Quando o governo subsidia a agricultura familiar, grupo de pequenos agricultores, está fazendo um trabalho social de suma importância que gera efeitos em duas esferas: a do pequeno agricultor, que depende da União para permanecer num trabalho de remuneração digna e salvar-se da pobreza e da miséria, e a do consumidor final, que obtém alimentos mais baratos e vê, nessa área específica, seu poder de compra aumentado.
Já o grande agro, que é formado por herdeiros de incalculáveis extensões de terras, propriedades rurais assustadoramente gigantescas, gente que tem dificuldade de mensurar o tamanho da própria fortuna (e também, lógico, do próprio patrimônio), pessoas dentre as quais há descendentes dos coronéis da Guarda Nacional, do tempo do Império, que recebiam do Imperador Dom Pedro II as chamadas sesmarias, extensões territoriais da imensidão de verdadeiras cidades, pelos relevantes serviços prestados ao fornecerem homens e armas ao governo para apoiá-lo em suas guerras internas e ajudá-lo a sufocar rebeliões no âmbito nacional.
Esses abastados do agronegócio não têm necessidade de ajuda da União Federal nem importância no que tange à área social, porque voltam suas produções quase que exclusivamente para a exportação, recebendo fortunas em dólar, deixando pouca coisa para o mercado interno e elevando, consequentemente, os preços de seus produtos para o consumo nacional.
O Bolsonaro, "office boy" do agro e do mercado financeiro (assim como Tarcísio de Freitas) batia no peito ao dizer que o agro brasileiro alimentava mais de três bilhões de pessoas no mundo, mas furtava-se a reconhecer que o setor o fazia em troca de ganhos bem polpudos, além de dar a impressão de que nossos "abnegados e caridosos" fazendeiros distribuíam gratuitamente ou por preços módicos alimentos a uma parcela significativa da população do planeta, num trabalho comovente de caridade em que enviava comida às vítimas de fome da África.
O agro ganha tanto dinheiro que não precisa da menor ajuda do governo, tendo plenas condições de se bancar e, ao mesmo tempo em que defende o neoliberalismo, onde você ou prospera pelos próprios meios, ou simplesmente fale (e dane-se sua dignidade e direito à subsistência), é, quando se trata de receber dinheiro do orçamento federal, paradoxal e extremamente socialista, sugando legalmente uma parte gigante dos recursos públicos em detrimento de toda uma sociedade trabalhadora. Quantos empregos, obras sociais e outros benefícios o Brasil não poderia patrocinar com essa verba gasta com gente que não precisa? Se você acha que bastaria o governante de plantão opor-se a isso e atuar para acabar com essa caridade financeira para bilionários, não imagina que ai daquele presidente que se indisponha com esses barões e essa farra: é "impeachment" sumário, pois, assim como o mercado financeiro, os latifundiários têm tantos representantes no Congresso, que fico achando que bastaria que as matérias de interesse dos dois setores deveriam ser decididas pelos presidentes das duas casas(Câmara e Senado), porque é uma perda de tempo colocar em votação matérias cujos resultados a gente sempre conhece meses antes da votação.
Enquanto mergulha em fartos e obesos recursos públicos, como o Tio Patinhas (pra quem é velho como eu e se lembra) em sua piscina de dinheiro, os magnatas da atividade rural, justamente para manter sua piscina monetária transbordando em grana, fazem rotineira e obstinadamente oposição a qualquer projeto possa atender às classes pobres e trabalhadoras. Outro efeito deletério de suas benesses é a automática dificultação de qualquer iniciativa que possa propiciar o desenvolvimento da indústria no Brasil. Não há dinheiro para investimentos nesse setor: o Congresso e os "coronéis" abocanham a parte de leão do Orçamento. E aí vem a Globo e diz à exaustão que "agro é pop". Não se poderia esperar comportamento diverso da emissora, que, como toda a grande mídia, foi parida para ser porta-voz dos financistas, dos bancos, dos especuladores dos famigerados mercados e outros sanguessugas do suor da absoluta maioria da sociedade brasileira.
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