sexta-feira, 25 de setembro de 2015

ALGOZES DA VIDA DO MUNDO


Quando o sol veio como fogueira
e secou plantações e florestas,
trazendo a morte e a fome,
não era a fúria de Deus, 
era o dedo sujo dos homens,
que não sabem senão destruir.

Quando agrestes e matas arderam
em labaredas tão giganterscas,
não era a maldade do Demo,
mas de homens piores que ele,
que adoram queimadas e mortes,
cultuam somente o lucro,
num deleite tão bestial.

Quando vendavais imensos zumbiram,
tombaram o que havia em seu curso,
trouxeram tempestades dantescas,
imergindo, soterrando  e matando 
crianças, idosos e bichos,
foi tudo fruto do estupro
de humanos à natureza.

Dizei-me, Deus, respondei
que inferno puniria a contento 
pecadores tão sujos e infames,
pessoas tão más e tão sórdidas?
Se, Deus, sois justo, falai
por que os deixastes nascer
pra desgraça tão grande do mundo?  








domingo, 20 de setembro de 2015







  • ELES NÃO DEFENDEM A CIÊNCIA, MAS A CRUELDADE
  • AS DOUTRINAS E IDEOLOGIAS SÃO O CALABOUÇO DO PENSAMENTO

    Não gosto de doutrinas porque elas tolhem o pensamento.   Porque prentendem (e geralmente conseguem) que seus seguidores pensem de acordo com um modelo padronizado a ser rigorosamente obedecido.  Assim ficam delimitados os campos da concepção de ideias, do discernimento, da criatividade,  da visão sobre a vida e o mundo, da própria individualidade de cada um.
    Digo-o hoje com muita propriedade porque durante vinte anos de minha vida pensei dentro dos limites dos padrões estabelecidos por ensinamentos  de uma esquerda na qual não creio mais.  Nunca militei ou me filiei a qualquer partido político, mas pensava como um socialista democrático, como se um  dia no mundo algum país houvessse conciliado socialismo e democracia, como se o socialismo houvesse sido praticado de verdade e não fosse unicamente  uma utopia que tornou-se objeto de manipulação de manda-chuvas autoritários, para que estes se locupletassem e abrissem para si e seus asseclas um verdadeiro paraíso de regalias com enriquecimentos obtidos por meio de vastíssimos oceanos de corrupção.    
    Nas religiões a forma de amoldar as ideias é bastante semelhante  à da política.  Assim como no socialismo há Marx (que nunca li) e outras publicações,  a base das religiões cristãs, como o catolicismo, o protestantismo e kardecismo ( que é um espiritismo cristão, sim!) é a Bíblia com os seus evangelhos, cartilha que se deve seguir à risca.  Em todas as religiões calcadas em Cristo há sobretudo uma obriogatoriedade intransigente de se crer em Deus.  No caso específico do espiritismo de Allan Kardec (1804-1869), nunca ninguém aventou a possibilidade de o estudioso francês haver tido a necessidade de alinhar suas ideias à fé dos cristãos por receio de aquelas e ele próprio serem cruelmente pisoteados pela intolerante Igreja Católica.  
    Assim  como ao Kardecismo, frequentei uma filosofia chamada Racionalismo Cristão, que vê Jesus como filósofo maior, mas não crê em  uma entidade única a comandar o Universo com todas as suas galáxias e dimensões: em outras palavras, não crê em Deus, mas que uma infinidade de espíritos evoluídos imbuam-se da incumbência de ajudar e socorrer os humanos.  Não é por isto, todavia, que tal filosofia que vejo como religião não obedece a uma doutrina tão lacrada a discussões e questionamentos como as outras.
    O problema maior das doutrinas é que acabam, não sempre intencionalmente, abrindo espaços para que seu secto (ou parte considerável deste) incida na intolerância e nas práticas fundamentalistas,  como acontece onde se vive sob os desígnios da fé comunista,  como ocorre no Brasil, onde alguns grupos criminosos de protestantes atacam os adeptos de religiõeas africanas e de outras formas de espiritismo; como é onde se tem a presença de partidários do fundamentalismo islâmico e de atrocidades  decorrentes deste.  Este tipo de intolerância logicamente abriga três vertentes: uma que é verdadeiramente cega, irracional e defende a fé como defendesse Deus e própria vida,  uma segunda, que não pretende mais do que manter os próprios privilégios e preservar a solidez da estrutura que a favorece, e a última, que reúne em si os dois quesitos. 
    Embora tenha mencionado os casos em que as ideologias e doutrinas têm desdobramentos mais graves, meu intuito é ocupar-me das situações mais prosaicas, em que o comprometimento do discernimento e da concepção do pensamento não provoca assassínios e tragédias.   De modo que insisto em que a religiosidade não precisa obedecer a um parâmetro ou critério estabelecido.  Da mesma forma como, apesar de não mais crer  no socialismo (a não ser como utopia), defendo veementemente uma distribuição de renda mais justa e milhões de anos-luz distante deste neoloiberalismo demoníaco e perverso praticado no Brasil e no mundo.  No Brasil, sim, porque os governos petistas são tão capitalistas quanto os pessedebistas, com a diferença de que os primeiros(petistas) são populistas. O país pode melhorar muito socialmente se os salários forem menos  irrisórios, e os tributos, justos e permitirem uma carga maior sobre os ombros dos realmente abastados, se o Estado arcar com a saúde, a educação, a segurança, a infraestrutura de um modo geral, e com a liberação de verbas para uma política habitacional  genuinamente séria, sem que isto implique na estatização das fábricas, comércios, dos meios de produção em geral ou mesmo do sistema financeiro.  Haveria então mais justiça na divisão de recursos sem uma cartilha socialista (sem doutrina).
    Em conclusão, embora a minha dificuldade (mas não impossibilidade) de crer na existência de algo além da vã filosofia entre o céu e a terra, não me sinto compromissado com minha condição materialista atual.  Por isto, entre mil outras razões, penso que um ser humano não deve e não pode deixar suas ideias se restringirem às paredes do encarceramento intelectual que representam as doutrinas e ideologias.

    Barão da Mata

    segunda-feira, 14 de setembro de 2015

    O ANTI-HERÓI III

    Não sou bom-moço nem sou parnasiano,
    Não sou de rezas, rituais e cerimônias,
    Não  canto hinos nem exalto flâmulas, bandeiras.
    Fico distante de senhores, poderosos e excelências,
    Mais longe ainda de homenagens, rapapés e de discursos.
    Digo palavras de corar os puritanos, 
    Louvo o pecado como os monges louvam os anjos.
    Não danço a música dos modos comportados.
    Recito uns versos embebidos na luxúria,
    Digo meu não quando todos dizem sim,
    Solto impropérios quando querem louvações.
    Em nada creio onde impera uma fé cega,
    Jogo ironias onde querem comoção.
    Minha'alma é livre, planando em minhas asas,
    Nada me prende senão a moça que me encanta,
    Senão os desejos e emoções que me arrebatam,
    Senão os amores que me fazem doce plenamente 
    E que me elevam em tão imensurável bem-querer.

    terça-feira, 1 de setembro de 2015

    E AGORA, MEU POEMA?

    Após ler comentários negativos ( de uma só pessoa) sobre alguns dos meus poemas, como por exemplo "Noite Deserta" http://baraodamata.blogspot.com.br/2010/03/noite-deserta.html  , que recebeu a observação de que as imagens poéticas com ninfas e Dionísio estariam muito batidas (eu só os coloquei porque realmente quis rebuscar a poesia), "Se a Tristeza Vier"http://baraodamata.blogspot.com.br/search?q=SE+A+TRISTEZA+VIER, que me valeu a crítica de que o  trabalho, por estar no modo imperativo, mais parecia uma pregação, crítica esta ilustrada com a afirmativa de que Boudelaire jamais faria aquilo ou então logicamente não seria Boudelaire, e por último, por criar "Outra Quase Cantiga de Roda"http://baraodamata.blogspot.com.br/search?q=OUTRA+QUASE+CANTIGA+DE+RODA ,  a arrogante espinafrada de  que os meus poemas  mais parecem uma colcha de retalhos, feita com trechos de músicas antigas, sem no entanto ter a poesia das respectivas letras... Depois de ouvir (ler) isto tudo, preciso dar alguma resposta às cacetadas recebidas:



    E agora, meu poema, que te faço?
    Abandono imagens belas e metáforas?
    Só faltou que cruelmente te chamassem
    Casa pobre com adornos ordinários.
    Que fazer agora, então, meu verso?
    Deixo para trás os sóis, luares e as estrelas,
    O silêncio tão cantor das madrugadas,
    As varandas, as penumbras e os quintais?
    Que será, meu canto, dize a mim, dos seresteiros,
    Inspirados violeiros das esquinas?
    Que será, se até Dioníso, deus  de todas as orgias,
    E as ninfas foram expulsas das letras sobre esbórnias?
    Ai, meu Deus(!), e agora como vou fazer a poesia
    Sem ardores, sem morenas de peitos bem durinhos,
    Sem o samba, sem um louco, um desregrado ou vagabundo?
    E agora, me falais vós que me ledes, se é belo ou se  não é
    Um poema ornamentado de jardins e sóis dourados.
    Como doravante vou falar das paixões que me inquietam
    Sem o céu cheio de prata e sem a brisa das manhãs?
    Não xingueis a mim se porventura parecerem
    Os meus versos financeiros, eletrônicos, criminais, policiais.
    E agora, meu poema, que te faço, que te faço?
    Ah, meu poema(!), insistente e teimoso erro repetido
    Ao longo destes  anos e decênios tão compridos,  
    Transformado em coisa vil a demandar saco de lixo.

    Por que não imitei ou me alinhei a Baudelaire ou Mallarmé?
    Por que diabo, meu poema, não fui ser parnasiano?
    Ou então por que não fui concretista ou mesmo seiscentista
    Ou qualquer coisa diferente do poeta que me fiz?
    Meu poema, meu poema(!), dize a mim, enfim, poema,
    O que faço, o que faço(!), o que faço ora de ti?

    II

    Há, poema, quem se queixe mesmo até
    Das poéticas licenças de que abuso:
    São licenças obtidas na prefeitura literária
    (Mas que tirada infame em verso tão sem melodia! Arre!)

    2012

    FESTIM DA VOLTA

    Dourei de sol minha manhã,

    Embora houvesse chuva fina.
    Enchi de amor minha canção,
    Me  fiz mais terna mansidão,
    Tornei-me doce poesia,
    Para aguardar você voltar.

    Reli poemas tão bonitos,
    Enchi meu peito de alegria,
    Cheirei profundo o vento leve,
    Enchendo a alma então de brisa,
    Ornei meu peito de paixão,
    Para aguardar você voltar.

    Deixei o vinho sobre a mesa,
    Pus a tocar mil melodias,
    Me fiz devoto aos sons mais belos,
    Pintei a casa de poema,
    Tornei-me orquestra de alegria,
    Para aguardar  você voltar.

    Guardei um verbo tão macio,
    Abri meus braços para a vida
    Me fiz tão uno co’o lirismo,
    Lhe fiz uns versos de paixão
    Tão parecidos co’oração,
    Para aguardar você voltar...

    2012



    Poema musicado por Marcelo Bizar, que interpreta a canção: