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sábado, 20 de dezembro de 2025

NAS ANDANÇAS DO PODER -- OITAVA PARTE: "O ACORDÃO"

    É do conhecimento de todos a conspiração de golpe de Estado que culminou com a quebradeira de 8 de janeiro de 2023, daí não necessitar eu fazer um trabalho jornalístico com a narração pormenorizada dos fatos que deram origem à invasão dos prédios dos Três Poderes e posteriormente à autuação, indiciamento e condenação dos envolvidos, sobretudo os líderes,  nos episódios.

A fatia democrática da população  brasileira acompanhou com grande alento e júbilo o julgamento dos réus, a firmeza de Alexandre de Moraes, Carmen Lúcia, Flávio Dino e Cristiano Zanin, ministros do Supremo Tribunal Federal, em condenar todos os responsáveis pelos atos praticados.

O processo golpista, entretanto, não teve fim com as prisões, e Bolsonaro clamou por anistia, causa abraçada e acolhida com todo o zelo (e toda a tara) pela extrema-direita e por parte (depois totalidade)   dos direitistas fisiológicos do famigerado (e mal nomeado) "Centrão".  A tese todavia foi vista pelos juristas como inconstitucional, e isso fez que os golpistas passassem a defender outro instrumento: a dosimetria ou, melhor, a redução de penas.  Hugo Motta, presidente da Câmara dos Deputados, nomeou Paulinho da Força Sindical, ex-sindicalista pelego, relator do projeto de lei, que contou com o apoio de figuras absolutamente rejeitáveis como Aécio Neves e o ex-presidente Michel Temer, que, com minha repetição à expressão do analista da "Revista Forum", Plínio Teodoro, saiu de "lá das catacumbas" para se imiscuir na política nacional como se fosse um líder respeitado e de grande expressão.

Após inúmeros debates e comentários na mídia, Hugo Motta assegurou que não pautaria o infame projeto e, subitamente, colocou-o em votação, sem dar tempo aos parlamentares progressistas para articularem-se contra aquela infâmia.  O maior problema foi que o presidente do Senado, Davi Alcolumbre, havia-se de maneira inexplicável e repentina insurgido contra o governo e o STF, e tentou aprovar o texto no mesmo dia, não o fazendo porque o senador Otto Alencar, do PSD, exigiu que a Comissão de Constituição e Justiça analisasse a matéria e se propôs a rejeitá-la com o apoio de Alessandro Vieira, do Partido Novo, que prometeu fazer um voto em separado para dinamitar a proposta.  

Nesse ínterim, o PT e sua militância mobilizaram-se nas redes sociais, pediram o apoio de artistas legalistas e democráticos, que assim como o partido chamou o povo a comparecer a atos de protesto contra a maldita dosimetria, o que gerou um domingo de dezembro (14/12/2025) de comovente festa cívica, em que mais de dezoito mil pessoas reuniram-se no Rio de Janeiro, em frente à orla de Copacabana, mais de treze mil concentraram-se em São Paulo, em frente ao MASP, além de outros atos públicos terem-se dado nas capitais e grandes cidades do Brasil.  As manifestações tiveram a participação de Chico Buarque, Caetano Veloso, Fafá de Belém, Gilberto Gil, Djavan, Daniela Mercury e vários outros artistas compromissados com a democracia.  Todos tínhamos a expectativa de que o Senado acovardar-se-ia e não teria coragem de votar a favor do projeto.

Mas estávamos, nós, os democratas e antifascistas, rotundamente enganados, porque Alessandro Vieira não fez voto em separado coisa nenhuma, disse como forma de denúncia que o texto que seria  votado era "o texto de Alexandre de Moraes", porque, segundo ele, havia acontecido inúmeras conversas de senadores com Alexandre e outros ministros da Corte, e o próprio Alessandro, que mostrara-se tão indignado, votou a favor do tal texto a que tanto se opusera.  O mais surpreendente, entretanto, o que mais estarreceu os cidadãos de boa-fé do Brasil foi que o próprio partido do governo, o PT -- suspeita-se que por orientação do líder Jacques Wagner e plena anuência do Lula --, ausentou-se em sua maioria da sessão da CCJ, permitindo que a proposta fosse a plenário e aprovada por maioria esmagadora.

O governo e o PT fizeram os manifestantes,  os artistas e os cidadãos  de palhaços, e acabaram na prática por auxiliar a ultradireita a aprovar aquela aberração, que reduziu a pena em regime fechado de Bolsonaro para menos da metade, de seis para dois anos, e dias depois Plínio Teodoro viria a confirmar a versão de Alessandro Vieira de que se tratava de um acordão com a participação de Michel Temer e Alexandre de Moraes.  Luiz Costa Pinto, do "ICL" (Instituto Conhecimento Liberta), também declarou que, assim como Alexandre de Moraes, Dias Toffoli e Gilmar Mendes teriam participado do conchavo.

Assim o governo Lula e o PT, o próprio STF e os políticos fascistas e oportunistas tornaram pó aquele julgamento que seria um marco na história do Brasil -- por emitir uma mensagem explícita de que doravante nenhuma tentativa de golpe de Estado ficaria impune -- e permitiram que o país voltasse a ser atrativo e convidativo para usurpações de poder e estupros à democracia.

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