivo pra gravidez!

Esperara Adriano no fim de semana em que ele resolveu ir ao sítio.  Como não viu seus telefonemas atendidos, na segunda-feira, após muita insistência, conseguiu avisar aos prantos:

--Tô  grávida! Grávida, ouviu? E você, fugindo de mim. -- e bateu a seguir o telefone.  

Naquela semana Adriano não conseguiu trabalhar em paz, quarta de manhã pegou o voo para o Rio.  

O pai de Sabrina era um delegado de polícia de cinquenta e oito anos, divorciado e que morava sozinho num apartamento do Grajaú.  Tinha-a  e a mais duas filhas, três lindezas de qualquer cristão se encantar.  Todas moravam com a mãe, enquanto Nélson, o pai da moça, também afeito à noite e ao pecado, vivia pelas músicas ao vivo dos bares, clubes, uisquerias, sempre envolvido com uma ou outra mulher.  Não frequentava os prostíbulos, achava de mau-gosto e preferia uma bela conquista a um programa sem nada de emocional.  Era um homem de jeito sereno, palavras e gestos comedidos.  Apesar dos três anos de separação, ainda doía de certo modo não viver com a ex-mulher e principalmente as filhas.  Apegara-se muito à família, mas a vida de policial trazia-lhe muitas tentações, e a infidelidade fizera-o perder o casamento.  

Sabrina era a filha do meio, com vinte e sete anos, e foi até à casa do pai para contar a novidade.

--E você vai ter essa criança? -- ele quis saber.

--Vou, sim, pai.  Não vou abortar.

Nélson levantou -se do sofá, olhou firme e calmamente para a filha:

--Apoio você na decisão que tomar.

A filha balançou a cabeça e baixou os olhos...

--E o Adriano? O que ele acha? -- perguntou o pai.

--Ele ainda não sabe.  -- mentiu Sabrina.

--Então diga a ele o mais cedo que você puder.  A mim não importa se ele vai ou não ficar com você.  Só acho que você deve exigir que ele assuma a criança.

--Eu sei, pai. -- ela balançou  a cabeça.

Naquele fim de semana esteve com Adriano.

--Aborta! -- o namorado disse com certa aspereza.

--Não vou abortar! -- Sabrina exaltou-se, um fio de lágrima descendo por um dos olhos com as pálpebras avermelhadas de pranto.

--O que você quer que eu faça, então!? -- o deputado elevou a voz.

--Não sei o que você vai fazer!  Vou ter essa criança e ponto final!

--Então vai pro inferno! -- ele brandiu um dos braços.

Ela parou diante dele, segurando-lhe os braços:

--Adriano(!), eu pensei que você me amasse!  E não tive a intenção de provocar essa gravidez!

--Então vai lá e aborta!

--Não vou, Adriano! Não tenho nada contra o aborto, mas eu quero ter esse filho!

--Pra quê!?  Pra levar minha pensão!?  Partilhar meus bens!?

Sabrina se encheu de um sentimento que misturava ódio, indignação, dor de amor incorrespondido, gritou com a voz embargada pelo choro convulso:

-- Você é um desgraçado!  Um desgraçado! Você é a criatura mais infame que eu já conheci!

Ele a segurou pelos braços, sacudiu-a: 

--Não quero filho nenhum!!! Você não vai ter essa criança!!!

Sabrina desvencilhou-se, saiu pelo apartamento do namorado afora  e correu para o carro.  Ligou a chave e saiu dirigindo, enquanto Adriano atirava-se a uma poltrona, transtornado e enraivecido.

O político pegou do celular, ligou para Rogério Ananias:

--Preciso que você venha aqui agora. Temos que conversar pessoalmente.

--Mas o que tá acontecendo...?

--Aqui te respondo! Por favor, vem agora. 

Quando o capanga chegou, os dois começaram a entrar em cogitações.

--Não sei o que eu faço.  Um susto seria bom? -- perguntou Adriano.

--Se você quiser, eu posso dar um jeito mais...

--Não! -- o deputado fez um aceno negativo  com a mão e por momentos refletiu sobre como Rogério era burro.  --Você faz uma besteira dessas, eu sou o primeiro suspeito. Pior, o único suspeito!  E, na verdade, nem sei se eu teria coragem de fazer isso com ela.

--Um susto também vai criar problema, porque o pai dela é delegado...

--Veterano, perto de se aposentar, mas muito experiente...

--Então o que dá pra fazer?

Adriano baixou a cabeça longamente, refletiu e disse:

--Vou fazer outras investidas.  Fui um idiota. Não agi como um político que sou.  Vou fazer outros contatos com ela, pessoalmente, vou ser afável e convencer  ela a não ter esse filho.

--Mas e se ela teimar? -- indagou Rogério.

O outro passou as mãos pelos cabelos:

--Aí o jeito vai ser ensebar.  Não assumir a paternidade, exigir DNA e, no caso de ser meu filho, tentar dar a pensão mínima possível.

Não havia porém pra Adriano e Rogério, naquele momento, nenhum motivo de preocupação.  Sabrina saíra perturbada, descontrolada,  chorava abundantemente, soluçava, ofendia o namorado em pensamento, lamentava a própria condição de grávida rejeitada e, antes da chegada do motorista à casa do chefe, já deparara com um caminhão numa curva, entrara debaixo do veículo pesado, morrendo instantaneamente.



CAP. 6


Adriano soube da notícia pela irmã de Sabrina, ficou perplexo.  A inaceitação à gravidez  foi um segredo que ficou entre ele e a finada namorada.   Toda a família, entretanto, desconfiou, dadas as circunstâncias da morte, já que Sabrina não era incauta na direção.  

Fazia-se, no entanto, difícil inquirir o político. O impacto na família fora grande demais.  A mãe teve de ser internada em estado-de-choque, Nélson chorava  quase aos berros.  Tentou, no enterro, pressionar o parlamentar a dizer a verdade, mas o policial estava totalmente desprovido de condições emocionais e de energia. O político disse que aceitara a gravidez com alegria, mas Nélson não tinha forças pra questioná-lo.

O caso teve repercussão nacional, afinal era a namorada de um renomado político que morria, e Adriano, abatido pelo remorso, ainda deu entrevista.  A comoção da opinião pública fez dele um namorado amantíssimo,  afável e agora inconsolável, enlutado  e desalentado.  A história da gravidez nunca vazou para a imprensa. Na missa de sétimo dia, a família da moça não falou com Adriano, que ficou constrangido num canto, mas continuou a se reeleger, ganhando ainda maior projeção e respeito nos meios políticos, apesar de fazer parte da base de apoio a Michel Temer e depois de sustentação a Jair Bolsonaro. 

Nélson entrou numa grave depressão.  Tratou-se e afastou-se da bebida e das noitadas por mais de um ano.  A carreira política de Adriano Ferraz era um sucesso, os bacanais passaram a ser mais frequentes. Nélson matou-se com  um tiro na boca, no dia em que voltou a beber e que chegou a casa de táxi às oito da manhã, quando Adriano estava pelo início   do terceiro mandato.


Setembro de 2020



sábado, 15 de agosto de 2020

VERSOS DE MEDO E TRISTEZA

 Rostos tristes

E assustados ante a noite opaca e sem lua.

Tudo é breu,

É pavor, é morte, desespero, só tristeza.

Foi-se embora do planeta a aurora

Passarinhos cantam cantos inauditos,

Tentando despertar a vida inutilmente.

Agora é noite,

É profunda noite negra que não finda,

Inclemente inferno que se abate sobre os homens,

Enquanto os céus se fazem surdos às orações.

Solidão

Imperando nas ruas, cidades e bairros,

E um olhar desconsolado n'algum beco.

A doença cuspiu na poesia

E a fez feia, prostrada e moribunda,

Noite triste

E assombrosa a assustar os corações.

Não, nunca amanhece,

Não  mais há  manhãs nem tardes, mas somente

Algum crepúsculo e as madrugadas de silêncio sepulcral.

CLAMORES NA ESCURIDÃO


Dança, tarde,

Como se amanhecera o tempo inteiro.

Canta, aurora,

Através do coral de passarinhos.

Samba, dia,

Como estiveras na quadra sob música,

Como se foras dançarinas de espetáculos.

Doura, sol,

Os chãos, as casas, as praças e os caminhos;

Faze acender o dia novamente,

Traze os gorjeios que eu ouvia antigamente

E que inundava de lindeza a viveza das manhãs.


ROSANE

Rosane acordava cedinho,

De café, pão, queijo , manteiga

Às vezes se regalava.

Rosane acordava cedinho,

Às vezes não tinha nada.



Rosane, a mãe, duas filhas,

Três anos e cinco de idade,

Viviam numa casa pequena, 

No meio de uma favela.

Agarrava alguns dias as filhas,

Ouvia o estampido dos tiros

Quase a vazar as janelas.



Rosane descia o morro,

Se dava a fazer seus biscates:

Lavava, passava e limpava,

Subia levando sacolas

Com carne, cereais, goiabada.



Finais de semana bebia,

Brincava, sorria e dançava,

Gostava de um homem, se dava.

Quando raiava o dia,

Subia o morro, apressada.



Domingo ela ia à igreja,

Orava ardentemente, cantava,

Nem sabia por que é que orava,

Nem sabia por que cantava.



Rosane brincava na noite,

Nem sabia por que brincava.

Rosane sorria na noite,

Nem sabia por que sorria.

Rosane dançava na noite,

Nem sabia por que dançava.



domingo, 9 de agosto de 2020

A FÉ COMO ELEMENTO DE CRUELDADE E DESTRUIÇÃO

Antônio Conselheiro, definido por Euclides da Cunha como um louco tal qual qualquer profeta bíblico,  arrebanhou indigentes, miseráveis, desempregados, homens errantes e gente sem nenhuma perspectiva de uma vida melhor, e levou todos a uma aventura suicida contra o sistema de governo republicano.  As tropas que o líder político-religioso recrutou impuseram várias derrotas às forças enviadas pelo governo de Prudente de Morais, só  sendo massacradas após uma pequena série de embates dos quais haviam saído vitoriosas.  Um requisito turvou a visão dos seguidores de Conselheiro (morto em circunstâncias desconhecidas treze dias antes do fim do conflito):  a fé.

Em 1933 Hitler assume o poder na Alemanha e faz do povo alemão seu seguidor incondicional e cego.  Perseguiu e humilhou judeus, comunistas, ciganos, negros, povos considerados por ele nâo-arianos, martirizando seis milhões de pessoas até a morte, nos campos de concentração.   Sua política imperialista, cruel e genocida levou o mundo à Segunda Guerra Mundial, e o país germânico, cegado pelo seu discurso inflamado de ódio  e suas promessas de glória, rendeu-se em 1945, pagando caro o apoio a uma empreitada tresloucada e perversa, que tinha como objetivo primordial atender aos caprichos insanos de supremacia do "führer".  Mais uma vez a fé mostrou o o quanto podia ser nociva.

Em 1978, na cidade guiana de Jonestown, o demente líder religioso Jim Jones levou  mais de novecentos dos seus seguidores a um suicídio coletivo, e a história registra que quem não se matou foi assassinado pelos outros membros  da seita.  Ele próprio matou-se,  por profundo desequilíbrio emocional, enquanto  os outros morreram por uma motivação muito incidente: a fé.

Em 1997, fanáticos em torno de cinquenta  da seita Porta do Paraíso, nos Estados Unidos, também mataram-se motivados pela fé no seu líder.

Em 2001, membros da Al-Qaeda lançam três ataques contra alvos americanos, atirando-se de aviões contra o World Trade Center, matando mais de quatro mil pessoas.  Eram talibãs e fanatizados por Osama Bin Laden, homens que acreditavam que que a matança suicida consuzi-los-ia ao Paraíso, onde um grupo de por volta de umas cem virgens estaria à sua espera. A fé foi o motor encorajador e incentivador de novo.

A natureza religiosa acompanha o homem desde os seus primórdios. A humanidade já adorou elementos da Natureza, astros, estrelas, planetas,  entidades cuja existência não me cabe agora questionar, mas o fato é que  tudo no Universo deveria ser passível  de análise e questionamento.  Quando se parte para a adoração, a veneração, passa-se a ser irracional e perigoso.  Porque esse modo de lidar com a crença leva à irracionalidade, e a irracionalidade abre caminho para o afloramento dos maus instintos de todos nós. 

A fé religiosa e a fé política se confundem profundamente, por terem muita semelhança: em ambas se segue um líder místico ou do mundo político, que valem-se de tal poder e prestígio para manipular seus fiéis da forma que melhor lhes convenha: o que pode provocar guerras, mortes, crises e outras tragédias, além de sequelas irremediáveis.  O que muito me impressiona é a fé desportiva ter sua participação nada desprezível nesse contexto -- porque há torcedores que se portam como fanáticos religiosos ou partidários.

A prova de que a fé pode ser perniciosa é que, quando o PT vivia momentos de execração por atos de corrupção de alguns de seus membros ou pessoas ao partido ligadas, a quase totalidade dos petistas  começava a manifestar ou atos de truculência, ou de  intransigência contra críticas e manifestações contra a agremiação.  Da mesma forma existem hoje grupos bolsonaristas dispostos a praticar crimes  e chegar às últimas e mais drásticas  consequências para defender e preservar  um líder inconsistente, despreparado, desprovido de conteúdo  e extremamente nocivo ao meio ambiente e imperdoavelmente alheio a toda a destruição causada aos humanos pelo coronavírus nesta atual crise sanitária.

domingo, 26 de julho de 2020

AS TURRAS ENTRE PT E PDT DESENHAM UM FUTURO TRÁGICO PRO BRASIL

Enquanto debulhavam-se em lágrimas sobre o leito de um PSDB agonizante, os globais, aturdidos, ficavam a se perguntar que alternativa o Brasil (leia-se: a Globo) teria para fazer contraponto a Bolsonaro em 2022.  Os comentários dos telejornalistas ignoravam as correntes progressistas, muito embora Cristiana Lobo e um de seus pares hajam concordado que o desgaste sofrido pelo PT acarreta-lhe muitas dificuldades.  Fica notório que é para eles mister que surja um líder reacionário em condições de enfrentar o atual presidente nas próximas  eleições presidenciais.  E eu, que achava que o arrogante capitão já estivesse aniquilado, vi-me numa tremenda estupefação por conta de as últimas pesquisas apontarem ser ele um adversário difícil de bater.
Enquanto a Globo procura por um nome que una a direita, do outro lado PT e PDT se digladiam ferozmente, inteiramente indispostos a se prestarem apoio mútuo no pleito eleitoral.  A dedução  a que chego é que os militantes de ambos os partidos têm um único desejo e objetivo:  que o seu venerado líder máximo, Ciro Gomes ou Lula, seja o próximo a sentar-se na cadeira presidencial,  ou do contrário que o Brasil seja explodido, corroído de coronavírus, apodrecido de miséria, com corpos caindo pelo chão, quer em decorrência da fome, quer em virtude de doenças e outras mazelas.
São fundamentalistas como os sectários protestantes seguidores das igrejas fundadas por pastores   desonestos e aventureiros; fundamentalistas como os bolsonaristas fanáticos, preocupados unicamente em ver seu seu "altíssimo" ídolo com o poder nas mãos.
Lamento dentro do atual contexto a pouca projeção da Rede e do PSOL, sobretudo o PSOL, partido pelo qual nutro profunda simpatia, do mesmo modo como sou admirador de Randolfe Rodrigues(Rede) e Alessandro Molon(PSB) e sua atuação respectivamente  no Senado e na Câmara.
Entenda-se bem: a pequena  performance do partidos de Randolfe e do PSOL, e a teimosia egoísta e irresponsável de PT e PDT manterão o sistema socioeconômico ultraconservador que vivemos nos dias de hoje, porque os reacionários concorrerão unidos.  Embora os comentaristas da Globo finjam abrir os braços e olhar pra todos os lados à busca de um candidato com o perfil  desejado pela Casa, é lógico e notório que há muito já optaram por Rodrigo Maia, a quem entrevistam quase todos os dias, colocando-o numa posição confortável de crítico do que é unanimemente mau e defensor do que é indiscutivelmente bom.  Há muito elegeram o deputado uma espécie de Madre Teresa de Calcutá de calças, o guia do caminho do bem, o "guru" de que os sem-norte tanto carecem.   Afortunada, a emissora ainda pode dar-se ao luxo de contar com Henrique Mandetta e Sérgio Moro juntos.  Embora Mandetta tenha sido impecável na transparência e orientações acerca da pandemia, na sua gestão sobre o Ministério da Saúde, da mesma forma como Moro portou-se dignamente nos episódios concernentes à Polícia Federal, não podemos esquecer que ambos serviram Jair Bolsonaro e são cabeças muito distantes de estarem voltadas para a questão social.      
Em síntese, com o insuficiente desempenho e divisão dos progressistas, o cenário que se desenha para o Brasil a partir de 2022 é simples e trágico:  ou perde as mãos com outro reacionário, ou perde os braços com Bolsonaro.            

domingo, 12 de julho de 2020

O MASSACRE AOS ORIXÁS

--Conta a mim, Pai Oxalá,
Que foi feito de Xangô, 
Baluarte da justiça,
Seu machado e seus trovões.
--Que podia, dize, ó, filho,
Contra os torpes seguidores
dos demônios poderosos
Travestidos de profetas?

"Iansã também morreu, 
Consumida por seu fogo
E por obra de oradores
Que só pregam preconceitos."

--E de Oxóssi o que me dizes?
Que tem feito pelas matas
Nestes tempos tão malditos
De matar floresta e bichos?
--Afogado nos garimpos,
Por mercúrio envenenado,
Por grileiro, incinerado,
Moto-serra o retalhou.

"Iemanjá foi atolada
Em tapetes de óleo preto,
Ante o riso de homens sórdidos
que desprezam natureza."

"Pobre Oxum, foi ofendida,
Espancada por racistas,
Foi chamada de 'devassa',
Foi expulsa do País."

"Foi Exu também recluso,
Nomeado 'meliante',
Encerrado a sete chaves:
Não há mais um mensageiro."

"Omolu não fez mais curas,
Foi chamado 'charlatão'
Por pastores de mentira,
Milionários crimonosos."

"Ossaim se viu proibida
De curar com suas ervas
Usurpadas pelos brancos
Que detêm laboratórios."

"Espancado Oxumaré
Por ser macho e por ser fêmea.
As milícias 'moralistas'
O proíbem de dançar."

"E Nanã, capturada
Lá do fundo dos seus rios,
Foi trancada como louca
Torturada a eletrochoques."

"Ai, agora um negro odeia
Os irmãos da mesma raça.
Vejo os índios sendo mortos,
Declarados inimigos,
Quilombolas humilhados,
Declarados parasitas."


"Deus agora é o deus dos brancos
Arrogantes e cruéis.
Nunca vi tanto racismo
Numa gente tão mestiça:
Vou fugir lá pra Nigéria,
Vou pra Togo ou pra Benin,
Mas não fico nestas terras:
Negro aqui não pode, não."
 

segunda-feira, 6 de julho de 2020

TODOS OS ELEITORES DE BOLSONARO, INCLUSIVE OS ARREPENDIDOS, MERECEM O NOSSO DESPREZO


Não cabe alguém se declarar eleitor arrependido do Bolsonaro, porque todos sabiam a que ele vinha, pois já homenageara Brilhante Ustra, um dos maiores torturadores do Brasil, na votação do afastamento da Dilma. Além disso, sua campanha foi calcada na antidemocracia, no saudosismo em relação aos anos de chumbo lotados de torturas, assassinatos e desaparecimento de pessoas que se opunham ao regime. Então, quem votou em Bolsonaro queria de volta as mortes, os sumiços, os martírios, um sistema de terror bestialmente cruel, apoiado pelas milícias e que calaria todos os seus opositores sob pena de enquadramento em leis de exceção ou prisão arbitrária, desdobrando-se qualquer das duas situações em lancinante sofrimento físico e moral, quer de quem se opusesse ou de seus familiares, ou ainda de todos.
Aliado a esse contexto de extrema violência, o então candidato pronunciou-se repetidas vezes a favor de retirada de direitos trabalhistas e achatamento salarial, quando dizia que os trabalhadores teriam de escolher entre emprego e salário,entre emprego e direitos.
Não fosse a crise econômica provocada pelo reacionarismo e incompetência da equipe econômica e sobretudo pelo flagelo do coronavírus, esses arrependidos, indiferentes à falta de gestão do governo sobre a pandemia, estariam engordando as passeatas de bolsopatas que pedem a volta do AI-5 e intervenção militar com Bolsonaro no poder. São, portanto, imperdoáveis, e merecem todo o nosso desprezo, por sua índole e por fazerem parte da vasta camada de brasileiros indignos da menor confiabilidade.




segunda-feira, 15 de junho de 2020

RODRIGO MAIA É UM TREMENDO CARADURA!

Rodrigo Maia, demagogicamente, costuma dizer, numa inverdade e caradurismo sem precedentes na história da política, que reduzir ou suprimir direitos dos funcionários públicos é "transferir renda dos 'mais ricos' pros mais pobres". Você já viu alguém enriquecer no serviço público?  No máximo torna-se classe média. O político fala também em reduzir as deduções no imposto de renda a que a classe média tem direito, assim como os salários do funcionalismo,  o que afeta duramente justo os que têm ainda uma condição social de baixa a mediana. Não temos de ser todos infortunados, mas em nossa totalidade viver bem, de acordo com o preceito  da dignidade da pessoa, impressa na atual Constituição. Ou seja,  papel do deputado é exatamente miserabilizar a classe média, quando poderia justamente propor a efetivação da taxação das grandes fortunas, o fim do fundo partidário e das verbas de gabinete, para socorrer as vítimas da pandemia e dos seus graves efeitos socioeconômicos.  Ricos são os membros da elite que ele defende e encobre com esse discurso, desviando os olhos da sociedade para a direção errada.  Isso porque  está entre os mais ricos e exerce um papel típico de político do Centrão, grupo do qual faz parte e que é bolsonarista -- daí o deputado recusar-se a pautar os pedidos de "impeachment" de Bolsonaro. 
A recusa de Maia quanto a pôr em votação o impedimento do presidente, alegando que a prioridade é combater o coronavírus, é um sofisma que justamente mantém a epidemia nos patamares de hoje, afetando hoje quase 900.000 brasileiros e matando mais de 1.000 por dia,  já que Bolsonaro nega a pandemia que assola o País, além de induzir seus seguidores a agir como se ela não existisse, o que muito contribui para elevar o número de contaminados e mortos.
Por isso, quero lembrar aos que não forem ricos que NUN-CA  MAIS  VO-TEM EM RO-DRI-GO MAI-A.
#rodrigomaianuncamais
 

sábado, 6 de junho de 2020

O MORIBUNDO

Estava ali, deitado, prostrado, no quarto refrigerado, acompanhado da enfermeira, vivendo seus derradeiros dias.
-- Quer alguma coisa? -- a profissional indagou.
Limitou-se ele a gesticular um "não" com um dedo.
-- Vou preparar os remédios pra daqui a pouco -- ela avisou e saiu.
O homem ficou a refletir:  estava sozinho, sem uma mulher que lhe segurasse as mãos com afeto, que lamentasse o crepúsculo de sua vida.  Tinha apenas uma enfermeira, fria, serena, atenciosa, mas profissional.  Não mais que profissional.  Não mais que cumpridora dos deveres.  E onde carinho nos seus últimos tempos sobre a terra?
Casara-se algumas vezes, mas não tivera exatamente o perfil de um homem casado.  O passado lhe vinha à mente: esbórnias, orgias, mulheres, traições.  Usara muitas mulheres. Muitas mulheres o usaram.
Bebedeiras, a visão da aurora de dentro dos bares, os motéis, cigarros, bebidas, mulheres diversas, mas nenhuma amiga, companheira, solidária, exatamente a que faltava naquele momento.  Sabia de uma que poderia estar naquele momento a seu lado, os olhos lacrimejados, o inconformismo estampado no semblante, porque o amara de verdade. Mas agora já há muito se fora o amor, esmigalhado pela inquietude da alma do homem, o desregramento  e a turbulência dos dias.  Havia uma outra que achava que também poderia estar por ali, também chorosa e inconformada.  Mas não quisera ele ficar com ela, não lhe tivera paixão ou afeição, fizera-a de brinquedo e a mantivera como namorada por poucos meses.   A outras se entregara de corpo e alma, mas não recebera o amor em troca.  Nenhuma daquelas últimas, sabia, naquele momento estaria ali.  Não o quiseram e o menosprezaram, queriam-no por apenas algumas conveniências que ora não entendia  bem.  Umas outras ainda foram nulas, casos sem nenhuma relevância, nenhuma importância, só mulheres que passaram em branco por sua existência.
Pensou em si mesmo e apertou os olhos. Nem filhos quisera ter.  E não os teve.
E agora não tinha ninguém ao seu lado que o amasse, que lhe chorasse a morte iminente. Tinha apenas uma enfermeira.  Era sozinho e morreria sozinho. Acompanhado apenas de uma enfermeira.
Contudo ficou a considerar a questão.  Se tivesse ficado com uma mulher que um dia o amara e agora não mais, teria sido um tédio insuportável envelhecer ao lado desta, num dia-a-dia insípido e totalmente desprovido de emoções, de sensualidade, de desejos ardentes, de aventuras e daquele ardor que envolve as grandes conquistas e paixões.  Uma mulher envelhecendo ao seu lado, os dois sentados a um sofá nos finais de semana, assistindo a notíciários e novelas, a rabugice tomando conta de ambos, a aposentadoria e a obrigação de comprar pães todas as manhãs, pequenas compras todos os dias.  As reclamações da mulher pela eventual má qualidade de algum artigo comprado.
Mesmo que tivesse sido correspondido por alguma daquelas que quisera de verdade, como teria podido conter a corrosão do tempo sobre a poesia, o fogo e a entrega tresloucada das paixões?  O tempo faria paulatinamente de todo o fogo uma mesmice, um tédio intragável,
uma mononotonia sem tamanho, um eterno desejo de estar nos bares, nas boates, nas aventuras da noite, ou então que a alma se domasse e aquietasse de um modo que tornasse a vida absolutamente cinzenta.
Tivesse sido um homem afeito ao casamento e agora teria uma velha ranzinza e chorosa diante de si, rememorando os momentos tediosos vividos por ambos como fossem as mais emocionantes aventuras, as mais magníficas emoções.
Não lhe veio o arrependimento nem a lágrima.   Considerou longamente o assunto, não se arrependeu de, pelo modo como vivera, agora, velho e moribundo, estar sozinho.  Se então estava velho e sem amigos, sem mulher, enquanto tivera forças, tirara proveito do melhor que pudera do mundo.  Vivera a vida intensamente, porque sempre  fora intenso e por isso não mais que a verdade de si próprio.  Abriu, semicerrou e reabriu os olhos, recebeu os remédios da enfermeira.
Morreu naquela madrugada, cônscio de que vivera da maneira que achara melhor para si.

2013

sexta-feira, 5 de junho de 2020

MILENA E O DIVÃ


Milena acomodou o corpo no sofá, cruzou as pernas.  A luz iluminava seu rosto ainda bonito de uma  mulher que estava por entrar nos cinquenta e cinco anos de vida.   Levou ela uma ponta de dedo ao queixo e observou: 
-- Não sei exatamente dizer se fui feliz  na minha vida emocional,  mas não me considero uma desgraçada.  Entretanto, acho que ainda faltou algo.   Alguma coisa a mais precisava ter vivido pra me sentir realizada na vida afetiva.
Diante dela a psicanalista, impassível, atenta.  A cliente prosseguiu:
-- Mas acho que valeu tudo o que vivi.  Não os dramas mais traumáticos, como a perda de meus pais, mas a maior parte do que vivi voluntariamente valeu a pena, sim.  Algumas decisões foram erradas, mas, como muito se propala, pude aprender com os erros.
“ Não tive grandes amores na adolescência, casei com vinte e dois anos, logo após me formar; mas não nutria grandes paixões por meu ex-marido. Talvez por isso a relação não tenha dado certo.”
-- Como era seu marido? -- indagou a profissional.
Milena permaneceu com o dedo abaixo do queixo de uma cor clara e  rosada, pensou por segundos, comentou:
-- Era um homem arrogante e prepotente.  Bem jovem, já era arrogante.  Eu já o conhecia por morarmos no mesmo bairro.  Talvez aquele jeito altivo, decidido, aquela personalidade forte tenha sido exatamente o que me atraiu nele... mas a convivência com uma pessoa daquele perfil é muito difícil.   Era dono da verdade, autoritário, pensava que podia me dominar.  Assim, o que antes mexia comigo, passou a ser motivo de degaste e apodrecimento da convivência.
-- Ele era violento?
-- Não... Isso não.  Ele não ousaria sê-lo comigo.  Passei a mantê-lo à distância quando ensaiou  algum gesto violento, e isso acabou por fazer que não houvesse mais cama entre nós.
-- Quanto tempo ficaram convivendo sem relações  sexuais?
-- Uns dois anos.  Eu sentia uma certa náusea de nos imaginar numa relação sexual.  Acho que logo ele percebeu isso... e passou a nem mesmo tentar.
-- O que ele fez  pra te causar essa repulsa?
--Uma vez me pegou pelo braço, ameaçando sacudir meu corpo.  Olhei-o com tal desprezo, mas com tanta firmeza e ódio, que ele suspendeu o gesto.  Mas me chamava de estúpida, gritava comigo, me humilhava, me envergonhava com seu jeito escandaloso. Tolerei durante muito tempo, foi um casamento de dez anos.  Mas depois refleti e considerei que não tinha dele dependência financeira nem afetiva, não sentia mais nada por ele.  Por que então continuar?
-- A separação foi traumática?
-- Não. Eu propus, e ele aceitou sem relutar.  Ele também queria a separação.  Não foi difícil.  Faltava-nos antes iniciativa, mas ambos queríamos.
-- Você teve filhos  com ele?
-- Não, não tive. 
-- Teve algum relacionamento sério depois do casamento?
Milena pensou longamente, tornou:
-- Sério, não sei... mas tive o poeta...
-- Poeta? -- repetiu a que entrevistava.
A cliente tinha o olhar distante, buscando trazer as cenas de outrora à memória:
-- Sim, poeta: ele fazia versos, muitas poesias. Era muito apaixonado, queria estar comigo a todo momento: ligava, me levava a passear, era entregue, dedicado, apegado.
--Pegajoso?
--Nao digo isso: tinha certo cuidado para não ser assim. Mas vivia contendo uma tendência nesse sentido.  Mas era devotado, muito presente, parecia que nada tinha a fazer além de ficar comigo.  Era como se na vida nada tivesse além de mim.  Ele me respirava, era como se se nutrisse da minha presença, da minha existência.  Era inteiramente meu. Ficou frágil, ciumento, inseguro e dependente.
--Como era a cama entre vocês?
--Ótima!  Nós nos afinávamos perfeitamente no aspecto sexual.
--Você o amava?
--Não. Tinha uma profunda estima, ternura, amizade, às vezes tinha vontade de protegê-lo...
--Mas isso não era amor?
--Não, não era. - A seguir Milena olhou para o longe com um ar reflexivo e os olhos brandos e como sorridentes: --  Amor arrebata, estonteia, atordoa, faz a gente perder a razão, agir tendo como único guia a emoção. A gente para de pensar,  e os sentimentos predominam: eles é que passam a decidir os nossos passos.
--Em algum momento da vida -- indagou a terapeuta-- você experimentou essas emoções?
--Não sei.  Acho que experimentei coisa parecida na adolescência; mas não tinha a intensidade de um amor.  Era quase um namoro de crianças.  Acho que era apenas uma fantasia, coisa de adolescente.  Não ficou marcado em mim.  Lógico! Faz tantos anos... Mas nunca marcou...
--Que fim levou o poeta?
--Precisei ir embora pro Rio Grando do Sul: tinha uma oferta melhor de emprego. O poeta ficou no Rio: não podia me visitar com frequência.  Achei que o relacionamento iria ficar pela metade: resolvi romper.  Ele sentiu muito, muito mesmo. Acho que quase enlouqueceu de tristeza.

II

MILENA

Vem de algum lugar, Milena, que meu canto te procura
Por todo beco,
Por todo canto
E pelas ruas , Milena, tão silenciosas;
Noites de frio
Que não revelam
A tua imagem.

Surge, Milena, assim de repente como fada;
Nasce de um clarão multicolorido de magia
E então flutua
Bem docemente
Ante meus olhos.
Vem, Milena, chega num relance de entre as nuvens;
Vem, que meus versos têm em ti sua nascente.
Chega antes que meu peito se transforme em  só cansaço,
Antes que meu verso cale, silencie,
E eu me torne folha seca  a vagar sem nenhum rumo.

1996

III

A psicóloga ajeitou-se no sofá onde se sentava, quis saber:
--Depois da partida não soube mais do poeta?
Milena sorriu:
--Algo em torno de dez anos depois, quando  tive problemas na empresa e voltei,  procurei por ele.
--Como ele reagiu?
--Ficou estupefato, numa surpresa que não sei descrever!  Numa alegria que nunca vi.  Foi uma coisa que jamais vou conseguir apagar da memória.
--Vocês voltaram?
--No mesmo dia em que nos reencontramos.
--E você percebeu se ele ainda tinha o mesmo sentimento por você?
--Não sei dizer, mas ele ficou muito eufórico, esfuziante, feliz demais!

IV

OUTRO CANTO A MILENA

Vem, Milena, ver a noite e suas luzes,
Fazer planos de um amor que nunca acabe.
Vem, porque jurar amor é qual cantar,
E, Milena, cantar é tão bonito,
É bonito como o encantamento dos teus olhos,
Quando sonhas debruçada na varanda.

Vem arder entre lençóis, quentes carícias,
Nossos corpos, qual vulcões ensandecidos,
Se espremendo numa fúria delirante
E na dança alucinada dos desejos.

Vem, Milena, ver cantar meus sentimentos,
Vem sentir o aconchego dos meus braços,
Vem fazer do meu abraço tua casa.
Tua casa, o teu canto é meu abraço.

2007

V

A psicóloga fitou Milena vagamente:
--Ainda assim você não ficou com ele?
--Não.  Os ciúmes dele pareciam ter aumentado.  Mas a entrega não me parecia mais a mesma. Acho que agora tinha medo de se dar como antes e me perder novamente.
--E acabou acontecendo, não?
--Sim. Mas daquela vez não fui eu que rompi.  Foi ele, que percebeu que eu nunca o tinha amado. Deixou-me um ano depois.  Nunca mais soube dele.


VI


ÚLTIMO POEMA A MILENA


Adeus, Milena, até nunca, nunca mais...
Nunca mais um verso te farei.
Até nunca mais, Milena, adeus.

Ainda que eu fosse o orador que mais brilhasse,
pelo inteiro mundo  minha voz fosse aclamada,
e as turbas me aplaudissem, fascinadas...

Ainda que eu cantasse a mais linda das cantigas,
e o fizesse de forma tão doce, tão sentida,
que levasse a prantear as multidões...

Ainda que eu aniquilasse os demônios do universo,
e cruzasse fronteiras minha fama de bravura,
e eu fosse aclamado do planeta o grande herói...

Ainda que eu não fosse nada menos que deus vivo
a operar milagres estalando os dedos simplesmente,
e os homens me louvassem em milhões de reverências...

Ainda assim eu teria o desdém desses teus olhos,
a tornar-me nada mais que um mero, simples verme.
A tua voz, sem calor ou sem doçura, então faria
De minh'alma nada mais  que escombros puramente.
Adeus, Milena, até nunca, nunca mais.
Até nunca mais, Milena, adeus.

2008


VII

--Em tua vida inteira,  Então, nenhum homem conseguiu te levar às nuvens de emoção...?
--Houve um, sim!
--Houve?
--Um que conheci no tempo em que trabalhei no Sul.  Era um cliente da empresa, Um gaúcho de olhar firme e penetrante.  Bem-sucedido, seguro, centrado, parecia de ferro. Um dia o recebi em meu escritório, pois ele permanecera na empresa até depois do expediente.
"A princípio conversamos sobre negócios, depois debatemos acerca de outros diversos assuntos. Acabamos falando em relacionamentos, amores, e, ao nos despedirmos, apertei-lhe a mão, depois tive o impulso de abraçá-lo, e aí aconteceu o que eu não planejara nem esperava. Ele me apertou nos braços, impetuoso, ardente, decidido, e quando me dei conta estávamos despidos e fazíamos amor no sofá de um modo quase selvagem.  Ele me fez sentir tão mulher, tão fêmea, fez de mim o que quis, me levou a orgasmos que antes eu jamais experimentara.  Senti-me ao mesmo tempo sua amada, sua rainha e sua vagabunda, mas muito candentemente desejada.  Foi uma loucura, uma grande loucura, poderia ter comprometido meu emprego e minha carreira, mas eu tinha enlouquecido."
--Por que não ficou com ele?
--Ele não podia: era casado.  E eu, por minha vez, não quis ficar como sua amante.  Seria difícil pra mim, pra ele, pra mulher dele.  Seria o inferno da vida de todos nós. Vivi muito intensamente aquele momento, mas não quis outra ocasião. Disse a ele que não queria mais.  Passei a evitar que ficássemos a sós, a conversar com ele somente sobre negócios.  Mas nunca mais vou esquecê-lo.
--Você sentiu amor por ele?
--Não, acho que não.  Mas nunca um homem me atraiu tanto nem ficou tão firmemente gravado na minha memória.  Nunca mais vou esquecer o mais pleno e magnífico affair de minha vida.
--Nosso tempo acabou. Volta semana que vem, no mesmo dia e horário?
--Sim, com certeza.

2017












O APARTAMENTO

1


Quando Michele viu o apartamento, deslumbrou-se e fez-se quase histriônica. Três quartos,  uma suíte, um banheiro social, dependências de empregada, visão plena da rua. Circulou duas vezes por todos os cômados, voltou-se para os amigos:
--Aprovado?
Gabriel anuiu com a cabeça, também entusiasmado:
--Show! Gostei.
Raul também aprovou balançando a fronte. Sorriu:
--Bastante espaçoso. Gostei também.
Em poucos dias mudaram-se.
Naquele tempo podia-se procurar imóveis: não havia Covid-19, nem vivia-se o inferno de ter Bolsonaro na Presidência da República e a favor da pandemia.  Hoje nada além da tragédia acontece no mundo, paralisado pela doença, à exceção, é claro, do Brasil, onde o mandatário todos os dias atenta contra a democracia.
Os três eram bancários, funcionários do mesmo banco e agência há quase seis anos.  Michele estava pelos trinta e três de idade, Gabriel contava vinte e quatro Raul ia pelos cinquenta.  A mulher e o mais jovem eram solteiros, Raul saíra alguns anos antes de um casamento  que há muito o já havia cansado.
Michele era de personalidade marcante, determinada, extrovertida, alegre, dinâmica,  bem-humorada. Gabriel tinha uma natureza parecida, mas trazia em si menos dinamismo, além de mostrar um jeito mais sereno.  Raul era experiente, observador e dotado de menos alegria, mas interagia perfeitamente com os outros dois. 
Eram amigos inseparáveis no trabalho, só se dispersavam quando algum dos três tinha um encontro amoroso ou visitava os parentes.  Geralmente estavam juntos à noite, conversavam até tarde nos finais de semana, bebiam cerveja em trio e iam pelo meio da madrugada cada qual pro seu quarto. 
O mundo de Michele destilava viveza.  A mulher gostava de debruçar-se à janela, à espera do sono, e parecia que dentro dela a vida retumbava.  Os carros passavam, seus olhos negros os seguiam, depois se perdiam na selva de concreto, nas luzes de artifício e nas cores da noite.  Depois trancava a suíte, despia-se e deitava-se, esparramava-se na cama e dormia profundamente.
Gabriel roncava a solto,  e o ronco atravessava o corredor e ia tocar de leve os ouvidos de Raul, que às vezes era insone e ficava a rememorar inúmeros maus e bons momentos da própria vida. Gabriel era cheio de sonhos, Raul não tinha ilusões.  Ficava às vezes a refletir sobre o sentido ou não da vida, se havia ou não alguma razão em existir.
Imaginava Michele em seu quarto, nua, o corpo derramado de bruços sobre a cama.  Jamais a mulher contara, mas os homens sabiam que dormia nua, por perspicácia, instinto e pelo fato de a moça não se preocupar em não deixar evidências.  Nunca haviam antes morado juntos,  e aquela nova situação, com a presença dela,  por vezes excitava-os, cada qual solitário em seu quarto.   Às vezes perdiam o sono e ficavam a olhar para o teto e para o nada, enquanto ela dormia numa paz de criança no berço.
Iam juntos à praia, bebiam nos bares e contavam anedotas e histórias engraçadas e alegres.  
A solidão incomodara e corroera o mais velho, e isso fez que ele aceitasse a proposta dos outros dois de viverem juntos.  Gabriel fora por querer experimentar a independência de não viver com os pais e irmãos, todos protestantes e de princípios severos,  Michele porque os pais tentavam controlar seus horários e suas saídas.  E assim, amigos verdadeiros, os três encontraram plena harmonia em viverem sob o mesmo teto.   Eram como uma família.
Mas não eram irmãos.
Uma vez Gabriel tentou seduzi-la quando se viu sozinho com ela, após os dois beberem vinho. Notou que a mulher execedera-se um pouco e tentou levá-la para a cama.  Michele riu-se, apertou-lhe o queixo com afabilidade, ironizou-o e fê-lo sentir-se uma criança. O rapaz foi dormir envergonhado.
No dia seguinte, ele queixou-se para  Raul com certo gracejo:
--Todo muito aqui, sem nada pra fazer... Não custava nada dar um pouquinho pra gente.
Raul, por sua vez, em situação idêntica, à mesa com ela, olhou profundamente nos  seus olhos e chegou a colocar uma das mãos sobre a dela.  A mulher puxou a mão de baixo da dele e foi mais séria e incisiva:
--Perdoe, meu amigo, mas não quero esse tipo de relacionamento com você.  Somos amigos, lembre-se. Lembre-se sempre disso.
Raul permaneceu calado, sisudo, entristecido, levantou-se e pediu licença para banhar-se e dormir.
Mas a mágoa ficou. Uma mistura de mágoa com uma coisa parecida com paixão.  Michele era o seu poema, sempre o fora.  Sempre a olhara com interesse, com um sentimento diferente de amizade.  Ainda era casado quando sentira algo diverso por ela, quando encantara-se em ficar observando-a, como se bebera sua voz e seus gestos, seu jeito, seu andar, o desenho de seu corpo.
A recusa magoara Raul, e ele, sempre que não se via acompanhado de uma mulher, sofria por ela deitado em seu quarto, sozinho em suas noites insones.   A amizade não ficou arranhada, mas  o peito dele se apertava por ela.  Não era amor, não era uma paixão avassaladora, mas era atração e encantamento, era uma coisa que o inquietava e entristecia.
Quando ela contava de um namorado, ele sentia um punhal ferindo-lhe a alma, uma coisa cortando dentro de si: uma melancolia, um desânimo, uma desesperança. Olhava-se no espelho e via-se um ancião pelos dezessete anos de diferença entre ambos.  Doía-lhe saber que Michele não tinha interesse  por homens mais velhos. 
Ainda assim sentia-se de certo modo feliz quando coincidia os dois não saírem no fim de semana.  Usufruía com gosto e prazer sua simples presença, como se de algum modo naqueles dias ela fosse dele. 
Gabriel por sua vez continuou a tratá-la com a mesma deferência,  a mesma alegria, com suas brincadeiras, suas chacotas, leve e livre de mágoas  e ressentimentos.



2


O sábado de verão era claro e alegre.  A praia estava cheia, e as banhistas passeavam e se bronzeavam, exibindo nádegas bonitas e douradas pelo sol, algumas depiladas, outras com pelos dourados e eriçados.  Os olhos de Gabriel e Raul percorriam todas as mulheres de biquíni que circulavam ao alcance da vista. 
--Esse tá supergelado! -- sorveu Michele o seu chope quase num só gole.
Raul provou a própria tulipa:
--Tá bom mesmo.
--Show! -- endossou Gabriel.
O mar batia, azul, azul... Os raios do sol encontravam as águas no horizonte, uma linha de sol espelhava e ofuscava os olhos de Michele, que colocou no rosto os óculos escuros.
--Tão bonito o mar...  -- observava a mulher enquanto sacudia a cabeça e tirava os cabelos castanho-escuros dos ombros.
--Vamos dar um mergulho? -- propunha Gabriel.
-- Não tô a fim -- fez Raul um gesto vago.
Mas Michele aceitou, e os dois mergulharam, enquanto o mais velho sorvia a bebida e ficava a vê-la perder-se ao longe e sumir no meio das águas e da multidão.  Uma mulher de biquíni muito ousado e seios e nádegas muito pronunciadas deu ao homem vontade de fazer amor, e este tirou o celular de sobre a mesa e fez uma ligação.  Uma voz feminina atendeu do outro lado:
--Como tá a tua agenda hoje? -- indagou Raul com uma ponta de ironia.
--Vazia. -- ela sorriu do outro lado.
Também Raul abriu um leve sorriso:
--Tô na praia, mas posso te apanhar à noite.
--A que horas?
--Por volta das dez e meia?
--Acho que é um bom horário.  Vou passar a tarde fazendo as unhas e os cabelos...
--Bom assim. -- chego da praia, tomo um banho, descanso um pouco...
--Pode ficar tranquilo: a noite é nossa.
--Beleza! -- exultou Raul.
Ela indagou de um jeito malicioso:
--Que roupa você quer que eu vista?
Ele abriu um riso com a mesma malícia:
--Quero aquele vestidinho vermelho de tecido fininho, aquele que mais parece uma lingerie.
--Vou usar...
--E aquela calcinha de rendinha... vermelhinha... aquela que é só um fiozinho...?
--Sim, meu taradinho... é ela que eu vou usar...
Logo os outros dois voltavam, sentavam-se à mesa, ele encerrava a ligação.
--O Gabriel gamou numa loura que tá debaixo de uma barraca azul e branca...
--Mas não falou com ela? -- quis saber Raul.
--Ela parece que nem me viu! -- justificou-se o rapaz com certa desolação.
Michele pediu outro chope, voltou-se para o amigo mais velho:
--A praia tem tanta vida...
O homem permaneceu calado, continuou ela:
--Aqui parece que a tristeza não cabe.  Num lugar como esse  a gente tem vontade de brincar, de dançar, de cantar.
O mais velho olhou ao redor:
--É contagiante...
--Dá um astral bom, não é? -- concordou Gabriel em sua juventude.
A moça mudava o assunto:
-- Tá faltando pouco pra minhas férias.
Raul interesssou-se:
--Vai tirar férias integrais?
--Vou  -- ela confirmou.
--Vai viajar?
--Vou a Porto de Galinhas. Vou passar as férias na praia.
Ele fitou-a por alguns segundos, depois seu olhar se fez distante: toda vez em que ela viajava, o homem sentia um vazio profundo,  como se não soubera viver sem os seus olhos e cabelos castanhos, sua pele morena-clara, seu sorriso espontâneo, sua segurança no modo de ser.  A viveza que tinha no olhar e no riso, aquele gosto pleno e flagrante de viver.
Por momentos desejou ser mais jovem.  Talvez assim  a tivesse... Mas ficou a especular: tê-la-ia por algum tempo ou pra sempre? Se dava-se a ela a relacionamentos tão breves, se não mostrara por nenhum dos que a tiveram nenhum grande apego... seria ele apenas mais um?  Quanto sofreria se um dia  o abandonasse?  Seria então mais feliz por não tê-la?
Gabriel tirou-o de suas pensamentos perguntando se queria mais um chope, Raul sorriu e fez um sinal afirmativo, e a tarde seguiu simplesmente.



3

Na madrugada após aquela tarde na praia, Raul não dormira como de praxe no motel com a mulher.  No meio da noite os dois resolveram separar-se.  O homem deixou a parceira em casa e partiu para o lar.  Por volta das três e meia colocou a chave na fechadura, ouviu movimentos bruscos e tudo depois silenciar.  Caminhou até a porta do quarto de Gabriel, viu que estava aberta, e o cômado, vazio.  Entendeu que o que ouvira fora o susto e a surpresa de Gabriel e Michele, que interromperam o que faziam na cama por conta de sua chegada.
E lá estavam realmente os dois, despidos, trancados, abraçados, calados.  Raul sentiu-se como traído, uma dor funda atravessou-lhe o peito, fê-lo sentir-se velho, inferior, asqueroso.  Entrou no próprio quarto, pegou roupas e entrou no banho.  Não pregou olhos naquele resto de madrugada, nem tampouco na parte da manhã.  Pelas sete Gabriel foi pé ante pé para a cama, sem saber que que o outro, acordado, percebia a movimentação.
Tudo acontecera quase que acidentalmente.   Após a praia, Michele tinha um encontro marcado, mas o rapaz ligara cancelando o compromisso.  Resolvera-se então a ficar em casa.  Gabriel ainda chamara-a para descer e tomar um chope na Praça Saens Peña, mas ela recusou-se.  Então o jovem comprou duas garrafas de vinho, e os dois ficaram a beber.  Começaram na sala, depois ela quis deitar-se, Gabriel então levou o vinho e os cálices pro quarto. A conversa seguiu, embriagaram-se, discorreram sobre vários assuntos, o sexo entrou em pauta, da teoria os dois  se tocaram nas pontas dos dedos, um ímpeto os inflamou, beijaram-se, tocaram-se, despiram-se;  Michele enroscou o amigo entre as pernas, um seio na  boca do rapaz, que encontrou-se vivendo uma poesia erótica das mais belas e mais ardentes, em momentos longos e flamejantes, como quando a moça postou-se de bruços e abriu-se para ele como uma estrela-do-mar.  E assim ficaram em  perfeita consonância com a noite de lua cheia e convidativa para o amor.
No dia seguinte Raul nada comentou, tampouco os outros disseram palavra acerca do fato.  Todos agiram como se nada houvesse ocorrido.  Almoçaram juntos e agiram normalmente, e dias depois Michele abordou Gabriel na sala e disse que aquilo não fora um momento de fraqueza e em virtude do vinho, mas que vira-se acometida naquela noite de dois desejos: o de fazer amor e o de vingança contra o namorado  que desmarcara o encontro por razões fúteis.  Além disso avisou ao jovem a partir daquela noite não se iniciava um relacionamento e os dois não voltariam a se tocar com intenções que não fossem meramente fraternais. E foi dito e feito: a partir dali o namoro da mulher com o outro rapaz foi-se consolidando.  
Tanto que os dois amigos acabaram por conhecer Adriano, que almoçava n'alguns finais de semana na casa dos amigos, mas lá nunca dormia por preferir a moça pernoitar no apartamento do namorado, na rua Santa Clara. 
Michele percebia os ciúmes e a desolação de Raul, mas este jamais mudou seu modo de lidar com ela nem demonstrou nenhum sentimento ou conduta hostil quanto a Gabriel ou Adriano.  Os três moradores do apartamento eram uma família.

4

Num dos almoços no apartamento dos amigos, quando Gabriel tocou, eufórico, na realização da Copa do Mundo no Brasil, Raul mostrou-se avesso ao fato de o País sediar o evento.
--Temos inúmeros problemas financeiros, sociais e não temos condições de gastar o que vamos gastar pra construir estádios. Faltam hospitais, creches..
--Isso vai incrementar o turismo, pode haver um bom retorno... -- replicava Adriano, filho de família socialmente privilegiada e já dono de bom patrimônio aos trinta e cinco anos.
Michele parecia concordar com o amigo, mas preferiu não deixar que a discussão se alongasse.
Veio a Copa e os quatro assistiram a todos os jogos juntos, e a torcida  fervorosa foi de todos, que receberam no ânimo desportivo e na alma a ducha de água fria da derrota vergonhosa e inesquecível para a Alemanha.
Após a Copa do Mundo, o Brasil entrou em clima de eleições.
--Pra mim o segundo turno não é festa cívica.  -- comentou Raul numa mesa de bar, entre Adriano e os outros amigos -- Não voto em Dilma nem Aécio. Repudio os dois.
Adriano era Aécio. Michele e Gabriel votavam em Dilma, mas ninguém quis prolongar a discussão por manter a serenidade e a cordialidade da conversa.
O ano de 2015 foi lotado de escândalos financeiros e casos de corrupção ligados ao governo e seu partido, em 2016 Dilma foi destituída  e assumiu Temer, que fora vice da ex-presidente e, além de ter o nome envolvido em casos de depravação financeira,  desmantelou todos os direitos dos trabalhadores.  Um governo perverso e ultrarreacionário, igualmente cercado de casos de roubo de dinheiro público.
O dramático foi que toda essa crise financeira e o triunfo da direita (sem que isso queira dizer que o governo anterior fosse de esquerda) atingiram em cheio os três amigos.  O banco resolveu investir na mecanização de alguns  trabalhos que cabiam aos funcionários, e a agência em que aqueles trabalhavam foi fechada. 
Raul se viu desempregado aos cinquenta e três anos. Emagreceu em demasia.  Mal saía do quarto. Onde conseguiria outro emprego? E que direitos e garantias teria?
Tiveram de entregar o apartamento.  Gabriel voltou a morar com os pais e a ter de submeter-se aos rigores impostos pela família protestante.  Michele decidira também voltar a viver com os pais, mas Adriano pediu-lhe que vivesse com ele, com o que ela concordou de pronto.
Raul passou a morar numa quitinete cedida pelo pai, um português de oitenta anos, que tinha uma pequena mercearia e uma vila estreita de pequenos imóveis.
Não demorou a gastar o dinheiro da indenização trabalhista recebida: perdeu em alguns pequenos investimentos, o que não seria de surpreender num país em que poucos tinham emprego, e os que o tinham ganhavam, como ainda hoje, pouco demais.
Passou a fazer pequenos bicos de contabilidade, mas acabava quase sempre por ter no pai o provedor. Por fim decidiu-se a trabalhar com o genitor na casa comercial que este possuía.
Os contatos entre os três amigos passaram a dar-se  pelas redes sociais, ficando a cada dia mais escassos.
Gabriel permanecia desempregado e obedecendo às normas da casa da família protestante, Michele também não se empregara, mas vivia feliz com o marido, que dava-lhe bom suporte financeiro; Raul, com o tempo,  viu em si quase desparecer  aquela coisa estranha e quase exacerbada que sentia pela mulher.  Só ficou-lhe uma ponta quase imperceptível de mágoa por se ter sentido rejeitado por ela.  Mas as lembranças do apartamento e do convívio com os outros dois não o abandonavam, porque a eles associara-se para fugir à solidão, que agora apossara-se dele novamente e todas as noites perfurava-lhe a alma sem complacência, fazendo o seu olhar a cada dia mais perdido e tristonho.

17.05.2020