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sexta-feira, 5 de junho de 2020

O POETA VAGABUNDO

O poeta vagabundo:
Vagabundo por repudiar trabalho
E também por ser um bardo dos chinfrins,
Já poeta porque inventa frases líricas,
Porque toca, sofre e canta ao violão.

Homenzinho insano, incomum, parece doido,
Já criou costume de parar no tempo
E também no espaço, pra fitar estrelas;
Divagando tanto, ousando fantasias
Que não vi neste mundo nenhum louco acalentar.

Comove-se co'a musa que adentra o bar,
Achega-se a ela e lhe diz galanteios
Com olhos luzentes e tão fascinados,
Que mais parece menino apaixonado.

Quando solitário, acomoda-se à mesa
E consome-se em porre pela morena
Que há bem pouco tempo o deixou
E a linda mulata que o já encantou.

Esse vagabundo, na rua lotada,
É apenas um ser sozinho e tão errante
Que para de repente e faz novamente
Que pare o tempo só pr'ele contemplar
O céu azulzinho do dia de sol.
Esse coisa-à-toa caminha perdido,
Soturno e sem rumo na rua deserta
Quando sua alma é sombria, escura, sem luz.

Despojado, informal, parece esses anjos
Desgarrados dos outros, que ficam bebendo
Nos bares alegres, em vez de ir pro Céu.
Incapaz de acatar, não sabe dar ordens.
Parece um cão solto deitado nas ruas:
Lírico e livre, o que mais ele lembra?
Talvez as cigarras, talvez borboleta, talvez os pardais...


II

(O POETA ENVELHECIDO)


Quem é o poeta que chega
qual vindo de algum devaneio,
saindo de um quarto de vila
com seu violão sob o braço?

Às plenas três horas da tarde,
a grave voz de ressaca,
dedilha uma música antiga
que é de fazer viajar.

Chegando a noite, o poeta,
a língua pesada de bêbado,
relata as histórias e amores
vividos em tempos de lira.

Alguns ouvintes se encantam,
uns outros se enchem de enfado,
mas cria-se um clima na noite
pejado de poesia.

Poeta de brancos cabelos,
de rosto cortado do tempo,
tão jovem porém nos anseios,
intenso em seu doce falar.

Às altas da noite o bar fecha:
os homens urinam nos becos,
e o triste poeta, já trôpego,
caminha pra ir descansar.

Um dia um coma profundo
ou uma cirrose ou infarto
fará que o poeta soturno
não saia do quarto de vez.

2013


III

(O BÊBADO ADORMECIDO)


Quem é esse traste que dorme,
Que fede a fumo e cachaça,
Ressona no quarto sombrio,
Fechado e desarrumado?

É o mesmo poeta que há pouco
Cantava o sorriso da moça,
Dizia que a noite é um negrume
Tão bom de se poetar.

Quem é esse velho imprestável
Que rosna o que não se entende,
Enquanto rola na cama,
Num sono agitado de ébrio?

É aquele poeta que disse
Que a tarde é momento divino
De a vida dançar de alegria
E o peito buscar emoções.

Agora é o langanho que dorme,
Que atrai desprezo e chacota
O homem que traz sempre sonhos,
Que sente profundo no peito
As dores e o belo do mundo.

2013


PÁSSARO FERIDO


Sou pássaro solto das asas feridas,
viajante sem norte, que vaga, que caminha a esmo
na noite deserta, sem sons e sem prata.
Às vezes poema ao ouvido da amada,
o sangue fervente nas veias pulsantes,
pequeno festejo em areias praianas,
mas grito abafado cortando as entranhas,
o fosco das tardes nubladas, quietas,
a estátua postada no banco da praça,
à espera do nada, do nada, não mais.

DESOLAÇÃO


Sem alento e sem espera,
sem a vista do horizonte, 
não há tardes coloridas,
não há norte ou ilusão.

Vem dizer, desperança,
se os meus olhos tão cansados
não terão jamais o brilho
das felizes emoções.

Ah, me dize,  desalento,
se é doer assim pra sempre
ou se o tempo, ele somente
me trará consolação.

Ah, canção tão desolada,
que arrebenta meu silêncio,
vai dizer que é madrugada
que não finda no meu ser.

IMAGENS REFLETIDAS


Que enigma esconde esse teu rosto
num semblante perene de quem brinca
e se ri do mundo tão injusto e caricato?

Se os segredos não desvendo,
te conheço a sede, a sanha,
quanto ardem teus desejos
e me vejo um tanto pasmo,
absorto, até encantado
em notar de ti brotando
vida, ardor em profusão.

Quais quimeras te incendeiam?
Quais loucuras tu desejas?
Que aventuras te fascinam
nessa alma irrequieta?

Encantado, te contemplo,
porque entendo que há em ti
o quem em mim sinto brincando
desde os tempos mais remotos.

Quanto tens de mim em ti?
O que somos? Semelhanças
abundantes, incontáveis?
Ou então, se nos olhamos,
O que vemos? Um espelho?

Tua alma dança em mim?
Minha alma dança em ti?
Assim somos um só ser,
divididos e libertos
a voar pelo universo.

2014

NÃO CONTE NADA


Não conte, não, dos espinhos lá de fora,
Se eu apenas quero lhe sentir o rosto quente
Repousando no meu peito, que te acolhe,
E os lábios que se amassam, ávidos, nos meus.

Não conte, não, qualquer vivência adquirida,
Que eu quero agora é esquecer sua partida
E a prostração que sua ausência trouxe a mim.

Faça de conta que o ontem nunca houve,
Que este momento é tudo, tudo quanto existe
E que nunca, nunca mais vai terminar.

Não conte, não, dos seus amores fracassados,
Não fale nada de aventuras mal vividas,
Não diga nada, não, sobre os seus dias,
Pra que eu não abra a porta e aponte a rua
E diga: "A volta dói bem mais do que a partida".

VOCÊ, PRIMAVERA


Não fique, venha: como quero que me venha!
Tenho um paraíso em seus afagos,
Na sua voz, um cantar de renascença,
Na presença, um viver em plena chama,
No seu corpo, um delírio de queimar
E na ausência, um desejo de calar.

Venha à tarde como brisa vespertina,
Venha à noite como um céu de poesia
E se vista em transparências azuladas,
E se abrace ao meu corpo desejoso,
E não pense, não fale, apenas dance
E arda assim como se fora um sol candente.

Venha\comigo olhar a vida da janela
E dizer que a primavera se anuncia no horizonte
E, inda mais, já chegou e se eterniza
Com as flores coloridas, suas cores abundantes,
Sua vida em festa acesa, alegria que retumba,
Muito embora eu saiba, a primavera, ela é você.



ALUMBRAMENTO


Que feitiço tem teus olhos,
que eu me rendo e me dissolvo
no ato simples de te olhar?

Que cantiga tem teu riso,
que me alumbra simplesmente
e me induz a viajar?

Conta a mim que primaveras
que tu enxergas em paragens
muito além dos horizontes?

Fala a mim dessa alegria
que reluz em teu semblante
e se espalha pelo ar.

Que magia tem teu corpo,
que me aprazo dos teus cheiros,
que enlouqueço ao te tocar?

Os teus fluidos são licores, 
sou cativo dos teus braços,
me embriago em teu calor.

O poema que te faço
é suave como fêmea,
é mulher como tu és.

É tão macho como o bruto
que te aperta com pujança
e te adentra com furor.

Os meus versos te transformam
numa parte de mim mesmo
e a nós dois  numa canção.

Diga que aguarda sequiosa a chegada minha à sua casa,
E eu lhe farei os poemas mais emocionados e bonitos que consiga porventura:
Escreverei os versos que denotem o mais infinito e absoluto enlevamento.
Traduzirei com perfeição os sentimentos que em meu peito batem como um turbilhão
E me farei o seu poeta, devotado e tão zeloso como o trovador  a dar o próprio sangue pala [amada:
Serei o exaltado cantador, o arauto a anunciar aos quatro cantos a paixão que me arrebata.
Serei leve e delicado, sutil qual sons de flauta ou plácido regato cristalino
Nos afagos e palavras que reservo para a hora extasiante de encontrá-la.

2014

ÓDIO DO AMOR


Toda noite eu tento escrever estrofes belas.
E me enveneno do sentimento mau por ti
Numa tentativa tão vã de de sufocar minha paixão.
Toda noite eu durmo na esperança de não despertar.

Toda manhã me desejo recluir e ficar do mundo bem distante
E fazer do meu quarto um mundo meu, impenetrável .
Toda tarde eu quero nada além que o tempo voe
E tu me sumas da memória qual neblina fugidia.

Ah, bem sei que  no futuro não serás mais que a memória
Vaga e simples de uma coisa chã, pequena, inexpressiva
Que me fará sentir tão tolo pela dor que hoje me mata.

2013

A MORENA AO CREPÚSCULO


Quando a morena caminha na rua de terra,
cabelos pretinhos aos ombros marrons,
dá uma vontade tão grande d'agente cantar.

Quando o decote da bela desponta ao crepúsculo
de ceú vermelhinho, cigarra a cantar,
dá uma vontade danada d'a gente pecar.

Quando ela baixa a cabeça, olhando pro chão,
parece tão triste, tão frágil, suave
d'a gente a querer proteger e guardar.

Quando essa moça se afasta, se perde no longe,
deixa no peito da gente uma certa saudade,
como viesse e dissesse: "só volto amanhã."

A SEDUTORA


Essa bela é sedutora,
tem os olhos de langor,
mas por quantos seus olhares
se derretem de desejo?

Essa bela tem a voz
delicada de uma musa,
mas por quantos cantarola
mil cantigas de paixão?

Essa bela tem os passos
leves, brandos de gazela,
mas com quantos ela dança
os seus ritmos febris?

Seu semblante é tão angélico,
me consome em comoção, 
mas por quantos ela reza
suplicantes orações?

Essa moça  faz poemas
de um lirismo sem igual,
mas pra quantos ela escreve
seus mais lindos madrigais?

NÃO POR ELA


Que te encharques de aguardente
e desmaies nas bodegas, 
mas não seja então por ela,
a quem músicos mambembes
negam mesmo duas notas.

Que pranteies cachoeiras
e te afogues em teus prantos,
mas não seja então por ela,
que sequer merece gota
de suor ou de coriza.

Que te atires de uma torre,
te espatifes na calçada,
mas não seja então por ela,
por quem nem os indigentes 
se dariam mordiscadas.

Que te sintas desgraçado,
que te arrastes pela vida,
mas não seja então por ela,
tão sem viço e tão pequena,
parecendo inexistente.

SERÁ?


Lá vem ela, viçosa, bonita.
Desponta, sorrindo, na esquina.
Trará para mim a esperança?
Trará pra amanhã mil tormentos?
Será um turbilhão de alegrias?
Fará que eu lamente nos dias?
Será uma leal dedicada?
Será indiferente, infiel?
Será um paraíso romântico?
Será como o Inferno penoso?
Trará mil canções que arrebatam?
Trará mil queixumes e tédios?
virá me salvar da agonia?
Fará que eu deseje morrer?


QUERER IMENSO


Do teu corpo percorrer cada milímetro,
Atritar a minha pele em tua pele
E beijar-te como fosse o momento eternizar
E entrar em tua alma nesse ato.

Comungar com teus desejos meus desejos,
Viajar por entre os astros no teu corpo,
Nos fazermos um só corpo, uma só alma,
Na magia da volúpia sem tamanho.

Eu te quero como a brisa em primavera,
Como ao sol que aquece as tardes nos invernos.
Tu te tornas minha assim como meus órgãos
E eu te amo como à vida que retumba no meu peito.

AMOR PERDIDO


Cada vez em que a encontrei,
nas noitinhas mais bonitas,
não notei que ela cantava,
dentro d'alma, de alegria.

Cada vez em que a apertei
nos meus braços, entre juras,
reparei como se dava,
mas não vi que era tão minha.

Quando quis cair no mundo
e me dei à despedida,
não notei que ela chorava,
não olhei quanto sofria.

Todo o tempo em que eu a tive
ao meu lado, nos meus dias,
eu nem vi que ela me amava,
que era pura poesia.

Quando o mundo me abateu,
e eu busquei o seu abrigo,
percebi  que nos seus olhos
já não tinha  melodia.
Entendi que o tempo andara,
me dei conta que a perdera,
que não mais eu a teria.

2013

CONSTANTE PRIMAVERA


Por você farei uma canção bonita,
Lamberei cada palavra que me diga
Qual sorvesse o vinho embriagante
Que consome a calma e o meu juízo.

Viverei sempre as manhãs como festivas,
Toda tarde será como folia,
Toda noite, uma entrega à poesia,
Madrugadas, puro êxtase dos dias.

Deixarei o seu rosto na memória,
Permanente como fosse uma pintura,
Seu sorriso me será qual fosse a vista
Dos cenários mais sagrados do universo.

Viverei na leveza assim de um passarinho
E o abrigo encontrarei nesses seus braços,
Tão feliz qual se tristeza nunca houvera,
Qual vivesse o ano inteiro a primavera.


2013

DE QUE VALE...?


De que vale a emoção destes meus olhos,
Tanto enlevo estampado no meu rosto,
As palavras fagueiras e tão ternas,
O querê-la flagrante nos meus atos...?

De que vale a quentura dos meus gestos
E a tamanha alegria só por vê-la...?
De que vale o me-dar no meu  semblante
E o desejo tão claro assim  de tê-la...?

Se encontro os seus olhos tão gelados,
Se não noto um sentir na sua fala,
Se não sou mais que alguém que ela conhece,
Sem nenhum, sem qualquer alumbramento?


2013

LUCIANA


Hoje terei Luciana:
não importa com quantos homens
se deite a cada semana.
Mas hoje será só minha,
como se então nos quiséssemos
como nada se quer no mundo.

Mas hoje terei Luciana.
não ligo se no outro dia
se deite co'alguém que não eu.
Pois hoje eu quero encará-la
qual fosse à maior das dádivas:
ai (!), como eu desejo essa moça(!),
que me causa frissons, arrepios!

Terei Luciana no leito,
lamberei o seu corpo de todo:
as pernas magras e pálidas,
roliças e tão desejadas,
que exibe em seus minivestidos
de tão generosos decotes.

Sentirei seus aromas de fêmea
e todos os seus paladares:
da nuca de potra no cio,
da boca, dos lábios, saliva,
dos seios, narinas, ouvidos,
de toda cavidade que tem.

Não ligo se um outro sujeito
se esmere em cheirá-la amanhã,
mas hoje a mulher é só minha,
princesa encantada dos sonhos
por uma noite somente.

Mas hoje eu a quero demais
e a amo bem mais do que a mim,
porque matará minha sede
de entrar no seu corpo esguio
olhando seus olhos lânguidos
e sua expressão de luxúria.

Eu quero lhe ouvir os gemidos,
amá-la de todos os jeitos,
beijá-la por longos momentos,
pois hoje arderei qual menino
em sua primeira entre as noites,
esquecendo o mundo ao redor,
resumindo o mundo a nós dois.


2013

VIDA DIVERSA


Eu preciso enlouquecer de apaixonado.
Eu preciso me entregar visceralmente
A uma paixão, mesmo que seja descabida.

Eu preciso viajar para  bem longe,
Percorrendo uma estrada muito longa
que termine nuns confins onde não haja
A vida insossa que vegeto por aqui.

Quero ruas de alegria permanente
E o direito de exercer minhas loucuras.
Quero gente livre, solta e verdadeira
Que me escute e que me conte do lirismo
Que há nas artes que embelezam nossas vidas.

Eu preciso acordar fazendo versos,
Viver dias  de mais plena poesia,
De lindezas que eu sequer consiga 
Em minha parca mente imaginar..

2013

NÃO ME FUJAS


Se eu te vir continuar a fugir-me como fazes,
te despirei com meus poemas, como um macho enlouquecido
a te rasgar as roupas íntimas e amarras do desejo.

Te beijarei num doce verbo de luxúria
como se fosse o enamorado mais romântico
a te fazer juras de amor sob o luar.

Decifrarei teus sentimentos em meus cantos,
como se olhasse nos teus olhos e enxergasse
A tua alma tão despida para mim,

Te deixarei corada ao perceber na tua fala
as tuas mais ocultas  e quentes sensações

E então farei que me confesses toda a confusão
e todo sentimento que te toca o peito frágil,
tão carente dos afetos enlevantes, inefáveis
de que todo ser vivente necessita qual dos órgãos mais vitais,

E induzirei a que tu fales como se cantasses
as palavras mais bonitas dos amores tão infindos,
tão imensos como arroubos que atravessam anos, vidas,
os milênios, os percalços, as idades, os astrais, as gerações.

2013

NÃO BUSCAREI MAGIAS


Não buscarei ouvir a voz de Deus nos ventos
Ou mensagens dos espíritos nos pensamentos repentinos,
Nem tampouco nos acasos sinais do metafísico.
Tocarei a vida com somente a energia dos meus braços
E os desígnios que venham de não mais que minha mente:
Não irei em busca dos auxílios abstratos
E dos anjos e dos mitos, e dos santos e dos deuses.
Lutarei com minhas mãos de carne e osso
E co'a ajuda que me acuda dos seres e das coisas
Captáveis tão somente por sentidos corriqueiros.

2013

VALQUÍRIA


Quando avistei você, que vinha ao longe,
Imaginei, de tolo, era a esperança que chegava:
A bela fada, pitonisa dos presságios magníficos:
Ah, que achava que era um tempo alvorecendo...!
Que era festa, orgasmo, dança e lira ao mesmo tempo.

Não sabia quão nocivo o fundo apego me seria:
Profusão de mágoas, de desgostos, desenganos,
Garoa tão noturna e tão entristecida de silêncio,
Violino mais plangente gerando puro pranto.
Não sabia, era valquíria, yara, era ninfa, era sereia
Com seu dom nefasto de fazer sofrer intensamente.

2013

A RUIVA

A mulher dos ruivos cabelos,
que adora espelhos no teto,
que exala jasmim, feromônios
e que ama com gana e com arte,
que faz tanto escravo no leito,
tem vários lacaios na vida,
endoida os homens mais firmes,
lhes suga os recursos e as almas,
e os torna reféns dos seus beijos
e afagos que faz qual ninguém.

Degusta os vinhos mais finos.
Se fora da cama, é de pedra,
não ama nem sente, calcula,
ajunta dinheiro e prestígio,
vestidos de caros tecidos
e, nua, passeia em escunas
e dá seus cabelos ao vento,
num ar de fidalga rainha:
parece senhora do mar.
Mas como a sereia é bonita!
Mas como a vampira é divina!
Demônio mais cheio de Céu!


CORDEL DA BRIGA DOS FIÉIS

Na saída da paróquia
de uma santa dos aflitos,
os dois homens se avistaram
e a contenda então se deu.

Olhos rubros em faísca,
uma faca em cada mão.
Ia um ódio dos demônios 
a fever nos dois cristãos.

Ah, que luta mais sangrenta!
Maldições em profusão.
Gritos, dores lancinantes,
tintas manchas sobre o chão.

As pessoas assombradas, 
sol dourando o pontilhão.
Padre orando em agonia, 
ministrando a extrema unção.

Pra quem crê na Providência,
caberia uma questão:
se venceu o mais bondoso
ou  o melhor nas orações?


Revisto e modificado em fevereiro de 2024

EXÍLIO

Gritos do ódio que guardei a vida inteira
Sufocado em minh'alma corroída...
Rebeldia que tolhi, deixei sem asas
E me retalhou por dentro totalmente...
Ai, a guerra que não fiz e os homens maus
Que eu deveria ter ao menos esmurrado!

Vou partir sem olhar pra trás nenhum momento,
Vou morar depois, muito além do fim do mundo,
Mas do mundo muito além do mundo derradeiro,
Onde nada de humano exista ao meu redor.

Quero estar quieto co'as tristezas e lembranças,
Tão sozinho de confabular co'os passarinhos
E entreter-me com a relva, borboletas e os arbustos,
Num recanto a que ninguém possa chegar.

Quero ser tão vago como sombra, um vulto ou um ruído
E, invisível, acomodar-me em meu abrigo,
E, intangível, adormecer em meu sossego,
A bilhões de anos-luz da minha espécie.


2018

TARDE BELA


Tarde fresca, tarde bela,
Onde estão os olhos dela?
Onde estão as mãos de seda
E as palavras tão macias
Como os sons das noites calmas?

Onde estão seus lábios rubros
E a avidez do beijo quente?
Onde estão seus braços mornos
E o seu corpo em frenesim?
Onde estão suas promessas
E o seu gosto de cantar?

Onde está toda a alegria
De somente a avistar?
Onde está toda a viveza
De beijá-la em pleno bar?
Onde encontro aquela aurora
Estampada em seu olhar?

Onde toda a claridade
Que trazia na presença,
Tão somente, simplesmente?

Tarde fresca, tarde bela,
Onde estão os beijos dela?
Tarde fresca que anoitece,
Anoiteço assim sem ela.

2013

LINDA CANÇÃO


Ao tocar bela canção,
Me senti qual se os jardins
Se espalhassem, mais viçosos,
Pelo inteiro panorama.
Como visse o sol de outono
Se fazendo mais bonito.
Como houvesse passarinhos
Secundando em revoadas
A tão linda melodia.
Como Deus chamasse os homens
A deixar que a poesia
Lhes tocasse  fundo  as almas,
Nos livrasse dos pecados
No nascer de um novo tempo.

2013

MULHER DO ROSTO BELO


Ah, mulher do rosto belo,
quanta noite nos seus olhos!
Ah, mulher do riso tímido,
quanta sede nos seus lábios,
quanto história em seu semblante,
que esperança fugidia
nas palavras murmuradas
num tom quase entrecortado!

Ah, mulher dos olhos belos,
que tristeza no seu rosto!
Ah, mulher dos olhos tímidos,
quanta sede no seu corpo,
que esperança murmurada
nas palavras fugidias,
num tom quase amargurado!

Ah, mulher do riso belo,
quanta súplica em seu rosto,
quanta espera nos seus lábios,
quanta fuga em sua história,
quanta sede no semblante,
quanta luz sei que há por vir!

201
3

POEMA DE ÍMPETO


Se eu provasse o sabor da tua língua,
Degustasse o marrom da tua pele,
Se sentisse a paixão no teu semblante
Se tivesse a entrega dos teus olhos,
Eu chegava aos confins mais magníficos,
Me sentia o primeiro, mais feliz dentre os humanos.

sábado, 9 de maio de 2020

VOLTANDO A FALAR NO TRANSCENDENTE

Já faz alguns anos que abordei a questão do metafísico e fiquei de voltar ao assunto.  
A questão da vida ou não após a morte preocupa toda a humanidade, se levarmos em conta que o fim de cada ser sobre a face da Terra é certo e infalível.  Quero abordar o tema sem a confluência das religiões: elas são simplistas, utópicas, infun dadas, pouco compromissadas com a realidade, da mesma forma como deixo  Deus fora da questão, uma vez que é impossível conceber uma única entidade com ciência de tudo e domínio sobre todos os planetas, meteoros, cometas, elementos e vidas do Universo.
Como dissera no texto anterior, conheço bem de perto pessoas que já tiveram vários episódios de vidência, e não há onde se possam encontrar explicações para esses casos. Um exemplo clássico da veracidade das premonições  é a predição de Mãe Diná acerca dos jovens do grupo "Os Mamonas Assassinas", predição corroborada por um dos membros da banda, que deixou gravado em vídeo o relato  de um sonho que tivera sobre a queda do avião em que viajariam e morreriam dias depois.  Outro exemplo espantoso é o médium José Arigó, morto pelos idos de 1971  num acidente de trânsito antevisto pelo próprio. Em 1865, Abraham Lincoln sonhou com o próprio velório às vésperas do dia em que foi assassinado.  É bem verdade que  esses fatos acendem de certa forma uma esperança acerca da existência do metafísico. Porém reconheço que uma coisa não está intrinsecamente ligada à outra.  Em outras palavras, a ocorrência de premonições nunca implicaria obrigatoriamente que houvesse vida fora da matéria, porque espiritualidade e intuição podem ser coisas não inerentemente relacionadas. O dom pode ser seu, não decorrente de algum aviso de um eventual ou suposto espírito que o intua.
Como todo homem, tenho uma inclinação (muito vaga no meus caso) a crer numa forma de continuação pós-vida... mas ressalto bem: uma inclinação, uma coisa mais emocional do que racional, porque é uma necessidade humana orgânica de acreditar numa continuação após a falência total dos sentidos.  A racionalidade, entretanto, leva-me a análises mais pagmáticas e que se distanciam dos desejos e emoções. 
Na hipótese da espiritualidade, ter um espírito, uma consciência que sobrevivesse à morte da matéria não seria um privilégio de nós, humanos, nem tampouco de outros mamíferos.  Seria um atributo de todas  as espécies, incluindo-se aí insetos, peixes e outras formas de vida.  Para não sermos aqui místicos, demos outra nomenclatura aos espíritos: seria nos humanos a consciência, nos animais chamados irracionais, nos quais muitos não admitem que haja consciência, a percepção. Por menos que um animal seja inteligente, não neguemos que há neles uma percepção do que  lhes é possível captar.  Digamos que aqui eu fecharia minha parca e não-elucidativa equação, que concluiria pela sobrevida da percepção em todas as criaturas.  Mas isso não é verdade.  Porque esbarraríamos no fato de que há vidas sem poder de  percepção, como os vegetais, desprovidos de irritabilidade, aos quais seria muito difícil atribuir uma coisa parecida com espírito, mas que são seres aparentemente  não-únicos na condição de desprovidos de eternidade.  Noutras palavras, veria eu como quase que obrigatório que uma continuação sob a forma de consciência, percepção ou algo mais rudimentar  fosse um atributo de todos os seres de todas as espécies, da mesma forma como a ausência de tal atributo ficaria comum à totalidade das criaturas.
Embora minha vaga dissertação e minhas hipóteses  não sejam nada alentadoras para nossos anseios, o fenômeno dos vaticínios há de ser destacado e requer muitos estudos e pesquisas, ao invés de ficarem no tempo soltos e abandonados ao léu, como se jamais tivessem acontecido.