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sexta-feira, 5 de junho de 2020

VÂNIA E OS DOIS IRMÃOS



Toda santa sexta-feira era aquele diabo!  Euclides nunca vinha para casa.  Vânia ficava esperando, o banho tomado e o corpo perfumado, um vestido curto de tecido leve e quase transparante, como se o marido fosse, surpreendentemente, chegar antes da madrugada, percorrer os olhos pelas suas coxas e pelo vestido a esvoaçar levemente com o vento, apalpar-lhe a cintura, os seios e as nádegas, sentir nas pontas dos dedos a textura do vestido, despi-la, possuí-la num ímpeto febril... Mas tudo isso eram devaneios! O danado sempre voltava na manhã de sábado ou então em profunda madrugada.  E naquele dia não seria diferente: passaria a noite na esbórnia, chegaria bêbado, cheirando a cigarro e perfume barato, com todos os indícios de haver passado a noite com alguma vagabunda.
Vez por outra vinha com hematomas, sinal de haver-se metido em alguma briga, mas nunca dava satisfações ou se explicava.  Mesmo que viesse com marcas de batom!
-- Sai pra lá! Vai dormir! Tava com mulher porra nenhuma! -- limitava-se Euclides a rugir quando ela notava alguma pista mais clara de o marido havê-la traído. Outras vezes ela reclamava quando o pegava sóbrio:
-- Você só quer saber de beber e chegar de madrugada.  Esquece que tem mulher.  Você acha que isso é casamento?
Ele se limitava a ficar murmurando entre os dentes alguma coisa que  mal se entendia, mas nunca se dispunha a discutir a questão.  
Era aquele sofrimento toda sexta-feira.  Mas Vânia não sofria só nos finais de semanas: era praxe ele ficar pelos botequins quase diariamente, muito embora não madrugasse nos outros dias, chegando sempre entre dez e onze da noite.
Não faltava, ou pelo menos não faltava tanto com os deveres de marido.  Buscava-a na cama, fazia amor, mas com um carinho e uma frequência menores do que ela desejava.  Vânia não sabia se ele ainda a amava, nem mesmo se ela própria continuava a nutrir amor pelo marido.  Mas sentia uma necessidade quase orgânica de ser acarinhada, de ter os dedos de alguém por entre os  cabelos, de ter a boca demorada e intensamente beijada... como nas novelas que via... como nos romances de bolso que lia... como fora no seu tempo de menina, de recém-casada.
Estavam ambos casados já havia cinco anos, não tiveram nenhum filho por ser a mulher infértil, e às vezes esta presumia ter sido por isso sua a culpa do desgaste daquele casamento -- muito embora Euclides jamais houvesse reclamado do fato.  Mas a questão é que Vânia tinha a sensação de haver-lhe feito um homem a sentir-se incompleto, frustrado, que a punisse  com a ausência e a desatenção o fato de não ser pai.
Era difícil o Euclides: quase não falava, quase não sorria.  Era pedreiro e vivia aporrinhado e resmungando sobre os ossos do seu ofício.  Vivia cansado ou então enfiado nas suas bebedeiras.
- Merda de vida...! - costumava queixar-se com sua voz quase gutural - Muito trabalho e o dinheiro pouco.  Só trabalho e aborrecimento... Isso lá é vida!?  
Aos sábados e domingos aquela sensação de solidão seguia a apertar o peito de Vânia: ele acordava tarde e pouco falava, ora comido pela ressaca, ora enclausurado em seus pensamentos e seu mau-humor, os olhos voltados para a televisão.  Diabos! Três anos de namoro e cinco de casamento, e Vânia pouco conhecia o seu homem.
A casa era triste e silenciosa, monótona, tediosa, e só ganhou alguma vida quando Eusébio, o irmão mais velho de Euclides, chegou de Aracaju e instalou-se num quarto-com-banheiro que Euclides construíra no fundo do quintal para abrigar o outro.
Eusébio era falante embora parecesse tristonho. Às vezes mergulhava em profundo silêncio, mas não era como o irmão.  Era mais comedido; não se encharcava de bebida, era sociável.  Euclides recebeu-o com enorme alegria, entregou-lhe o quartinho que lhe levantara com grande satisfação.
-- Vê só, mano: com o tempo você aumenta esse teu quartinho, pega um pedaço maior do terreno e me paga aos pouquinhos: o importante é nós ajudar um ao outro.
Depois da chegada de Eusébio, Euclides tornou-se mais caseiro, raramente madrugando às sextas, chegando quase sempre cedo nos outros dias, e Vânia percebia que isso se dava porque o irmão estimulara-o a ficar em casa a trocar ideias, e também pelo motivo de, como era bastante notório, o marido temer ser traído pela esposa com o cunhado.
Logo Eusébio empregou-se, numa obra cujo encarregado Euclides apresentou-o.  O irmão desempenhava suas tarefas com habilidade, também era um pedreiro de grande competência.
Alguns dias Eusébio chegava do trabalho, banhava-se e comia da comida que Vânia preparava, ficava a conversar longamente com o casal, a tocar em vários assuntos, a rememorar os tempos da infância de extrema pobreza vivida  em Nossa Senhora do Socorro, e a ida da família para Aracaju.  Recordavam  os pais já falecidos e comentavam da impossibilidade de permanecer na terra natal por conta da inexistência de perspectiva de condicões razoáveis de subsistência, da posterior necessidade de deixar a própria Aracaju por razões semelhantes, e Eusébio tinha também uma dor atravessada no peito:
-- Não sei por que a Cássia me deixou. -- lamentava-se -- Eu não fiz nada de mal com ela.  Uma ingrata! Tu não sabe, mano, como eu gostava daquela mulher.
Cássia era a mulher com quem vivera durante dez anos, que nos últimos tempos de vida conjugal não lhe dera mais importância, não lhe fizera mais elogios nem agrados, pouco aceitou-o no leito e tinha-o na conta de quase um traste, além de, num fatídico dia, olhá-lo com um olhar de profundo desprezo e dizer-lhe:
-- Não quero mais viver com tu.  Eu não gosto mais de você.  Vou viver minha vida longe de você.  
O homem lamuriava-se quando trazia à tona aquelas lembranças, e Vânia sentia que identificava-se de certo modo com ele, pois  era uma mulher com o mesmo sentimento de abandono que acometia o cunhado.  Estava casada, vivendo com o marido, deitando com o marido, mas era uma mulher abandonada como qualquer outra sem homem.
Quando encontrava-se sozinho com a cunhada, Eusébio nunca entrava na casa desta, por respeito ao irmão e para não causar impressão ruim a qualquer vizinho que casualmente por ali passasse e o visse entrar, e também porque sabia que Eusébio não gostaria.  Mas ficava sentado a uma cadeira, no quintal, e naqueles momentos sentia-se mais à vontade para falar com maior detalhamento sobre a saudade do norte e principalmentte da tristeza de ter perdido Cássia.
Já se haviam passado dois anos e ele não a esquecia. Tinha  a autoestima ferida, um sentimento  de extrema  solidão, a sensação de uma coisa que doía fundo dentro do peito.
A partir de um certo tempo, Vânia também encorajou-se a relatar tudo aquilo que  corroía-lhe a alma e a fazia infeliz, a queixar-se do marido, que tornara-a uma mulher ávida de afeto e frustrada, triste e solitária.  À medida em que os dois sentiam-se mais à vontade para trocar confidências, Euclides tornava-se mais frequente na esbórnia das sextas e nas pequenas bebedeiras dos outros dias, agora já sem dar muita atenção ao irmão, voltando pouco a pouco a ser o mesmo caladão de antes.
Se, quando o irmão era recém-chegado, o marido de Vânia, enciumado e temeroso, procurava-a na cama com mais frequência, agora voltava a ser o mesmo de antes, voltado para as suas bebedeiras, seus maus-humores e seus pensamentos.  Enquanto mulher e cunhado conversavam quase todas as noites, ela à porta da sala, ele sentado na cadeira do quintal. Até que um belo dia Eusébio entrou.
Vânia colocara um daqueles vestidos leves e curtos com que sempre esperava o marido, e o cunhado  começara a pensar que ela o fazia para ele. Eusébio.  Contivera o desejo mais que pudera,  mas o problema era que aquele equívoco devolvia-lhe tudo aquilo que a ex-mulher  lhe roubara: a autoestima, o desejo de viver,  a sensação de ser um homem à altura da palavra.
Durante a conversa, parou de repente e tomou um pulso de Vânia.  A expressão da mulher era de estupefação, mas ela não relutou, não o repeliu, apenas ficou a encará-lo, os olhos arregalados, incapaz de dizer palavra .  Eusébio foi conduzindo-a para dentro de casa, ela deixou-se levar como um autômato, e os dois se amaram com a entrega e a volúpia dos amantes dos mais picantes romances de amor.
Os dois se deram como que loucamante enamorados, e trocaram tantas carícias e tantas juras de amor, que mais pareciam dois adolescentes embevecidos no primeiro ato sexual de suas vidas.  E desfrutaram plenamente  cada momento,  cada gemido,  cada suspiro,  cada palavra quente, naquela noite de delírios,  em que ambos sentiram-se apaixonados e correspondidos, felizes como se fosse impossível existir na face do planeta qualquer sentimento ou  coisa diversa da luxúria, da paixão e da felicidade.
Tão logo deixaram o quarto e vinham saindo,  ainda ajeitando as roupas e sentindo-se leves como flutuassem, Euclides surgiu na sala, bem diante dos dois.
Ficou longos momentos sem palavra, os olhos febris de ódio, a voz entalada na garganta,  a boca aberta numa estupefação inefável, porque, apesar das suspeitas de que aquilo já estivesse acontecendo antes, tivera durante o período de desconfiança a esperança de estar equivocado.
-- Desgraçados! Filhos da puta! Vagabunda! Puta suja! Maldito asqueroso! - gritou e rugiu ao mesmo tempo, e sentia um furor demoníaco.
Teve um ímpeto de pegar o facão na cozinha e acabar com os dois, que permaneciam imóveis e sem ação.  Mas conteve-se, ofegante:
-- Some os dois daqui...  Pega tudo o que é de vocês e some da minha frente agora.
Eusébio quis dizer alguma coisa...
-- Cala, desgraçado! -- berrou novamente Euclides -- Senão eu te mato! -- Foi saindo, ofegante: - Some os dois daqui agora.  Vou até o botequim.  Se eu encontrar um de vocês aqui quando eu voltar, eu mato.
A rua encheu-se de gente.  Euclides passou carrancudo pelo meio das pessoas, enquanto os amantes estavam quedados e pálidos de vergonha diante dos vizinhos.
Arrumaram as roupas, fretaram uma kombi e saíram do bairro.  Dentro do veículo Eusébio ainda murmurou para ela:
-- Não sei dizer o que tô sentindo.
 Vânia comentou com um ar  de desânimo o olhar distante:
-- Eu vou sumir.  Vou pra casa da minha mãe, que é bem longe. Quero esquecer o dia de hoje.  Tô me sentindo uma piranha! Uma vagabunda!
-- Meu Deus! -- Eusébio levou as mãos à cabeça, não sabia o que mais dizer.
Passado pouco mais de um ano, ele,  Eusébio, numa tarde de domingo, procurou o irmão.  Euclides, que a princípio relutou  em dirigir-lhe a palavra,  por fim acabou por fazê-lo.
-- Só não entra, seu traidor.  Eu falo contigo aqui do portão mesmo.
-- Meu irmão, eu não queria te fazer de besta...
-- Não me chama de irmão, seu maldito...!
-- Desculpa, Euclides, mas não foi por maldade...
-- Você veio me esculachar, filho da puta!? - rugiu com o olhar fuzilante.
-- Não, por favor, não é isso.  Eu só queria te dizer que foi uma doideira... Mas é que eu tava morrendo de tristeza, tinha uma dor que me maltratava...
-- Desgraçado!  Você me traiu com aquela... -- longa pausa -- Ela era a coisa que eu mais amei  nessa vida...
-- Perdoa, Eucli...
-- Nunca!
Eusébio botou a mão no peito:
-- É que eu sentia uma tristeza tão grande, uma coisa que me matava aos poucos, que me doía fundo aqui dentro...
Euclides bateu o portão, deu as costas ao irmão, percorreu o quintal, entrou na casa batendo também a porta da sala. Eusébio murmurou para si mesmo:
-- Uma coisa que mata aos poucos... que dói fundo aqui no peito...

2008
                     

A VERDADEIRA FACE DO PODER


Nos tempos mais remotos da história da humanidade, hordas de aventureiros invadiam territórios e subjugavam outros povos, promovendo carnificinas e uma série de outras crueldades. Alguns invasores, porém, fixavam-se nos territórios dominados e impunham-lhes rudimentos de regras severos e geralmente injustos, porque tais normas ( se assim podiam ser chamadas ) não visavam a distribuir justiça, ética, promover desenvolvimento ou fazer valer a moralidade, mas unicamente a conservar para os invasores o poder e as benesses do poder.
Hoje, passados mais de quarenta séculos da inauguração de tal praxe, o poder, sobretudo nos países de terceiro mundo, tem os mesmos vícios, os mesmos cacoetes, sem outro intuito além da manutenção dos privilégios nas mãos dos que o compõem ou a ele estão ligados. Em outras palavras, o Estado, que é parte integrante do poder que nos governa -- uma vez que boa parcela dos poderosos em qualquer país não ocupa cargo público -- não tem nenhum interesse em promover o bem-estar social. E por esse mesmo motivo precisaria ser perpétua e rigorosamente vigiado e policiado pelos que vivem em sua jurisdição e sob os seus preceitos. O Estado, complô das elites e meio de exercício de mando das classes dominantes, precisa ser constantemente pressionado e fiscalizado para que a sociedade possa avançar, para que o cidadão possa obter dele o mais que devido respeito e a real condição daquilo de que é chamado (cidadão). Entretanto, realizar tal empresa é algo extremamente difícil, quase impossível.
Seria preciso, antes de tudo, embasamento por parte do povo quanto às questões sociais e políticas, além do conhecimento do verdadeiro perfil do poder, o que já é dificultado pelas poucas chances de acesso à educação e à cultura que os governos oferecem -- do mesmo modo como Esparta implementava o laconismo como meio de dar poucos e parcos conhecimentos ao seu povo mais de vinte séculos atrás -- e pelo papel que a mídia exerce nos dias de hoje, sendo aliada dos governantes no trabalho de desinformar e enganar, confundindo a opinião pública e fabricando "verdades" e "mentiras" que sempre se afinam perfeitamente aos interesses dos poderosos. Ora, a mídia, composta por gente que troca favores com o poder, que vive à sombra deste( do qual faz parte), que outra postura poderia ter nesse contexto? É ela tão provida de recursos e argumentos, que hoje quase ou nunca o poder precisa recorrer à força para defender os interesses das castas que tem a função de privilegiar e proteger.
Só as sociedades mais avançadas conseguem fazer que o Estado exerça o papel que lhe cabe, porque tiveram acesso ao conhecimento de causa que não é dado aos povos de terceiro mundo, além de terem histórias muito diversas das vivenciadas pelas sociedades menos afortunadas -- em sua maioria havendo arrancado do poder tudo aquilo que este não lhes queria propiciar, nem sempre por meios exatamente pacíficos, e ainda assim alguns séculos atrás, quando os veículos de comunicação eram precários e não tinham a força  de  quarto poder (como até já foi intitulado um filme americano), o que favoreceu, entre outras coisas, o crescimento das ideias iluministas e o crescimento da não-aceitação aos desmandos dos poderosos.
Em suma, o poder não é justo ou ético, o poder é apenas o poder, sequioso das benesses que recebe de si próprio (com os recursos dos governados) e cioso em não se deixar mover de sua confortável posição. Dele nada é recebido, mas conquistado com reivindicação e luta alicerçada no imprescindível conhecimento a que aqui faço alusão. Todavia, e infelizmente, não vislumbro, para os países de terceiro mundo, muitas chances de se alcançar este conhecimento de causa que leva à luta e à conquista.

SE EU SOUBESSE



Há coisas que em nossa vida
só trazem dor e tristeza:
soubesse, passava ao largo,
bem longe dos teus encantos.

Devia não ter provado
da água que tu me deste,
do almoço que preparaste,
do vinho que me serviste,
dos versos que me fizeste.

Devia não ter gozado
dos beijos que me beijaste,
do corpo que tu me abriste,
dos olhos com que me olhaste,
delírios que me causaste. 

Hoje, sozinho me vejo
mendigo de algum afeto,
saudoso de nossos dias,
frangalho do que era ontem,
um morto vagando em vida.

2019

O POETA VAGABUNDO

O poeta vagabundo:
Vagabundo por repudiar trabalho
E também por ser um bardo dos chinfrins,
Já poeta porque inventa frases líricas,
Porque toca, sofre e canta ao violão.

Homenzinho insano, incomum, parece doido,
Já criou costume de parar no tempo
E também no espaço, pra fitar estrelas;
Divagando tanto, ousando fantasias
Que não vi neste mundo nenhum louco acalentar.

Comove-se co'a musa que adentra o bar,
Achega-se a ela e lhe diz galanteios
Com olhos luzentes e tão fascinados,
Que mais parece menino apaixonado.

Quando solitário, acomoda-se à mesa
E consome-se em porre pela morena
Que há bem pouco tempo o deixou
E a linda mulata que o já encantou.

Esse vagabundo, na rua lotada,
É apenas um ser sozinho e tão errante
Que para de repente e faz novamente
Que pare o tempo só pr'ele contemplar
O céu azulzinho do dia de sol.
Esse coisa-à-toa caminha perdido,
Soturno e sem rumo na rua deserta
Quando sua alma é sombria, escura, sem luz.

Despojado, informal, parece esses anjos
Desgarrados dos outros, que ficam bebendo
Nos bares alegres, em vez de ir pro Céu.
Incapaz de acatar, não sabe dar ordens.
Parece um cão solto deitado nas ruas:
Lírico e livre, o que mais ele lembra?
Talvez as cigarras, talvez borboleta, talvez os pardais...


II

(O POETA ENVELHECIDO)


Quem é o poeta que chega
qual vindo de algum devaneio,
saindo de um quarto de vila
com seu violão sob o braço?

Às plenas três horas da tarde,
a grave voz de ressaca,
dedilha uma música antiga
que é de fazer viajar.

Chegando a noite, o poeta,
a língua pesada de bêbado,
relata as histórias e amores
vividos em tempos de lira.

Alguns ouvintes se encantam,
uns outros se enchem de enfado,
mas cria-se um clima na noite
pejado de poesia.

Poeta de brancos cabelos,
de rosto cortado do tempo,
tão jovem porém nos anseios,
intenso em seu doce falar.

Às altas da noite o bar fecha:
os homens urinam nos becos,
e o triste poeta, já trôpego,
caminha pra ir descansar.

Um dia um coma profundo
ou uma cirrose ou infarto
fará que o poeta soturno
não saia do quarto de vez.

2013


III

(O BÊBADO ADORMECIDO)


Quem é esse traste que dorme,
Que fede a fumo e cachaça,
Ressona no quarto sombrio,
Fechado e desarrumado?

É o mesmo poeta que há pouco
Cantava o sorriso da moça,
Dizia que a noite é um negrume
Tão bom de se poetar.

Quem é esse velho imprestável
Que rosna o que não se entende,
Enquanto rola na cama,
Num sono agitado de ébrio?

É aquele poeta que disse
Que a tarde é momento divino
De a vida dançar de alegria
E o peito buscar emoções.

Agora é o langanho que dorme,
Que atrai desprezo e chacota
O homem que traz sempre sonhos,
Que sente profundo no peito
As dores e o belo do mundo.

2013


PÁSSARO FERIDO


Sou pássaro solto das asas feridas,
viajante sem norte, que vaga, que caminha a esmo
na noite deserta, sem sons e sem prata.
Às vezes poema ao ouvido da amada,
o sangue fervente nas veias pulsantes,
pequeno festejo em areias praianas,
mas grito abafado cortando as entranhas,
o fosco das tardes nubladas, quietas,
a estátua postada no banco da praça,
à espera do nada, do nada, não mais.

DESOLAÇÃO


Sem alento e sem espera,
sem a vista do horizonte, 
não há tardes coloridas,
não há norte ou ilusão.

Vem dizer, desperança,
se os meus olhos tão cansados
não terão jamais o brilho
das felizes emoções.

Ah, me dize,  desalento,
se é doer assim pra sempre
ou se o tempo, ele somente
me trará consolação.

Ah, canção tão desolada,
que arrebenta meu silêncio,
vai dizer que é madrugada
que não finda no meu ser.

IMAGENS REFLETIDAS


Que enigma esconde esse teu rosto
num semblante perene de quem brinca
e se ri do mundo tão injusto e caricato?

Se os segredos não desvendo,
te conheço a sede, a sanha,
quanto ardem teus desejos
e me vejo um tanto pasmo,
absorto, até encantado
em notar de ti brotando
vida, ardor em profusão.

Quais quimeras te incendeiam?
Quais loucuras tu desejas?
Que aventuras te fascinam
nessa alma irrequieta?

Encantado, te contemplo,
porque entendo que há em ti
o quem em mim sinto brincando
desde os tempos mais remotos.

Quanto tens de mim em ti?
O que somos? Semelhanças
abundantes, incontáveis?
Ou então, se nos olhamos,
O que vemos? Um espelho?

Tua alma dança em mim?
Minha alma dança em ti?
Assim somos um só ser,
divididos e libertos
a voar pelo universo.

2014

NÃO CONTE NADA


Não conte, não, dos espinhos lá de fora,
Se eu apenas quero lhe sentir o rosto quente
Repousando no meu peito, que te acolhe,
E os lábios que se amassam, ávidos, nos meus.

Não conte, não, qualquer vivência adquirida,
Que eu quero agora é esquecer sua partida
E a prostração que sua ausência trouxe a mim.

Faça de conta que o ontem nunca houve,
Que este momento é tudo, tudo quanto existe
E que nunca, nunca mais vai terminar.

Não conte, não, dos seus amores fracassados,
Não fale nada de aventuras mal vividas,
Não diga nada, não, sobre os seus dias,
Pra que eu não abra a porta e aponte a rua
E diga: "A volta dói bem mais do que a partida".

VOCÊ, PRIMAVERA


Não fique, venha: como quero que me venha!
Tenho um paraíso em seus afagos,
Na sua voz, um cantar de renascença,
Na presença, um viver em plena chama,
No seu corpo, um delírio de queimar
E na ausência, um desejo de calar.

Venha à tarde como brisa vespertina,
Venha à noite como um céu de poesia
E se vista em transparências azuladas,
E se abrace ao meu corpo desejoso,
E não pense, não fale, apenas dance
E arda assim como se fora um sol candente.

Venha\comigo olhar a vida da janela
E dizer que a primavera se anuncia no horizonte
E, inda mais, já chegou e se eterniza
Com as flores coloridas, suas cores abundantes,
Sua vida em festa acesa, alegria que retumba,
Muito embora eu saiba, a primavera, ela é você.



ALUMBRAMENTO


Que feitiço tem teus olhos,
que eu me rendo e me dissolvo
no ato simples de te olhar?

Que cantiga tem teu riso,
que me alumbra simplesmente
e me induz a viajar?

Conta a mim que primaveras
que tu enxergas em paragens
muito além dos horizontes?

Fala a mim dessa alegria
que reluz em teu semblante
e se espalha pelo ar.

Que magia tem teu corpo,
que me aprazo dos teus cheiros,
que enlouqueço ao te tocar?

Os teus fluidos são licores, 
sou cativo dos teus braços,
me embriago em teu calor.

O poema que te faço
é suave como fêmea,
é mulher como tu és.

É tão macho como o bruto
que te aperta com pujança
e te adentra com furor.

Os meus versos te transformam
numa parte de mim mesmo
e a nós dois  numa canção.

Diga que aguarda sequiosa a chegada minha à sua casa,
E eu lhe farei os poemas mais emocionados e bonitos que consiga porventura:
Escreverei os versos que denotem o mais infinito e absoluto enlevamento.
Traduzirei com perfeição os sentimentos que em meu peito batem como um turbilhão
E me farei o seu poeta, devotado e tão zeloso como o trovador  a dar o próprio sangue pala [amada:
Serei o exaltado cantador, o arauto a anunciar aos quatro cantos a paixão que me arrebata.
Serei leve e delicado, sutil qual sons de flauta ou plácido regato cristalino
Nos afagos e palavras que reservo para a hora extasiante de encontrá-la.

2014

ÓDIO DO AMOR


Toda noite eu tento escrever estrofes belas.
E me enveneno do sentimento mau por ti
Numa tentativa tão vã de de sufocar minha paixão.
Toda noite eu durmo na esperança de não despertar.

Toda manhã me desejo recluir e ficar do mundo bem distante
E fazer do meu quarto um mundo meu, impenetrável .
Toda tarde eu quero nada além que o tempo voe
E tu me sumas da memória qual neblina fugidia.

Ah, bem sei que  no futuro não serás mais que a memória
Vaga e simples de uma coisa chã, pequena, inexpressiva
Que me fará sentir tão tolo pela dor que hoje me mata.

2013

A MORENA AO CREPÚSCULO


Quando a morena caminha na rua de terra,
cabelos pretinhos aos ombros marrons,
dá uma vontade tão grande d'agente cantar.

Quando o decote da bela desponta ao crepúsculo
de ceú vermelhinho, cigarra a cantar,
dá uma vontade danada d'a gente pecar.

Quando ela baixa a cabeça, olhando pro chão,
parece tão triste, tão frágil, suave
d'a gente a querer proteger e guardar.

Quando essa moça se afasta, se perde no longe,
deixa no peito da gente uma certa saudade,
como viesse e dissesse: "só volto amanhã."

A SEDUTORA


Essa bela é sedutora,
tem os olhos de langor,
mas por quantos seus olhares
se derretem de desejo?

Essa bela tem a voz
delicada de uma musa,
mas por quantos cantarola
mil cantigas de paixão?

Essa bela tem os passos
leves, brandos de gazela,
mas com quantos ela dança
os seus ritmos febris?

Seu semblante é tão angélico,
me consome em comoção, 
mas por quantos ela reza
suplicantes orações?

Essa moça  faz poemas
de um lirismo sem igual,
mas pra quantos ela escreve
seus mais lindos madrigais?

NÃO POR ELA


Que te encharques de aguardente
e desmaies nas bodegas, 
mas não seja então por ela,
a quem músicos mambembes
negam mesmo duas notas.

Que pranteies cachoeiras
e te afogues em teus prantos,
mas não seja então por ela,
que sequer merece gota
de suor ou de coriza.

Que te atires de uma torre,
te espatifes na calçada,
mas não seja então por ela,
por quem nem os indigentes 
se dariam mordiscadas.

Que te sintas desgraçado,
que te arrastes pela vida,
mas não seja então por ela,
tão sem viço e tão pequena,
parecendo inexistente.

SERÁ?


Lá vem ela, viçosa, bonita.
Desponta, sorrindo, na esquina.
Trará para mim a esperança?
Trará pra amanhã mil tormentos?
Será um turbilhão de alegrias?
Fará que eu lamente nos dias?
Será uma leal dedicada?
Será indiferente, infiel?
Será um paraíso romântico?
Será como o Inferno penoso?
Trará mil canções que arrebatam?
Trará mil queixumes e tédios?
virá me salvar da agonia?
Fará que eu deseje morrer?


QUERER IMENSO


Do teu corpo percorrer cada milímetro,
Atritar a minha pele em tua pele
E beijar-te como fosse o momento eternizar
E entrar em tua alma nesse ato.

Comungar com teus desejos meus desejos,
Viajar por entre os astros no teu corpo,
Nos fazermos um só corpo, uma só alma,
Na magia da volúpia sem tamanho.

Eu te quero como a brisa em primavera,
Como ao sol que aquece as tardes nos invernos.
Tu te tornas minha assim como meus órgãos
E eu te amo como à vida que retumba no meu peito.

AMOR PERDIDO


Cada vez em que a encontrei,
nas noitinhas mais bonitas,
não notei que ela cantava,
dentro d'alma, de alegria.

Cada vez em que a apertei
nos meus braços, entre juras,
reparei como se dava,
mas não vi que era tão minha.

Quando quis cair no mundo
e me dei à despedida,
não notei que ela chorava,
não olhei quanto sofria.

Todo o tempo em que eu a tive
ao meu lado, nos meus dias,
eu nem vi que ela me amava,
que era pura poesia.

Quando o mundo me abateu,
e eu busquei o seu abrigo,
percebi  que nos seus olhos
já não tinha  melodia.
Entendi que o tempo andara,
me dei conta que a perdera,
que não mais eu a teria.

2013

CONSTANTE PRIMAVERA


Por você farei uma canção bonita,
Lamberei cada palavra que me diga
Qual sorvesse o vinho embriagante
Que consome a calma e o meu juízo.

Viverei sempre as manhãs como festivas,
Toda tarde será como folia,
Toda noite, uma entrega à poesia,
Madrugadas, puro êxtase dos dias.

Deixarei o seu rosto na memória,
Permanente como fosse uma pintura,
Seu sorriso me será qual fosse a vista
Dos cenários mais sagrados do universo.

Viverei na leveza assim de um passarinho
E o abrigo encontrarei nesses seus braços,
Tão feliz qual se tristeza nunca houvera,
Qual vivesse o ano inteiro a primavera.


2013

DE QUE VALE...?


De que vale a emoção destes meus olhos,
Tanto enlevo estampado no meu rosto,
As palavras fagueiras e tão ternas,
O querê-la flagrante nos meus atos...?

De que vale a quentura dos meus gestos
E a tamanha alegria só por vê-la...?
De que vale o me-dar no meu  semblante
E o desejo tão claro assim  de tê-la...?

Se encontro os seus olhos tão gelados,
Se não noto um sentir na sua fala,
Se não sou mais que alguém que ela conhece,
Sem nenhum, sem qualquer alumbramento?


2013