Vejo ofuscar-se o céu no horizonte,
No distante horizonte, horizonte tão próximo.
Acho que anseio que venha o crepúsculo
E que anoiteça de uma vez por inteiro.
O cansaço das gentes, dos fatos e coisas,
Da engrenagem perversa, das almas tão podres,
Da sordidez humana, da crueldade dos homens,
Das pessoas tornando horrendo o que é belo,
Fétido o perfumoso, rude o que é lírico.
Que venha a noite profunda:
Meus olhos incrédulos contemplam o crepúsculo:
Vontade de sair-lhe ao encontro.
Minh'alma exausta em torpor e disforme,
Diluída num chão de cimento,
Sem lira, poema ou resquício de vida.
Minh'alma não quer alçar nenhum voo,
É cinzenta como o chão duro, poroso
Onde se encontra imóvel, prostrada.
Que venha o crepúsculo, a noite profunda,
Nada mais, nada além, nada mais.
Poemas, vídeos, fotos, comentários, humor, crônicas, contos, músicas, uma variedade de produções. Compilação dos escritos e outros trabalhos produzidos ao longo do tempo. Acesse meu canal no Youtube: https://youtube.com/@demostenesbaraodamata880?si=cFo4AlOIx-MrxOJC Demóstenes "Barão da Mata"
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sexta-feira, 12 de agosto de 2022
O CREPÚSCULO
VIVENTE MORTO
O bar, a música, pessoas, gargalhadas.
Passa o homem tristonho, macambúzio,
Qual robô, por entre as mesas álacres.
Lassidão, a dor, fio de lágrima,
O vazio torturante do abandono
E a dor tão perfurante da traição.
Cambaleia o infeliz, embriagado,
Quer sentar como um mendigo na calçada
E chorar entre soluços, convulsões.
Ah, mas que desejo mais soturno
De tombar ali, sem cor nem vida,
Ou de ao menos cantar melancolias,
De correr, sumir, morar no nada.
Ai, o bar é claro e iluminado
E é contudo sombrio e tão escuro.
Tanta gente, conversas pelas mesas
E um deserto e quietude sepulcral.
Toca um samba tão bonito, tão sonoro,
E o silêncio é de à alma torturar.
A alegria toma conta do ambiente,
Mas não toca jamais aquele homem,
Cuja alma se encontra tão distante,
Num lugar onde a vida não tem vez.
A MEL E RAPOSA
Que minhas mãos de afago puro
Sobre suas cabecinhas inocentes
Se façam a magia a guardá-las,
Protegê-las dos males do mundo.
Meu olhar de amor contenha o feitiço
De lhes dar todo, todo bem do universo.
Meu amor imenso seja o deus poderoso
A fazer que seus dias sejam sempre felizes,
Paraíso merecido por todo animal.
VIVER POR VIVER
Missão alguma senão aquelas que me dei
Por amor, por entrega e os princípios que nutro.
Nenhuma entidade me sussurra ou dá rumo.
A solidão, grande, obesa, inflada, gigante,
Expande-se e ocupa cada palmo da casa.
Que solidão -- me pergunto e replico
--Se as cadelinhas dividem cada espaço comigo?
A solidão, me respondo, do espírito árido e boca trancada
A fazer-se masmorra, calabouço do verbo
Pejado dos ódios, de dor, desprezo e descrença.
Não busco n'alguma mulher uma cúmplice,
Se a alma incrédula não quer mais confiar.
Nenhuma missão além das cachorras.
Às vezes desejo deixar-me morrer,
Assim como eu fosse criatura de areia,
E o vento me viesse desfazer, diluir.
Deixar as cadelas a um herdeiro bondoso?
Por que morrer, entretanto?
Por fastio, desengano, por tédio?
Morrer ou varar noites brancas na esbórnia,
Velho etilista, tardio notívago,
Veterano boêmio entre mesas de bar?
Se dúvidas chegam, não busco por norte:
Qual homem tem luz pra saber seu caminho?
Pois nós, vis humanos, jamais somos sábios,
Ou então não teríamos deploráveis deslizes.
Sem ser aclarado, vou pisando somente
Os chãos dos meus dias, vivendo os momentos,
Sem buscar pão da vida ou sentido qualquer
Pra vagar pelo mundo, existir tão somente.
sábado, 16 de julho de 2022
A ILHA
Existe uma ilha no Atlântico,
Onde o mar verde arrebenta
E só se desnuda quem quer:
Ali o nudismo é careta.
Na ilha ninguém tem par --
Só se o amor bater forte.
A deusa que ali se louva
É a deusa libertinagem.
Pra saciar Madalena
É necessário uma fila.
Lista de amantes do Saulo
É da grossura da Bíblia.
Não é uma regra andar louco,
Só quem deseja que pira.
Não há sistema ou trabalho:
Lá só se vive de brisa.
Se vem chegando a tristeza,
A poesia afugenta.
Todos bem sabem que a lira
Não necessita ser triste.
Ilha de pura paixão,
Da juventude à velhice;
Jorge José ama seis,
Ana Maria ama vinte.
Ninguém concorre ou compete,
Todos se irmanam profundo.
O ódio por lá não existe,
Só puro amor é o que impera.
Lá não se mata nem caça,
Comendo-se aquilo que a terra
Dá, faz brotar e ser fruto:
Martírio é pecado mortal.
Ilha formada do nada,
Vinda de um sonho tão claro
De um poetinha sem regras,
Com alma tão libertária...
quinta-feira, 14 de julho de 2022
O SAGRADO E O SATÂNICO
Hipócrita é o ser humano,
Nocivo é o ser humano,
Pois sempre louvando o sagrado,
Mas sempre amando o satânico
Satânico é gerar a pobreza,
Satânico é encorpar a miséria,
Matar ou ferir a carne
Ou alma de seres viventes.
Que existe de mais sagrado
Que uma existência condigna?
Que existe de mais sagrado
Que o bem-viver dos teus filhos?
Que existe de mais sagrado
Do que o momento em que chegas
E que te aninhas no quarto,
Entregue de todo à paz?
Que existe de mais sagrado
Do que o momento em que paras
Pr'ouvir cantigas bonitas
E te emprenhar de emoções?
Que existe de mais sagrado
Que entrar na mulher tão querida,
Sentir vibrar o seu corpo
E um deleite descomunal?
Que existe de mais sagrado
Que o colo, a mãe e a criança,
Do que a ternura nos olhos,
Do que transbordar em paixão?
2022
Revisto e modificado em 11.02.2023
quarta-feira, 13 de julho de 2022
A MORTE DA POESIA IV
Não há não mais beleza matutina,
Não há não mais vontade de cantar,
Não há moça bonita debruçada na janela,
Não há não mais nostalgia nem saudade,
Não há passado porque o ontem nas memórias se apagou.
Não há mais rosas nem jardins, nem jasmineiros,
Não há não mais lugar pra minha lira.
As maritacas viraram pássaros urbanos,
Os gaviões tiveram, então, destino igual,
E os micos hoje são caçados como ratos,
Sem "habitat" e sem abrigo ou belas matas.
Não há não mais o pio "agoureiro" da coruja
A inseminar na mente insana o que é funesto;
Nem há não mais ruas descalças de singela poesia;
Não há não mais lugar pra minha lira,
Se até em meu peito os anseios são de argila,
Se o mundo encheu-se de edifícios suntuosos
Pra cultivar poder, miséria e capital,
Se massacrar, sobreviver é que é o mister,
Se as emoções submergiram no asfalto tão brutal.
2022
Revisto e modificado em 11.02.2023
sexta-feira, 1 de julho de 2022
A MORTE DA POESIA III
Não há mais dança de roda ou ciranda,
Não há mais bela moça a sonhar a varanda,
Nem mais há casais contando as estrelas,
Seresteiro nenhum cantando ao luar.
Não há mais poesia no mundo,
Não há mais poesia em meu mundo:
Meus anseios são todos de ferro,
Concreto, cascalho, pvc, pó de pedra.
O tempo foi duro, cimentou-me as quimeras,
Cobriu de azulejos meus campos de lira,
Tornou sons de draga as mais belas cantigas,
Secou a nascente da minha emoção.
quinta-feira, 23 de junho de 2022
PASTORCARD
Cura de bicho-de-pé: R$ 109,90. Oração pra sucesso na vida: R$ 2.999,90. Trazer seu amor de volta: 6.999,90. Saber que seu pastor pilantra nunca ficará preso: não tem preço.
Há coisas que o dinheiro não pode comprar. Para todas as outras existe PASTORCARD.
PRECE LÍRICA N° 2
Bendita seja a noite fresca
Que é serena como um monge,
Que, qual mãe de amor extremo,
Nos aninha em sua paz.
Bendita seja a tarde alegre
Enfeitada de pessoas
Passeando, tão profusas,
Pelos parques da cidade.
Abençoa, Deus, as línguas
Sequiosas que se enroscam
E a doçura dos amantes
Na conjugação carnal.
Que bendito seja o olhar
Que se emprenha de ternura,
Se desnuda de maldades
E se faz angelical.
Que bendito seja o verbo
Do poeta enamorado,
Salpicando nas estrelas
Sentimentos e emoções.
terça-feira, 14 de junho de 2022
POEMA SEM VERBO
Não, meu poema não é mais canto nem verbo:
Apenas se esconde, silente, num beco escuro da noite fria
E se encolhe e assim permanece, quieto
E pranteia de um modo abundante, incessante,
Mas sem o menor dos soluços, sem poder ser ouvido.
Chora escondido e volta os olhos ao céus sem estrelas,
E nada busca senão a escuridão mais soturna...
A escuridão mais calada,
Como se nada se visse,
Como se nada se ouvisse,
Como se fosse o nada.
Meu poema é estátua enegrecida no deserto e esquecido jardim.
quinta-feira, 9 de junho de 2022
VAZIO
Não há no silêncio não mais a cantiga
Que vinha na brisa, nas noites quietas.
Não há o burburinho que vinha tão doce
Dos meus sentimentos pulsando no peito.
É tudo cimento, asfalto e motores,
É tudo fastio, é cansaço e é tédio:
É tudo seguir sem saber o motivo,
É tudo vazio tal como os humanos.
É andar pela vida -- razão não se sabe --,
Andar e seguir, seguir, nada mais.
CRUA DESESPERANÇA
O rosto de seda
Da moça bonita
Não tem poesia,
Nem sol, nem luar:
Não traz fantasia,
Não faz divagar.
O muro de pedras
Com marcas de musgo
É pedra, só muro:
Não traz a lembrança
Dos beijos e abraços
De antigos casais.
O samba não toca,
A gente não dança,
A luz não se acende,
A rua é deserta:
Não brinca no peito
A menor ilusão.
A praça deserta
Não tem meninada,
Casais se beijando,
Poeta ou cantor:
Nenhuma doçura
Se sente no ar.
Cadê o horizonte?
Que foi do arrebol?
Fdcharam-se as casas,
Janelas, portais:
Partiu a esperança,
Só resta morrer.
domingo, 29 de maio de 2022
NÃO VENHA
Não, não venha, não chegue, não me surja,
Não me cante no peito qual viola ao arrebol,
Não se achegue com o samba, a rumba e a viveza,
A alegria luminosa que se estampa nos seus olhos:
Vou ficar calado e quieto em meu inverno,
Meu incessante e perene odor de outono:
Eu não saberia, não, viver a sua primavera,
Muito menos tentaria cantar o seu verão.
sexta-feira, 27 de maio de 2022
VIVER PAIXÃO
Sorver da lira do teu olhar adocicado,
Abrir a janela para um céu de pura poesia,
Mostrar estrelas onde sequer elas existam,
Deixar no peito cantar o sentimento mais suave e mais bonito.
Viver o enlevo dos rostos em resvalos
E das línguas agitadas numa sede enlouquecida,
Deixar entrar na alma uma música inaudita
Da lindeza dos momentos mais sagrados da paixão.
Tornar-me brisa, sol, braseiro, mansidão,
Nós dois, puros, maviosos, fogueados, sonhadores:
Ah, o encantamento a nos emanar de cada poro,
O amor, qual aura imensurável, luzindo em fachos vários,
Inumeráveis fachos da claridade das emoções.
VERSOS DE ESCURIDÃO
Hoje não há tarde e gente alegre nas calçadas,
Mas somente o último bêbado à última mesa
Do último bar da rua derradeira
E uma atmosfera de fim de tudo e despedida.
Hoje os pássaros se aquietaram nos seus ninhos,
E um vento fino resvala nos galhos dos arbustos,
E um silêncio arrepiante se abateu sobre as paisagens,
E a noite veio, calada, muda, imóvel como fora sepulcral
Hoje os sinos não repicaram nas igrejas,
Nem tampouco houve canto gregoriano ou ladainha;
Não havia fiéis em suplicantes orações,
E as praças eram desertas como vida não houvera.
Hoje é tudo adeus, final, deserto, silêncio e escuridão.
sexta-feira, 6 de maio de 2022
SE A POESIA VIER
Se um poema vier no vento
E se traduzir na noite clara e estrelada
E nas luzes de artifício das praças e das ruas,
Que cantigas luminosas encherão teu peito ávido,
Que esperanças te virão à alma sempre atenta
A cada uma das nuances dos dias e da estrada em que caminhas?
Se a canção vier na noite,
Na penumbra, no silêncio
E entrar pela janela como o sonho mais bonito de se ter?
Se a lira alegre passear pelas calçadas,
Pelos bares, pelos becos e fachadas
E adentrar a tua sala e o teu quarto tão quieto,
Percorrer a casa inteira como a brisa em voo leve,
Que emoções retumbarão como atabaque e tamborins
Dentro do teu tão irrequieto coração?
PECADO CELESTIAL
O vinho, a música,
Corpos desnudos,
Noite, o luar.
Amai, ó Deus, os filhos vossos
Que se dão numa volúpia sem igual!
Os seios, nádegas,
O falo, a vulva,
Esse impudor.
Louvai, ó Deus, os vossos seres
Que se entregam num furor descomunal!
Os cheiros lúbricos
Por todo o quarto,
Juras febris.
Ó Deus, afaga os pecadores
A devorar-se num ardor transcendental!
São dois amantes
Tão fogueados,
Tão infiéis.
Notai, ó Deus, a poesia incandescente
Desse amor tão magnífico e carnal!
As línguas ávidas,
Cabelos longos
No travesseiro.
Louvai, ó Deus, toda luxúria
E abençoai esse pecado tão celestial!
quarta-feira, 4 de maio de 2022
AGORA F*DEU TUDO: A EUROPA NÃO VAI MOVER PALHA PARA EVITAR O GOLPE QUE SE AVIZINHA: DEIXEMOS TODA ESPERANÇA, NÓS QUE AQUI VIVEMOS
O general Paulo Sérgio, ministro da Defesa, garantiu ao ministro Luiz Fux, presidente do STF, que as forças armadas estão comprometidas com a democracia: agora tenho absoluta certeza que vai haver golpe. Imagine até que Paulo Sérgio estivesse falando a verdade. Se fosse o caso, Bolsonaro, que acena o tempo todo que não aceitará um resultado desfavorável das urnas, demitiria o comandante e daria início ao regime de exceção com outro comandante militar.
Por outro lado, se a única esperança que tínhamos de o resquício de democracia existente no Brasil ser preservado era o monitoramento das eleições por representantes dos países europeus, estes países agora já anunciaram, por zelo diplomático -- já que o Itamaraty se posicionou veementemente contra a observação de tais nações -- que não vão dar a mínima ao processo eleitoral deste ano de 2022. Ou seja, as coisas vão rolar frouxamente, e a União Europeia vai assistir comendo pipoca as tragédias que irão se dar por aqui. Os países da OTAN me impressionam pelo seu senso de diplomacia, porque vão deixar as coisas acontecerem no Brasil por respeito à nossa soberania, ou melhor, soberania do Jair Bolsonaro e seus asseclas, e, vale lembrar, a mesma Europa que repudia veemente as atrocidades e covardias da invasão de Putin à Ucrânia... essa mesma Europa associou-se a George W. Bush na igualmente deplorável, atroz e covarde invasão ao Iraque, quando o então presidente dos E.U.A. inventou que o país do Golfo Pérsico desenvolvia armas químicas e biológicas e que fazia-se mister atacá-lo com o nobre intento de preservar a integridade física o bem-estar da humanidade -- quando na verdade tinha por intento apossar-se dos poços de petróleo iraquianos. Como então o Bloco Europeu, tão cheio de ambiguidades e interesses escusos, iria se preocupar com o que ocorre aqui nestas terras longínquas e que não fere nenhum de seus interesses?
Se alguém disser que Alemanha e França, por exemplo, estão preocupadas com a devastação sem precedentes do meio-ambiente em nossa terra, é porque não entendeu que seus discursos ecológicos e preservacionistas são pura hipocrisia. A União Europeia só se traveste de defensora ambiental pra sair bonita na foto. Para os países do grupo, que o último yanomami seja incendiado vivo e que destruam o último pé de planta nas florestas do Brasil, porque o que eles querem mesmo é continuar obtendo nossos produtos agrícolas, nossas "commodities" por preços rasantes, e isso os donos de agronegócio cá nestas bandas têm-lhes proporcionado -- o que faz que percebamos o encontro harmônico dos interesses dos latifundiários daqui com os dos empresários e governantes europeus e americanos.
Para que se entenda melhor, Bolsonaro vai dar golpe não porque tem pra isso o apoio dos militares, mas dos agricultores e dos megaempresários -- e todos estão em perfeita consonância com as demandas comerciais dos países da Europa: a manutenção de tudo exatamente como está: preços baixos, abundância de produtos, ainda que com a incineração de todas as nossas matas e à custa da fome de nossa população, que passa não pode consumir o que para os europeus é muito barato e para nós é vendido a peso de ouro.
Aí a gente entende porque Bolsonaro fez tudo o que não podia e não caiu, da mesma forma como não cairá nunca: o golpe é uma demanda das nossas elites e da União Europeia, Bolsonaro é só o instrumento.
terça-feira, 3 de maio de 2022
POEMA PARA CÁSSIA ELLER
Tão bela num estereótipo que [buscava o masculino,
Mas que deixava transparecer a [poesia só flagrante nas mulheres.
Que inspiração divina te fez tão [cheia d'alma e tão diversa
Como se Deus te houvera feito de [tudo quanto existe no universo?
Ficam na gente saudades do teu [canto sublime e irreverente
E das loucuras com que marcaste [cada palco que pisaste.
Deus, se existira, te diria numa [ternura paternal e acolhedora:
"Vem, fica comigo, menina doce, [irreverente e tão intensa:
Tua presença faz o Céu mais [bonito, colorido e mais feliz."
domingo, 24 de abril de 2022
segunda-feira, 11 de abril de 2022
O DIA DO TÉDIO
Deixe quietas as clarinetas, [violinos e oboés!
Nem olhe breve o pandeiro, a cuíca e o tamborim!
Largue a guitarra, o teclado e a [bateria!
Hoje não tem samba, não tem [rock nem orquestra,
Mas somente o tédio tomando [conta da cidade
E pintando as ruas do cinzento [da insipidez dos transeuntes.
SEGUIR
Que venham os clamores da [minha alma irrequieta
E se diluam nas notas mortas do [coração entristecido
E o quase inaudível canto da [esperança tão raquítica;
Que o sol de mim se mostre [pálido e quase ausente
E as cores minhas sejam [simplesmente desbotadas,
Que fale em brados minha [descrença petrificada...
Mas irei seguir o meu caminho [acinzentado
Sem a melancolia que outrora [enchia a alma de lassidão.
sábado, 2 de abril de 2022
SOFIA
Sempre irei amar Sofia,
que pensei que estava em Sara,
que jurei que achara em Mara,
que ausentou-se de Nancy.
Tinha o rosto de veludo
um semblante quase triste,
tinhas as mãos macias, pálidas,
o olhar cheio de querer.
Passeava nos regatos
e se dava sobre a relva,
levitava como fada,
no lirismo de nós dois.
Quando a tinha nos meus braços,
era Tânia que se dava,
era Selma que gozava,
era Nara que gemia.
Mas Sofia, se existisse,
me diria docemente:
"Vem, meu velho, deita e dorme,
vê se para de sonhar.
quarta-feira, 16 de março de 2022
OSTRA
Sou tão bela e me comprazo de me ver
No espelho e de sorrir como menina,
E, às vezes, sob as águas do chuveiro,
Fico a tocar meu corpo como um médico
E me deleito da tumidez das minhas formas.
Há dias em que toco-me qual fora
Afrodite entre volúpias com Apolo.
Estive em camas em que ardi, plena de frêmitos,
Senti prazeres que não sei nem descrever.
Mas, dos braços que com gana me apertaram,
Foram raros os braços de ternura:
Quase sempre fui fêmea, não mulher.
A solidão é como medo em noite escura,
Mas aos homens que me querem fecho os olhos.
Sem que pense no adiante em minha estrada,
Agora tranco-me como sigilo absoluto,
Como segredo que é sacrilégio revelar.
Se uns olhos ternos adentrarem os meus olhos,
Se braços fortes me apertarem, afetuosos,
Eu me darei tal como flor se entrega ao vento,
Mas ora fecho-me como animal quando se entoca
E me recluo num casulo qual crisálida,
Tal como ostra na concha a se encerrar.
A CHEGADA DO CABO ANSELMO AO INFERNO
Tão logo chegou ao Inferno, o cabo Anselmo foi recebido por Brilhante Ustra, que abraçou-o calorosamente enquanto ao pé do ouvido confidenciou-lhe que Satanás é o diabo em pessoa, que aquele lugar é um inferno, que odiava Satan mortalmente. Em menos de meia hora o anjo das trevas ficou sabendo de tudo: Anselmo entregou Ustra.
terça-feira, 4 de janeiro de 2022
VIDA QUE QUERO
Não quero o medo, o tédio e essa tristeza
Desta rua tão sem-vida que eu habito;
Quero a noite clara, dançarina e colorida,
A feliz perplexidade do amante apaixonado
Ante o súbito e sentido eu-te-amo inesperado.
Quero amar com um brilho no olhar indisfarçável
E nos olhos da amada notar a mesma luz,
Na comunhão de sentimentos dos amantes romanescos.
Quero a paz das águas calmas em marolas
E a alegria de crianças brincando nos quintais,
E a poesia de uma canção que envolva a noite
E que comova os jovens, velhos, lúcidos, ,insanos e os casais.
ALMA CARIOCA (ODE ÀS PRAIAS)
Minha alma dançará como um passista,
Brincará, feliz como um moleque,
Cantará, intensa e ardente qual Bethânia,
Rebentará numa emoção sem ter igual.
Quero ver vibrar Copacabana
E o sol pintar a areia de dourado,
Rebrilhar nas águas verdes, cintilante;
Contemplar o céu a se deitar nas águas,
Quando os olhos se voltarem pro horizonte.
Quero a viveza das pessoas caminhando
Ver mulheres convertidas em sereias,
Bronzeando ao calor suas lindezas.
Quero os bares numa alegria esfuziante
E o desfile das prostitutas nas calçadas.
Abençoai, meu Deus, as prostitutas,
Lutadoras sem respeito, sem direitos, sem ternura!
Vim pra Minas e jurei não ter saudades,
Coração, porém, pulsou tão incessante
Quando novamente eu vir o mar,
Minha alma se dará tão plenamente,
Pois, bem sei agora, cheira a praia,
Cheira a Copa, Cabo Frio, a Saquarema,
Aos quiosques alegres e praianos
segunda-feira, 27 de dezembro de 2021
DOS QUESTIONÁVEIS PREJUÍZOS DECORRENTES DOS FERIADOS
O ano de 2022 terá a maioria dos feriados caindo em dias de sábado ou domingo, para tristeza dos empregados e grande alegria dos patrões. A mídia e um bocado de gente por aí sempre apregoaram pelos quatro cantos do Brasil que um feriado causa um tremendo prejuízo à Nação, mas isso é mentira. Mentira deslavada, e eu explico por quê.
O que há no feriado é um represamento temporário da demanda, e isso acarreta, em compensação, um grande aumento de procura de produtos nos dias úteis subsequentes. Se o seu chuveiro queimou em pleno domingo ou feriado, tão logo as lojas abrem, você corre e compra outra resistência ou outro chuveiro, mas não passa a tomar banho frio ou a não tomar banho em consequência de um dia de casas comerciais fechadas. Assim o movimento no comércio e na indústria aumenta logo a seguir e de forma considerável, gerando uma sobrecarga de trabalho para os funcionários, por conta dessa saída mais volumosa de produtos decorrente do período em que estes ficaram retidos , sendo tudo compensado em todos os aspectos, e o faturamento dos empresários não sofre no frigir dos ovos nenhuma queda que possa fazer escorrer fio de lágrima de um canto de olho.
Dizem também que o erário deixa de arrecadar uma fábula: outra inverdade: na reabertura da economia, o aumento das vendas faz que o governo arrecade o que capitalizaria se não tivesse havido dia parado. A União, Municípios e Estados recolhem para seus cofres o que recolheriam se fosse uma semana só de dias úteis, para exultação dos irmãos Centrão, Arthur Lira e Rodrigo Pacheco, com o orçamento secreto seu e dos outros membros do bloco parlamentar governista a que pertencem, figuras que são os grandes beneficiários e o objetivo sagrado e principal da arrecadação federal.
A única perda, ou melhor, redução de ganhos acontece quando os patrões são obrigados a pagar aos seus empregados o dia ou dias não trabalhados, mas a margem de lucros fica quase incólume ao final do mês, pois não são os repousos e feriados que quebram empresários, mas efeitos da política econômica de governantes conservadores, cruéis e sórdidos, que são inimigos implacáveis do poder de compra das classes trabalhadoras, governantes que eles próprios, patrões, defendem com unhas e dentes e com uma torpeza esperta e simplesmente ignóbil.
segunda-feira, 20 de setembro de 2021
NÃO PENSE EM MIM
Quando a noite for calada e for escura de amedrontar,
Quando o dia teimar, obstinado, em não chegar,
Quando o silêncio se apossar da casa: a sala, o quarto,
A cama, os cômados, a mesa, as janelas e o sofá,
E a solidão pousar sobre o seu corpo as mão geladas,
Não se lembre, por favor, por um minuto sequer de mim.
Quando quiser fugir da escuridão, da dor, do medo,
Mas nada salvo o abismo houver ante os seus olhos,
Não, não pense em mim, nem mesmo um único segundo,
Nem tente imaginar a claridade que até que poderia
Ter sido o nosso mundo, que é imaginário, que não nasceu.
Vá, encare a noite, o frio, o tédio, o abismo
E atire-se no mais profundo do mais profundo
Do mais profundo breu silente que se venha a apresentar...
Mas não pense, não, jamais em mim...
Pois sigo sempre e só será você lembrança vaga,
Tão desbotada, tão fugidia, sem relevância,
Que até seu nome, eu asseguro, esquecerei.
domingo, 12 de setembro de 2021
O TEMPO E A PANDEMIA
Tinha os meus dezoito, a juventude,
Tinha a minha tristeza descabida
E as calçadas da Penha tão festiva,
Das acesas noites de verão.
Tinha as moças em vestidos diminutos,
Espalhando beleza pelas ruas
E os bares destilando carnavais.
Tinha os meus cinquenta e a viveza,
A poesia irresistível do pecado,
O Severina de Laranjeiras em festa,
Um desejo de viver tão permanente,
Um soltar-me pelas luzes da cidade.
Os sessenta adentrei alegremente,
Fincando os pés na alegria de Araruama,
Degustando um poema ensolarado,
E me enchi de sentimentos coloridos:
Tempo doce de viver, beber e amar.
Mas chegou de repente a pandemia,
E busquei um quieto lugar em Minas,
E, bem antes da entrada nos setenta,
Eu me vi como na casa dos noventa,
Prisioneiro de um tédio melancólico,
E vegeto num pavor inominável
Pois é tempo de clausura, dor e morte.
sábado, 26 de junho de 2021
A CANDIDATURA DE CENTRO
Quando tomei conhecimento de que os conservadores estão procurando uma alternativa a Lula e Bolsonaro, ou seja, uma terceira via de centro... Pois é, quando soube que buscam alguém de centro, pensei logo nos vários babalorixás, médiuns, cabeceiras e cambonos que há no Brasil. Seriam eles nossa solução? -- fiquei considerando com meus botões. Porém depois entendi que a questão não tem nenhuma relação com as religiões vindas do Continente Africano: eles procuram alguém que, segundo sua versão, não seria nem de esquerda, nem de direita, nem conservador, nem progressista. Ah, tá... Não entendi nada! Você já viu alguém, quanto às desigualdades sociais, não ser a favor nem contra, muito pelo contrário? Não deu pra compreender, não foi? Também eu próprio fiquei com o microcérebro todo emaranhado. Pelo que vi, é alguém que não seja nem sim, nem não. Agora ficou mais claro? Não tem problema: a cada minuto, por minha vez, assimilo menos o que tô repetindo feito papagaio: as asneiras que a mídia e os políticos de direita , os conservadores, os reacionários andam propalando pelos quatro cantos do País.
O problema é que predomina a hipocrisia, e a direitaça inventou uma expressão aparentemente menos desumana pra empurrar goela abaixo do eleitorado seus candidatos direitistas e avessos ao desenvolvimento social, aos trabalhadores, às classes menos favorecidas, que por esses perversos senhores são vistos como escravos, meras peças de trabalho. Políticos inseridos nesse grupo uniram-se e formaram uma frente no Congresso chamado "Centrão", que se deveria, na verdade, chamar "Oportunistão", força política que a nada visa além dos interesses pessoais.
Quando entendi que não seria o citado candidato nenhum candomblecista, umbandista ou kimbandista praticante, mas um político profissional, desenvolto, esperto, desses que dão nó em pingo d'água, passei a imaginar qual seria o nome escolhido. Seria o Rodrigo Maia??? Não, esse não cola. Se, adversário radical do Bolsonaro, não pautou os mais de cinquenta pedidos de "impeachment" que recebeu (muito embora Arthur Lira já tenha quebrado seu recorde), imagine se fosse aliado do inominável. Mais: se Rodrigo Maia é de centro, eu sou o "Che" Guevara.
Candidato de centro... Isso é uma das grandes picaretagens políticas que já inventaram, e a grande malandragem das elites reacionárias é que terão duas opções: Bolsonaro e o tal "centrista". Ou você acha que essa gente não tá contente com o atual presidente? Pois saiba que os banqueiros, agricultores, pecuaristas e megaempresários estão felicíssimos com o mandatário, pois os banqueiros ficam, por conta da política econômica do Paulo Guedes, a cada dia mais ricos, e os agronegociantes, voltando sua produção pra exportação, recebendo por ela uma fábula em dólares, ainda se dão ao luxo de cobrarem os tubos pelo resquício de produtos alimentícios que ficam aqui pelo País. Ou seja, estão rindo de orelha a orelha com os lucros que vêm obtendo com a pandemia e pouco se lixam com os que morreram ou ainda vão morrer. Essa gente é igual ao Bolsonaro: não tem empatia. e, se estivesse insatisfeita com presidente, há muito que este já teria sido despejado do Alvorada.
É justamente para não correr o risco de ver vencer algum candidato progressista que compõe com a direita e a extrema-direita ao mesmo tempo. Não pense que isso significa que as forças de direita concorrerão divididas: elas apostam em dois corredores e, ainda antes do final do primeiro turno, irão abandonar o que tiver menor projeção eleitoral, pra investir ultrapesadamente no de melhor desemprenho, após os dois haverem arranhado e espancado, e danificado bastante a candidatura afeita às causas sociais que aos ricos se contrapuser.
Bolsonaro pra eles não é intragável, porque defende com gana, unhas e dentes os interesses econômicos dessas castas, que desde os primórdios da história do Brasil não têm o menor pudor em defender Belzebu ou Satanás, e agora vêm, através da mídia e de outros espaços políticos, anunciar, a pretexto de combater os radicalismos, a busca por uma terceira via moderada e equilibrada, quando na realidade procura desmontar o cenário eleitoral que hoje se desenha, em que Lula pode agrupar em torno de si os progressistas e tornar-se peça fundamental na retirada da "coisa" do Palácio do Planalto. É mais uma conspiração de grupos privilegiados que ainda creem em comunismo e veem o fantasma de Karl Marx até no fundo do copo do uísque caro que tomam.
domingo, 16 de maio de 2021
CARMELO PIROGA, "O PEIXE ENSABOADO", E A PERGUNTAÇÃO
O pai de Carmelo Piroga tava indignado. Que história era aquela mais estranha de o filho, depois de ir trabalhar na prefeitura da cidade, resolver virar puxa-saco daquele prefeito famigerado das unhas, virando uma espécie de boneco daquele cabra ruim que nem o Demo?
A família se reúne, cada um espichado no seu canto da sala, e espera o filho degenerado chegar. Logo esse adentra o cômado e se assenta bem no meio de todos, cabisbaixo, murcho que nem só, já com os cornos meio vermelhos. Sem muito rodeio e nenhuma enrolação, Ornan, o pai, conhecido nas redondezas como Ornan Malheiro, procede logo ao início das interrogações:
--Escuta aqui, seu cabra fio de uma égua, que conversa é essa de você tá ajudando esse cabra safado desse prefeito a fazê o diabo aqui nessas banda?
O tio Ilmar Assis, no mesmo momento, alerta o sujeitinho acabrunhado e com ar de cachorro que mijou no sofá:
--Ói, meu fio, tu tem que dizer a verdade, tá sabendo, né? por mais que doa, tu tem que dizer a verdade...
--Mas tio, inté já esqueci qual foi a pergunta...
Ao que o pai reage com um berro:
--Tu tá ou não tá ajudando esse prefeitinho filho do capiroto a fazer o diabo aqui nesta cidade?
--O prefeito da cidade, paim? -- o sonso tentava ganhar tempo.
--É, seu nojento!!!!!!!!!! Qem mais havera de ser?!!!!!!!!!!!!!!!
--Mas, paim, a mim num cabe imiti juízo de valor...
--Responde, seu pulha!!!!!!!!! -- Ornan não aguenta e se exaspera de vez.
O tio até volta a intervir:
--Meu fio, entende bem: aqui é pra dizer a verdade...
--Mas eu tô falando a verdade, tio...
--Mas ocê num falou nada...
--Pois é, mas num menti, sinhô meu tio.
O pai se levanta, agora soltando fumaça pelas ventas que nem touro chucro ou maria-fumaça:
--Eu vou é arrebentá esse fela duma égua vagabunda dos inferno!!!!
O tio se levanta e contém o irmão furibundo, segura ele com a força, que nem sucuri enroscada na presa.
Aí o primo, Márcio Robério, também puxa-saco daquele prefeito parido das entranhas de uma chocadeira, resolve intervir só pra atrapalhar o interrogatório:
--O sinhô num pode falá assim com ele, não! Só quero que me arresponda quem é o sinhô pra isso!!
E aí ganha o apoio do outro primo, Ednardo Voltão:
--É isso aÍ!! Com que artoridade cê acha que pode obrigar o Carmelinho a dizer o que não quer?!
--Ué? -- defende-se Ornan -- Mas ele jurou dizer a verdade.
--Mas a verdade é ralativa! -- tornou o tal do Márcio Robério.
Ornan levantou os braços, desesperado:
--Cês tá aqui é para atrapalhar, tá é de complô contra mim!
O tio Ilmar Assis consegue acalmar os ânimos e tenta ele próprio fazer uma indagação ao sobrinho:
--Fio, cê sabe que prometeu dizer a verdade. Por isso eu quero que me arresponda um questionamento: é verdade que tu taria, pelo teu chefe, exclusivamente pelo bem do teu chefe... é verdade que tu taria até disposto a sentar no preto colo, na clara esquina?
Ornan Malheiro arregala os olhos, quedado de indignação co'aquela atitude de escorregação do filho, o coração disparado que nem um vibrador desembestado, de novo é seguro pelo Assis, mas ainda assim dispara:
--Seu cabra miserave, diz logo de uma vez!!!! Tu é capaz de sentar no preto colo da clara esquina?!!!!!!!!!
Carmelo levanta os ombros:
--Oxe, pai, nem sei se ele quer isso.
--Mas ele sempre quis que as pessoas sentasse no colo do Benedito da Nigéria e que pra isso escolhesse a clara esquina, esquina mais alumiada dessa cidade, seu cabra fraco da peste!!!!! Tu é uma cabra fraco!!!! Abestado!!! Mole!!!! Tu é um Piroga mole!!!! Um Piroga frouxo!!!! Um Piroga sem força, desses que enverga à toa!!!! Antes de tu minha famia nunca teve Piroga mole, seu nojento!!!! -- bradava o arretado Ornan enquanto tentava se desembaraçar dos braços firmes do irmão Ilmar, cabra forte e firme feito maçaranduba.
Um outro tio moderado, Nórton Além-Mar, ainda tentou que o sujeitinho respondesse alguma coisa:
--Carmelo, todo mundo sabe que esse negócio da clara esquina é verdade, mas o que nós quer saber é se tu, caso ele te proponha essa vergonha... se tu tá de acordo, meu filho.
--Tio, sinceramente, a mim num cabe imiti juízo de valor sobre isso...
Foi uma doideira de alienista nenhum dar conta, sô! Ornan já tava a ponto de sair no braço com Assis, tamanha a arretação que o filho molenga causou. Não demorou e a reunião acabou, Márcio Robério e Ednardo Voltão se rindo feito duas hienas pinguças, festejando a atitude de peixe ensaboado do primo, Ornan Malheiro saindo arrastado pelo tio Ilmar Assis, que na saída olhou atravessado pro sobrinho e falou num jeito bastante aperreado:
--Só segurei teu pai pra apaziguar, mas tu merecia mesmo é uma surra de couro cru, de rabo de arraia e outras coisas mais.
Nórton Além-Mar saiu balançando a cabeça, indignado com aquela situação vexatória, fazendo uma cara de jiló danada pro ex-interrogado.
Quando todos saíram, Carmelo Piroga levantou os ombros e braços, e indagou a si próprio:
--Oxe, o que foi que eu disse pra essa gente ficar tão aperreada?
domingo, 2 de maio de 2021
OSMUNDO
Naquele lugar tão estranho
de brigas, de armas e ganhos,
de tudo que existe no mundo
entrou por engano o Osmundo.
Havia bebida de graça,
"bonecas", mulheres na caça,
casais transando na rua,
beldades dançando já nuas.
Num dado momento uma loura
do tipo que os dias doura
lhe trouxe um copo de quente,
chamou-o pro amor, sorridente.
Osmundo ficou num conflito:
ia ou não ia o aflito?
Se aquilo fosse arapuca,
findasse num tiro na nuca?
Se fosse a bebida truncada,
se a loura com rosto de fada
não fosse às outras idêntica,
não fosse uma dama da autêntica?
Se o chefe do morro descesse,
cismasse com ele e lhe desse
sentença de morte por nada,
ciumento da loura assanhada?
Em pânico Osmundo sofria:
dizer um "sim" não podia,
dizer um "não" não devia,
fugir sequer tentaria.
Osmundo acordou urinado,
o peito a pulsar disparado,
jurando que à igreja voltava
e a vida devassa deixava.
sábado, 24 de abril de 2021
MEU VERSO
Meu verso é um canto ardente de vida e de morte,
É lassidão, quietude, tristeza profunda,
É dor aguda e calada furando no peito,
É uma alegria vibrante a vestir fantasia
E a mergulhar nas folias sem siso dos carnavais.
É Sharon Stone cruzando as pernas,
É Macunaíma a destilar pilantragem.
É bêbado triste a prantear nas esquinas,
É violeiro dedilhando modinhas,
É vida brotando, florindo, a dançar
No canto divino dos canários, pardais...
Meu verso é o ódio a queimar corações,
É o amor a afagar como a brisa em manhãs.
É o macho que adentra as entranhas da fêmea
Numa gana de gato, de cão, de leão,
Sussurro macio dos córregos brandos,
É noite silente e quieta de paz.
Meu verso se faz dos quatro elementos:
Da terra, do fogo, da água e do ar;
Em si traz o cobre, o ferro, o carvão,
É bicho e é planta, é também mineral.
Das substâncias do mundo, de todas, de todas,
De todas, todinhas é feito o meu verso.
DOS POEMAS QUE FAÇO III
Eu faço poemas como quem solta a voz
Com todas as dores, amores, alegrias e afãs,
Todas as ganas do peito palpitante a cantar.
Eu faço versos como quem grita numa lira demente
E tenta espalhar essa lira fervente por todos os becos,
Por todas as ruas, por todas as luas, por todos os céus,
Por todas as tardes, por todas as noites, por toda manhã,
Por todos lugares, por todos os mares, por todos os mundos, enfim.
AQUELA QUE ME REPUDIOU
Aquela que repudiou há de estar muito longe,
A milhões de anos-luz da minha cidade,
No Paleolítico ou incontáveis milênios à frente,
Mas equidistante no espaço e no tempo,
Num ponto inacessível de nenhum corpo poder alcançá-la.
Aquela que me repudiou há de estar tão inatingivelmente distante,
De sequer a memória poder encontrá-la
E o arranhão do meu coração cicatrizar-se de todo.
Há de estar em mim tão morta, remota, esquecida,
Que, se um dia avistá-la, eu apenas me diga:
Quem será essa criatura cinzenta,
Tão sem cor e sem luz e sem graça,
Que os olhos cansaram do breve segundo que a fiquei a fitar?
segunda-feira, 12 de abril de 2021
A MORTE DA POESIA II
A poesia está morta, morta como nunca se viu,
Esmagada pelo afã da luta dos homens
Por um lugar ao sol ou por motivos torpes,
Trucidada pelo pragmatismo do mundo sem lira
E a pandemia que assola o planeta e sobretudo o Brasil.
Não há mais seresteiro emocionado
A cantar seus lamentos de amor.
Não há mais violeiros nas ruas
Dedilhando serenatas ao luar.
Não mais o navio a partir
Sob o pranto de uma amada no cais.
Não há mais ternura nos olhos
Dos amantes numa mesa de bar.
Não há mais brincadeiras de roda,
Nem meninos brincando de heróis.
Não há mais a quimera bonita
Nos projetos juvenis sem juízo.
Nem há mais o olhar de tristeza
De poetas piegas em versos
A lamuriar suas dores de amor.
Não há mais silêncio noturno
A encher as almas de suave canção.
E agora, poetas, calamos?
Se a poesia ficou anacrônica,
Partimos então para a crônica?
Ou fazemos estrofes sem vida,
Sem lira, sem cor e sem dor?
Barão da Mata
[Apenas um aviso aos críticos de plantão: "morta como nunca se viu" é apenas um realce da expressão, pois morte é morte, e não há como algo estar menos ou mais morto, ou mensos ou mais intensamente morto]
ANTÍTESES (CAPITULAÇÃO)
Ah, desculpa o mau jeito, querida:
Se te disse palavras tão duras,
É que foi tão demais a bebida,
É que foi tão de menos o afeto
Que me deste e me fez tão vulgar.
Os meus beijos te foram tão quentes,
Os teus olhos me foram tão frios;
Os momentos pra mim foram lira,
Mas pra ti foram ferro e cimento.
Ah, me conta por que fui à Lua
E por que não saías do chão.
Eu me dei a falar poesias,
E dizias dinheiro era tudo.
Ah, perdoa se fui tão amante:
Te perdoo se foste broxante.
Ah, mulher, me perdoa, que eu mudo
E me amoldo ao teu jeito distante.
Eu te levo a beber em Iguaba,
Peço caldos e até camarão,
E te faço sentir uma dama
Das que moram diante do mar.
É que tua boca me endoida,
Tuas coxas, meu Deus, ai, me matam!
O teu rosto bonito me encanta,
Teu corpo me faz delirar.
Ah, morena, nasci pra te amar!
[Esse poema é uma letra de samba que fiz para Marcelo Bizar, parceiros de tantas músicas, colocar uma melodia de samba. Assim que ele musicar, divulgarei a canção]
sexta-feira, 9 de abril de 2021
BRANQUINHA
Vem pra mim, Branquinha, que te quero:
Vi um sonho se acendendo nos teus olhos
E me dei, encantado, a te sonhar.
Vem, Branquinha, que inda é tempo de viver,
E a vida cantará de novo em festa,
Em seu samba, sua dança, sóis e cores.
Vem, Branquinha, tornar música os meus dias.
Quero viver de poesia novamente,
Voltar a ouvir cantar os querubins.
POESIA FUNÉREA
Parti pr'uma cidade mineira bem distante,
Sem deixar olhos marejados de saudade,
Sem poema nem canção de despedida,
Sem dilacerar meu peito na partida.
Olhei para a frente, para a frente tão somente,
Num afã de mergulhar em vida nova,
Mas, além destas paredes, é a morte o que me espreita,
E me contenho, amargando a escuridão do medo,
Alma prostrada, inerte, em lassidão.
O maldito mor e seus malditos companheiros,
Tumores todos purulentos dos infernos,
Fizeram deste sítio um desmedido cemitério,
País funesto, a peste a se espalhar pelas cidades.
É triste por demais esta clausura
Que tolhe o corpo, fere a alma e que nos enche,
Do pavor, da apreensão e da incerteza
De se o amanhã pra nós existirá.
sábado, 20 de março de 2021
O CARIOCA, O MINEIRO (VIAJANTES SE ENCONTRAM)
CARIOCA: Que conta de bom, meu amigo mineiro?
MINEIRO: Estou namorando uma moça do Rio.
E você, carioca, o que tem a contar?
CARIOCA: Uma bela mineira acende meus dias,
Tem ruivos cabelos, branquinha qual trigo.
MINEIRO: A minha é morena assim como a terra.
CARIOCA: A minha é serena qual córrego fresco.
MINEIRO: A minha é inquieta como os dias mais quentes.
CARIOCA: Se banha de lua nas noites de prata.
MINEIRO: Se doura na areia do sol do verão.
CARIOCA: Seu gozo é cascata a formar turbilhão.
MINEIRO: O orgasmo são ondas batendo no cais.
CARIOCA: Tem cheiro de frutas, de relva e de campos.
MINEIRO: Odores de flores, de praia e de bar.
CARIOCA: Me enredou como a Iara nas águas dos rios.
MINEIRO: Me enlaçou, Janaína, nas águas do mar.
sexta-feira, 12 de março de 2021
POR QUE DEVEMOS LER OS JORNAIS DA IMPRENSA ALTERNATIVA
quarta-feira, 24 de fevereiro de 2021
"FOLHA DA BOZOLÂNDIA"
FOLHA DA BOZOLÂNDIA
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PRESIDENTE ASSINA DECRETO QUE ACABA COM A PANDEMIA
Nesta quarta-feira pela manhã, o presidente do Brasildistão, Jadir Bozo Nárus, em reunião com os deputados do "Meião", grupo de sutentação do governo, disse textualmente ao presidente da Cama dos Deputador, Tutu Bira: "Vamo parar com essa palhaçada, esse negoço de ficar fechando o comércio, porque os empresário tá tudo ficando puto, e não tem cabimento o pessoal ficar adoecendo e atrapalhando a economia. Primeiro que não tem pandemia nenhuma! Tudo é invenção de mariquinha e de cientista energúmeno. Esse negoço de ciência não dá camisa a ninguém. Não se tem que cumprir ordes de governador nem prefeito nium porque quem manda aqui sou eu e 'ordes' absurdas não se 'cumpre'. Quem ficar de palhaçada agora e adoecer vai ser preso."
A votação da matéria será feita em caráter de urgência urgentíssima, e enfim será dado um basta na falsa crise sanitária que assola o país.
Tom Zé Diniz D' Antena
SAULO FEDES DEFENDE NO CONGRESSO SEU PROJETO DE VOLTA DA ESCRAVATURA
A PEC irá, por decisão dos presidentes da Câmara, Tutu Bira, e do Senado, Bendigo Xexêco, direto a plenário, sem necessidade de passar por uma CCJ, além de necessitar de apenas 8 votos para aprovação. O opositor incômodo ainda tentouo atrapalhar a sessão, alegando que seriam necessários 308 votos para aprovação, e o ministro fez um gesto de mão com o devido desprezo: "Esse troço de 300 é só um detalhe! Por favor, deputado, não me venha com chorumelas!". Nesse instante, foi aplaudido do pé pelos elevados e laboriosos governistas. Após o encerramento dos discursos, o deputado Tutu Bira comprometeu-se com Fedes a convocar o conselho de Ética para analisar a possível cassação do deputado oposicionista.
Pílvio Tantos
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"MEIÃO" ARTICULA SOLTURA E PERDÃO A DEPUTADO PACIFISTA QUE FEZ SUAVES CRÍTICAS À SUPREMA CORTE
Em reunião convocada pelo deputado Tutu Bira, os deputados do "Meião" estudam uma forma de reparar o angelical deputado Jadiel Taveira, injustiçado pela Suprema Corte por ter feito leves críticas à instituição e aos seus ministros. "Acho que a corte está se melindrando muito facilmente. Minha esposa também é assim, e eu já sugeri a ela que fizesse terapia vou recomendar o mesmo aos membros do Judiciário. O difícil no entanto é reparar as injustiças sofridas por nosso querido deputado, e sabe-se lá que medidas exageradas eles futuramente poderão tomar contra aqueles que dentre nós venham a praticar atos inofensivos como atirar neles, explodir-lhes os carros ou atitudes não-danosas semelhantes. Afinal nós somos um país democrático." Avalia-se que o Congresso vá aprovar PEC que puna com destituição e prisão perpétua qualquer autoridade do Judiciário que expeça mandado de reclusão contra qualquer parlamentar, seja pelo motivo que for.
Pilas Fala Faia
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FOLHA DA BOZOLÂNDIA
Diretor Presidente: Eulávio Del Carajo
Diretor de Redação: Marlos Bozo Nárus
Diretor de Edição: Távio Bozo Nárus
Diretor de Reportagem: Dinardo Bozo Nárus
Diretor de só ficar Olhando: Filho Zero Quatro
Diretor de tudo mais e de tudo já citado: Jadir Bozo Nárus
sexta-feira, 12 de fevereiro de 2021
RODRIGONEIRO(PRA CANTAR COM A MELODIA DE "JARDINEIRA")
Mas o que foi que te aconteceu?
Foi o teu DEM que te passou a perna,
Que fechou com Lira,
Te obscureceu.
Rodrigo, o César
Envelheceu.
Disse: "Filho, não pauta o 'impicha' ":
Tu és só mais um omisso
Ante o tanto que morreu.
sábado, 6 de fevereiro de 2021
SONHO ABSOLUTO
E se eu sonhasse, mas sonhasse plenamente
Como não houvera no universo nada senão a minha fantasia?
Se eu sonhasse como fora menino novamente
E vivera a primeira de todas as paixões?
E se eu sonhasse, mas sonhasse de maneira assim desmesurada
Qual não existira tempo, luto, dores e mazelas,
Nem o impalatável tédio do cotidiano e dia-a-dia?
Se eu sonhasse o olhar angélico da menina enamorada
Que gravei num passado já distante, nas linhas da minha poesia?
Se eu sonhasse me casar co'a loura sensual e alucinante
Que ostentava as coxas num vestido provocante?
Se eu sonhasse de um modo tão louco e sem medidas
Que mais parecesse não ter pés ou corpo ou mãos,
Me fizesse etéreo como espírito ou fantasma, devaneio tão somente?
Se eu sonhasse de uma forma tão poética, elevada
De tornar o irreal a verdade absoluta?
Se eu sonhasse e desse ao mundo as costas,
E partisse nas asas do meu sonho como viajante aventureiro,
Sem querer jamais, jamais voltar?
sexta-feira, 5 de fevereiro de 2021
NAS ANDANÇAS DO PODER: QUARTA PARTE: "O PRESIDENTE"
O Brasil começou a ver, estarrecido, os atos, as declarações e as aberrações de Bolsonaro, familiares, ministros e asseclas. Primeiro foram os elogios a Brilhante Ustra, torturador do regime militar, depois a defesa à ditadura e à tortura. Eduardo Bolsonaro defendendo a reedição do AI-5, que dava poderes excepcionais ao Executivo nos anos de chumbo. Carlos Bolsonaro, vereador, passa a ter um gabinete dentro do Palácio do Planalto, de onde, segundo alguns jornalistas, operaria o que estes nominaram "gabinete do ódio". O inquérito contra Flávio Bolsonaro, acusado de peculato, começa a emperrar. O procurador-geral da República, Augusto Aras, e algumas figuras do Judiciário parecem lenientes: um inquérito que não anda, um procurador que não denuncia o presidente por manifestações antidemocráticas contra o Congresso Nacional e o Supremo Tribunal Federal.
A pandemia confina as pessoas em suas casas, Bolsonaro, num descaso absoluto, incentiva a exposição de seus seguidores nas ruas, sem uso de máscaras, e a doença vai-se disseminando. Em 04 de fevereiro de 2021, quase 229.000 mortos. Sessenta e nove pedidos de "impeachment" contra o presidente e a recusa inflexível do presidente da Câmara dos Deputados em pautar um deles.
A reunião de 22 de abril de 2020, a questão da Polícia Federal, Abraham Weintraub ofendendo o STF, Ricardo Salles propondo a "passagem da boiada" na oportunidade de encobrimento propiciado pela pandemia. O Pantanal e a Floresta Amazônica, entre outros cenários ambientais, ardem em fogo, matando queimados centenas de milhões de animais. Depósito inexplicado de Fabrício Queiroz na conta da primeira-dama. "Vontade de encher sua boca de porrada " é a resposta do mandatário ao jornalista que lhe pede explicações.
Nada é respondido, nada é apurado, tudo fica impune. Por menos de um milésimo por cento do que fez Bolsonaro, Dilma foi afastada em definitivo da Presidência da República. Fico bem à vontade para dizê-lo, porque estou muito longe de ser petista, lulista, lulopetista ou qualquer coisa do gênero.
Empresários e banqueiros, jogadores malandros do mercado financeiro felizes da vida com Bolsonaro e a estrutura de poder atual.
Tudo isso é parte dos caminhos, das andanças do poder nesta terra.
Fevereiro de 2021




