Os três senadores ficaram horas mortas na sala de espera, entretendo-se em olhar a figura bonita da secretária a trabalhar na mesa defronte a eles. Eram três parlamentares renomados e de expressiva liderança sobre os seus pares do Senado: Edvaldo Gotardo, Abdias Teixeira e Samuel Azevedo. Sempre dando entrevistas e tendo ampla cobertura da mídia mesmo nos seus pleitos mais sórdidos, o que é, logicamente, fruto de uma moral nacional de valores absolutamente invertidos. Poder-se-ia chamá-los líderes do país, com um poder de fogo maior do que os dois outros poderes, executivo e judiciário, juntos. Nada era aprovado sem a prevalência da vontade dos três e dos presidentes da Câmara dos Deputados e da Casa Alta. Poder de mando à parte, estavam ali numa sala de espera há mais de uma hora, aguardando Sílvio Müller, o financista, recebê-los. Mais pareciam crianças na secretaria de uma escola a esperar a diretora passar-lhes um pito por conta de algum malfeito. E na verdade havia mesmo um pecado do qual se deveriam redimir: a aprovação do imposto em desfavor dos super-ricos para custear a isenção do imposto de renda em prol dos que ganhavam até cinco mil reais. Era a certeza de um grande pito, e os três se entreolhavam entre entediados e constrangidos.
Quando enfim o magnata permitiu-lhes a entrada, encontraram três cadeiras colocadas diante da imensa mesa de estadista do banqueiro, que apenas fez um gesto de cabeça frio em resposta aos cumprimentos dos três, apertando a seguir a mão de cada um com frouxidão e secura. Estava extremamente agastado.
Dispensou protocolos e atitudes bem-educadas e começou a atacá-los com com a voz em tom baixo e ríspido, e as duas mãos espalmadas na mesa:
--Que cagada foi aquela de vocês deixarem passar aquela porra no Senado?
--Sílvio -- justificou-os Samuel -- não pudemos fazer nada. Você soube que houve manifestações de rua, ficaram expondo cartazes com "Congresso inimigo do pobre" e outras apoteoses.
--Foda-se manifestação popular! Povo é só massa de manobra, e vocês deviam ter sabido manobrá-lo com competência.
--Mas tentamos -- replicou Abdias -- O problema é que tinha artista no meio...
--Mas todo o movimento era contra vocês quererem aprovar a PEC da blindagem numa hora inoportuna. Aquilo foi uma idiotice! --insistiu Müller em sua expressão raivosa desenhada no rosto de um homem que iria por seus sessenta de idade.
--Mas os trabalhadores aproveitaram o ensejo pra nos atacar por conta de a gente ter tentado barrar justamente o imposto contra os de melhor situação financeira...
--Dava um jeito! soltava os cachorros contra aquela escória! Botava políca na rua pra enfiar a porrada...!
--Como, Dr. Sílvio? -- encolheu os ombros Edvaldo, acovardado -- Como depois do 8 de janeiro? A sociedade não vai se esquecer disso tão cedo.
--Mas podiam -- esmurrou a mesa o banqueiro -- porque há pelo menos trinta por cento de apoiadores da direita mais severa no meio da população, enquanto outros mais de trinta e cinco por cento não tão nem aí pra nada, só querem ver seu time jogar, tomar sua cachaça e ver sua novela. Os evangélicos, por exemplo, não apoiariam nenhuma pauta reivindicatória. A felicidade pra eles tá "garantida" pro pós-morte, portanto não prestariam nenhum apoio.
--Mas não dava pra segurar a determinação daquela multidão -- choramingou Samuel, gordo e pálido, o suor escorrendo pelo rosto.
O banqueiro levantou-se, andou pela sala e sacudiu indignado a cabeça:
--E olhe que cada um de vocês pede mais favores e mais dinheiro do que dez putas ricas juntas. Que desperdício investir na sua liderança!
--Não havia como, Sílvio -- levou Samuel a mão ao peito, eximindo-se de culpa -- Os holofotoes ficaram todos em cima do Congresso, tentar barrar aquilo seria suicídio político.
Sílvio voltou a sentar-se, fechou o punho e levou as costas do mão ao queixo, ficou segundos a olhar para o nada e a seguir jogou o olhar em cima dos três:
--Há duas matérias que são de crucial importância pra mim: o marco temporal das reservas indígenas e o projeto do licenciamento ambiental. Vocês sabem que tenho muitas terras no Mato Grosso, no Sul e no Amazonas, e preciso avançar minha soja e meu gado pra dentro das matas. Vai ser um aumento significativo das minhas áreas de produção.
--Nós sabemos disso -- antecipou-se Abdias -- Os índios e as florestas são verdadeiros entraves à expansão dos negócios. Nesse caso nós estaremos representando o agronegócio, que é um apoio muito importante pra gente. A bancada ruralista é muito ampla...
--Poderosa e numerosa! -- interrompeu-o Samuel.
--Vamos falar com os nossos companheiros -- tornou Abdias -- que são maioria absoluta, podendo, como você sabe, até aprovar emendas à Constituição.
Edvaldo ainda abriu um sorriso safado:
--O senhor sabe que somos "centrão", mas o grupo ficou dividido na questão do imposto...
--Você foram defecções -- olhou-os com um olhar de dura repreensão Sílvio Müller.
--Mas desta vez vamos estar unidos -- insistiu o gordo Samuel -- A aprovação dessas duas matérias é certa.
--Até porque o povo -- corroborou Edvaldo -- não tá nem aí pra indígena ou meio-ambiente.
O banqueiro, então, olhou com firmeza e perguntou:
--Vocês prometem aprovar as duas matérias pra mim?
Os três responderam quase em coro:
--Prometemos.
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