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domingo, 4 de janeiro de 2015

POEMA BANDIDO III

É o momento de louvar os festejos dissolutos,
os malandros com seus dados viciados,
as mulheres seminuas dos bordéis.

Fazer verso aos bebuns que não têm rumo,
às lascivas dos duzentos namorados
se exibindo e se ofretando nas esquinas.

Fazer canto ao Carnaval e  excessos da folia
com as bundas mais diversas e suadas
rebolando, reluzentes, nos salões.

Ode aos peitos, vulvas, coxas, ancas que se mostram, 
Num sentir arrebatado, fascinado, enlouquecido,
Entre gestos obscenos, rebolados imorais.

Ah, falar pornografias e mandar o mundo às favas!
Adentrar as cerimônias desvestido de camisa
E cantar bonitos sambas, abafando os oradores.

Mas jamais trajar um terno e se vestir de hipocrisia,
Nunca, Deus(!), deixar valer a hipocria!

Jardim Botânico


OS PAIS-DE-SANTO, PROFISSIONAIS E GURUS E A DOIDEIRA DOS DEPENDENTES

Se existe uma coisa que me impressiona, é o vínculo de dependência que as pessoas criam quanto às  outras, como acontece nas relações que têm com os psicoterapeutas, médicos, cartomantes, tarólogos, pais e mães-de-santo, pastores, padres, etc... Conheci uma taróloga e cartomante que era consultada pelas pessoas que a ela recorriam pelos motivos mais diversos e inusitados, alguns até extremamente fúteis.  Relato até o caso de um indivíduo que ligou-lhe por volta das sete da manhã, num domingo, de um hospital onde estava internado, e pediu-lhe que visse nas cartas como estava seu estado de saúde e se se sairia bem.  Juro que é a mais absoluta verdade!  Testemunhei os telefonemas, ouvi os recados na secretária eletrônica.
Sei de gente que não dá sossego aos psicólgos, de evangélicos que consultam os pastores para cada passo que dão na vida.  Há casos famosos de influência extrema de pastores sobre os fiéis, como o de Jim Jones, que em 1978 se matou e levou mais de novecentos ao suicídio.
Mas não quero aqui versar sobre coisas sérias, quero soltar  a imaginação.  Imagino o psicoterapeuta que recebe às 3 da manhã o telefonema de um paciente desperado.
- Alô!
- Renato, é você?
- Sou, mas, meu Deus(!), quem tá falando a essa hora?!
- Sou eu, o Lúcio!
- Mas que Lúcio, meu amigo! Tenho tanto paciente...!
- O Lúcio... aquele que só goza ouvindo sertanejo...
- Ah! Sei, sei! Mas o que faz você me ligar a essa hora, homem de Deus?! Interrompeu meu sonho erótico...!
- O problema é por aí, meu querido...  É que acabei de brochar agora, quando tentei transar com a minha esposa...
-  Puxa, Lúcio, toma um viagra, mas me deixa dormir!
-  Mas onde vou achar viagra às três da manhã?
-  Dá um jeito, meu prezado, mas me deixa dormir, por favor!
-  Você acha que devo tentar de novo?
- Tenta, tenta, por favor! Mas me deixa dormir!
- Você acha que é complexo de culpa ou de inferioridade?
Minutos depois toca o telefone de um pai-de-santo:
- Alô!!! - ele atende assustado - Quem é a essa hora??!!
- Alô, Pedrim d'Exu, aqui é o Renato, o psicoterapeuta!  É que agorinha mesmo um paciente ligou e perturbou meu sono. Você acha que é carga espiritual negativa?

NOSSOS COMERCIAIS (V)


Vem aí mais um "Brigue Bode"! Meça já a resistência do seu saco escrotal. Se ele não estourar desta vez, nunca irá explodir por nada, nada! Seja agora mesmo o grande ganhador do troféu "Saco de Ouro" assistindo a todos os episódios de "Brigue Bode Brasil"!

Assista toda quinta-feira ao programa "Paixão e Sacanagem", com Hernanda Prima, e receba lições de como trepar mais do que um macaco.  

Aproveite a grande promoção das Casas Brasília e compre já o seu político corrupto em oito vezes sem juros. 

Barão da Mata

NOSSOS COMERCIAIS(IV)


Você, maridão daquela dona de casa esgotada, dê  de presente à sua mulher o creme íntimo Proventa,e ela à noite vai arder na cama assim que nem pimenta!

Se você tem problemas de ereção, a Parlamentary's Laboratory lançou uma novidade que torna ultrapassados todos os remédios já conhecidos:  O Torpedus! Toprpedus é um ultra-poderoso afrodisíaco e vasodilatador que garante efeito de 365 trinta dias por ano com desempenho sexual pleno.  Torpedus é o estimulante de Dionísio e de todos os dos deuses do Olimpo, é a droga das orgias dos deuses!  Só Torpedus permite aos políticos  sodomizar todo o  povo desta terra permanentemente, sem nunca, nunca  falhar!  Use Torpedus! O estimulante do político brasileiro!


A Mazela Turismo apresenta agora uma promoção imperdível!  Percorra em dois anos os engarrafamentos do Rio, com vista para as favelas da Avenida Brasil e o Piscinão de Ramos, e os serviços de camelôs, com  latinhas de cerveja, biscoitos de polvilho, tudo isto com cinquenta por cento de desconto e para pagamento em quatro anos pelo cartão de crédito!   Não perca a maior aventura turística da sua vida, com lonquíssimas paradas   e assaltos ao vivo, no seu ônibus, com a sua participação como assaltado.      E mais!! Você poderá ser contemplado com um dos acidentes de trânsito típicos da região, além de morrer de rir em ver tanta imprudência, barbeiragem e impunidade! Ligue já para a Mazela Turismo, reserve sua passagem e venha viver uma verdadeira epopeia do Indiana Jones!!!

Se você deseja ser corrupto, mas tem vergonha, não passe por constrangimentos: vá às Casas Brasília e compre Picaretol, o ansiolítico  relaxante que vai lhe permitir roubar com aquela tranquilidade...

Antigamente,  os maridos e namorados traídos ficavam tristes e  acanhados. O homem moderno, no entanto, não tem mais este problema, porque hoje pode comprar nos supermercados o ornamento Galhamax(!), o embelezador de cornos que faz você orgulhoso dos seus chifres!!!  Exiba galhos grandes e exuberantes, com miquinhos e frutas artificiais.  Você terá os chifres mais bonitos, nos modelos galhada-de-veado, goiabeira  ou árvore-de -Natal.  Compre já seu Galhamax e desfile no "shopping" os chifres mais elegantes do mundo!

Para aqueles que não conseguem um bom diálogo, seja a mulher com o marido ou o marido com a mulher, por conta de diferenças intelectuais, a Farmaburros lançou Idiotex, o redutor de inteligência que põe qualquer um no nível do parceiro cabeçudo.  Não se esqueça: se a diferença cultural entre vocês é grande, dê à pessoa amada Idiotex agora, e ela cantará um breganejo na hora!

NOSSOS COMERCIAIS (III)

Cento e vinte por cento dos homens maiores de  dezoito anos sofrem de impotência.  Cento e três por  cento dos maiores de dezenove, de ejaculação precoce.  Cento e quarenta por cento têm transtornos de diarreia mental.  Mas também pudera!  Olha só em quem você votou!    Para não  errar mais na hora de escolher, use Votol, o antidiarreico mental dos sábios.  Não se esqueça: só Votol impede você de fazer merda na hora de votar.  Se você tem o miolo frágil, só Votol na hora do Sufrágio!

FALA O DR. VÁUSIO  DRALELA: É preciso tomar cuidado.  Muitos maus odores, infecções no ar, inquietação,  mal-estar, náuseas, podridão,  são os ventos da política.  Por isso, é sempre bom avisar: antes de digitar seu voto, use sempre a "camisinha".

Se o seu marido não a deixa dormir, chega tarde da rua e quer sexo,  e já não mais resolvem as  suas desculpas.  Se não adianta inventar dor de cabeça, menstruação, depressão,  TPM, mau-humor, preocupação... Se nada disso  já não "cola" mais (!), só há uma solução!  Dê a ele Broxol! Broxol! E você poderá dormir feliz e em paz como um anjo...!


Não deixe para comprar amanhã.  Deseja consumir? Use o seu cartão Falência! Use e abuse, e depois você vai ficar arrombadinho, arrombadinho...  Use o seu cartão Falência e seja a estrela do SPC!

Só o Magic Center faz a melhor manutenção da sua bola de cristal.  Se você olha dentro da bola de cristal e não consegue ver nada, não pestaneje: chame logo a Magic Center.  Temos também baralhos encantados e com câmeras de visualização de futuro, búzios com microfones para você ouvir as previsões.  Mais ainda: vá ao nosso setor bíblico e compre o nosso saco de milagres em doze vezes sem juros. Não fique aí ocioso: visite a Magic Center, a loja de departamentos do religioso.


Barão da Mata

Dores de cabeça? Pode ser que o seu cérebro seja grande demais para a caixa craniana.  Mas não se desespere: para tudo há uma solução: se sua caixa craniana é pequena demais, use os comprimidos encolhedores de  cérebro B-B-B!   Só B-B-B deixa a sua massa cinzenta pequenina de caber no bolso.

NOSSOS COMERCIAIS (II)

Meu bom servo do Senhor, não fique indeciso, aja com juízo: deposite na conta do pastor e abra caminho pro paraíso.


Inscreva-se já pro Brigue Bode e veja muita bunda, muito peito e outras coisas mais.  Tome logo a decisão!
Ingresse no Brigue Bode e viva cheio de tesão!  Lá é tudo como você gosta: muito fálico e nada encefálico!
É isso aí, meu garanhão! Só no Brigue Bode você trepa como um leão!


Não perca, de segunda a sábado, no Jornal da Tevê, as notícias do Brasil mais imundo.  



Barão da Mata







NOSSOS COMERCIAIS (I)

Não compre gato por lebre. Ou melhor, não compre aguinha por aguão. Só a Casa Hidrossanta tem a legítima água Bacedão.  Água Bacedão! A verdadeira água do Rio Jordão.
A Hidrossanta tem também outros produtos de grande utilidade: larvas, ovos e criadouros de algumas das pragas do Egito para você castigar os hereges.  Vá hoje mesmo a uma casa Hidrossanta e compre os milagrosos produtos Bacedão, o poder divino ao alcance da mão.


Se você vê fantasmas, tem obsessão, encosto, visões, perturbações, ziqueziras, use Saravá(!), o único defumador e repelente de eguns em "spray".  Saravá não faz fumaça, não irrita  os olhos nem a garganta, não provoca tosse e é perfumado e suave, deixando o seu ambiente limpo e aromatizado.  Basta um jato do seu "spray" Saravá, e os fantasmas e encostos se mandam pra bem longe na mesma hora!  Não esqueça! Saravá! O único espanta-encosto bom de usar!

Se o seu marido é meio burrinho, só fala em esportes e gosta de acompanhar os "reality shows" e, mais do que isto, costuma acreditar em políticos e suas promessas, ele está precisando de Cerebrênio.  Cerebrênio é um tônico cerebral que inibe a idiotina, a enzima maléfica do cérebro que provoca entre outros males o interesse pelo "funk" ,  pagode e  telenovelas e que vai provocando pouco a pouco o achatamento encefálico, doença que acomete pelo menos cinquenta por cento dos eleitores.  Além de inibir a idiotina, Cerebrênio aumenta os seus níveis de inteligentol, e aí o seu marido irá querer discutir História, Física, Matemática, Filosofia, mudará da água pro vinho! Todo mundo irá querer conversar com  ele! Não se esqueça: Cerebrênio!  Só Cerebrênio faz do seu idiota um gênio.

Se o seu namorado beija mal, não se desespere: dê a ele Beijol!  Beijol é um estimulante do beijo que aumenta o volume da língua e gera impulsos elétricos que a fazem vibrante e quente, com movimentos rápidos que vão deixar você doidinha!  Beijol! Faz o beijo do seu namorado quente como o sol!

TROCA DE BILHETES ENTRE GERENTE E CHEFE DE COZINHA SOBRE COMO SERVIR LULA


Gerente para chefe de cozinha:
"Prepare lula para o próximo evento e longa degustação de muitas pessoas."
Chefe para gerente:
"Como devo servir lula? À dorê?  Com brócolis? Devo fritar?"
Gerente para chefe:
"Impossível fritar lula.  Isto só aconteceu uma vez, em 1989, quando se fritou lula ao molho cordeiro, um molho de um prato colorido que era muito ruim, que não foi tolerado e acabou numa frigideira bem antes do tempo previsto.  Mas a questão é que não há mesmo como fritar lula.  Por volta de 2004/2005, serviu-se lula enrolada, escondidinho de lula, lula com cobertura, mas com fritura, nunca mais!  Esqueça esse negócio de fritar lula; não dá mesmo! Se tentar, você pode acabar se queimando.  E tem mais. Se o pessoal já gosta tanto que se lambuza de pitadas de lula em tudo, imagine quando é o prato principal.   Se for inteligente, não tente fritar. O prato é indigesto, mas o pessoal gosta muito. O pessoal de Pernambuco, então, nem se fala! Mas o fato é que é moda desde 2002, meu filho: agora não sai nunca mais." 

ENTRE O PASTOR E O PAI-DE-SANTO


Tava numa maré de azar danada. Tudo dava errado!  Tudo dava errado!  Pra você ter ideia, num dia chuvoso avistei uma moedinha de cinquenta centavos meio de longe, sorri, me agachei para pegá-la e um ônibus meteu a roda numa poça d'água e me deu um banho.  A camisa, branquinha, branquinha, ficou imprestável.  Tive um prejuízo de mais de vinte paus.
Foi aí que resolvi deixar de ser racional e entrei numa igreja dessas em que o pastor fala alto à beça ao microfone e toda hora pede doações.  Como estava na primeira fila e ele olhava pra mim, depositei ali na sacolinha um real.  O homem me olhou de ladinho e começou a vociferar:
- Aquele que doa pouco não mostra fé verdadeira em Deus!  Mais que isto, tenta enganar a Deus,e é punido com o fogo do Inferno!  
Sentindo que falava pra mim, levantei-me e entrei no meio de outros doadores e dei mais dois reais.   Mas o danado percebeu e bradou: 
- As pessoas não entendem que com Deus não se brinca! Certas coisas são humilhação ao Senhor!
Misturei-me a uns outros crentes que estavam também de pé e saí de fininho.  Ganhei a rua e fiquei pensando comigo:
-  Fogo do Inferno... Poxa...!  E eu não aguento nem calor de trinta e três graus.  O que faço de minha vida...?  O que faço de minha alma...?
E andando com estes pensamentos deparei com uma casa modesta que tinha uma placa na porta: "Desfaço trabalho, trago seu amor de volta, dou prosperidade."  Era tudo o que eu queria: prosperidade, nenhum amor de volta, mas quem sabe um novo amor?  Quem sabe ainda a salvação da própria alma?
Foi pensando assim que entrei, esperei uns quinze minutos e um pai-de-santo me atendeu:
- Muzifio tá cum zica braba, precebi quando zoiei. Vô tirá tudo de uma vez!
- Opa! - pensei comigo - Vou sair daqui com todos os meus problemas resolvidos.
Tomei um passe dos bons, desfiei um rosário de lamúrias pro homem, fiz um pouco de manha (quem não chora, não mama, não é?) e ouvi o diagnóstico:
- Mandinga feia feita pro fio.  Coisa botada em cemitério, prás alma pior  das alma.  
Perguntei de imediato, sem conter a ansiedade:
- E pai tira de mim, tira?
- Pai tira. - ele respondeu de pronto - É só comprá sete vela vremeia e preta, dez ramo de vence-demanda, três foia de tinhorão-brabo, trazer três galinha preta pra abatê e deixá duzento real pro santo.
Matar animais!!!??? Duzentos reais!!!???  O que queria aquele sujeito?Que eu fosse contra meus sentimentos e princípios e virasse assassino de galinhas?!  E ainda morresse numa grana daquelas!?
Levantei, dei nele aquele abraço de preto-velho e saí rapidamente prometendo voltar no dia seguinte. Quando tava no portão, o cara cuidou logo de me avisar:
- Se não voltá encosto não sai do costado, num abandona muzifio nunca mais.
O que fui arranjar pra mim?! Dar uma grana alta à igreja ou viver eternamente no Inferno, matar animais e dar uma nota de respeito ao pai-de-santo ou ficar com o encosto a vida inteira nas minhas costas.  Nas minhas costas???!!  E quando eu fosse sentar? Ia ficar no colo do encosto?! Não sou disso! Coisa mais feia!!  E quando fosse transar? Ah, é?! O engraçadinho do encosto ia ficar agarrado às minhas costas...Mas que coisa mais trágica!  Oque é que ele ia ficar fazendo comigo? Xi! Não quero nem pensar!  Imagine também: já ouvi que o encosto faz tudo o que a gente faz através da gente: então ele também ia transar com a  mulher que transasse  comigo.  Tem graça a gente dividir a mulher com os outros. Puxa! E eu só dividi mulher sem saber: nunca aconteceu voluntariamente.  E quando eu fosse beber, o egun ia beber a maior parte, tomar um porre daqueles às minhas custas e ainda zumbizar no meu ouvido pra eu arranjar confusão com os outros na rua, e eu que ia tomar as porradas enquanto ele ia ficar rindo gostosamente de mim.  Ah, não, não era possível!  Não podia aceitar tudo aquilo!  
Foi por isto que voltei à igreja, aproveitei que não havia platéia e o pastor tava sozinho, me aproximei dele e perguntei:
- Quanto os Senhores acham que eu devo doar?
- Os senhores? - ele mostrou estranheza.
- É que eu falo em nome do Senhor Deus e do senhor pastor.
- Hmm! - ele fez com a cabeça que entendera, pensou um pouco e sentenciou: - Uns duzentos reais.
Fiquei numa sinuca-de-bico.  Pensei, pensei, pensei até me dar conta de que ao menos não iria pro Inferno. Mas quis me certificar de outros detalhes:
- Mas se tiver algum espírito mau me atrapalhando, os Senhores também tiram, não?
- Claro, meu filho!
Calei por um tempo, um tanto acabrunhado, até que falei:
- E os Senhores aceitam parcelamento?
- Hmmmmm...! - ficou a matutar o santo homem... e pensou e pensou... até que fez uma contraproposta: - O filho vai depositar vinte reais por mês, por toda a vida, na conta da igreja, e eu vou lhe passar o número...
Aceitei, mas não perdi a oportunidade de fazer mais uma pergunta: 
- E isso vai me trazer prosperidade?
- Claro, meu filho - ele me assegurou com sua calma constante, bem diferente de toda aquela ebulição que mostrava diante da platéia.
Peguei a número da conta e passei a depositar.  Regularmente.  Sem atrasar um dia.
Devo dizer que já faz doze anos e doze meses que deposito na conta da igreja, e não obtive graça nenhuma, não prosperei e as aporrinhações continuaram. Mas pelo menos me salvei de ir pro Inferno.

sexta-feira, 2 de janeiro de 2015

VÂNIA E OS DOIS IRMÃOS


 Toda santa sexta-feira era aquele diabo!  Euclides nunca vinha para casa.  Vânia ficava esperando, o banho tomado e o corpo perfumado, um vestido curto de tecido leve e quase transparante, como se o marido fosse, surpreendentemente, chegar antes da madrugada, percorrer os olhos pelas suas coxas e pelo vestido a esvoaçar levemente com o vento, apalpar-lhe a cintura, os seios e as nádegas, sentir nas pontas dos dedos a textura do vestido, despi-la, possuí-la num ímpeto febril... Mas tudo isso eram devaneios! O danado sempre voltava na manhã de sábado, ou então em profunda madrugada.  E naquele dia não seria diferente: passaria a noite na esbórnia, chegaria bêbado, cheirando a cigarro e perfume barato, com todos os indícios de haver passado a noite com alguma vagabunda.
Vez por outra vinha com hematomas, sinal de haver-se metido em alguma briga, mas nunca dava satisfações ou se explicava.  Mesmo que viesse com marcas de batom!
- Sai pra lá! Vai dormir! Tava com mulher porra nenhuma! - limitava-se Euclides a rugir quando ela notava alguma pista mais clara de o marido havê-la traído. Outras vezes ela reclamava quando o pegava sóbrio:
- Você só quer saber de beber e chegar de madrugada.  Esquece que tem mulher.  Você acha que isso é casamento?
Ele se limitava a ficar murmurando entre os dentes alguma coisa que ela mal entendia, mas nunca se dispunha a discutir a questão.  
Era aquele sofrimento toda sexta-feira.  Mas Vânia não sofria só nos finais de semanas: era praxe ele ficar pelos botequins quase diariamente, muito embora não madrugasse nos outros dias, chegando sempre entre dez e onze da noite. 
Não faltava, ou pelo menos não faltava tanto com os deveres de marido.  Buscava-a na cama, amava-a, mas com um carinho e uma freqüência menores do que ela desejava.  Vânia não sabia se ele ainda a amava, nem mesmo se ela própria continuava a nutrir amor pelo marido.  Mas sentia uma necessidade quase orgânica de ser acarinhada, de ter os dedos de alguém por entre  cabelos, de ter a boca demorada e intensamente beijada... como nas novelas que via... como nos romances de bolso que lia... como fora no seu tempo de menina, de recém-casada.
Estavam ambos casados já havia cinco anos, não tiveram nenhum filho por ser a mulher infértil, e às vezes esta presumia ter sido sua a culpa do desgaste daquele casamento, justamente por não ter podido dar um filho a ele - muito embora Euclides jamais houvesse reclamado do fato.  Mas a questão é que Vânia tinha a sensação de haver-lhe feito um homem a sentir-se incompleto, frustrado, que a punisse  com a ausência e a desatenção o fato de não ser pai.
Era difícil o Euclides: quase não falava, quase não sorria.  Era pedreiro e vivia aporrinhado e resmungando sobre os ossos do seu ofício.  Vivia cansado ou então enfiado nas suas bebederias.
- Merda de vida...! - costumava queixar-se com sua voz quase gutural - Muito trabalho e o dinheiro pouco.  Só trabalho e aborrecimento... Isso lá é vida?  
Aos sábados e domingos aquela sensação de solidão seguia a apertar o peito de Vânia: ele acordava tarde e pouco falava, ora comido pela ressaca, ora enclausurado em seus pensamentos e seu mau-humor, os olhos voltados para a televisão.  Diabos! Três anos de namoro e cinco de casamento, e Vânia pouco conhecia o seu homem. 
A casa era triste e silenciosa, monótona, tediosa, e só ganhou alguma vida quando Eusébio, o irmão mais velho de Euclides, chegou de Aracaju e instalou-se num quarto-com-banheiro que Euclides construíra no fundo do quintal para abrigar o outro.
Eusébio era falante embora parecesse tristonho. Às vezes mergulhava em profundo  silêncio, mas não era como o irmão.  Era mais comedido; não se encharcava de bebida, era sociável.  Euclides recebeu-o com enorme alegria, entregou-lhe o quartinho que lhe construíra no fundo do quintal com grande satisfação.
- Vê só, mano: com o tempo você aumenta esse teu quartinho, pega um pedaço maior do terreno e me paga aos pouquinhos: o importantte é nós ajudar um ao outro.
Depois da chegada de Eusébio, Euclides tornou-se mais caseiro, raramente madrugando às sextas, chegando quase sempre cedo nos outros dias, e Vânia percebia que isso se dava porque o irmão estimulara-o a ficar em casa a trocar idéias, e também pelo motivo de, como era bastante notório, o marido temer ser traído pela esposa e o irmão.
Logo Eusébio empregou-se, numa obra a cujo encarregado Euclides apresentou-o.  O irmão desempenhava suas tarefas com habilidade, também era um pedreiro de grande competência.
Alguns dias Eusébio chegava do trabalho, banhava-se e comia da comida que Vânia preparava, ficava a conversar longamente com o casal, a tocar em vários assuntos, a rememorar os tempos da infância de extrema pobreza vivida  em Nossa Senhora do Socorro, e a ida da família para Aracaju.  Recordavam  os pais já falecidos e comentavam da impossibilidade de permanecer na terra natal por conta da inexistência de perspectiva de condicões razoáveis de subsistência, da posterior necessidade de deixar a própria Aracaju por razões semelhantes, e Eusébio tinha também uma dor atravessada no peito:
- Não sei por que a Cássia me deixou. - lamentava-se - Eu não fiz nada de mal com ela.  Uma ingrata! Tu não sabe, mano, como eu gostava daquela mulher.
Cássia era a mulher com quem vivera durante dez anos, que nos últimos tempos de vida conjugal não lhe dera mais importância, não lhe fizera mais elogios nem agrados, pouco aceitou-o no leito e tinha-o na conta de quase um traste, além de, num fatídico dia, olhá-lo com um olhar de profundo desprezo e dizer-lhe:
- Não quero mais viver com tu.  Eu não gosto mais de você.  Vou viver minha vida longe de você.  
O homem lamuriava-se quando trazia à tona aquelas lembranças, e Vânia sentia que identificava-se de certo modo com ele, pois  era uma mulher com o mesmo sentimento de abandono que acometia o cunhado.  Estava casada, vivendo com o marido, deitando com o marido, mas era uma mulher abandonada como qualquer outra sem marido.
Quando encontrava-se sozinho com a cunhada, Eusébio nunca entrava na casa desta, por respeito ao irmão e para não causar impressão ruim a qualquer vizinho que casualmente por ali passasse e o visse entrar, e também porque sabia que o irmão não gostaria.  Mas ficava sentado a uma cadeira, no quintal, e naqueles momentos sentia-se mais à vontade para falar com maior detalhamento sobre a saudade do norte e principalmentte da tristeza de ter perdido Cássia.
Já se haviam passado dois anos e ele não a esquecia. Tinha  a autoestima ferida, um sentimento  de extrema  solidão, a sensação de uma coisa que doía fundo dentro do peito.
A partir de um certo tempo, Vânia também encorajou-se a relatar tudo aquilo que  corroía-lhe a alma e a fazia infeliz, a queixar-se do marido que tornara-a uma mulher ávida de afeto e frustrada, triste e solitária.  À medida em que os dois sentiam-se mais à vontade para trocar confidências, Euclides tornava-se mais freqüente na esbórnia das sextas e nas pequenas bebedeiras dos outros dias, agora já sem dar muita atenção ao irmão, voltando pouco a pouco a ser o mesmo caladão de antes. 
Se, quando o irmão era recém-chegado, o marido de Vânia, enciumado e temeroso, procurava-a na cama com mais freqüência, agora voltava a ser o mesmo de antes, voltado para as suas bebedeiras, seus maus-humores e seus pensamentos.  Enquanto mulher e cunhado conversavam quase todas as noites, ela à porta da sala, ele sentado na cadeira do quintal. Até que um belo dia Eusébio entrou.
Vânia colocara um daqueles vestidos leves e curtos com que sempre esperava o marido, e Eusébio começara a pensar que ela o fazia para ele, cunhado.  Contivera o desejo mais que pudera,  mas o problema era que aquele equívoco devolvia-lhe tudo aquilo que a ex-mulher  lhe roubara: a autoestima, o desejo de viver,  a sensação de ser um homem à altura da palavra.
Durante a conversa, parou de repente e tomou um pulso de Vânia.  A expressão da mulher era de estupefação, mas ela não relutou, não o repeliu, apenas ficou a encará-lo, os olhos arregalados, incapaz de dizer palavra .  Eusébio foi conduzindo-a para dentro de casa, ela deixou-se levar como um autômato, e os dois se amaram com a entrega e a volúpia dos amantes dos mais picantes romances de amor.
Os dois se deram como que loucamante enamorados, e trocaram tantas carícias e tantas juras de amor, que mais pareciam dois adolescentes embevecidos no primeiro ato sexual de suas vidas.  E desfrutaram plenamente  cada momento,  cada gemido,  cada suspiro,  cada palavra quente, naquela noite de delírios,  em que ambos sentiram-se apaixonados e correspondidos, felizes como se fosse impossível existir na face do planeta qualquer sentimento ou  coisa diversa da luxúria, da paixão e da felicidade. 
Tão logo deixaram o quarto e vinham saindo, ainda ajeitando as roupas e sentindo-se leves como flutuassem, Euclides surgiu na sala, bem diante dos dois.
Ficou longos momentos sem palavra, os olhos febris de ódio, a voz entalada na garganta,  a boca aberta numa espécie de surpresa esquisita, porque, apesar das suspeitas de que aquilo já estivesse acontecendo antes, tivera durante o período de desconfiança a esperança de estar equivocado.
- Desgraçados! Filhos da puta! Vagabunda! Puta suja! Maldito asqueroso! - gritou e rugiu ao mesmo tempo, e sentia um furor demoníaco.
Teve um ímpeto de pegar o facão na cozinha e acabar com os dois, que permaneciam imóveis e sem ação.  Mas conteve-se.
- Some os dois daqui.  Pega tudo o que é de vocês e some da minha frente agora.
Eusébio quis dizer alguma coisa...
- Cala, desgraçado! - berrou novamente Euclides - Senão eu te mato! - Foi saindo, ofegante: - Some os dois daqui agora.  Vou até o botequim.  Se eu encontrar um de vocês aqui quando eu voltar, eu mato.
A rua encheu-se de gente.  Euclides passou carrancudo pelo meio das pessoas, enquanto os amantes estavam quedados e pálidos de vergonha diante dos vizinhos.
Arrumaram as roupas, fretaram uma kombi e saíram do bairro.  Dentro do veículo Eusébio ainda murmurou para ela:
- Não sei dizer o que tô sentindo.
 Vânia comentou com um ar  de desânimo o olhar distante:
- Eu vou sumir.  Vou prá casa da minha mãe, que é bem longe. Quero esquecer o dia de hoje.  Tô me sentindo uma piranha! Uma vagabunda!
- Meu Deus! - Eusébio levou as mãos à cabeça, não sabia o que mais dizer.
Passado pouco mais de um ano, ele,  Eusébio, numa tarde de domingo, procurou o irmão.  Euclides, que a princípio relutou  em dirigir-lhe a palavra,  por fim acabou por fazê-lo.
- Só não entra, seu traidor.  Eu falo contigo aqui do portão mesmo.
- Meu irmão, eu não queria te fazer de besta...
- Não me chama de irmão, seu maldito...!
- Desculpa, Euclides, mas não foi por maldade...
- Você veio me esculachar, filho da puta? - rugiu com o olhar fuzilante.
- Não, por favor, não é isso.  Eu só queria te dizer que foi uma doideira... Mas é que eu tava morrendo de tristeza, tinha uma dor que me maltratava...
- Desgraçado!  Você me traiu com aquela... - longa pausa - Ela era a coisa que eu mais amei  nessa vida...
- Perdoa, Eucli...
- Nunca!
Eusébio botou a mão no peito:
- É que eu sentia uma tristeza tão grande, uma coisa que me matava aos poucos, que me doía fundo aqui dentro...
Euclides bateu o portão, deu as costas ao irmão, percorreu o quintal, entrou na casa batendo também a porta da sala. Eusébio murmurou para si mesmo:
- Uma coisa que mata aos poucos... que dói fundo aqui no peito...

 2008

sábado, 8 de novembro de 2014

POR QUE A MÍDIA É INDIGNA DE CREDIBILIDADE

Antes de tudo, é preciso entender o papel dos órgãos de imprensa (a mídia).  Criados em sua maioria por membros das classes dominantes,  os órgãos de comunicação se dão, além de informar, o papel de formar opinião no sentido de fazer a sociedade crer que os interesses das categorias ricas vão ao encontro das aspirações e do bem-estar da população como um todo.   Quando é difícl a persuasão, não têm sequer o pudor de evitar mentir.  Ou seja, se não conseguem sofismar, mentem ou omitem fatos de fundamental relevância para serem bem-sucedidos em seu intento.  Há também informativos criados por trabalhadores, trabalhando de forma antagônica,  mas que têm uma circulação tão diminuta, que nem cabe apreciá-los aqui neste contexto.
Analisada a atuação das instituições de comunicação, você perguntaria por que tantos jornalistas, se não donos dos veículos, se prestam a confundir ao invés de informar de forma isenta.  A resposta é fácil: se o jornal é de pequeno porte, fazem-no para manterem seus empregos.  Quando a mídia é imensa e poderosa, praticam-no porque têm contratos milionários com as emissoras e por isto de forma nenhuma pertencem às camadas não privilegiadas, como  a maioria  de nós, que vivemos de salários e somos muito dependentes de políticas salariais, tornando-nos muito frágeis e passíveis de estragos causados por medidas previdenciárias e relativas a remunerações.  Noutras palavras, imaginem os salários milionários de William Waac, William Bonner, Ricardo Boechat, Cristiana Lobo e entendam perfeitamente o que digo.
Pelos motivos apontados, você vê os âncoras na televisão defendendo achatamento de remunerações e prolongamento de tempo de labor (com fatores de redução remuneratória) para aposentadoria.  Há muito tempo professam reforma da previdência atrás de reforma da previdência, não se contentando com as tantas já feitas desde a eleição de Fernando Henrique Cardoso.  Pano de fundo da questão: o poder econômico é faminto de vantagens, viciado em lucros a cada dia maiores, não pensa senão em si próprio e, por ser composto por empresários e magnatas, beneficiário de políticas de baixa remuneração ao trabalho e de incentivos fiscais extremamente generosos e investimentos caridosos dos governos quando estes últimos conseguem economizar.  Aqui se entendem os porquês de o empresariado ser tão preocupado com as verbas públicas.
Querem (os empresários) - e conseguem - adequar o Brasil a eles, impondo políticas econômicas perversas que só fazem concentrar renda em suas mãos.  E para isto contam com os telejornais, os jornais de grande circulação e outros setores de mídia.
Pudemos perceber claramente  que a imprensa nutriu durante as eleições uma predileção especial pelo PSDB, não porque o PT tivesse ou tenha qualquer coisa de partido de trabalhador, mas porque é uma frente abagunçada de gente que, se não vê nada de mais em atos de corrupção de aliados e correligionários, imagine como é no trato com a administração pública.  Isto sem contar que vez por outra, por motivações meramente demagógicos, ousa desobedecer aos desíngnios do grande capital.  Petistas e os chamados tucanos, no aspecto social, são iguais vendendo imagens diferentes: a vitória de Dilma vai produzir os mesmos efeitos que produziria uma suposta vitória de Aécio.  Assim, se veículos de informações, porta-vozes dos empresários e banqueiros, queriam pessedebistas e vão ter de engolir os petistas,  já cuidaram de parar com as críticas e fazer as pazes com Dilma, a que agora dão sustentação e por outro lado pressionam no sentido de tomar medidas econômicas extremamente nocivas a quem vive do próprio salário ou pertence aos estratos sociais não ungidos.  Pressões que, longe de causar remorsos à mandatária, serão tomadas com ferocidade por esta, que comprimirá contra a parede o que chamam de base aliada mas que não passa de grupos que recebem benesses em troca de votos a favor de projetos governamentais, num toma-lá-dá-cá lamentável e que é altamente pernicioso à população do país.
Por falar em aliados, á ainda mais vergonhoso quando os famosos da imprensa vêm propugnar que é bom para a saúde do Brasil que o governo tenha uma vasta base aliada.  É uma mentira deslavada: o legislativo foi criado para conter os abusos do executivo, discutir e questionar-lhe os projetos e objetivos, não para endossar-lhe todos os atos incondicionalmente, pois do contrário não teria, como nos dias atuais, razões de exisitir.  É desalentador ver um Congresso que se deu a incumbência de tão somente obedecer a um governo com fortes inclinações ao despostismo.
Em síntese, o país tem uma estrutura de poder abolutamente desalentadora, alimentada por uma mídia pouquíssimo merecedora de credibilidade.

quinta-feira, 30 de outubro de 2014

COMENTÁRIOS ACERCA DO MEU ESTILO POÉTICO

Quando eu tinha uns 16 anos, ouvia na rádio uma modinha de cento e cinquenta anos (regravada, logicamente, e cujo autor infelizmente desconheço) que misturaava a 2ª  e 3ª pessoa do singular e tinha a seguinte letra:

Numa tarde linda,
eu me lembro ainda, 
no velho cais dourado:
sambando
eu via a moreninha,
batendo as tamanquinhas.
E eu, maravilhado
com seu requebrado,
quis sambar também.

Ó linda moreninha,
tu serás só minha,
tu serás meu bem.

A noite foi caindo,
lá no céu, surgindo, 
uma estrela brilhou.
A linda moreninha
foi-se requebrando 
e se retirou.

Maria,
Mariazinha,
Maria, satisfeito o seu desejo,
eu até lhe dou razão.  
Eu tenho meu amor a outras, 
mas não dou meu coração.
Meu coração eu não dou,
porque não posso arrancar.
Arrancando, sei que morro,
Morrendo, não posso amar. 


A simplicidade da linguagem e o cenário que a letra trazia me encantavam.  Ficava imaginando a moreninha,  em 1824, sambando no cais sob o céu estrelado.  Minha mente criava imagens com pessoas à volta, a algazarra,  a bebedeira, em tempos inteiramente diversos daqueles  em que eu vivia.   A canção me despertou o interesse para outras do mesmo estilo, com panoramas singelos e imagens poéticas simples e profundas.   Passei a gostar do lirismo com luar, estrelas, moça enamorada à luz da penumbra, varanda, jardim, casa desbotada,  juras de amor sussurradas,  violão tocando ao fundo.  E isto influenciou profundamente minha composição, e reconheço que meu lirismo sempre transitou dentro daquela mesmíssima atmosfera.  Por isto fiquei infinitamente chateado quando uma vez, numa comunidade do Orkut, fizeram uma crítica cruel ao meu trabalho de forma arrogante e com dizeres do gênero "renove seu estilo poético, porque seus versos mais parecem letras de músicas antigas, entretanto sem a poesias daquelas".   Fui extremanete malcriado na resposta, e o crítico e eu fizemos uma grande inimizade virtual a partir dali.  Embora tenha ele dito que eu estava sendo traído pela memória, a verdade é que sempre escrevi assim propositadamente, porque, como já disse, tais cenários sempre me comoveram.  
Voltando ao passado remoto, após MARIAZINHA, mais ou menos um ano depois, Geraldo Azevedo me despertou a atenção com CARAVANA

Corra
não pare, 
não pense
demais, 
repare essas velas no cais 
que a vida cigana. 

É caravana 
é pedra de gelo ao sol.
Degelou teus olhos tão sós
num mar de água clara.


Uma série de composições veio depois me encantar. Conheci LUAR DO SERTÃO, de Catulo da Paixão Cearense

Não há, ó gente, oh(!) não,
Luar como este do sertão...

Oh(!), que saudade do luar da minha terra,
Lá na serra branquejando
Folhas secas pelo chão.
Este luar cá da cidade, tão escuro,
Não tem aquela saudade
Do luar lá do sertão

Se a lua nasce por detrás da verde mata
Mais parece um sol de prata prateando a solidão,
E a gente pega na viola, que ponteia,
Ao cair da lua cheia
A nos nascer do coração

Se Deus me ouvisse
Com amor e caridade,
Me faria esta vontade,
O ideal do coração:
Era que a morte
A despcontar me surpreendesse
E eu morresse numa noite
De luar do meu sertão


Meu primeiro flerte fora, porém, ainda na infância com MENINA DA LADEIRA, de João Só
Menina que mora na ladeira
E desce a ladeira sem parar,
Debaixo do pé da laranjeira
Se senta pra poder descansar.

Silêncio profundo a menina dormiu
Alguém que esperava tão logo partiu, 
Partiu para sempre para o infinito,
Um grito ouviu

Chorando levanta a menina,
Correndo ligeiro sem parar.
Debaixo do pé da laranjeira
Há sempre alguém a esperar.
Violeiro tocando, estrela a brilhar
Violeiro em prece
Em prece ao luar.

Tal noite vazia espere a menina
Tão linda não, não vá.
Chorando levanta a menina
Correndo ligeiro sem parar.
Debaixo do pé da laranjeira
Há sempre alguém a esperar.


Se ainda no florescer da minha juventude gostei tanto destas músicas e de tantas incontáveis outras letras no mesmo estilo, que poesia lírica poderiam esperar de mim?
É inegável que meu poema, com o tempo, ficou repleto de luares e estrelas, manhãs e noites, enamoradas à luz de penumbra (acho "enamorada" uma imagem poética belíssima! - de uma carga lírica que faz já da palavra em si uma poesia), e hoje, vendo os outros poetas -inclusive da MPB -  abandonarem ou ao menos afastarem-se dos poemas com cenários compostos por astros, estrelas e paisagens, pressuponho que meus escritos sentimentais vão ter de trilhar outro caminho, muito embora já tehha muita coisa escrita (mas ainda não divulgada) dentro do estilo que me influenciou.  Em outras palavras, dentre meus  futuros poemas muitos ainda serão publicados com o mesmo aspecto que sempre caracterizou meu modo de escrever.   
Depois a minha criação será compelida a tomar outra feição, por conta de não mais existirem ruas descalças e moças de pés no chão, por conta da urbanização dos logradouros e da predominância da tecnologia, do espírito prático dos dias de hoje e de uma série de outros fatores que mudaram radicalmente o aspecto da poesia, tornando a  contemporânea muito diferente da que se compunha nas décadas passadas. 

FERNANDO HENRIQUE FOI PEÇA FUNDAMENTAL NA DERROTA DE AÉCIO

O homem, no quarto de hospital, suplica à esposa:
- Por favor... não... me deixa... morrer!
- Não, meu amor, - ela replica - você... você... não vai mor..rer, nããão...
- Então por que ... o quarto...arrg! tá cheio de gente?
- É que você é muito querido, meu amor...  O médico falou que você tá muito bem...
- E por que ele bateu do lado de fora da porta e perguntou: "Já foi?"
A mulher se embaraça um pouco e a seguir se recompõe:
- Nã-não, amor! Ele tava se referindo à revista que eu fiquei de comprar pra você.  Lembra, que eu falei pra ele na tua frente que ia dar uma saidinha  pra comprar uma revista de turismo pra você?
- É?... E...arrg! esse cara todo de preto que tá me medindo todinho?
- Ah, aamoooor!  Esse é o alfaiate, que vai fazer uma roupinha bonita prá tua alta?
- E esse padre com essa bíblia e esse crucifixo?
- Veio rezar pra você ficar bom rápido.
- É? Então por que minhas mãos tão roxas?
- É essa friagem danada,  meu amor !
- É?... Então como é que vocês tão todos suando?
Certas coisas é impossível esconder.  Não há como negar, dissimular, apagar da memória.
A anedota apenas ilustra o que foi o tiro de misericórdia que abateu Aécio, apesar da grande performance que o senador teve nestas eleições: a memória da gestão Fernando Henrique.
Não nego que nunca vi, em todos os meus anos de vida, uma campnha campanha tão sem ética  e sem decência, e tão lamentável como a da presidente nestas eleições.  O PT indignou os brasileiros de caráter e de bom senso com seus programas eleitorais e debates.  Foi a propaganda política  mais vegonhosa talvez de toda a história do Brasil.  Mas venceu.  Lamentavelmente.  
Não lamento contudo pelo PSDB, pois, para ser franco, votei nulo, porque não havia como apoiar a permanência do PT no poder após tantos e tantos casos de corrupção cercados de tanta leniência, somados à arrogância e à tendência autoritária revoltantes da chegfe do governo, além da presença constante de Lula em todos os  momentos nacionais.  Não, não votaria no PT nem com com um cano de espingarda apontado prá cabeça.  Mas também não votaria no PSDB.
Fernando Henrique pautou sua carreira política em ideais socialistas e, quando viu-se investido do cargo de Presidente da República, governou de um modo cruelmente tecnocrático,  implantou uma recessão desesperadora, inverteu todos os valores sociais, tentando passar à opinião pública a ideia de que era bonito desempregar e aviltar salários, e os atos do seu governo jogaram milhões de trabalhadores na rua da amargura.  A campanha de Dilma foi absolutamente condenável, mas o que mais assustou os eleitores com consciência social e política foi o fato de esta haver  refrescado insistentemente a memória do eleitorado, trazendo sempre à baila   a lembrança da  forma ultrarreacionária de governar do ex-mandatário, sem se esquecer de que este enviara ao Congresso um projeto crudelíssimo de reforma trabalhista, que pretendia suprimir vários direitos sem poupar férias e décimo terceiro salário.
Aécio não tinha saída: se rompesse com FH, o PSDB lhe daria as costas.  Uma vez questionado pela adversária com relação ao ex-presidente, tinha de defendê-lo e dizer-se honrado por tê-lo como apoiador.  Não foi só a falta de apoio de Minas e do Rio, aliada à projeção da adversária no Nordeste, que o derrotou:  foi a memória dos anos socialmente negros de Fernando Henrique Cardoso.
Não quero com isto dizer que o PT seja o partido dos trabalhadores:  longe disto, dever-se ia chamar PCOM, Partido dos Companheiros, ou então PC do PT, Partido dos Companheiros do Partido dos Trabalhadores, já que é uma força política que atua exclusivamente em prol de petistas e militantes, mantendo os salários baixos, a mão-de-obra desvalorizada, enquanto ilude as classes mais pobres com um bolsa-família que, apesar de ter sido muito bem digerido pela mídia, não passa de um assistencalismo barato, covarde e oportunista. Não é com esmolas que se eleva o padrão de uma sociedade, mas com empregos bem remunerados, com saúde pública de atendimento pleno, com escolas e universidades, com uma política habitacional digna do nome e uma segurança pública de verdade.   Em outras palavras, é com investimentos e com coragem e justiça que se ergue uma sociedade, não com discursos vazios e demagógicos.  Fosse o partido governista realmente voltado para as classes menos afortunadas, teria enfrentado os banqueiros e posto em prática a taxação das grandes fortunas, aumentado a carga tributária dos ricos e conferido aos aposentados salários dignos e uma vida de igual qualidade, ao invés de distribuir pão de graça e miserabilizar a classe média, que é, assim como os judeus para Hitler, o grande bode expiatório e o grande alvo dos ataques de seus governos.
Não, jamais voltaria (como fiz em 2002) a votar no partido de Lula, Dilma, Palocci, Genoíno, Dirceu e companhia, mas me é também impossível votar em Aécio Neves e seus alinhados, dentre os quais achamos sem dificuldade o DEM, que tem suas origens lá na famigerada e golpista UDN.  Além disto, se os governistas  fingem amar pobres e trabalhadores,  o PSDB e o DEM não conseguem esconder que os odeiam.  E foi justamente esse ódio insistentemente exibido triunfalmente pela presidente nos debates que feriu mortalmente o projeto pessedebista de investir o neto de Tancredo Neves na Presidência da República.



        
  

sexta-feira, 17 de outubro de 2014

REGIÃO SUDESTE, PALCO DO INÍCIO DO APOCALIPSE

Não há mais chuvas no Sudeste.  Consequência do desmatamento e queimadas na Região Norte.  Tudo feito impunemente.   Madeireiros, traficantes de madeira, agricultores, latifundiários, todos fizeram da Mata Amazônica o que bem quiseram, bem diante (ou quase isto) do nariz das autoridades.  Todos sabemos que a impunidade é o combustível das maldades.   Animais mortos, homens famintos, ecossistemas devastados, aniquilados, destruídos.  Tudo o que a natureza levou milênios para construir transformado em poucos anos em escombros unicamente para a satisfação dos interesses de alguns elementos bestiais e absolutamente desinteressados pelo bem-estar comum.  Mas tudo, repito, ficou impune.
E agora? O Sudeste tem agora clima desértico.  Até quando? Por alguns anos? Para sempre? Podem os especialistas no assunto nos responder? Ou preferem calar? Temem anunciar o apocalipse?
Já que tanto se fala em economia, e as sequelas econômicas?  Q ue atividade econômica é possível numa região seca?  Os campos se tornarão desertos? O gado morrerá  de fome e sede? Os poucos animais selvagens também? As populações evitam regiões secas: haverá uma evasão maciça de pessoas do Sudeste?  Uma diáspora nacional, com migração em massa e sobrecarga populacional no Sul e no Centro-Oeste?  E estas ocupações se irão dar pacificamente, sem disputas,  sem rejeições e conflitos, sem escaramuças e violências fratricidas?
E a impunidade?  Fica a impunidade.  Os causadores de tamanho flagelo e de tão caótica situação estarão degustando seus uísques e se dando a seus inúmeros regalos, respeitados e adulados por políticos, autoridades e por populações inteiras.   
O Brasil é um sítio de poucos, uma propriedade privada de uma pequena quantidade de poderosos, que fazem e desfazem, mandam e desmandam, com poder de vida e morte sobre todos os outros.  Prejudicam dezenas de milhões de habitantes? Não importa. A terra é deles, coronéis de diversas feições, mas coronéis como aqueles do início do século passado, só que com tentáculos perniciosos mais longos e capazes de estragos bem maiores.  Não importa: o Brasil é deles. Que nos danemos! Que morramos de sede e fome ou tentemos talvez  debalde a sobrevivência em outras terras nacionais ainda a serem devastadas no futuro próximo.  É o início do fim, o prenúncio da incalculável e imensurável tragédia.  
Não tenho esperanças, diante da destruição irreversível, perante a impunidade de praxe, de cara com a irresponsabilidade constante, rodeado dos mais deploráveis  e incontáveis  vícios brasis.  É o início do fim: é triste, mas é o início do fim.  Os tempos apocalípticos, sem volta de nenhum messias para punir os culpados e poupar os inocentes: um juízo final injusto como o Brasil.

segunda-feira, 13 de outubro de 2014

VAMOS TER DE VOTAR NOS QUATRO

Ontem, 12/10/2014,  pela primeria vez (e talvez única) assisti à propagando eleitoral.  O que mais me impressionou foi a verdade que os candidatos, com seus semblantes e suas falas, me passaram.  Aqui no Rio, o Pezão  me pareceu um homem simples,  tímido,   bem-intencionado e de bondade infinita.  Mas o Crivella não ficou atrás.  Não sei como aquele verdadeiro santo, espécie de irmão Dulce de calças, ainda não foi à presidência da República.  Em nível nacional, também, os candidatos não me causaram impressão diferente.   Dilma referiu-se e dirigiu-se às crianças ao seu redor de maneira tão amorosa e afetuosa, que fiquei achando que a  Globo e, antes dela, a extinta  Manchete, erraram feio em não tê-la escolhido para trabalhar com os "baixinhos" no lugar da Xuxa, na segunda metade dos anos 1980.  Vi no Aécio um homem reto, ávido de trabalho e infinitamente preocupado em dar o melhor ao país e às classes trabalhadoras.
A sinceridade que vi não se limitou aos candidatos, mas também a todos os que apareceram em seus programas eleitorais e prestaram depoimentos.  Todos pareciam sinceros e tinham cara de gente boa.  
Assim, concluí que não se pode abrir mão de nenhum dos concorrentes:  é impraticável não votar no Pezão, no Crivella, na Dilma e no Aécio; pois os quatro são o que de melhor o Brasil, não,  mas o mundo inteiro tem em matéria de candidato.  
Meus parabéns aos atores principais,  coadjuvantes e seus diretores.  A dramaturgia brasileira está perdendo talentos dos quais nenhum produtor teatral ou de cinema



que se preze pode prescindir.