sábado, 31 de janeiro de 2015

É PRECISO MUITO CUIDADO COM OS FUNDAMENTALISTAS DAS REDES SOCIAIS


O mundo se vê estarrecido com as ações dos fundamentalistas que se dizem seguidores de  Maomé, dentre os quais hoje o mais famoso é o Estado Islâmico, cujo radicalismo deturpa o Alcorão e vai às raias das ações mais tenebrosas.  Não há como qualificar suas práticas. São pavorosas por demais. 
Mas não são eles de que quero falar.  É de gente que de algum a tais radicais se assemelham. Ou seja, o que pouco se menciona é que o mundo tem fundamentalistas de várias outros gêneros, como os desportivos, que se abrigam sob a bandeira de algumas torcidas organizadas e promovem atos de crueldade e vandalismo.  Os fundamentalistas políticos, que, com o intuito de afastar qualquer risco de perda das regalias conquistadas por sua ligação com o poder - ou mesmo por usar os antolhos doutrinários que limitam-lhes a capacidade de conceber pensamentos -, dão-se a hostilizar ou tentar destruir todos aqueles que se opõem às ideias (por mais estapafúrdias que sejam) que tais sectários defendem.   Muito incidentes são também os fundamentalistas religiosos não islâmicos, para os quais todos os que não tenham sua visão  merecem arder no fogo do Inferno, sob os martírios mais lancinantes.
Um dia desses, após publicar um vídeo numa rede social, deparei com um desses... e não sei dizer de que cepa era o fundamentalista em questão.  
Postara eu um vídeo em que fingia enganar-me,  afirmando para imediata correção posterior que o Brasil estaria  situado no continente africano.  Com esta ironia, quis apenas fazer uma clara crítica ao cenário social e político do país, da crise ética bastante flgrante no cenário nacional, numa analogia de nossa terra quanto a vários países da África, onde há políticas populistas,  ditaduras declaradas ou disfarçadas, caos na saúde, na educação, na segurança, no emprego, nos salários, etc... Não quis depreciar a África, mas mostrar que a nossa realidade é, em algumas regiões e camadas,  de certo modo parecido com a dos sofridos povos de lá.  Da mesma forma como não tive uma postura racista: logo eu, de feições negroides, filho de baiano e neto de sergipana negra, como poderia ser tão idiota que renegasse a negritude que se manifesta no sangue das minhas veias?  Como poderia me dar a um preconceito tão ridículo e pernicioso como o racismo?
Mas o vídeo afirma, no título e conteúdo, que, se povo soubesse votar, não teriam os judeus preferido Barrabás a Jesus, numa claro alusão à ignorância política de uma parte considerável dos eleitores brasileiros.  É o que acho e reafirmo: o eleitorado nacional tem uma grande parcela tão ignara e despreparada para escolher quanto o povo da Judeia nos anos de Cristo.   Mas não há uma postura antissemita.  Falo de um povo sem rumo na antiguidade, sem deixar de considerar que poderia ter escolhido como escolheu por Barrabás lutar contra a ocupação romana naquela época, ao contrário de muitos dos votantes daqui, que sufragam  errado por irresponsabilidade, teimosa e refratária alienação e desconhecimento.  Digo o  que penso, não  vivo de votos e quem é demagogo e populista é o PT.
Voltando à questão do sujeito que me fez a abordagem virtual, que não tinha rosto e fotos, fiquei sem saber se agiu como agiu por ser negro e sentir-se equivocadamente ofendido, se era judeu e se presumiu igualmente atacado (também num grande equívoco) ou se era partidário ferrenho de alguma legenda expressivamente votada em algum ou alguns níveis no cenário nacional... mas o fato é que foi extremamente mal-intencionado, porque acusou-me de covardia e de atacar os mais fracos - talvez, na hipótese de ser político,  com o fito de atribuir-me uma investida contra negros e/ou judesus por mera retaliação.  Coisa do tipo: "Pisou nos meus calos, acabo com você ainda que da  forma mais torpe."  Mas que distorceu a verdade e tentou me prejudicar é inquestionável.  
Respondi que, já que tinha o indivíduo dificuldade para entender,   explicava-lhe minuciosamente meus intentos e da vez seguinte escreveria para pessoas como ele em linguagem de professor de classe de alfabetização.  A tréplica foi a acusação de que eu seria preconceituoso, dando bastante ênfase à afirmativa, tentando colocar afrodescendentes e semitas contra mim.  Não vi então saída senão bloquear aquela criatura na rede e excluir toda a discussão.
O meu palpite é que era algum militante político, desses que recebem favores e benesses do poder e em tudo veem uma ameaça de perda de sua condição privilegiada. Que nada produzem e tudo ganham, reservando os dias inteiros para o exercício de suas atividades preguiçosas de bolcheviques de porta de botequim,  vigilantes e atentos, prontos a hostilizar e até espancar qualquer ser vivente que discorde das práticas das agremiações que os ungem e mantêm envoltos em favores que os fazem felizes como almas no Paraíso.  
Afastei de mim o sujeitinho,  mas ficou uma constatação receosa:  há uma quantidade não desprezível de pessoas imbuídas de péssimas intenções nas redes sociais, e é preciso muito cuidado com elas.

domingo, 4 de janeiro de 2015

POEMA BANDIDO III

É o momento de louvar os festejos dissolutos,
os malandros com seus dados viciados,
as mulheres seminuas dos bordéis.

Fazer verso aos bebuns que não têm rumo,
às lascivas dos duzentos namorados
se exibindo e se ofretando nas esquinas.

Fazer canto ao Carnaval e  excessos da folia
com as bundas mais diversas e suadas
rebolando, reluzentes, nos salões.

Ode aos peitos, vulvas, coxas, ancas que se mostram, 
Num sentir arrebatado, fascinado, enlouquecido,
Entre gestos obscenos, rebolados imorais.

Ah, falar pornografias e mandar o mundo às favas!
Adentrar as cerimônias desvestido de camisa
E cantar bonitos sambas, abafando os oradores.

Mas jamais trajar um terno e se vestir de hipocrisia,
Nunca, Deus(!), deixar valer a hipocria!

Jardim Botânico


OS PAIS-DE-SANTO, PROFISSIONAIS E GURUS E A DOIDEIRA DOS DEPENDENTES

Se existe uma coisa que me impressiona, é o vínculo de dependência que as pessoas criam quanto às  outras, como acontece nas relações que têm com os psicoterapeutas, médicos, cartomantes, tarólogos, pais e mães-de-santo, pastores, padres, etc... Conheci uma taróloga e cartomante que era consultada pelas pessoas que a ela recorriam pelos motivos mais diversos e inusitados, alguns até extremamente fúteis.  Relato até o caso de um indivíduo que ligou-lhe por volta das sete da manhã, num domingo, de um hospital onde estava internado, e pediu-lhe que visse nas cartas como estava seu estado de saúde e se se sairia bem.  Juro que é a mais absoluta verdade!  Testemunhei os telefonemas, ouvi os recados na secretária eletrônica.
Sei de gente que não dá sossego aos psicólgos, de evangélicos que consultam os pastores para cada passo que dão na vida.  Há casos famosos de influência extrema de pastores sobre os fiéis, como o de Jim Jones, que em 1978 se matou e levou mais de novecentos ao suicídio.
Mas não quero aqui versar sobre coisas sérias, quero soltar  a imaginação.  Imagino o psicoterapeuta que recebe às 3 da manhã o telefonema de um paciente desperado.
- Alô!
- Renato, é você?
- Sou, mas, meu Deus(!), quem tá falando a essa hora?!
- Sou eu, o Lúcio!
- Mas que Lúcio, meu amigo! Tenho tanto paciente...!
- O Lúcio... aquele que só goza ouvindo sertanejo...
- Ah! Sei, sei! Mas o que faz você me ligar a essa hora, homem de Deus!  Interrompeu meu sonho erótico...!
- O problema é por aí, meu querido...  É que acabei de broxar agora, quando tentei transar com a minha esposa...
-  Puxa, Lúcio, toma um viagra, mas me deixa dormir!
-  Mas onde vou achar viagra às três da manhã?
-  Dá um jeito, meu prezado, mas me deixa dormir, por favor!
-  Você acha que devo tentar de novo?
- Tenta, tenta, por favor! Mas me deixa dormir!
- Você acha que é complexo de culpa ou de inferioridade?
Minutos depois toca o telefone de um pai-de-santo:
- Alô!!! - ele atende assustado - Quem é a essa hora??!!
- Alô, Pedrim d'Exu, aqui é o Renato, o psicoterapeuta!  É que agorinha mesmo um paciente ligou e perturbou meu sono. Você acha que é carga espiritual negativa?

NOSSOS COMERCIAIS (V)

Para entrevistado caladão,  entrevistador Faustão! Se você é tímido e se sente acabrunhado ao dar entrevistas, evite monossílabos: procure Faustão!  Faustão é rápido e prático e não dá trabalho, porque  pergunta e  responde por você! Não se esqueça! Entrevistador Faustão!



Ficou ultrapassado curar traumas psicológicos com psicoterapeutas, psiquiatras e regressões. Se você tem recordações que o fazem sofrer, tome já o comprimido apaga-memória Lúlia Parélia e se esqueça de tudo!  Lúlia Parélia! O comprimido que faz você não saber de nada! O preferido dos políticos brasileiros!

Vem aí mais um "Brigue Bode"! Meça já a resistência do seu saco escrotal. Se ele não estourar desta vez, nunca irá explodir por nada, nada! Seja agora mesmo o grande ganhador do troféu "Saco de Ouro" assistindo a todos os episódios de "Brigue Bode Brasil"!

Assista toda quinta-feira ao programa "Paixão e Sacanagem", com Hernanda Prima, e receba lições de como trepar mais do que um macaco.  Assista e, se for um homem de vida sexual passiva, veja muitos machos pelados e concorra a personagem da novela das nove, onde o mundo é totalmente cor de rosa.

Aproveite a grande promoção das Casas Brasília e compre já o seu político corrupto em oito vezes sem juros!


Contrate a obra de sua cidade na empreiteira Mar de Lama e enriqueça de uma vez só!  Nós pagamos a maior propina! Superfaturamos, desviamos material, damos rasteira em cobra.  Mar de Lama, a construtora que suborna como ninguém!

NOSSOS COMERCIAIS(IV)


Você, maridão daquela dona de casa esgotada, dê  de presente à sua mulher o creme íntimo Proventa,e ela à noite vai arder na cama assim que nem pimenta!

Se você tem problemas de ereção, a Parlamentary's Laboratory lançou uma novidade que torna ultrapassados todos os remédios já conhecidos:  O Torpedus! Toprpedus é um ultra-poderoso afrodisíaco e vasodilatador que garante efeito de 365 trinta dias por ano com desempenho sexual pleno.  Torpedus é o estimulante de Dionísio e de todos os dos deuses do Olimpo, é a droga das orgias dos deuses!  Só Torpedus permite aos políticos  sodomizar todo o  povo desta terra permanentemente, sem nunca, nunca  falhar!  Use Torpedus! O estimulante do político brasileiro!

A Mazela Turismo apresenta agora uma promoção imperdível!  Percorra em dois anos os engarrafamentos do Rio, com vista para as favelas da Avenida Brasil e o Piscinão de Ramos, e os serviços de camelôs, com  latinhas de cerveja, biscoitos de polvilho, tudo isto com cinquenta por cento de desconto e para pagamento em quatro anos pelo cartão de crédito!   Não perca a maior aventura turística da sua vida, com lonquíssimas paradas nas cracolândias e, ainda(!), ainda(!), a chance de ver os escombros da Perimetral!!!  Você não poderá perder esta oportunidade de presenciar uma lambança histórica!!!
E mais!! Você poderá ser contemplado com um dos acidentes de trânsito típicos da região, além de mlorrer de rir em ver tanta imprudência, barbeiragem e impunidade! Ligue já para a Mazela Turismo, reserve sua passagem e venha viver uma verdadeira epopeia do Indiana Jones!!!

Se você deseja ser corrupto, mas tem vergonha, não passe por constrangimentos: vá às Casas Brasília e compre Picaretol, o ansiolítico  relaxante que vai lhe permitir roubar com aquela tranquilidade...

Antigamente,  os maridos e namorados traídos ficavam tristes e  acanhados. O homem moderno, no entanto, não tem mais este problema, porque hoje pode comprar nos supermercados o ornamento Galhamax(!), o embelezador de cornos que faz você orgulhoso dos seus chifres!!!  Exiba galhos grandes e exuberantes, com miquinhos e frutas artificiais.  Você terá os chifres mais bonitos, nos modelos galhada-de-veado, goiabeira  ou árvore-de -Natal.  Compre já seu Galhamax e desfile no "shopping" os chifres mais elegantes do mundo!

Para aqueles que não conseguem um bom diálogo, seja a mulher com o marido ou o marido com a mulher, por conta de diferenças intelectuais, a Farmaburros lançou Idiotex, o redutor de inteligência que põe qualquer um no nível do parceiro cabeçudo.  Não se esqueça: se a diferença cultural entre você é grande, dê à pessoa amada Idiotex agora, e ela cantará um "funk" na hora.

NOSSOS COMERCIAIS (III)

Cento e vinte por cento dos homens maiores de  dezoito anos sofrem de impotência.  Cento e três por  cento dos maiores de dezenove, de ejaculação precoce.  Cento e quarenta por cento têm transtornos de diarreia mental.  Mas também pudera!  Olha só em quem você votou!   Para não  errar mais na hora de escolher, use Votol, o antidiarreico mental dos sábios.  Não se esqueça: só Votol impede você de fazer merda na hora de votar.  Se você tem o miolo frágil, só Votol na hora do Sufrágio.

FALA O DR. VÁUSIO  DRALELA: É preciso tomar cuidado.  Muitos maus odores, infecções no ar, inquietação,  mal-estar, náuseas, podridão,  são os ventos da política.  Por isto, é sempre bom avisar: antes de botar o voto na urna eletrônica, use sempre a "camisinha".

Se o seu marido não a deixa dormir, chega tarde da rua e quer sexo,  e já não mais resolvem as  suas desculpas.  Se não adianta inventar dor de cabeça, menstruação, depressão,  TPM, mau-humor, preocupação... Se nada disto  já não "cola" mais (!), só há uma solução!  Dê a ele Broxol! Broxol! E você poderá dormir feliz e em paz como um anjo...!

Criança inquieta, que não consegue parar de correr e de falar,  te belisca, se agita... Observe bem... Se o seu filho é assim... desça a  porrada nele!

Não deixe para comprar amanhã.  Deseja consumir? Use o seu cartão Falência! Use e abuse, e depois você vai ficar arrombadinho, arrombadinho...  Use o seu cartão Falência e seja a estrela do SPC!

Só o Magic Center faz a melhor manutenção da sua bola de cristal.  Se você olha dentro da bola de cristal e não consegue ver nada, não pestaneje: chame logo a Magic Center.  Temos também baralhos encantados e com câmeras de visualização de futuro, búzios com microfones para você ouvir as previsões.  Mais ainda: vá ao nosso setor bíblico e compre o nosso saco de milagres em doze vezes sem juros. Não fique aí ocioso: visite a Magic Center, a loja de departamentos do religioso.

Veja o jornalismo da "Ovonews" e entenda o que é babar ovo de verdade.  Não perca, com Tatiana Bobo, Alexandre Babinha, "Jonral Ovonews"!  Aquele que dá as notícias e aquela agradável sensação de testículos  molhados.

Dores de cabeça? Pode ser que o seu cérebro seja grande demais para a caixa craniana.  Mas não se desespere: para tudo há uma solução: se sua caixa craniana é pequena demais, use os comprimidos encolhedores de  cérebro B-B-B!   Só B-B-B deixa a sua massa cinzenta pequenina de caber no bolso.

NOSSOS COMERCIAIS (II)

Meu bom servo do Senhor, não fique indeciso, aja com juízo: deposite na conta do pastor e abra caminho pro Paraíso.


Inscreva-se já pro Brigue Bode e veja muita bunda, muito peito e outras coisas mais.  Tome logo a decisão!
Ingresse no Brigue Bode e viva cheio de tesão!  Lá é tudo como você gosta: muito fálico e nada encefálico!
É isso aí, meu garanhão! Só no Brigue Bode você trepa como um leão!


Não se esqueça, meu caro eleitor das classes menos favorecidas:  se você precisa viver de ilusão, na hora da eleição, o PT é a opção.  Só o PT tem Lula, Dirceu, Genoíno e mensalão.  Vote no PT e viva muita emoção: veja tudo de arrepiar na televisão!

Não perca, de segunda a sábado, no Jornal da Tevê, as notícias do Brasil mais imundo.

Assista ao "Jornal Multinacional", com Vilhem Bonde e Antipática Filardes, e acompanhe as notícias mais bem maquiadas do mundo.  O dia-a-dia de Vilma Sargentão, os bastidores da nossa "valorosa" política, os fatos com aquele toque de rímel e de blush que faz o poder bonito de dar gosto de ver.

Se você quer chorar pra valer  ou  morrer de raiva e não rir de jeito nenhum, assista aos domingos à "Turma do Titi".

Não fique triste aí no seu canto: role em gargalhadas assistindo, de segunda a terça-feira, "Políticos Brasileiros".  Acabe com o mau-humor, solte suas risadas em ver Dilma Cassete na sua mais engraçada e bizarra tentativa de imitação da diabólica ex-primeira-ministra inglesa Margareth Tatcher.  Não perca: "Políticos Brasileiros", o único real terror engraçado da televisão.  
Por que de segunda a terça? Ué? E você já viu político trabalhar mais  que dois dias?

NOSSOS COMERCIAIS (I)

Não compre gato por lebre. Ou melhor, não compre aguinha por aguão. Só a Casa Hidrossanta tem a legítima água Bacedão.  Água Bacedão! A verdadeira água do Rio Jordão.
A Hidrossanta tem também outros produtos de grande utilidade: larvas, ovos e criadouros de algumas das pragas do Egito para você castigar os hereges.  Vá hoje mesmo a uma casa Hidrossanta e compre os milagrosos produtos Bacedão, o poder divino ao alcance da mão.


Se você vê fantasmas, tem obsessão, encosto, visões, perturbações, ziqueziras, use Saravá(!), o único defumador e repelente de eguns em "spray".  Saravá não faz fumaça, não irrita  os olhos nem a garganta, não provoca tosse e é perfumado e suave, deixando o seu ambiente limpo e aromatizado.  Basta um jato do seu "spray" Saravá, e os fantasmas e encostos se mandam pra bem longe na mesma hora!  Não esqueça! Saravá! O único espanta-encosto bom de usar!

Se o seu marido é meio burrinho, só fala em esportes e gosta de acompanhar os "reality shows" e, mais do que isto, costuma acreditar em políticos e suas promessas, ele está precisando de Cerebrênio.  Cerebrênio é um tônico cerebral que inibe a idiotina, a enzima maléfica do cérebro que provoca entre outros males o interesse pelo "funk" ,  pagode e  telenovelas e que vai provocando pouco a pouco o achatamento encefálico, doença que acomete pelo menos cinquenta por cento dos eleitores.  Além de inibir a idiotina, Cerebrênio aumenta os seus níveis de inteligentol, e aí o seu marido irá querer discutir História, Física, Matemática, Filosofia, mudará da água pro vinho! Todo mundo irá querer conversar com  ele! Não se esqueça: Cerebrênio!  Só Cerebrênio faz do seu idiota um gênio.

Se o seu namorado beija mal, não se desespere: dê a ele Beijol!  Beijol é um estimulante do beijo que aumenta o volume da língua e gera impulsos elétricos que a fazem vibrante e quente, com movimentos rápidos que vão deixar você doidinha!  Beijol! Faz o beijo do seu namorado quente como o sol!

TROCA DE BILHETES ENTRE GERENTE E CHEFE DE COZINHA SOBRE COMO SERVIR LULA


Gerente para chefe de cozinha:
"Prepare lula para o próximo evento e longa degustação de muitas pessoas."
Chefe para gerente:
"Como devo servir lula? À dorê?  Com brócolis? Devo fritar?"
Gerente para chefe:
"Impossível fritar lula.  Isto só aconteceu uma vez, em 1989, quando se fritou lula ao molho cordeiro, um molho de um prato colorido que era muito ruim, que não foi tolerado e acabou numa frigideira bem antes do tempo previsto.  Mas a questão é que não há mesmo como fritar lula.  Por volta de 2004/2005, serviu-se lula enrolada, escondidinho de lula, lula com cobertura, mas com fritura, nunca mais!  Esqueça esse negócio de fritar lula; não dá mesmo! Se tentar, você pode acabar se queimando.  E tem mais. Se o pessoal já gosta tanto que se lambuza de pitadas de lula em tudo, imagine quando é o prato principal.   Se for inteligente, não tente fritar. O prato é indigesto, mas o pessoal gosta muito. O pessoal de Pernambuco, então, nem se fala! Mas o fato é que é moda desde 2002, meu filho: agora não sai nunca mais." 

ENTRE O PASTOR E O PAI-DE-SANTO


Tava numa maré de azar danada. Tudo dava errado!  Tudo dava errado!  Pra você ter ideia, num dia chuvoso avistei uma moedinha de cinquenta centavos meio de longe, sorri, me agachei para pegá-la e um ônibus meteu a roda numa poça d'água e me deu um banho.  A camisa, branquinha, branquinha, ficou imprestável.  Tive um prejuízo de mais de vinte paus.
Foi aí que resolvi deixar de ser racional e entrei numa igreja dessas em que o pastor fala alto à beça ao microfone e toda hora pede doações.  Como estava na primeira fila e ele olhava pra mim, depositei ali na sacolinha um real.  O homem me olhou de ladinho e começou a vociferar:
- Aquele que doa pouco não mostra fé verdadeira em Deus!  Mais que isto, tenta enganar a Deus,e é punido com o fogo do Inferno!  
Sentindo que falava pra mim, levantei-me e entrei no meio de outros doadores e dei mais dois reais.   Mas o danado percebeu e bradou: 
- As pessoas não entendem que com Deus não se brinca! Certas coisas são humilhação ao Senhor!
Misturei-me a uns outros crentes que estavam também de pé e saí de fininho.  Ganhei a rua e fiquei pensando comigo:
-  Fogo do Inferno... Poxa...!  E eu não aguento nem calor de trinta e três graus.  O que faço de minha vida...?  O que faço de minha alma...?
E andando com estes pensamentos deparei com uma casa modesta que tinha uma placa na porta: "Desfaço trabalho, trago seu amor de volta, dou prosperidade."  Era tudo o que eu queria: prosperidade, nenhum amor de volta, mas quem sabe um novo amor?  Quem sabe ainda a salvação da própria alma?
Foi pensando assim que entrei, esperei uns quinze minutos e um pai-de-santo me atendeu:
- Muzifio tá cum zica braba, precebi quando zoiei. Vô tirá tudo de uma vez!
- Opa! - pensei comigo - Vou sair daqui com todos os meus problemas resolvidos.
Tomei um passe dos bons, desfiei um rosário de lamúrias pro homem, fiz um pouco de manha (quem não chora, não mama, não é?) e ouvi o diagnóstico:
- Mandinga feia feita pro fio.  Coisa botada em cemitério, prás alma pior  das alma.  
Perguntei de imediato, sem conter a ansiedade:
- E pai tira de mim, tira?
- Pai tira. - ele respondeu de pronto - É só comprá sete vela vremeia e preta, dez ramo de vence-demanda, três foia de tinhorão-brabo, trazer três galinha preta pra abatê e deixá duzento real pro santo.
Matar animais!!!??? Duzentos reais!!!???  O que queria aquele sujeito?Que eu fosse contra meus sentimentos e princípios e virasse assassino de galinhas?!  E ainda morresse numa grana daquelas!?
Levantei, dei nele aquele abraço de preto-velho e saí rapidamente prometendo voltar no dia seguinte. Quando tava no portão, o cara cuidou logo de me avisar:
- Se não voltá encosto não sai do costado, num abandona muzifio nunca mais.
O que fui arranjar pra mim?! Dar uma grana alta à igreja ou viver eternamente no Inferno, matar animais e dar uma nota de respeito ao pai-de-santo ou ficar com o encosto a vida inteira nas minhas costas.  Nas minhas costas???!!  E quando eu fosse sentar? Ia ficar no colo do encosto?! Não sou disso! Coisa mais feia!!  E quando fosse transar? Ah, é?! O engraçadinho do encosto ia ficar agarrado às minhas costas...Mas que coisa mais trágica!  Oque é que ele ia ficar fazendo comigo? Xi! Não quero nem pensar!  Imagine também: já ouvi que o encosto faz tudo o que a gente faz através da gente: então ele também ia transar com a  mulher que transasse  comigo.  Tem graça a gente dividir a mulher com os outros. Puxa! E eu só dividi mulher sem saber: nunca aconteceu voluntariamente.  E quando eu fosse beber, o egun ia beber a maior parte, tomar um porre daqueles às minhas custas e ainda zumbizar no meu ouvido pra eu arranjar confusão com os outros na rua, e eu que ia tomar as porradas enquanto ele ia ficar rindo gostosamente de mim.  Ah, não, não era possível!  Não podia aceitar tudo aquilo!  
Foi por isto que voltei à igreja, aproveitei que não havia platéia e o pastor tava sozinho, me aproximei dele e perguntei:
- Quanto os Senhores acham que eu devo doar?
- Os senhores? - ele mostrou estranheza.
- É que eu falo em nome do Senhor Deus e do senhor pastor.
- Hmm! - ele fez com a cabeça que entendera, pensou um pouco e sentenciou: - Uns duzentos reais.
Fiquei numa sinuca-de-bico.  Pensei, pensei, pensei até me dar conta de que ao menos não iria pro Inferno. Mas quis me certificar de outros detalhes:
- Mas se tiver algum espírito mau me atrapalhando, os Senhores também tiram, não?
- Claro, meu filho!
Calei por um tempo, um tanto acabrunhado, até que falei:
- E os Senhores aceitam parcelamento?
- Hmmmmm...! - ficou a matutar o santo homem... e pensou e pensou... até que fez uma contraproposta: - O filho vai depositar vinte reais por mês, por toda a vida, na conta da igreja, e eu vou lhe passar o número...
Aceitei, mas não perdi a oportunidade de fazer mais uma pergunta: 
- E isso vai me trazer prosperidade?
- Claro, meu filho - ele me assegurou com sua calma constante, bem diferente de toda aquela ebulição que mostrava diante da platéia.
Peguei a número da conta e passei a depositar.  Regularmente.  Sem atrasar um dia.
Devo dizer que já faz doze anos e doze meses que deposito na conta da igreja, e não obtive graça nenhuma, não prosperei e as aporrinhações continuaram. Mas pelo menos me salvei de ir pro Inferno.

sexta-feira, 2 de janeiro de 2015

VÂNIA E OS DOIS IRMÃOS


Toda santa sexta-feira era aquele diabo!  Euclides nunca vinha para casa.  Vânia ficava esperando, o banho tomado e o corpo perfumado, um vestido curto de tecido leve e quase transparante, como se o marido fosse, surpreendentemente, chegar antes da madrugada, percorrer os olhos pelas suas coxas e pelo vestido a esvoaçar levemente com o vento, apalpar-lhe a cintura, os seios e as nádegas, sentir nas pontas dos dedos a textura do vestido, despi-la, possuí-la num ímpeto febril... Mas tudo isto eram devaneios! O danado sempre voltava na manhã de sábado, ou então em profunda madrugada.  E naquele dia não seria diferente: passaria a noite na esbórnia, chegaria bêbado, cheirando a cigarro e perfume barato, com todos os indícios de haver passado a noite com alguma vagabunda.
Vez por outra vinha com hematomas, sinal de haver-se metido em alguma briga, mas nunca dava satisfações ou se explicava.  Mesmo que viesse com marcas de batom!
- Sai pra lá! Vai dormir! Tava com mulher porra nenhuma! - limitava-se Euclides a rugir quando ela notava alguma pista mais clara de o marido havê-la traído. Outras vezes ela reclamava quando o pegava sóbrio:
- Você só quer saber de beber e chegar de madrugada.  Esquece que tem mulher.  Você acha que isso é casamento?
Ele se limitava a ficar murmurando entre os dentes alguma coisa que ela mal entendia, mas nunca se dispunha a discutir a questão.  
Era aquele sofrimento toda sexta-feira.  Mas Vânia não sofria só nos finais de semanas: era praxe ele ficar pelos botequins quase diariamente, muito embora não madrugasse nos outros dias, chegando sempre entre dez e onze da noite. 
Não faltava, ou pelo menos não faltava tanto com os deveres de marido.  Buscava-a na cama, amava-a, mas com um carinho e uma freqüência menores do que ela desejava.  Vânia não sabia se ele ainda a amava, nem mesmo se ela própria continuava a nutrir amor pelo marido.  Mas sentia uma necessidade quase orgânica de ser acarinhada, de ter os dedos de alguém por entre  cabelos, de ter a boca demorada e intensamente beijada... como nas novelas que via... como nos romances de bolso que lia... como fora no seu tempo de menina, de recém-casada.
Estavam ambos casados já havia cinco anos, não tiveram nenhum filho por ser a mulher infértil, e às vezes esta presumia ter sido sua a culpa do desgaste daquele casamento, justamente por não ter podido dar um filho a ele - muito embora Euclides jamais houvesse reclamado do fato.  Mas a questão é que Vânia tinha a sensação de haver-lhe feito um homem a sentir-se incompleto, frustrado, que a punisse  com a ausência e a desatenção o fato de não ser pai.
Era difícil o Euclides: quase não falava, quase não sorria.  Era pedreiro e vivia aporrinhado e resmungando sobre os ossos do seu ofício.  Vivia cansado ou então enfiado nas suas bebederias.
- Merda de vida...! - costumava queixar-se com sua voz quase gutural - Muito trabalho e o dinheiro pouco.  Só trabalho e aborrecimento... Isso lá é vida?  
Aos sábados e domingos aquela sensação de solidão seguia a apertar o peito de Vânia: ele acordava tarde e pouco falava, ora comido pela ressaca, ora enclausurado em seus pensamentos e seu mau-humor, os olhos voltados para a televisão.  Diabos! Três anos de namoro e cinco de casamento, e Vânia pouco conhecia o seu homem. 
A casa era triste e silenciosa, monótona, tediosa, e só ganhou alguma vida quando Eusébio, o irmão mais velho de Euclides, chegou de Aracaju e instalou-se num quarto-com-banheiro que Euclides construiu no fundo do quintal para abrigar o outro.
Eusébio era falante embora parecesse tristonho. Às vezes mergulhava em profundo silêncio, mas não era como o irmão.  Era mais comedido; não se encharcava de bebida, era sociável.  Euclides recebeu-o com enorme alegria, entregou-lhe o quartinho que lhe construíra no fundo do quintal com grande satisfação.
- Vê só, mano: com o tempo você aumenta esse teu quartinho, pega um pedaço maior do terreno e me paga aos pouquinhos: o importantte é nós ajudar um ao outro.
Depois da chegada de Eusébio, Euclides tornou-se mais caseiro, raramente madrugando às sextas, chegando quase sempre cedo nos outros dias, e Vânia percebia que isto se dava porque o irmão estimulara-o a ficar em casa a trocar idéias, e também pelo motivo de, como era bastante notório, o marido temer ser traído pela esposa e o irmão.
Logo Eusébio empregou-se, numa obra cujo encarregado Euclides apresentou-o.  O irmão desempenhava suas tarefas com habilidade, também era um pedreiro de grande competência.
Alguns dias Eusébio chegava do trabalho, banhava-se e comia da comida que Vânia preparava, ficava a conversar longamente com o casal, a tocar em vários assuntos, a rememorar os tempos da infância de extrema pobreza vivida  em Nossa Senhora do Socorro, e a ida da família para Aracaju.  Recordavam  os pais já falecidos e comentavam da impossibilidade de permanecer na terra natal por conta da inexistência de perspectiva de condicões razoáveis de subsistência, da posterior necessidade de deixar a própria Aracaju por razões semelhantes, e Eusébio tinha também uma dor atravessada no peito:
- Não sei por que a Cássia me deixou. - lamentava-se - Eu não fiz nada de mal com ela.  Uma ingrata! Tu não sabe, mano, como eu gostava daquela mulher.
Cássia era a mulher com quem vivera durante dez anos, que nos últimos tempos de vida conjugal não lhe dera mais importância, não lhe fizera mais elogios nem agrados, pouco aceitou-o no leito e tinha-o na conta de quase um traste, além de, num fatídico dia, olhá-lo com um olhar de profundo desprezo e dizer-lhe:
- Não quero mais viver com tu.  Eu não gosto mais de você.  Vou viver minha vida longe de você.  
O homem lamuriava-se quando trazia à tona aquelas lembranças, e Vânia sentia que identificava-se de certo modo com ele, pois  era uma mulher com o mesmo sentimento de abandono que acometia o cunhado.  Estava casada, vivendo com o marido, deitando com o marido, mas era uma mulher abandonada como qualquer outra sem marido.
Quando encontrava-se sozinho com a cunhada, Eusébio nunca entrava na casa da mesma, por respeito ao irmão e para não causar impressão ruim a qualquer vizinho que casualmente por ali passasse e o visse entrar, e também porque sabia que o irmão não gostaria.  Mas ficava sentado a uma cadeira, no quintal, e naqueles momentos sentia-se mais à vontade para falar com maior detalhamento sobre a saudade do norte e principalmentte da tristeza de ter perdido Cássia.
Já se haviam passado dois anos e ele não a esquecia. Tinha  a auto-estima ferida, um sentimento  de extrema  solidão, a sensação de uma coisa que doía fundo dentro do peito.
A partir de um certo tempo, Vânia também encorajou-se a relatar tudo aquilo que  corroía-lhe a alma e a fazia infeliz, a queixar-se do marido que tornara-a uma mulher ávida de afeto e frustrada, triste e solitária.  À medida em que os dois sentiam-se mais à vontade para trocar confidências, Euclides tornava-se mais freqüente na esbórnia das sextas e nas pequenas bebedeiras dos outros dias, agora já sem dar muita atenção ao irmão, voltando pouco a pouco a ser o mesmo caladão de antes. 
Se, quando o irmão era recém-chegado, o marido de Vânia, enciumado e temeroso, procurava-a na cama com mais freqüência, agora voltava a ser o mesmo de antes, voltado para as suas bebedeiras, seus maus-humores e seus pensamentos.  Enquanto mulher e cunhado conversavam quase todas as noites, ela à porta da sala, ele sentado na cadeira do quintal. Até que um belo dia Eusébio entrou.
Vânia colocara um daqueles vestidos leves e curtos com que sempre esperava o marido, e Eusébio começara a pensar que ela o fazia para ele, cunhado.  Contivera o desejo mais que pudera,  mas o problema era que aquele equívoco devolvia-lhe tudo aquilo que a ex-mulher  lhe roubara: a auto-estima, o desejo de viver,  a sensação de ser um homem à altura da palavra.
Durante a conversa, parou de repente e tomou um pulso de Vânia.  A expressão da mulher era de estupefação, mas ela não relutou, não o repeliu, apenas ficou a encará-lo, os olhos arregalados, incapaz de dizer palavra .  Eusébio foi conduzindo-a para dentro de casa, ela deixou-se levar como um autômato, e os dois se amaram com a entrega e a volúpia dos amantes dos mais picantes romances de amor.
Os dois se deram como que loucamante enamorados, e trocaram tantas carícias e tantas juras de amor, que mais pareciam dois adolescentes embevecidos no primeiro ato sexual de suas vidas.  E desfrutaram plenamente de cada momento, de cada gemido, de cada suspiro, de cada palavra quente, naquela noite de delírios,  em que ambos sentiram-se apaixonados e correspondidos, felizes como se fosse impossível existir na face do planeta qualquer sentimento ou  coisa diversa da luxúria, da paixão e da felicidade. 
Tão logo deixaram o quarto e vinham saindo, ainda ajeitando as roupas e sentindo-se leves como flutuassem, Euclides surgiu na sala, bem diante dos dois.
Ficou longos momentos sem palavra, os olhos febris de ódio, a voz entalada na garganta,  a boca aberta numa espécie de surpresa esquisita, porque, apesar das suspeitas de que aquilo já estivesse acontecendo antes, tivera durante o período de desconfiança a esperança de estar equivocado.
- Desgraçados! Filhos da puta! Vagabunda! Puta suja! Maldito asqueroso! - gritou e rugiu ao mesmo tempo, e sentia um furor demoníaco.
Teve um ímpeto de pegar o facão na cozinha e acabar com os dois, que permaneciam imóveis e sem ação.  Mas conteve-se.
- Some os dois daqui.  Pega tudo o que é de vocês e some da minha frente agora.
Eusébio quis dizer alguma coisa...
- Cala, desgraçado! - berrou novamente Euclides - Senão eu te mato! - Foi saindo, ofegante: - Some os dois daqui agora.  Vou até o botequim.  Se eu encontrar um de vocês aqui quando eu voltar, eu mato.
A rua encheu-se de gente.  Euclides passou carrancudo pelo meio das pessoas, enquanto os amantes estavam quedados e pálidos de vergonha diante dos vizinhos.
Arrumaram as roupas, fretaram uma kombi e saíram do bairro.  Dentro do veículo Eusébio ainda murmurou para ela:
- Não sei dizer o que tô sentindo.
 Vânia comentou com um ar  de desânimo o olhar distante:
- Eu vou sumir.  Vou prá casa da minha mãe, que é bem longe. Quero esquecer o dia de hoje.  Tô me sentindo uma piranha! Uma vagabunda!
- Meu Deus! - Eusébio levou as mãos à cabeça, não sabia o que mais dizer.
Passado pouco mais de um ano, ele,  Eusébio, numa tarde de domingo, procurou o irmão.  Euclides, que a princípio relutou  em dirigir-lhe a palavra,  por fim acabou por fazê-lo.
- Só não entra, seu traidor.  Eu falo contigo aqui do portão mesmo.
- Meu irmão, eu não queria te fazer de besta...
- Não me chama de irmão, seu maldito...!
- Desculpa, Euclides, mas não foi por maldade...
- Você veio me esculachar, filho da puta? - rugiu com o olhar fuzilante.
- Não, por favor, não é isso.  Eu só queria te dizer que foi uma doideira... Mas é que eu tava morrendo de tristeza, tinha uma dor que me maltratava...
- Desgraçado!  Você me traiu com aquela... - longa pausa - Ela era a coisa que eu mais amei  nessa vida...
- Perdoa, Eucli...
- Nunca!
Eusébio botou a mão no peito:
- É que eu sentia uma tristeza tão grande, uma coisa que me matava aos poucos, que me doía fundo aqui dentro...
Euclides bateu o portão, deu as costas ao irmão, percorreu o quintal, entrou na casa batendo também a porta da sala. Eusébio murmurou para si mesmo:
- Uma coisa que mata aos poucos... que dói fundo aqui no peito...

 FIM

2008