A mídia divulgou ontem, 25.12.2025, a pesquisa da "Tarcísio-Quaest", ops(!), desculpe(!), "Quaest", que aponta que, apesar de 40% dos entrevistados se declararem petistas, 35% bateram continência, perfilaram-se, bateram no peito e se disseram da direitaça, enquanto 11% aprumaram-se, olharam para o horizonte e responderam, orgulhosos, ser de centro-direita. Somando-se as duas parcelas conservadoras, são 46% de direitistas; teria a pesquisa sido toda feita na Faria Lima? Oh, povo nobre, valoroso, heroico, que, embora pobre, tem orgulho de ser o que é e, mais que isso, abnegado e elevado, defende com o próprio sacrifício as elites e os patrões! Vamos chorar, gente!
Como não bastasse o levantamento apresentar tantos direitistas, 17% fizeram um ar altaneiro e definiram-se como de centro(!), de centro(!), nem de direita, nem de esquerda! Altos, grandiosos, acima das divergências ideológicas entre os homens. Nem de direita, nem de esquerda, mas de centro. Mas... o que é centro? Fico aqui matutando, matutando... Bem, conheço centros de umbanda, candomblé, quimbanda. Imaginei uma fila de congressistas se organizando pra serem benzidos por um exu, um preto-velho, um caboclo, o Davi Alcolumbre no meio da fila com aquele corpanzil, tornando difícil a quem estivesse atrás dele enxergar o tamanho da fila, O Hugo Motta tomando banho de erva-doce com açúcar pra tentar fazer as pessoas gostarem mais dele. E se baixa subitamente uma pomba-gira no Alcolumbre, e alguém é obrigado a lhe enfiar um vestido longo vermelho, e o senador põe os punhos na cintura e fica a rebolar uma só das ancas, dando gargalhadas e esticando a cabeça pra trás?
Sei também que existem centros comerciais, centro da questão, centros de tratamento de saúde, mas que diabo seria um político de centro? Ah, já sei! Devem ser parlamentares que trabalham ou frequentam esses centros de matriz africana. Mas, peraí, como é que tanta gente do "Centrão" vai ser de centro, se uma grande parte deles se autodenomina evangélica?! Fiquei confuso, porque o que poderia ser um deputado ou senador de centro? Contrário ou favorável ao fim da escala 6 x 1 ? Sugeriria ele uma escala 5 e meio por 1 e meio? E quanto ao direito de greve e de manifestações reivindicatórias dos trabalhadores? Votaria pelo direito de meia greve em meio expediente de trabalho, mas fazendo manifestações mudas e silenciosas? E quanto à necessidade de melhor distribuição de renda, menor desigualdade? Acharia que 1 real de aumento salarial pra todos os que trabalham e são aposentados resolveria essa questão e tornaria a sociedade mais justa? O centrista tornaria até complicado responder se ele é conservador ou progressista: uma coisa nem outra, imagina só! Vota no Lula ou no Tarcísio? Nos dois não pode, e agora? Em dia de eleição, então, é provável (e desejável) que nem compareça à seção eleitoral. Melhor do que isso, porém, é que ele nunca, jamais se candidate.
Poemas, vídeos, fotos, comentários, humor, crônicas, contos, músicas, uma variedade de produções. Compilação dos escritos e outros trabalhos produzidos ao longo do tempo. Acesse meu canal no Youtube: https://youtube.com/@demostenesbaraodamata880?si=l1cgAhBMX48XRGYU . Demóstenes "Barão da Mata"
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sexta-feira, 26 de dezembro de 2025
OS POBRES DE DIREITA E OS POLÍTICOS DE CENTRO
sábado, 20 de dezembro de 2025
NAS ANDANÇAS DO PODER -- OITAVA PARTE: "O ACORDÃO"
É do conhecimento de todos a conspiração de golpe de Estado que culminou com a quebradeira de 8 de janeiro de 2023, daí não necessitar eu fazer um trabalho jornalístico com a narração pormenorizada dos fatos que deram origem à invasão dos prédios dos Três Poderes e posteriormente à autuação, indiciamento e condenação dos envolvidos, sobretudo os líderes, nos episódios.
A fatia democrática da população brasileira acompanhou com grande alento e júbilo o julgamento dos réus, a firmeza de Alexandre de Moraes, Carmen Lúcia, Flávio Dino e Cristiano Zanin, ministros do Supremo Tribunal Federal, em condenar todos os responsáveis pelos atos praticados.
O processo golpista, entretanto, não teve fim com as prisões, e Bolsonaro clamou por anistia, causa abraçada e acolhida com todo o zelo (e toda a tara) pela extrema-direita e por parte (depois totalidade) dos direitistas fisiológicos do famigerado (e mal nomeado) "Centrão". A tese todavia foi vista pelos juristas como inconstitucional, e isso fez que os golpistas passassem a defender outro instrumento: a dosimetria ou, melhor, a redução de penas. Hugo Motta, presidente da Câmara dos Deputados, nomeou Paulinho da Força Sindical, ex-sindicalista pelego, relator do projeto de lei, que contou com o apoio de figuras absolutamente rejeitáveis como Aécio Neves e o ex-presidente Michel Temer, que, com minha repetição à expressão do analista da "Revista Forum", Plínio Teodoro, saiu de "lá das catacumbas" para se imiscuir na política nacional como se fosse um líder respeitado e de grande expressão.
Após inúmeros debates e comentários na mídia, Hugo Motta assegurou que não pautaria o infame projeto e, subitamente, colocou-o em votação, sem dar tempo aos parlamentares progressistas para articularem-se contra aquela infâmia. O maior problema foi que o presidente do Senado, Davi Alcolumbre, havia-se de maneira inexplicável e repentina insurgido contra o governo e o STF, e tentou aprovar o texto no mesmo dia, não o fazendo porque o senador Otto Alencar, do PSD, exigiu que a Comissão de Constituição e Justiça analisasse a matéria e se propôs a rejeitá-la com o apoio de Alessandro Vieira, do Partido Novo, que prometeu fazer um voto em separado para dinamitar a proposta.
Nesse ínterim, o PT e sua militância mobilizaram-se nas redes sociais, pediram o apoio de artistas legalistas e democráticos, que assim como o partido chamou o povo a comparecer a atos de protesto contra a maldita dosimetria, o que gerou um domingo de dezembro (14/12/2025) de comovente festa cívica, em que mais de dezoito mil pessoas reuniram-se no Rio de Janeiro, em frente à orla de Copacabana, mais de treze mil concentraram-se em São Paulo, em frente ao MASP, além de outros atos públicos terem-se dado nas capitais e grandes cidades do Brasil. As manifestações tiveram a participação de Chico Buarque, Caetano Veloso, Fafá de Belém, Gilberto Gil, Djavan, Daniela Mercury e vários outros artistas compromissados com a democracia. Todos tínhamos a expectativa de que o Senado acovardar-se-ia e não teria coragem de votar a favor do projeto.
Mas estávamos, nós, os democratas e antifascistas, rotundamente enganados, porque Alessandro Vieira não fez voto em separado coisa nenhuma, disse como forma de denúncia que o texto que seria votado era "o texto de Alexandre de Moraes", porque, segundo ele, havia acontecido inúmeras conversas de senadores com Alexandre e outros ministros da Corte, e o próprio Alessandro, que mostrara-se tão indignado, votou a favor do tal texto a que tanto se opusera. O mais surpreendente, entretanto, o que mais estarreceu os cidadãos de boa-fé do Brasil foi que o próprio partido do governo, o PT -- suspeita-se que por orientação do líder Jacques Wagner e plena anuência do Lula --, ausentou-se em sua maioria da sessão da CCJ, permitindo que a proposta fosse a plenário e aprovada por maioria esmagadora.
O governo e o PT fizeram os manifestantes, os artistas e os cidadãos de palhaços, e acabaram na prática por auxiliar a ultradireita a aprovar aquela aberração, que reduziu a pena em regime fechado de Bolsonaro para menos da metade, de seis para dois anos, e dias depois Plínio Teodoro viria a confirmar a versão de Alessandro Vieira de que se tratava de um acordão com a participação de Michel Temer e Alexandre de Moraes. Luiz Costa Pinto, do "ICL" (Instituto Conhecimento Liberta), também declarou que, assim como Alexandre de Moraes, Dias Toffoli e Gilmar Mendes teriam participado do conchavo.
Assim o governo Lula e o PT, o próprio STF e os políticos fascistas e oportunistas tornaram pó aquele julgamento que seria um marco na história do Brasil -- por emitir uma mensagem explícita de que doravante nenhuma tentativa de golpe de Estado ficaria impune -- e permitiram que o país voltasse a ser atrativo e convidativo para usurpações de poder e estupros à democracia.
sábado, 13 de dezembro de 2025
NAS ANDANÇAS DO PODER - SÉTIMA PARTE: "O BANQUEIRO"
Os três senadores ficaram horas mortas na sala de espera, entretendo-se em olhar a figura bonita da secretária a trabalhar na mesa defronte a eles. Eram três parlamentares renomados e de expressiva liderança sobre os seus pares do Senado: Edvaldo Gotardo, Abdias Teixeira e Samuel Azevedo. Sempre dando entrevistas e tendo ampla cobertura da mídia mesmo nos seus pleitos mais sórdidos, o que é, logicamente, fruto de uma moral nacional de valores absolutamente invertidos. Poder-se-ia chamá-los líderes do país, com um poder de fogo maior do que os dois outros poderes, executivo e judiciário, juntos. Nada era aprovado sem a prevalência da vontade dos três e dos presidentes da Câmara dos Deputados e da Casa Alta. Poder de mando à parte, estavam ali numa sala de espera há mais de uma hora, aguardando Sílvio Müller, o financista, recebê-los. Mais pareciam crianças na secretaria de uma escola a esperar a diretora passar-lhes um pito por conta de algum malfeito. E na verdade havia mesmo um pecado do qual se deveriam redimir: a aprovação do imposto em desfavor dos super-ricos para custear a isenção do imposto de renda em prol dos que ganhavam até cinco mil reais. Era a certeza de um grande pito, e os três se entreolhavam entre entediados e constrangidos.
Quando enfim o magnata permitiu-lhes a entrada, encontraram três cadeiras colocadas diante da imensa mesa de estadista do banqueiro, que apenas fez um gesto de cabeça frio em resposta aos cumprimentos dos três, apertando a seguir a mão de cada um com frouxidão e secura. Estava extremamente agastado.
Dispensou protocolos e atitudes bem-educadas e começou a atacá-los com com a voz em tom baixo e ríspido, e as duas mãos espalmadas na mesa:
--Que cagada foi aquela de vocês deixarem passar aquela porra no Senado?
--Sílvio -- justificou-os Samuel -- não pudemos fazer nada. Você soube que houve manifestações de rua, ficaram expondo cartazes com "Congresso inimigo do pobre" e outras apoteoses.
--Foda-se manifestação popular! Povo é só massa de manobra, e vocês deviam ter sabido manobrá-lo com competência.
--Mas tentamos -- replicou Abdias -- O problema é que tinha artista no meio...
--Mas todo o movimento era contra vocês quererem aprovar a PEC da blindagem numa hora inoportuna. Aquilo foi uma idiotice! --insistiu Müller em sua expressão raivosa desenhada no rosto de um homem que iria por seus sessenta de idade.
--Mas os trabalhadores aproveitaram o ensejo pra nos atacar por conta de a gente ter tentado barrar justamente o imposto contra os de melhor situação financeira...
--Dava um jeito! soltava os cachorros contra aquela escória! Botava políca na rua pra enfiar a porrada...!
--Como, Dr. Sílvio? -- encolheu os ombros Edvaldo, acovardado -- Como depois do 8 de janeiro? A sociedade não vai se esquecer disso tão cedo.
--Mas podiam -- esmurrou a mesa o banqueiro -- porque há pelo menos trinta por cento de apoiadores da direita mais severa no meio da população, enquanto outros mais de trinta e cinco por cento não tão nem aí pra nada, só querem ver seu time jogar, tomar sua cachaça e ver sua novela. Os evangélicos, por exemplo, não apoiariam nenhuma pauta reivindicatória. A felicidade pra eles tá "garantida" pro pós-morte, portanto não prestariam nenhum apoio.
--Mas não dava pra segurar a determinação daquela multidão -- choramingou Samuel, gordo e pálido, o suor escorrendo pelo rosto.
O banqueiro levantou-se, andou pela sala e sacudiu indignado a cabeça:
--E olhe que cada um de vocês pede mais favores e mais dinheiro do que dez putas ricas juntas. Que desperdício investir na sua liderança!
--Não havia como, Sílvio -- levou Samuel a mão ao peito, eximindo-se de culpa -- Os holofotoes ficaram todos em cima do Congresso, tentar barrar aquilo seria suicídio político.
Sílvio voltou a sentar-se, fechou o punho e levou as costas do mão ao queixo, ficou segundos a olhar para o nada e a seguir jogou o olhar em cima dos três:
--Há duas matérias que são de crucial importância pra mim: o marco temporal das reservas indígenas e o projeto do licenciamento ambiental. Vocês sabem que tenho muitas terras no Mato Grosso, no Sul e no Amazonas, e preciso avançar minha soja e meu gado pra dentro das matas. Vai ser um aumento significativo das minhas áreas de produção.
--Nós sabemos disso -- antecipou-se Abdias -- Os índios e as florestas são verdadeiros entraves à expansão dos negócios. Nesse caso nós estaremos representando o agronegócio, que é um apoio muito importante pra gente. A bancada ruralista é muito ampla...
--Poderosa e numerosa! -- interrompeu-o Samuel.
--Vamos falar com os nossos companheiros -- tornou Abdias -- que são maioria absoluta, podendo, como você sabe, até aprovar emendas à Constituição.
Edvaldo ainda abriu um sorriso safado:
--O senhor sabe que somos "centrão", mas o grupo ficou dividido na questão do imposto...
--Você foram defecções -- olhou-os com um olhar de dura repreensão Sílvio Müller.
--Mas desta vez vamos estar unidos -- insistiu o gordo Samuel -- A aprovação dessas duas matérias é certa.
--Até porque o povo -- corroborou Edvaldo -- não tá nem aí pra indígena ou meio-ambiente.
O banqueiro, então, olhou com firmeza e perguntou:
--Vocês prometem aprovar as duas matérias pra mim?
Os três responderam quase em coro:
--Prometemos.
POR QUE O AGRO NÃO É POP COISA NENHUMA
Quando o governo subsidia a agricultura familiar, grupo de pequenos agricultores, está fazendo um trabalho social de suma importância que gera efeitos em duas esferas: a do pequeno agricultor, que depende da União para permanecer num trabalho de remuneração digna e salvar-se da pobreza e da miséria, e a do consumidor final, que obtém alimentos mais baratos e vê, nessa área específica, seu poder de compra aumentado.
Já o grande agro, que é formado por herdeiros de incalculáveis extensões de terras, propriedades rurais assustadoramente gigantescas, gente que tem dificuldade de mensurar o tamanho da própria fortuna (e também, lógico, do próprio patrimônio), pessoas dentre as quais há descendentes dos coronéis da Guarda Nacional, do tempo do Império, que recebiam do Imperador Dom Pedro II as chamadas sesmarias, extensões territoriais da imensidão de verdadeiras cidades, pelos relevantes serviços prestados ao fornecerem homens e armas ao governo para apoiá-lo em suas guerras internas e ajudá-lo a sufocar rebeliões no âmbito nacional.
Esses abastados do agronegócio não têm necessidade de ajuda da União Federal nem importância no que tange à área social, porque voltam suas produções quase que exclusivamente para a exportação, recebendo fortunas em dólar, deixando pouca coisa para o mercado interno e elevando, consequentemente, os preços de seus produtos para o consumo nacional.
O Bolsonaro, "office boy" do agro e do mercado financeiro (assim como Tarcísio de Freitas) batia no peito ao dizer que o agro brasileiro alimentava mais de três bilhões de pessoas no mundo, mas furtava-se a reconhecer que o setor o fazia em troca de ganhos bem polpudos, além de dar a impressão de que nossos "abnegados e caridosos" fazendeiros distribuíam gratuitamente ou por preços módicos alimentos a uma parcela significativa da população do planeta, num trabalho comovente de caridade em que enviava comida às vítimas de fome da África.
O agro ganha tanto dinheiro que não precisa da menor ajuda do governo, tendo plenas condições de se bancar e, ao mesmo tempo em que defende o neoliberalismo, onde você ou prospera pelos próprios meios, ou simplesmente fale (e dane-se sua dignidade e direito à subsistência), é, quando se trata de receber dinheiro do orçamento federal, paradoxal e extremamente socialista, sugando legalmente uma parte gigante dos recursos públicos em detrimento de toda uma sociedade trabalhadora. Quantos empregos, obras sociais e outros benefícios o Brasil não poderia patrocinar com essa verba gasta com gente que não precisa? Se você acha que bastaria o governante de plantão opor-se a isso e atuar para acabar com essa caridade financeira para bilionários, não imagina que ai daquele presidente que se indisponha com esses barões e essa farra: é "impeachment" sumário, pois, assim como o mercado financeiro, os latifundiários têm tantos representantes no Congresso, que fico achando que bastaria que as matérias de interesse dos dois setores deveriam ser decididas pelos presidentes das duas casas(Câmara e Senado), porque é uma perda de tempo colocar em votação matérias cujos resultados a gente sempre conhece meses antes da votação.
Enquanto mergulha em fartos e obesos recursos públicos, como o Tio Patinhas (pra quem é velho como eu e se lembra) em sua piscina de dinheiro, os magnatas da atividade rural, justamente para manter sua piscina monetária transbordando em grana, fazem rotineira e obstinadamente oposição a qualquer projeto possa atender às classes pobres e trabalhadoras. Outro efeito deletério de suas benesses é a automática dificultação de qualquer iniciativa que possa propiciar o desenvolvimento da indústria no Brasil. Não há dinheiro para investimentos nesse setor: o Congresso e os "coronéis" abocanham a parte de leão do Orçamento. E aí vem a Globo e diz à exaustão que "agro é pop". Não se poderia esperar comportamento diverso da emissora, que, como toda a grande mídia, foi parida para ser porta-voz dos financistas, dos bancos, dos especuladores dos famigerados mercados e outros sanguessugas do suor da absoluta maioria da sociedade brasileira.
segunda-feira, 8 de dezembro de 2025
TURBILHÃO
Soam raios, trovões casa adentro.
Tão sonoros, passeiam nos cômados
E repercutem nas paredes e tetos.
Soam raios, trovões casa adentro,
Que não vêm da atmosfera ou do céu,
Mas do fundo do meu peito repleto de chagas
E retumbante de milhões de emoções.
Há vendavais, soam trovões, soam raios
E são gritos do desejo de vida,
São brados do desejo de morte,
Um acúmulo imenso de amores,
Profusão de intensas paixões,
Um querer chorar convulsivo
E partir para muito distante,
Depois, para ainda mais longe
E pisar regiões inúmeras,
E dançar pelas ruas lotadas
E pelos bordéis das cidades.
Soam raios, trovões casa adentro:
É o peito implodindo de anseios,
Profusão de sentimentos imensos,
Turbilhão de minh'alma a berrar.
domingo, 2 de novembro de 2025
VIAGEM ENCANTADA
Hoje mesmo, há poucos momentos,
estive nos anos setenta,
vi cantar Vinícius e Tom
e ouvi belos sambas-canção.
Ai, era tanta alegria
naquela tarde dourada,
e as águas azuis e assanhadas
batiam na praia, espumavam
aqui, tão distante do mar.
Em poucos segundos, a noite
chegou, maviosa e poética,
e andei entre os corpos celestes,
enquanto cantou Lady Gaga
com suas emoções palpitantes.
Elis brilhava e cantava
com sua voz milagrosa,
que esfuziava, sofria,
depois serenava, tão doce
como nunca, jamais ouvi.
Elis, a rainha maior.
Viajei em toda a magia
da voz, dos arranjos do Mílton,
passeei em fazendas, paisagens,
em cidades majestosas e antigas,
me sentindo tomado de amor.
Vi Deus e as orquestras dos anjos,
viajei em terras de encantos
e me enchi de alegria e fascínio:
ah, como nos enfeitiça
ouvir tão bonitas canções!
O SENTIMENTO SUBLIME
O sentimento sublime
que trago em meu peito candente
é como se tudo florasse,
se a aurora fosse constante
e a noite, tão linda de estrelas,
enchesse de luz os becos
e neles derramasse canções.
É como se a primavera
ornasse as ruas e praças,
viesse desses teus olhos
tão cheios de vida e querença,
tão plenos de anseio e de sol.
domingo, 5 de outubro de 2025
RAFAELA E O TRIÂNGULO AMOROSO
Santiago era um advogado bem-sucedido. Homem alto, forte, metódico, sisudo, vaidoso, bem-aprumado na postura e elegante no vestir-se, altivo e de poucas falas. Ia lá pelos seus quase cinquenta anos. Na questão específica de pouco falar, isso se revertia completamente quando, da tribuna, defendia seus representados nos tribunais. Aí tornava-se eloquente, verborrágico, veemente, tinha o próprio dom da oratória.
Certa vez conseguira absolver um sujeito que era mula do tráfico e fora flagrado pela polícia com grande quantidade de cocaína, convencendo, ele, o advogado, o juízo de que o homem fizera o transporte da droga sob coação dos traficantes, que ter-lhe-iam sequestrado a família para forçá-lo a expor-se com a mercadoria ilícita por ter o réu, na favela, manifestado inúmeras vezes antipatia ao chefe do morro e ao crime organizado. A empreitada envolveu falsos testemunhos e uma série de artimanhas jurídicas de Santiago, mas o criminoso foi solto, podendo aguardar em casa o trânsito em julgado ou o recurso do Ministério Público, e só não pôde comemorar a libertação porque o chefão do gueto mandou executá-lo no dia em que voltou para casa, por não tolerar alguém se deixar pegar pelas forças policiais.
Noutra feita, já na área cível -- pois era criminalista e civilista -- conseguira um dano moral astronômico para um cliente que fora humilhado, ofendido e agredido pelo gerente de um hotel cinco estrelas onde prestava serviços de pintura. Naquele episódio, ele próprio encarregou-se de obter as filmagens das câmeras, comprando-as de um segurança da hospedaria, e entregá-las às emissoras de tevê, para que a ampla exposição aumentasse o constrangimento e o valor da causa.
Tinha hábitos extremante arraigados e deles só se desviava em situações excepcionalíssimas, quase nunca faltando à academia de musculação, não saindo do comedimento na bebida, da ida aos bares uma única vez na semana e da rigidez de horário do próprio escritório e dos seus encontros amorosos e lazeres. Mais parecia uma máquina, um robô programado por si próprio.
Conhecera Rafaela numa dessas idas a uma uisqueria. Naquele dia ficara um longuíssimo tempo a fitar a moça, que acompanhava-se de uma amiga, até que, após alguns encontros de olhares e sorrisos, pedira licença à outra mulher e chamara a pretendida a uma breve conversa à mesa que ele ocupava, onde trocaram algumas palavras bastante objetivas e os números de celulares. Rafaela depois pediu licença e voltou ao seu lugar, e três dias depois os dois se encontraram.
Fazia agora quatro anos que os dois estavam juntos.
Rafaela era divorciada e morava com a mãe e uma filha de quinze anos, já completara trinta e oito anos e era uma mulher morena de tez clara, cabelos aos ombros e de coxas e seios pronunciados, gostando de usar sempre vestidos de tecidos leves pouco acima dos joelhos e com abertura ora lateral, ora frontal, e assim deixava à mostra um pouco do corpo sensual e bem- desenhado que sempre arrastava os olhares dos homens para si.
Era bonita, elegante e falava de forma polida e em baixo tom de voz. Às vezes sua fala era quase didática, e isso se dava porque a mulher dava aulas de geografia em dois colégios de ensino médio da Zona Sul do Rio.
Os dois formavam um belo casal, mas aquele costume de não falar de Santiago a incomodava e agoniava profundamente, mais ainda a quase absoluta falta de manifestações de afeto e gestos de carinho. Diversas vezes Rafaela pensara em romper o relacionamento, mas alguma coisa que ela sentia a prendia irremediavelmente a ele, como se o homem fosse o ar que ela respirasse. Recusava-se a admitir para si mesma que aquilo pudesse ser um amor inexplicável e quase infundado.
Santiago a tinha na cama, ardia, levava-a a prazeres impressionantes, mas, após os corpos saciarem-se, tinha pressa de ir embora, recusava-se a ficar trocando carícias e palavras, apressava-se em sair do motel e ir para casa. Parecia coisa de homem casado, mas não era, porque com certa frequência Rafaela ia à casa do namorado, que era viúvo e morava com um casal de filhos, a menina com dezoito anos e o rapaz com dezessete. Que diabo era aquele homem? Teria algum sentimento ou seria totalmente vazio? Parecia um androide. E como seria possível amar um androide? Teria essa aberração acontecido a ela?
Às vezes convidava-o a ir a um bar de Copacabana onde se tocavam músicas ao vivo, mas Santiago nunca aceitava os convites, o que a frustrava e entristecia, e numa dessas idas ao lugar Rafaela conheceu Misael, uma rapaz de trinta anos que cantava de um modo infinitamente expressivo, os sentimentos à flor da pele, e era um exímio violonista.
Naquele dia ela convidou-o para sentar-se à sua mesa ao final da apresentação, e os dois conversaram longamente, surpreenderam-se por terem tantas afinidades, tantos sentimentos e ideias iguais, e lá pelas duas da madrugada se beijaram incessantemente e se amaram no quarto de Misael.
2
Um ano depois, a relação entre Misael e Rafaela perdurava. Ele era o avesso de Santiago: atencioso, falante, romântico, despojado de espírito prático, gostando de cantar, compor letras e músicas, tocá-las e cantá-las. Vivia agarrado ao violão.
Não era, entretanto, um músico conhecido, não tinha (nem jamais quisera ter) outro trabalho além de tocar e cantar em bares, festas e eventos. Estava longe de ser um profissional bem-sucedido. Não moraria em Copacabana se não tivesse herdado da mãe, que herdara do marido, pai do rapaz, dois apartamentos e uma quitinete no mesmo bairro. Minimalista, pouco apegado a coisas materiais, optou por morar na quitinete e alugar os dois apartamentos. Era um quarto grande e uma pequena cozinha com uma prateleira, uma geladeira e um fogão que só utilizava pra fazer café ou chá. Um banheiro pequeno para banhos e necessidades. No quarto um armário embutido e uma mesa minúscula de quatro bancos, uma cama e uma poltrona, um computador, um aparelho de som, uma televisão e o violão. Pronto! Era o bastante pra Misael. Ali foi o lugar mais simples e precário onde Rafaela se deitou com um homem.
Se Misael não ligava para luxos e posses, por outro lado apaixonara-se intensamente por Rafaela... e a ela dedicava-se, fazia-lhe poemas e canções, quando a recebia em casa enchia de atenções e agrados, encomendava lanches e refeições, doces, guloseimas, bebidas, e os dois se amavam com gana e delirante volúpia, e depois ficavam a conversar e a se embriagar, a contar histórias e casos, a falar de música, de cinema, de política, de artes. O músico a tratava como a uma rainha, dizia-lhe coisas doces, sonhava uma vida feita só de amor e poesia para os dois, sem ruas, pessoas e mundo à volta, onde só eles existissem numa atmosfera de pleno amor. Tudo aquilo como que alimentava Rafaela, supria-lhe as carências afetivas, fazia-a feliz consigo mesma, e ela às vezes ficava a refletir: era ele o homem que deveria amar, jamais aquele sujeito pedante e de mármore com quem já estava há cinco anos envolvida. Às vezes (ou quase sempre) queixava-se do advogado para ele próprio:
--Você parece que não tem sentimentos. Não deve sentir nada por mim. Só vejo entusiasmo nos seus olhos quando saímos juntos pra alguma festa e eu vou toda arrumada: acho que você não gosta de me ter, mas só de me exibir.
Santiago olhava-a sem interesse no assunto e dizia-lhe vagamente:
--Isso é tolice sua. Você é muito cheia de carências.
--E não é um direito meu?! -- ela às vezes se exasperava -- Não posso ter a atenção e o afeto do meu homem? -- e aí seus olhos se marejavam e sua expressão se tornava súplice e desolada.
--Não sou romântico nem de me derramar em declarações de amor e elogios. Você me conhece e sabe que sempre fui assim.
--Você não tem capacidade de demonstrar sentimentos por mim? Não consegue praticar um gesto de ternura?
--Você tá sendo insistente. Melhor mudarmos de assunto e falarmos algo mais interessante.
--O que é mais interessante? Seus processos? O TJ, a Justiça Federal?
--Meus processos são o meu trabalho, Rafaela.
--Você nem se preocupa em saber onde estou, o que é dos meus dias, o que faço quanto não te ligo ou não te encontro. Nem ciúmes você sente... -- e a última frase, dita por ela mesma, era-lhe como uma punhalada, pois diante dele se sentia a mais insignificante entre as mulheres.
--Meus sentimentos não se alimentam de insegurança.
--Você é gelado, Santiago!
Nessas ocasiões as lágrimas brotavam-lhe incessantemente dos olhos, e o homem ficava mudo e a fitá-la. Após ela acalmar-se, ele apenas decidia:
--É melhor eu te levar agora pra casa.
E saíam ambos calados, no carro, da Barra a Botafogo.
Quando estava nos braços de Misael, o clima era leve e lírico, e Rafaela sentia-se amada e preciosa, importante e quase endeusada.
--Você pra mim é tudo. Nós dois aqui juntos -- costumava dizer o cantor -- é a mais plena felicidade, como se eu não tivesse nada a mais a querer ou conquistar na vida. O mundo não interessa, só você importa. Nossos momentos são a a maior conquista da minha vida, porque todo o mais parece irrelevante. Estar aqui com você... ou à beira-mar, com nossos pés mergulhados nas águas, é tudo pra mim.
Havia porém momentos em que ele manifestava alguma agonia:
--Um dia você vai deixar aquele homem e ser minha, só minha, num mundo só de nós dois.
Ela sempre o olhava de um modo reticente, evitando dizer algo que o pudesse machucar, e limitava-se a responder acenando com uma esperança:
--Tem paciência, meu amor, me dá algum tempo, sem me pressionar, pra resolver isso.
O rapaz não insistia, mas Rafaela voltava a pensar consigo que Misael era o homem que deveria amar.
3
Todos os projetos de vida de Misael incluíam Rafaela, muito embora esses projetos não fossem além de continuar a tocar nos bares e eventos. Porém ainda assim imaginava a mulher presente em todas as suas apresentações e depois voltando para a quitinete com ele e comentando sobre a reação do público, os elogios, os aplausos, os pedidos de bis, findando a conversa em muitos beijos e frenesis e convulsões de amor.
E viver sob o mesmo teto com alguém nunca esteve nos planos do músico, que gostava de ter seus relacionamentos sem grandes compromissos e sem o convívio do dia-a-dia. O apego à professora era demasiado, tanto que sentiu-se sem escrúpulos e um tanto repulsivo no dia em que a traiu com uma linda morena que se lhe insinuou insistentemente na praia do Arpoador. Fizeram loucuras na cama (a mulher era uma fogueira) e ainda cheiraram juntos a cocaína que ela carregava consigo. Não lhe deixou no entanto número de telefone ou a levou ao seu quarto: foram a um motel, e ele não quis um segundo encontro. Nunca sentira nenhuma culpa após trair ninguém, muito embora não se lembrasse de haver um dia envolvido em nenhuma relação séria. Com duas semanas já tinha esquecido tudo e deu-se a degustar aqueles momentos tão emocionantes e palpitantes em que tinha a presença da sua amada.
Todavia era comum ficar a matutar: será que um dia Rafaela o chamaria para uma conversa séria e comunicar-lhe-ia a decisão de não mais levar aquela vida dupla para dedicar-se a Santiago? Enquanto aquilo não acontecia (se é que aconteceria), Misael ia-se encontrando com ela, ambos tomando chope, vodca ou uísque nos bares e tirando algum tempo para pisar nas águas do mar.
4
Por volta de uma semana depois do último encontro, Rafaela andava ressabiada, preocupada: uma semana sem Misael dar um telefonema ou enviar mensagem pelo "whatsapp". Estranho... Começou a moça a enviar dizeres e não obter resposta alguma. Ligava e não era atendida.
Numa tarde de meio de semana, então, resolveu procurá-lo em casa. Apertou inúmeras vezes o interfone e ninguém perguntou quem seria. Resolveu então acionar o interfone do porteiro, esse atendeu, e ela perguntou pelo namorado:
--É dona Rafaela? -- indagou o porteiro, que já a conhecia.
--Sim, sou eu! -- respondeu ela, aflita.
--Dá um momento, que eu vou até aí.
O funcionário do condomínio aproximou-se da portaria, abriu-a e se pôs diante da professora:
--Dona Rafaela, eu achei estranho: o Misael não disse nada à senhora?
--Não!!! -- ela arregalou os olhos, ainda mais aflita -- Mas o que foi que aconteceu, afinal? Diz logo, por favor!
--Calma, não fique assim...
--Mas o que houve?!!! -- ela exaltou-se.
--Dona Rafaela -- o homem manteve a fala calma e amiga -- o Misael se mudou...
--O quê????!! -- ela se viu quedada e perplexa, petrificada por longos segundos.
--Ele não disse nada à senhora?
--Não... -- ela tinha a voz trêmula, fraca e embargada.
--Mudou-se no sábado passado. Até me surpreendeu: o caminhão de mudança parou, os ajudantes saíram, apertaram o interfone, ele abriu e as coisas dele começaram a descer. Depois me deu um abraço, disse que ia alugar o apartamento, acabou de se despedir e foi embora no carro dele.
--E ele nem deixou endereço?! -- ela gritou.
--Não.
Rafaela estava decididamente paralisada, e o porteiro perguntou:
--A senhora tá se sentindo bem? Quer entrar um pouco, tomar um copo d'água e se sentar pra relaxar?
Ela estava muda, sem ação. Apenas balançou negativamente a cabeça e saiu andando. A seguir foi para o estacionamento e entrou no carro. Ficou ali parada por quase uma hora, a fronte apoiada no volante enquanto as lágrimas lhe desciam e os soluços pareciam não querer cessar.
--A senhora tá passando mal? -- indagou um funcionário do estacionamento.
--Não... -- ela respondeu enquanto soluçava -- Só me deixa por favor ficar mais um pouco aqui.
Quando pôde dirigir, fê-lo com muita cautela, e, ao chegar a casa, correu direto para o banheiro, para tomar num banho demorado e tentar parar de prantear.
5
Se Misael tinha medo de Rafaela chamá-lo a uma conversa formal e terminar tudo, esse medo só fez aumentar a cada dia. Achava que não suportaria aquele momento tão dramático. Seu coração se esfacelava dentro do peito, seu desejo de que ela fosse somente dele só crescia, mas as esperanças de isso acontecer só murchavam a cada momento. Aquela agonia não podia continuar. Melhor que se desse a separação de uma vez por todas.
Mas ele não tinha forças para postar-se diante da moça e romper, pedir-lhe que não mais o procurasse. Aos diabos isso de ter a hombridade de dizer o que achava que devia falar a ela! Misael não tinha estrutura, não tinha coragem, se acovardava, sim, e daí!?
Nas últimas semanas morria todos os dias, chorava sobre o travesseiro, não somente pelo medo do enfrentamento à situação, mas sobretudo pela certeza de que Rafaela jamais o amaria, ao menos tanto quanto ele queria e precisava. Alimentava-se dos momentos em que a tinha em sua companhia... e doía-lhe profundamente saber que aquela mulher não correspondia à altura os sentimentos tão intensos que nutria no peito. Eis o motivo de resolver fugir.
Após receber a notícia de sua mudança, Rafaela ainda tentou contatos outras vezes, e ele trocou o chip e o número do celular, para não mais sentir a agonia de ver que ela continuava a buscar contato.
Alugou um minúsculo apartamento em Petrópolis e ali instalou-se. Pretendia voltar para Copacabana uns dois anos depois, mas por ora o mais recomendável era não frequentar os lugares a que costumava ir, ficar bem longe de todos aqueles cantos que só lhe trariam a lembrança da ex-namorada.
Mesmo na Região Serrana, Misael viu atada à sua memória a constante lembrança de Rafaela... e morria todos os dias, renascia n'alguns momentos, mas via a alma desvanecer e murchar mortalmente a seguir. Encontrou-se melhor muitos meses depois. O tempo muda paisagens e cenários, traz morte e traz vida nova: por que então não traria ao rapaz novamente dias iluminados de alegria, em que não quereria ele mais do que saborear com volúpia toda a delícia de uma vida feliz? Assim, seguiu ele, agora a tocar e cantar nos bares da Região Serrana, amparado naquela esperança de que os dias vindouros lhe trariam de volta toda aquela plenitude de vida e de festa que sempre tivera dentro do peito. Ele bem sentia: sua alma pouco a pouco se acendia de novo, e era como Misael se estivesse a refazer de uma doença e a voltar à saúde mais completa. Eram as feridas se cicatrizando, e o coração começando a voltar a retumbar de felicidade e desejo de viver.
6
Por alguns meses Rafaela também ficou abatida, macambúzia, ainda lerda nos gestos e pensamentos, como se aquele momento de surpresa e perplexidade se houvesse prolongado e se ameaçasse perenizar em sua alma. Dessa vez ela tornou-se tanto ou mais calada do que Santiago, que, embora parecesse de pedra, um dia angustiou-se e indagou-lhe:
--Mas que diabos você tem? Reclamava que eu sou calado e agora parece uma múmia na expressão do rosto e nesse silêncio de sepultura!
--Apenas não ando bem -- evadiu-se a moça de responder -- mas logo isso vai passar.
Depois de se ver refeita, e Misael tornar-se uma lembrança boa, não mais, foi surpreendida por Santiago, que convidou-a a jantar e, à mesa do restaurante, fixou os olhos nos dela e falou de um modo quase solene:
--Eu te trouxe aqui porque queria que conversássemos algo sério.
Rafaela também olhou-o dentro dos olhos, sisuda:
--Pode falar.
Santiago continuou:
--Estamos juntos há quase seis anos... Acho que, por mais que eu seja fechado, nos conhecemos bem...
--E então? -- a moça mostrou-se um pouco ansiosa, ainda olhando-o firmemente.
--Sempre fomos bastante ligados e conseguimos estabelecer uma relação de confiança, criamos vínculos de sentimentos e temos boa compatibilidade. Por isso quero saber se você aceitaria se casar comigo.
Rafaela arregalou os olhos, surpresa. Por alguns segundos ficou a refletir, mas os pensamentos foram inúmeros naquele exíguo tempo. Santiago era calado e parecia de mármore, não era dado a palavras e gestos fagueiros, que eram o que ela tanto carecia. Porém agora passava-lhe uma grande impressão de ter-lhe amor ou algo que a alguma distância, grande ou pequena, se parecesse com amor. Aquele pedido talvez fora o maior inesperado de toda a sua vida.
Se sempre parecia distante, se sempre parecia de mármore, Santiago, a quem estava ligada de forma irremediável, a quem tanto se apegara, a quem podia dizer que amava, agora seria seu. Ninguém é propriedade de ninguém, mas Rafaela sentia que Santiago seria como seu, pela vida metódica, pelos laços de casamento e pelo afeto que ela agora achava que ele revelava.
Sua demora fê-lo perder a calma:
--E então? Você não quer?
Ela apenas sorriu e balançou afirmativamente a cabeça, respondeu num quase sussurro:
--Sim.
2025
domingo, 14 de setembro de 2025
POESIA DO MOMENTO DE VOLÚPIA
Não senti, não, no meu peito
O tocar angelical
Que enfeitiça o enamorado,
Mas te irei sorver a língua
Na agonia dos sedentos,
Provarei da tua pele
Como quem lambe ambrosia,
Sentirei, extasiado,
O calor dessas entranhas,
Fruirei teu corpo quente
Como quem degusta manga,
Sorve a polpa, a água da pera
E assim fica a se aprazer.
Sentirei dentro de ti
O aconchego delirante,
A agonia extasiante,
O regalo que enlouquece
E se expande corpo inteiro
E que irá lotar a casa,
Vazará pelas janelas,
Pelo espaço sideral.
Serei teu inteiramente,
Serei teu sofregamente,
Serei teu como criança
Aninhada no teu ventre.
Mas me deixa a porta aberta
Pr'eu depois ir pelas ruas
E seguir o meu caminho
Sem nos darmos nossas mãos.
domingo, 24 de agosto de 2025
AS CADELINHAS E EU
É manhã e dois anjos em forma de cadela sobem em minha cama e se deitam. Sinto uma paz e uma felicidade infinita e quase indescritível, e ficamos os três, irmãos por filhos da Terra, amor e sintonia de almas, refestelados em nosso céu.
NÃO CAIA NA ESPARRELA DE VOTAR NO CIRO
Já vejo "O Globo" reproduzir em letras garrafais falas de apoiadores ocasionais de Ciro Gomes. É a reverberação dos anseios do agro e das elites, que querem recolocar o Bolsonaro no lugar onde estava: a Presidência da República. Porque o Ciro é o próprio Bolsonaro, só que com cultura e uma fala mais rebuscada, porém agora com a mesma agressividade e mesmo radicalismo verbal de ódio. Encarna o furioso antipetismo e antilulismo por questões de frustração, de recalque e de vingança, por Lula não tê-lo apoiado contra o Bozo, sua alma gêmea política, em 2018. É o mesmo Ciro que, durante a disputa ao Planalto de 2002, disse que a única importância da Patrícia Pillar, sua esposa à época, na campanha eleitoral era dormir com ele. É o que defendeu a política econômica do Collor poucos dias após o confisco de ativos financeiros da população por parte do então presidente. O exato "esquentadinho"(talvez por ter sido um menino e um adulto mimado demais) de perfil autoritário que nasceu politicamente no berço de ouro do PDS, partido da ditadura sangrenta e hedionda, e que entre suas demonstrações de gana totalitária soltou a frase "eu sei mandar". É o Ciro que se traveste de progressista, mas que na verdade é direitaça, que agora volta ao seu lar político, que é o PSDB, agremiação que não é nada senão a fusão, nos anos 1980, dos direitistas menos fundamentalistas do PDS com os setores mais conservadores do PMDB.
Faço votos de que o eleitorado entenda que não se deve buscar terceira via quando a primeira está dando certo, que Ciro não é nada de novo, mas a própria segunda via odienta e destrutiva, representada por direitistas extremos pró-Trump e pró-Bolsonaro como Caiado, Tarcísio, Ratinho e Zema. Terceira via seria, sim, o PSOL, bastante à esquerda do PT e que tem a minha mais profunda simpatia e admiração, mas a que eu negaria meu voto caso fosse necessário votar útil no PT ou outro candidato de perfil progressista ou menos conservador em relação aos direitistas.
Se a grande imprensa abraça o Ciro, é mister que os setores não-abastados da sociedade o reneguem de imediato, porque ambos, Ciro e a grande imprensa, são representantes das mesmas elites que massacram a população brasileira desde o dia em que os tripulantes da esquadra de Cabral botaram os pés cá "nesta terra onde, em se plantando, tudo dá".
quinta-feira, 17 de julho de 2025
EU TENHO A SOLUÇÃO PARA O PROBLEMA DA "POLARIZAÇÃO"
Primeiro, como dizem os analistas honestos, para haver polarização seria necessário que houvesse na política brasileira uma extrema-esquerda atuante, o que não acontece. Ou você tem visto a esquerda plantando bombas, depredando os prédios dos Três Poderes, travando o trânsito com caminhões e pedindo golpe de Estado com implantação do comunismo? Acho que não, correto? Assim, constatamos que não há extrema-esquerda para fazer contraponto aos fascistas do Brasil, o que deixa clara a vista de extremistas de direita promovendo sozinhos arruaças, ataques verbais ou físicos às instituições, a negros, a homossexuais, a mulheres, a progressistas, a pobres, ao meio-ambiente e vai por aí adiante. E o mais curioso é que fazem o que fazem e ficam incólumes.
Na inexistência, reitero, de qualquer atuação extremista no campo da esquerda, não vislumbro, para acabar com os ataques dos nazifascistas em seus gestos, discursos e articulações e, desse modo, deixar os analistas desonestos e a grande mídia satisfeitos, outra solução senão nós, democratas, usarmos o boné do "Maga", defendermos Trump, lutarmos pela anistia aos golpistas do 8 de janeiro e pela recondução do Bolsonaro à Presidência da República, pedirmos a prisão do Alexandre de Moraes, atacarmos as mulheres, os "gays", os negros... E aí como fico eu, negroide, mulato, moreno, mestiço ou como você queira chamar? Esborracho-me contra a parede? Mas sigamos: teremos de glorificar o Silas Malafaia, promover
devastação ambiental, puxar o saco da "coronelada" do agro, lutar em prol dos bilionários, louvar o Trump e seu tarifaço, renegar a democracia e, em suma, todo progressista virar a casaca e escancarar as ancas para os nazifascitrumpbolsonaristas do País. Pronto, irmãos não-reacionários! Aí o Brasil, como repetida e cansativamente a Globo cobra através da voz gravada do Roberto D'Ávila, o Brasil será de uma vez por todas pacificado.
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Se Jesus tivesse nascido nas últimas 4 décadas, já teria sido crucificado como comunista pelos bolsonaristas, com o apoio do "Centrão", mas não sem antes ser preso por atentado à ordem moral, em virtude de impedir o apedrejamento de Maria Madalena.
Barão da Mata
terça-feira, 15 de julho de 2025
O VERDADEIRO DESPERTAR DO GIGANTE
Quando as elites, principalmente a Fiesp do ultrarreacionário Paulo Skaf, embaladas pelo movimento e depredações dos "black blocs", lançaram os slogans "não vamos pagar o pato" e "o gigante acordou", era a classe média pateticamente conservadora que se unia aos ricos e a outras camadas sociais abastadas para colocar a extrema-direita no poder. O gigante não acordara, servira de massa de manobra, pois fora enganado e ludibriado pelos reacionários, obstinados em trazer a direita de volta ao poder. Era insuportável pr'aquela gente que reeditava a "marcha da família com Deus, pela liberdade" ficar tanto tempo distante de uma ditadura militar de direita -- se a direita dá aos opulentos tudo do que eles já nem mais precisam, tirando dos pobres as coisas de que eles mais carecem. Eu próprio tornara-me crítico extremamente cáustico do governo e do PT, tragado pela imensurável onda midiática que se travestia de combate à corrupção quando tinha por fito trazer os conservadores mais cruéis de volta ao poder. No entanto nunca, em tempo algum, jamais apoiei ou apoiaria Bolsonaro, por uma questão de mínimo bom-senso. Até Reinaldo Azevedo, muito mais gabaritado do que eu, também foi envolvido por aquela gigantesca conspiração e hoje é, embora não petista nem lulista como minha pessoa, um importante defensor do atual governo.
Porém o fato é que as elites e a classe média eram viúvas inconsoláveis da ditadura de direita, tinham o fascismo como filosofia de vida e acabaram, inicialmente, colocando Temer no poder e exultando diante do mandatário perversamente neoliberal e que, durante seu mandato-tampão, foi duas vezes denunciado pelo MPF por corrupção. A sociedade, entretanto, estava feliz da vida: tinha um direitaça no poder.
Mas esse direitaça não era bastante para uma gente ávida de fascismo como uma viúva há muitos anos acometida de um verdadeiro furor uterino insaciado. O fascismo é completo, pois se sustenta em crudelíssima desigualdade social e hedionda repressão. Então, a Globo e toda a grande mídia, Paulo Skaf, a beócia classe média, os pobres de cérebro lavado e os ricaços sórdidos elegeram Bolsonaro.
O governo do capitão inepto, mau e louco dispensa comentários, mas a volta de Lula ao governo veio acompanhada de um Congresso avassaladoramente destrutivo, arruaceiro, ignorante, mal-intencionado, usurpador dos recursos públicos e pavoroso, simplesmente monstruoso, até que o vazamento da fala de Ciro Nogueira na Faria Lima e a derrubada do decreto constitucional do presidente por Hugo Motta, Davi Alcolumbre e asseclas, que não querem que ricos paguem qualquer imposto, acendeu uma campanha nas redes sociais que exige menos descalabros e que os opulentos, que correspondem a 1% da população, paguem tributos, tirando uma migalha do excesso do excesso do excesso do excesso do dinheiro dos seus bolsos. Ao mesmo tempo o "ICL (Instituto Conhecimento Liberta)" lança a campanha "Somos 99%", na qual já me engajei e sugiro que vocês se inscrevam: 99porcento.com.br .
AGORA, SIM, O GIGANTE ACORDOU.
domingo, 29 de junho de 2025
CIRO GOMES É UMA CONSPIRAÇÃO DAS ELITES
Certa vez postei no "Bluesky" que o Ciro Gomes é de direita, e um cirista me rebateu dizendo que só não concordaria comigo porque "aí seríamos dois a falar merda" e que "Ciro está à esquerda" de Lula. Nem me dei ao trabalho de discutir o mérito da questão, respondi apenas que o seu gosto pelo escatológico era impressionante e o bloqueei. Se o próprio Lula, progressista, mas pressionado pelo Congresso, por fascistas, grande mídia e poder econômico, não consegue fazer um governo social-democrata como desejaria, que perfil teria o Ciro na Presidência? Ciro começou a carreira no PDS, partido da ditadura militar, elogiou em 1990 a política econômica do Collor, passou por vários partidos progressistas sem me convencer e hoje volta ao PSDB, partido criado após o fim do regime militar, que uniu a direita do PMDB aos temerosos de morrer politicamente do PDS. "O bom filho à casa torna."
Ciro tem três intentos ao migrar de volta ao lar: disputar a Presidência da República para, caso ganhe, governar à direita, tirar, se não eleito, votos de Lula em 2026 (já que ainda há quem acredite ser ele, Ciro, de esquerda) e aí se vingaria de o PT não tê-lo apoiado em 2018 contra Bolsonaro. Ciro é parte de um conluio das elites para garantir a vitória da direita em 2026, seja através do próprio triunfo ou eleição de Tarcísio de Freitas, já que irá subtrair votos do atual presidente.
Precisamos ficar atentos, porque os ataques do político cearense a Lula serão muito contundentes, e temos de começar a neutralizá-los desde já.
Digo tudo isso sem ser, por incrível que pareça, lulista ou petista, pois na verdade minha simpatia é pelo PSOL; porém acontece que Lula é o único candidato da vertente popular com chances no ano que vem -- e todos sabemos muito bem o que é um governo de direita, como Temer, que se repetiria em Ciro, ou de extrema-direita, como Bolsonaro, que se reproduziria em Tarcísio.
As elites sempre conspiram e, por razões muito óbvias, têm muita facilidade em conseguir adesões.
quarta-feira, 11 de junho de 2025
E AGORA? QUEM VAI TANGER O GADO?
Bolsonaro não criou o bolsonarismo, que é apenas uma expressão do fascismo absolutamente igual às outras, como o nazismo, o franquismo, o integralismo e outros movimentos do mesmo gênero, não se excluindo desse rol de extremismos de direita o regime de Maduro, na Venezuela, Ortega, na Nicarágua, Orbán, na Hungria, Trump, nos Estados Unidos, e outros tiranos pelo mundo afora. Vai dizer que Ortega e Maduro são de esquerda? É mesmo? Se não atendessem aos interesses dos ricos, esses caras estariam há muito tempo alijados do poder e até presos. Não nos esqueçamos de que os regimes fascistas têm o papel primordial de preservar as desigualdades e manter incólumes e sempre crescentes os privilégios e regalias das classes privilegiadas.
Voltando à questão de Bolsonaro, haverá por parte de seus adoradores decepção com a conduta deste no interrogatório no STF, em que brincou com Alexandre de Moraes ao perguntar se o ministro aceitaria ser seu vice, e irão abandoná-lo, vendo-o como um impostor, e cairão nos braços do Tarcísio de Freitas, enxergando nele o verdadeiro Bolsonaro? Ou renegarão o governador, achando-o herdeiro e xerocópia do líder que tanto os terá decepcionado? Ou limitar-se-ão a perdoá-lo e justificá-lo de algum modo, numa atitude maternal, coisa assim de mãe leonina e extremosa?
Não sei responder, a única certeza que tenho é que essa gente precisa de um líder totalitário para tangê-la, porque o totalitarismo, com sua misoginia, homofobia, racismo, conservadorismo sócio-econômico e de costumes, seu perfil opressor e sua crueldade e masmorras de tortura, é a sua (dessa gente) grande paixão. São esses sectários fascinados por sofrimento, morte e sangue, tanto que o que os moveu a apoiar Bolsonaro foi, antes de qualquer coisa, o desejo de ver esquerdistas presos, torturados e mortos, como se fossem as esquerdas culpadas de suas frustrações e insucessos, não o sistema de desigualdades e o funil de oportunidades que grassa num Brasil do qual os ricos se apropriaram e fazem o que bem querem. Esse é o cenário: o país é propriedade privada das classes privilegiadas, que a cada dia mais privilegiadas se tornam, em detrimento das camadas não-ungidas, dentre as quais estão as raias bolsonaristas à margem da abastança. Os burgueses e os agentes que vivem de protegê-los não são gado, mas beneficiários diretos do autoritarismo. Atendo-me novamente ao gado, esse precisa ser tangido, e a Globo e toda a grande mídia, além do Congresso com as bancadas da bala, da Bíblia e do agro, encarregaram-se de esmigalhar politicamente Lula, o PT e todas as forças progressistas. Assim, não faltará direitista autoritário para tocar essa boiada: além de Tarcísio, há o Caiado, Ciro Nogueira, a Michele, quem sabe o Eduardo, Flávio ou até Carlos Bolsonaro. A busca dessas pessoas por um milei, trump, orbán jamais será frustrada, e o fruto disso será o agravamento do infortúnio, dos percalços e do martírio de todos os grupos não-inseridos nos pontos mais altos da pirâmide social.
sexta-feira, 9 de maio de 2025
A FADA DA FAVELA
Lembro qual fora agora:
luz amarela e fraca,
a deusa aberta em flor,
a rosa ardendo em chama
Num gueto do Brasil.
Seus olhos suplicantes,
tão cheios de pecado,
sussurros de luxúria,
as juras mais bonitas
na casa desbotada.
Ainda na memória
eu tenho os estampidos,
um samba mal cantado,
a nossa noite bela
e o medo após o amor.
Sumiu no mundo a linda,
a fada da favela.
Que coisas hoje vive?
Suplico que inda viva.
Meu verso ela calou.
sábado, 3 de maio de 2025
DIREITA, UNIDA, JAMAIS SERÁ VENCIDA
A notícia veio da "Revista Forum". Temer ( o "cardeal da política" cujo nome a Daniela Lima, da "Globo News", insistiu em omitir), segundo o jornalista que noticiou em primeira mão, "saiu de lá das catacumbas" e procurou os senhores feudais da Faria Lima, donos de grandes empresas de mídia, militares, Alexandre de Moraes e alguns parlamentares de direita, e fechou um acordo: "deixar a Justiça cuidar de Bolsonaro" e concentrar todas as energias na eleição de Tarcísio de Freitas; daí o "Estadão" dizer que o inelegível atrapalha o Brasil e ter surgido o projeto que substitui o PL da absurda anistia clamada pelo Bozo -- projeto que prevê redução de pena para os que depredaram os prédios dos Três Poderes. O STF e Xandão acolheram a ideia com gosto, o Congresso lambuzou-se de prazer, e o Governo não tem força política pra discordar. Tudo certo: Bolsonaro e alguns líderes do 8 de janeiro serão presos, os vândalos terroristas terão penas reduzidas, e Tarcifascista de Freitas se torna presidente e implementa a desastrosa e crudelíssima política sócio-econômica de Milei. Tá pronto o acordão, e foi difícil os jornalistas da "GNews" conterem os orgasmos múltiplos em confirmar a informação da "Forum".
Pessoal, já se sabe o final do seriado; não há mais motivo para perder tempo a acompanhá-lo.
A meu ver, entretanto, esse "final feliz" será ainda mais jubiloso do que se imagina. Para entender é só lembrar que Collor foi agraciado por Paulo Gonet e Alexandre de Moraes com uma prisão domiciliar em sua cobertura de 600 m2, em frente à praia e numa área nobre de Maceió. Se Collor, 33 anos depois de expulso da Presidência da República, recebeu esse tratamento, imagine Bolsonaro, que ainda tem um prestígio incalculável e mais de 58 milhões de zumbis seguidores. Os líderes ficarão "reclusos" dentro da extensão de suas cidades ou estados? O Jair ficará privado de sair de dentro das quatro linhas do plano e quadrado planeta Terra? Coitado...!
Nada como ter dinheiro num país que é fascista desde o dia em que os lusitanos puseram os pés cá nesta terra onde, "se plantando, tudo dá".
segunda-feira, 28 de abril de 2025
O MUNDO VAI ACABAR? A CULPA É DO LULA!
O agro exporta a maior parte do que produz, e o preço dos alimentos encarece demais; a culpa é do Lula! Vota no Tarcísio! A comida tá cara; a culpa é do Lula! Vota no Tarcísio! A previsão é de pouca chuva neste ano, e a luz vai subir; a culpa é do Lula! Vota no Tarcísio! Em São Paulo, chuva demais; a culpa é do Lula! Vota no Tarcísio! A tua mulher te corneou? A culpa é do Lula! Vota no Tarcísio! O marido espancou a mulher; a culpa é do Lula! Vota no Tarcísio! Jesus foi crucificado; culpa do Lula: vota nonTarcísio! O Trump taxa importados; a culpa é do Lula! Vota no Tarcísio! O crime organizado cresce a cada dia; a culpa é do Lula! Vota no Tarcísio! Teu marido brochou na noite passada? A culpa é do Lula! Vota no Tarcísio! A programação da Netflix tá uma bosta? Culpa do Lula: vota no Tarcísio! O caboclo não baixou no centro de macumba? Culpa do Lula: vota no Tarcísio! O milagre do pastor é fajuto? Culpa do Lula! Vota no Tarcísio!
Vota no Tarcísio, imbecil de carteirinha, reacionário sem embasamento político, anticomunista que nem sabe o que é comunismo, estúpido inato de pai e mãe! Vota no Tarcísio e verá que SUS, saúde pública, democracia e democracia vai tudo pro espaço! Vota no Tarcísio e vê uma nova reforma da previdência fazer todo mundo trabalhar até morrer, os salários serem esmigalhados e os eventuais protestos, reprimidos com muita porrada! Vota no Tarcísio e, dependendo da tua idade, nunca mais verá a democracia de volta, antidemocrata sem noção da importância da democracia, verme idiota que, se vivesse um bilhão de anos, jamais aprenderia o que é Estado Democrático de Direito e liberdade, sobretudo porque um paralítico intelectual da tua espécie não merece nada diverso do que tudo que o Tarcísio vai te trazer e a nós, progressistas democratas, por meio da mais absoluta injustiça autoritária.
sábado, 12 de abril de 2025
BOLSONARO VAI AO PAI-DE-SANTO
É claro que isto é uma história de humor (ou ao menos tentativa de humor) absolutamente imaginária, sem nenhuma relação com fatos reais, mas, como imaginar não paga imposto, não vi por que não criá-la.
Apertam a camapainha do terreiro do Pai Bodão das Incruza, e esse manda um cambono atender, e logo adentra o Bolsonaro.
--Ê-ê! Hm-hm! Ê-ê! Hm-hm! Que carga pesada é essa, Meu Pai?! Valei-me, Meu Pai Eterno! -- ficou a estrebuchar longamente o pai-de-santo. Quando recuperou-se, voltou-se ao ex-presidente:
--Zifio tá muito zipesado, lotado de coisa ruim no costado! Um montão de espírito mau vindo lá do fundo dos pior inferno, tudo garrado em sucê...
--È tudo troço ruim mandado por esses comunistas que me odeiam, não é?
--Não, zifio! Tá tudo querendo aprender maldade com sucê. Perto de sucê, eles é tudo seminarista...Ê-ê! Pai Bodão chega a tá tonto. Ezequias! -- grita para o cambono -- Traz um escudo de aço pra eu poder zifalar com esse zifio!
Ezequias traz o escudo, Pai Bodão manda o político falar pelo celular.
--Me disculpe, mas sucê é carga negativa pura. O escudo pode zitrapaiá nós de se ouvir: então pelo celular dá pra conversar bem.
Bolsonaro acomodou-se na cadeira e se lamentou:
--Tô sofrendo pra caralho. O senhor não imagina...
--Mas Malafaia não fez milagre pra sucê? Ele não tem procuração de Deus, não é representante de Deus aqui na Terra? Não conseguiu fazer mandinga boa pra melhorar zifio? E rabo-de-saia de zifio, que também é macumbeira crente e recebe até o Espírito Santo? Zifio, responde pra mim: ela tava fingindo ou é doida? Que porra de zilíngua é aquela que ela falou quando achou que recebeu Deus, no dia que André Mendonça virou home de capa?
O ex-presidente voltou a queixar-se:
--Aqueles malditos lá do STF tão querendo me julgar. Dá pra fazer uma macumba pra matar nove deles? Dá pra fazer uma macumba pra matar todos aqueles que não gostam de mim?
--Zifio tá falando de de mais de sessenta milhão de pessoa? -- E seguiu o pai-de-santo:--Disculpa, fio, mas tô vendo aqui que a alma de fio vai ter de receber uns pedaço de alma sobressalentes...
--Mas por quê, pai?
--Pru que ela já tá toda manchada de preto e as mancha tá sobrando: não tem mais espaço na alma pra tanta mancha.
--O senhor acha que as coisas podem melhorar pra mim?
--Zifio falou tanto em morrer, mas acho que zifio num vai morrer nunca. Num sei como vai ser.
--Mas por que isso?
--Pro Céu zifio num vai. No Inferno o tinhoso num quer sucê pra ficar infernizando a vida dele.
--Mas Pai Bodão -- atalhou o ex-presidente -- eu queria que o senhor fosse mais objetivo e dissesse se pode me ajudar.
--Pai Bodão pode, zifio, mas antes quero voltar a falar da alma de sucê.
--O quê?
--Zifio já pensou em jogar cal no corpo todo?
Bolsonaro arregala os olhos:
--Cal???? Mas cal ia queimar meu corpo e me matar...
--Mas quem sabe a brancura da cal passa pra alma, e São Pedro se engana, e fio acaba entrando no Céu?
--Esquece a alma, pai -- o político começa a ficar impaciente -- e diz o que o senhor pode fazer pra eu não ser preso e voltar a ficar elegível.
--Zifio tem muito pecado. Mais de trezentos mil morto a mais pela peste pruque sucê demorou a vacinar e num queria vacinar de jeito nium. Zifio tem pecado demais, fez muita coisa que deixa até o capeta de boca aberta, mas pai vai ajudar zifio. Lembra quando sucê disse chegou à Presidença por uma cagada?
--Lembro, claro.
--Pois é: fio então vai tomar chá de solta-bosta por sete dias dias pra vê se dá outra cagada de sorte. Depois zifio vai lavar bem zibunda e virar zibunda pra Lua, pra ver se tem ainda mais sorte.
--Vou conseguir não ser preso?
--Aí pra reforçar cê toma sete chá de asa de mosquito por sete dias porque asa é liberdade e vai fazer efeito em sucê.
Bolsonaro anuiu com a cabeça, o pai-de-santo seguiu:
--Pai Bodão ia também receitar um chá de pena de asa de anjo pra fio ficar um pouco bãozinho, mas num ia diantar, porque é mais fácil um gambá latir do que zifio ser um pouquinho bão. E, por favor, vai embora logo, zifio, antes que essas praga que zifio tem no costado comam Pai Bodão vivo.
sábado, 29 de março de 2025
A TRISTEZA E A ALEGRIA
A tristeza é prisão, é calabouço, é clausura, é escuridão no estreito túnel, é como amarras, é lassidão.
A alegria é claridade, é liberdade, é voar, braços abertos para o mundo, e o regalo de sentir no rosto e peito a brisa fresca, colorida e musical.
UNICIDADE COM A NATUREZA
Amo a Natureza e com ela me sinto uno como se nas plantas tocasse as pontas dos dedos e nas plantas sentisse os elementos corporais que tenho em mim, assim como se apalpasse a mim mesmo. Amo os animais como se fora deles uma simples extensão. Eu, animais, vegetais, um corpo único, uma só alma numa harmonia e comunhão absoluta.
Não sou, porém, uno com os homens que destroem, que incendeiam e que matam plantas, bichos, porque esses satanases abomináveis se comprazem de um modo incompreensível em matar, queimar e destruir. Sou feito da mesma matéria daqueles que respeitam a vida. Dos bestiais destruidores me recuso teimosamente a ser irmão.
LAMBARI, UMA TELA DE CINEMA
Se um dia eu voltar a Lambari, sentirei fundamente a ausência daqueles que em minha juventude comigo para lá viajavam do Rio de Janeiro e, como alguns que ali moravam, já não vivem mais. Sua lembrança irá me ferir sob a forma de tristeza e nostalgia, e essa tristeza será como um fantasma ubíquo a me surgir nos cantos todos do solar e nos umbrais que irei atravessar. A casa aos meus olhos será lúgubre e sombria, com a umidade, o mofo e o escuro das masmorras e dos casarões abandonados.
Encontrarei toda a cidade transfigurada totalmente, sem a poesia que outrora me acolhia, e, entre as pessoas, não haverá ninguém que eu haja conhecido. Perceberei, então, que os laços que me uniram à cidade se terão evaporado como o éter a se desintegrar no ar. Porque não será a Lambari que conheci e que tinha alguma inocência e um charmoso romantismo.
Contemplarei as ruas sem encontrar entre nós nenhuma identidade, e caminharei a esmo não como estando por ali, mas qual alguém que anda a olhar uma tela de cinema, sem no cenário poder entrar jamais
quinta-feira, 27 de março de 2025
A CIDADE
Vou-me embora pr'um lugar belo e distante
Que me inspire redondilhas, madrigais,
Onde as matas, veneradas como deusas,
Sejam templos majestosos, divinais.
Vou-me embora pr'um lugar onde os bichinhos,
Muito amados como os anjos que bem são,
Não vagueiem pelas ruas e sarjetas,
Vivam qual num merecido paraíso.
Vou-me embora pr'um lugar sem mendicância,
Onde a fome nem sequer tente chegar;
Onde amantes sejam livres das ganâncias
E não queiram mais que afeto e que se dar.
Onde brinquem, felizes as crianças,
Onde, soltos, me cantem rouxinóis;
De onde fique tão longínqua a hipocrisia,
Que não saiba lá chegar de modo algum.
Se o lugar não existir aqui na terra,
Vou a Marte ou Vênus para achá-lo.
Se, inda assim, não encontrar essa cidade,
Vou erguê-la em minha mente pra morar.
sábado, 22 de março de 2025
NUNCA MAIS
Você se lembra de quando nos entrelaçávamos as mãos, em cujas palmas ficávamos a sentir pulsar os nossos corações? Tem a lembrança de que olhávamos a rua da janela e o mundo parecia constantemente dançar, numa festa contagiante e interminável?
Tem na memória nossas salivas em nossas bocas, em nossos corpos já misturadas, e os nossos líquidos, nossos odores e nossos fluxos amalgamados, sem que sequer conta nos déssemos de quais os cheiros e quais os fluidos eram os seus ou eram meus? Você notava que na verdade éramos um, dois seres unos com um só gosto, único aroma, uma só alma até talvez?
Hoje de você mais nada sei. Teria à rudeza dos dias se entregado e se tornado bruta, cinzenta e incolor como o íntimo da maioria dos humanos? Terá se dado inteiramente às ganâncias e mesquinhezes de um mundo cru, atroz e pérfido, onde as emoções e a poesia não têm vez nem cabimento de modo algum? Ou viverá um outro amor assim como aquele todo feito de ternura, ardores, lira e de entrega de nós dois?
O que é de você nada mais sei e, pressuponho, não irei saber jamais. A certeza que tenho é somente a ríspida certeza do nunca mais.